Boémia (estilo de vida)

Boémia (português europeu) ou boêmia, boemia (português brasileiro)[a] é um movimento social e cultural que tem, em sua essência, um modo de vida distante das normas e expectativas convencionais da sociedade. O termo tem origem no francês bohème e se espalhou para o mundo lusófono. Era usado para descrever estilos de vida não tradicionais em meados do século XIX, especialmente de artistas, escritores, jornalistas, músicos e atores nas principais cidades europeias.
A boemia é um tópos literário e histórico do século XIX que situa o meio de jovens artistas e intelectuais metropolitanos — particularmente os do Quartier Latin, em Paris — em um contexto de pobreza, fome, valorização da amizade, idealização da arte e desprezo pelo dinheiro. Com base nesse tópos, as mais diversas subculturas do mundo real são frequentemente chamadas de "boêmias" em sentido figurado, especialmente (mas não exclusivamente) se apresentarem traços de um precariado.
Os boêmios eram associados a pontos de vista políticos ou sociais pouco ortodoxos ou antissistema, expressos por meio do amor livre, da frugalidade e, em alguns casos, da vida simples, da moradia em vans ou da pobreza voluntária. Um círculo boêmio economicamente mais privilegiado, rico ou mesmo aristocrático é às vezes chamado de haute bohème[1] (literalmente "Alta Boemia").[2]
O termo boêmio surgiu na França no início do século XIX devido às semelhanças percebidas entre os boêmios urbanos e o povo cigano; La bohème era um termo comum para o povo cigano da França, que se acreditava ter chegado à França no século XV via Boêmia (a parte ocidental da moderna Chéquia).[3] O boêmio neste contexto específico não estão conectados aos habitantes nativos da região histórica da Boêmia (os checos).[4]
Evolução do termo
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A palavra deriva do francês bohème, que, originalmente, designa o habitante da Boêmia e do topônimo latino medieval Bohemus (do latim clássico Boihaemum, significando país dos Boii, um povo celta da Europa central).
No século XV, bohème tornou-se um termo comum para os ciganos da França, que, erroneamente, pensava-se terem chegado à França no século XV a partir da Boêmia, naquele tempo uma região protoprotestante e herética. Já no século XVII, com Gédéon Tallemant des Réaux, bohème passa a designar, também, o indivíduo "que leva uma vida desregrada", num estilo de vida caracterizado pela despreocupação com relação a bens materiais, a grandes projetos, às normas. Trata-se de uma referência ao fato de que muitos artistas e criadores começaram a concentrar-se em regiões de classe baixa e aluguel barato, frequentemente bairros ciganos, bem como à influência dessas regiões no estilo de vida desses artistas, que passam a viver à margem da sociedade, a exibir um comportamento fortemente liberal e polêmico, e a mostrar uma preocupação em usar roupas excêntricas.[4]
O termo passa, por empréstimo, do francês ao português, na acepção do século XVII: "vagabundo, indivíduo de vida desregrada" ou não convencional, eventualmente ligado às artes ou à literatura, ou mero aventureiro que vive de forma despreocupada.[5]
Mais tarde, no século XIX, surge um movimento artístico e literário constituído à margem do movimento romântico, mais "aristocrático" e fora do uso original do termo. Será Balzac que, em 1844, ao escrever Um Príncipe da Boémia, faz rasgados elogios a tal juvenil comportamento:
A palavra Boémia diz tudo. Ela não tem nada e vive de tudo. A esperança é a sua religião, a fé em si mesma é o código, a caridade o seu orçamento. Todos esses jovens são maiores do que o seu infortúnio, abaixo da sorte, mas acima do destino.
Segundo Jerrold Seigel, trata-se de um fenômeno social e literário que teve lugar em diversos pontos do planeta e em diferentes épocas. O autor considera a boêmia como uma manifestação de jovens burgueses[6] que, no século XIX e sobretudo nas décadas de 1830 e 1840 na França, buscavam um estilo de vida especial e que se tornou popular principalmente a partir dos escritos de Henri Murger,[7] autor de Scènes de la vie de bohème ("Cenas da vida de boemia"). O romance foi escrito a partir das experiências de Mürger como um escritor pobre vivendo na Paris de meados do século XIX. A obra inspirou a famosa ópera La Bohème ("A boêmia"), de Puccini. No sentido dado ao termo por Seigel, portanto, os termos boémia e dândi se aproximam. O movimento boêmio se iniciou em Paris no final do século XVII e alcançou seu auge no início do século XX. Se irradiando a partir do Bairro Latino (mais especificamente, das mansardas da rua de Canettes), ele notabilizou lugares da cidade como Montmartre, o Moulin Rouge, o café d'Harcourt, a rua de Tour d'Auvergne, a rua dos Mártires e o cais das Flores, bem como artistas como Arthur Rimbaud, Paul Verlaine e Amedeo Modigliani.
No Rio de Janeiro do século XIX, a experiência boêmia carioca vinculava-se imediatamente à experiência da boêmia de Paris, surgida no contexto das revoluções de 1848. "Boêmia" se torna sinônimo da vida que levavam os jovens intelectuais e artistas sem fortuna, num momento histórico que, também nos trópicos, é marcado por grandes transformações sociais, políticas e estéticas.[8]
Localidades boêmias
[editar | editar código]Ao longo da história, várias localidades adquiriram uma reputação boêmia, por oferecerem imóveis com aluguel barato, reunirem pessoas com um estilo de vida alternativo e terem agitada vida noturna:
Europa
[editar | editar código]- Malá Strana e Žižkov, em Praga[carece de fontes]
- Montmartre e Montparnasse, em Paris[carece de fontes]
- Chelsea, Fitzrovia e Soho, em Londres[carece de fontes]
- Dublin e Drogheda, na Irlanda[carece de fontes]
- Exarcheia, em Atenas[carece de fontes]
- Beyoğlu (Pera), Beşiktaş e Bakırköy na porção europeia e Kadıköy na porção asiática de Istambul[carece de fontes]
- Mitte, em Berlim[carece de fontes]
- Schwabing, em Munique[carece de fontes]
- Skadarlija, em Belgrado[carece de fontes]
- Tabán, em Budapeste[carece de fontes]
- Metelkova mesto, em Ljubljana[carece de fontes]
- Cais do Sodré, Bairro Alto, Mouraria e Alfama, em Lisboa[carece de fontes]
- Užupis, em Vilnius[carece de fontes]
- Bradford, na Inglaterra[carece de fontes]
- Cardiff, no País de Gales[carece de fontes]
- Amsterdam, nos Países Baixos[carece de fontes]
- Södermalm, em Estocolmo[carece de fontes]
- Söderort, na Suécia[carece de fontes]
- La Barceloneta, Gràcia e El Raval, em Barcelona[9]
- Chueca, Malasaña e rua de Huertas, em Madri[10]
- El Carmen e Russafa, em Valência[11][12]
- Dubrovnik, Split e Pula, na Croácia[9]
Américas
[editar | editar código]- Estados Unidos
- Greenwich Village, em Nova Iorque[13]
- North Beach e Mission,[14] em São Francisco
- Venice e Eagle Rock, em Los Angeles[15][16]
- Topanga Canyon[17]
- Carmel-by-the-Sea[18]
- Provincetown, Massachusetts[carece de fontes]
- Boulder (Colorado)[carece de fontes]
- Tiburon (Califórnia)[19]
- Towertown, em Chicago.[20]
- Key West (Flórida)[carece de fontes]
- Coconut Grove (Flórida)[carece de fontes]
- Las Vegas[9]
- Canadá
- Lapa, Saúde, Botafogo, Vila Isabel e Méier no Rio de Janeiro[21]
- Recife Antigo, no Recife
- Vila Madalena, Rua Augusta, Bixiga e Vila Olímpia, em São Paulo[22][9]
- Santa Tereza, em Belo Horizonte[23]
- Benfica, Praia de Iracema e Varjota, em Fortaleza[carece de fontes]
- São Francisco, em Curitiba[24]
- Cidade Baixa, em Porto Alegre[25]
- Jurerê, em Florianópolis[9]
- Cambuí, em Campinas[26]
- Rio Vermelho, em Salvador[27]
- Roma e Condesa, na Cidade do México[31]
Oceania
[editar | editar código]- Fremantle, na Austrália Ocidental[32]
- Newtown, em Sydney[33]
- Potts Point, em Sydney[34]
- Fitzroy, em Melbourne[carece de fontes]
- St Kilda, em Melbourne[carece de fontes]
- Montsalvat, em Melbourne[carece de fontes]
- Nimbin, em New South Wales[carece de fontes]
- Kuranda, em Queensland[carece de fontes]
- Takaka, em Tasman[carece de fontes]
- Newtown, em Wellington[carece de fontes]
- Titirangi, em Auckland[carece de fontes]
- Kingsland, em Auckland[carece de fontes]
- Grey Lynn, em Auckland[carece de fontes]
- T5, em Taranaki[carece de fontes]
- Mount Eden, em Auckland[carece de fontes]
- Smash Palace e Orpington Garden, em Christchurch[carece de fontes]
- Tower District, em Fresno[carece de fontes]
Ásia
[editar | editar código]África
[editar | editar código]Notas e referências
Notas
- ↑ O Dicionário Houaiss registra a forma 'boemia' como "menos correta e mais usada que boêmia" (no Brasil). Da mesma forma, no Dicionário Aurélio (1ª edição), a forma 'boemia' é citada como sendo muito comum no Brasil, embora não oficial. Atualmente, as duas formas, 'boêmia' e 'boemia' estão incluídas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL.
Referências
- ↑ «SeaDict Online Dictionary». Consultado em 16 de novembro de 2013. Arquivado do original em 6 de abril de 2015
- ↑ Turque, Bill (17 de fevereiro de 2013). «Montgomery County looks to get hip». Washington Post. Consultado em 16 de novembro de 2013
- ↑ Berman, Andrew (16 de abril de 2013). «How Bohemians Got Their Name - Village Preservation». www.villagepreservation.org
- ↑ a b Harper, Douglas (novembro de 2001). «Bohemian etymology». Online Etymology Dictionary. Consultado em 27 de dezembro de 2008
- ↑ Luiz Antonio Sacconi, Mini-Dicionário Sacconi, p.108
- ↑ SEIGEL, Jerrold. Paris boémia: cultura, política e os limites da vida burguesa. 1830-1930. Porto Alegre: L&PM, 1992, p. 19-20
- ↑ NUNES, Elton; MENDES, Leonardo, p. 2.
- ↑ NUNES, Elton; MENDES, Leonardo. O Rio de Janeiro no Fim do Século XIX: Modernidade, Boêmia e o Imaginário Republicano no Romance de Coelho Neto, p.1
- ↑ a b c d e f g Viagem. Disponível em http://viajeaqui.abril.com.br/materias/tinder-da-vida-real-veja-destinos-perfeitos-para-paquerar-pelo-mundo#6. Acesso em 12 de dezembro de 2016.
- ↑ O Globo. Disponível em http://oglobo.globo.com/boa-viagem/um-roteiro-noturno-pela-movida-boemia-de-madri-do-mercado-san-miguel-calle-de-las-huertas-2837865. Acesso em 10 de dezembro de 2016.
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- ↑ Chave Mestra. Disponível em http://www.chavemestra.com.br/single-post/2016/07/04/A-Chave-Mestra-participou-do-evento-Portas-Abertas-do-Bairro-bo%C3%AAmio-de-Ruzafa-em-Val%C3%AAncia-o-RUSSAFART. Acesso em 12 de dezembro de 2016.
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- ↑ Airbnb. Disponível em https://www.airbnb.com.br/locations/los-angeles/eagle-rock. Acesso em 12 de dezembro de 2016.
- ↑ Gair, Christopher. "The American Counterculture". Edinburgh University Press, 2007, p.30
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Bibliografia
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- Levin, Joanna (2010). Bohemia in America, 1858–1920. [S.l.]: Stanford University Press. ISBN 978-0-8047-6083-6
- Richardson, Joanna (1969). The Bohemians: La Vie de Boheme in Paris 1830–1914. London: Macmillan
- Siegel, Jerrold (1999). Bohemian Paris: Culture, Politics, and the Boundaries of Bourgeois Life, 1830–1930. [S.l.]: The Johns Hopkins University Press. ISBN 978-0-8018-6063-8
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- Tarnoff, Benjamin (2014) The Bohemians: Mark Twain and the San Francisco Writers Who Reinvented American Literature. Penguin Books. ISBN 978-1594204739.
Referências
Ligações externas
[editar | editar código]- «Les "Bobos", critique d'un faux concept». . Crítica do livro Les Bobos - Les bourgeois bohèmes, de David BROOKS, 2000 por Anne Clerval. (em francês).
- «L'orgie bohème» (em francês). , por Anthony Glinoer .
- «Construction d'enquête et définition des groupes sociaux. Réflexions à partir de Bohemian Paris, de Jerrold Seigel» (em francês). , por Cyprien Tasset .