Paula Rego

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Paula Rego
Nascimento Maria Paula Figueiroa Rego
26 de janeiro de 1935
Lisboa
Cidadania Portugal, Reino Unido
Cônjuge Victor Willing (1928-1988)
Alma mater
Ocupação pintor, artista visual, gravador, artista gráfico
Prêmios
  • Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada
  • Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada
  • Dama Comandante da Ordem do Império Britânico
Movimento estético modernismo, arte contemporânea

Maria Paula Figueiroa Rego GCSEOBE (Lisboa, 26 de janeiro de 1935), conhecida como Paula Rego, é uma pintora portuguesa, condecorada pelo Governo Português e pela Rainha Isabel II.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Paula Rego nasceu em Lisboa a 26 de janeiro de 1935, no seio de uma família da alta burguesia, de tradição liberal e republicana, com ligações à cultura inglesa e francesa. Filha de José Fernandes Figueiroa Rego (1907-1966), engenheiro eletrotécnico, e de Maria de São José Avanti Quaresma de Paiva Figueiroa Rego (1909-2001), Durante os seus primeiros três anos de vida viveu com os seus avós paternos José Figueiroa Rego (1885 - ?) e Gertrudes Fernandes (1890 - 1943) na quinta que a família possuía na Ericeira, devido aos seus pais terem partido para Inglaterra a fim de terminarem os seus estudos, criando aí as suas primeiras memórias de vida e umas das principais fontes de inspiração para as suas obras artísticas. Mais tarde, já com os seus pais de volta a Portugal, foi diagnosticada com tuberculose, passando a residir, por recomendação médica, junto ao mar no Estoril e a passar os fins de semana na casa dos avós na Ericeira.[1]

Recuperada, iniciou os seus estudos no Colégio Integrado Monte Maior, em Loures, ingressando posteriormente, em 1945, na St. Julian's School, em Carcavelos, sendo o seu talento para a pintura reconhecido bastante cedo pelos seus professores. Após concluir o ensino secundário, incentivada pelo pai a prosseguir o seu desenvolvimento artístico fora do país e longe do regime salazarista, em 1952 partiu para Londres, onde estudou na Slade School of Fine Art, até 1956, e conheceu o pintor inglês, nascido no Egipto e então estudante, Victor Willing (1928-1988), com quem passou a viver e se casou em 1959.

Let me read this text that explains the meaning of this, obra de Paula Rego exposta na Casa das Histórias, Cascais, Portugal

Regressada a Portugal em 1957, passou a residir na Ericeira com a sua família, continuando durante esse período a criar efusivamente novas obras e a participar ocasionalmente em exposições colectivas em Inglaterra, recebendo ainda em sua casa vários amigos e artistas como Michael Andrews e Peter Frederick Snow ou visitando a praia de Mil Regos diariamente com os seus três filhos Nick Willing, Caroline Willing e Victoria Willing.[2] Ainda no mesma época, a pintora tornou-se bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian e expôs colectivamente perante o público lisboeta em 1961, na II Exposição da Gulbenkian.[3] Somente cinco anos depois, Paula Rego expôs individualmente pela primeira vez, na Galeria de Arte Moderna da Escola de Belas-Artes de Lisboa, em 1966, onde apresentou vários trabalhos relacionados com acontecimentos chocantes da vida política ibérica, como Cães de Barcelona, Gorgon, Retrato de Grimau ou Manifesto (por uma causa perdida), entusiasmando a crítica portuguesa.

Em princípios da década de 1970, com dificuldades financeiras, geradas pela falência da empresa familiar e a falta de remuneração pelo seu trabalho como artista, para além da progressão do débil estado de saúde de Victor Willing, a pintora viu-se obrigada a vender a Quinta Figueiroa Rego, algo que a marcou profundamente, radicando-se em Londres com o seu marido e filhos.

Em 1975, inspirada pelo universo literário dos contos populares portugueses, Paula Rego recebeu uma nova bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, começando a desenvolver uma intensa pesquisa, da qual criou a série de guaches Contos Populares Portugueses. Três anos depois, prosseguindo com os seus estudos sobre contos de fadas em várias bibliotecas de Londres e Paris, criou onze obras para a exposição Arte Portuguesa desde 1910, dominada pelas colagens.[4]

Retrato oficial de Jorge Sampaio enquanto Presidente da República Portuguesa, da autoria de Paula Rego, e patente na Galeria de Retratos Oficiais no Museu da Presidência.

Durante a década de 80, começou a leccionar como professora convidada na Slade School of Fine Art. Regressando à pintura, mais livre e mais directa, retratou o mundo intimista e infantil, inspirado em dados reais ou imaginários, com narrativas zoomórficas pertencentes a um teatro de crianças de Victor Willing, através das figuras de um macaco, um leão e um urso, assim como inspirou-se na obra literária de George Orwell, "1984", criando o painel Muro dos Proles, com mais de seis metros de comprimento, onde estabeleceu um paralelismo com as figuras de Hieronymus Bosch. Pouco depois, deu uma viragem radical na sua obra com a série da menina e do cão, onde a figura feminina assumia claramente a liderança na acção, enquanto o cão era subjugado e acarinhado. A menina faz de mãe, de amiga, de enfermeira e de amante, num jogo de sedução e de dominação que continua em obras posteriores. Tecnicamente as figuras ganham volume, o espaço ganha solidez e autonomia, a perspectiva cenográfica está montada. Ainda na mesma década, em 1987, Paula Rego assinou com a Galeria Marlborough Fine Art, ganhando divulgação internacional e dando entrada com obras da sua autoria nas colecções do Tate Museum e da Saatchi Collection. Um ano depois, com a morte do seu marido por esclerose múltipla, criou as obras O Cadete e a Irmã, A Partida, A Família e A Dança, expondo-as posteriormente na Gulbenkian e pela primeira vez na Galeria Serpentine em Londres e no Museu de Serralves do Porto, e a colecção de gravuras em aguatinta Nursery Rhymes, sendo exposta em Lisboa pela Galeria 111 e posteriormente adquirida pelo Victoria and Albert Museum.[5]

Durante a última década do século XX, a convite da primeira edição do programa Associate Artist Scheme da National Gallery, a pintora ocupou um atelier no museu, destacando-se desse período a obra Tempo – Passado e Presente (1990-1991) e a série de pinturas a pastel intitulada Mulher Cão (1994), que marcou o início de um novo ciclo de representações de mulheres simbólicas.

Apesar de viver no estrangeiro, a pintora que continuava atenta à situação política e social de Portugal, demonstrou o seu desagrado com o resultado do primeiro referendo ao aborto, realizado no país em 1997, com a obra Aborto (1997-1999), gerando o choque e abrindo novamente a discussão do tema na imprensa portuguesa.[6] Anos mais tarde, na sequência do Ciclo da Vida da Virgem Maria que Paula Rego pintou para a Capela de Nossa Senhora de Belém, no Palácio Nacional de Belém, a convite do Presidente da República Jorge Sampaio, foi pedido à artista que realizasse o retrato oficial do presidente, rompendo com os cânones tradicionais do retrato presidencial, tal como já havia sido feito pelo seu predecessor Mário Soares ao ser retratado por Júlio Pomar. O Retrato oficial do Presidente Jorge Sampaio realizado em 2005, mas só revelado ao público em 2006, introduziu pela primeira vez uma mulher na galeria de pintores oficiais da Presidência da República.[7]

Em 2006 foi convidada pelo Presidente da Câmara Municipal de Cascais, António Capucho, a expor em permanência a sua obra no concelho onde viveu grande parte da infância. Aceitando a proposta, Paula Rego indicou o nome de Eduardo Souto Moura para desenvolver o projecto e escolheu um dos terrenos que lhe foi apresentado, ao lado do Museu do Mar, como lugar do futuro museu, nascendo assim a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, a 18 de Setembro de 2009, com o intuito de acolher e promover a divulgação e estudo da sua obra.[8]

Estúdio de Paula Rego (2007)

A 7 Julho de 2012, apresentou uma série de pinturas inéditas, numa exposição em parceria com a artista portuguesa Adriana Molder, inspirada na narrativa histórica de Alexandre Herculano, intitulada “A Dama Pé-de-Cabra”, na Casa das Histórias em Cascais.[9]

Lançado em 2017, Nick Willing, filho de Paula Rego, realizou o documentário "Paula Rego, Histórias e Segredos" ("Paula Rego, Secrets & Stories"), produzido pela Kismet Films para a BBC, com imagens de arquivo familiar e pessoal nunca antes mostradas ao grande público, revelando também o lado mais intimo da vida e obra da pintora portuguesa, que sem restrições aborda directamente temas como a sua luta contra o Estado Novo e a misoginia no mundo das artes assim como a sua batalha contra a depressão.[10]

Em 2019, durante o ano de comemoração dos 30 anos de existência da Fundação de Serralves, uma nova exposição foi organizada no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, intitulada "O Grito da Imaginação", compreendendo a produção artística de Paula Rego entre 1975 e 2004, com um total de 36 obras.[11]

Usufruindo do seu sucesso artístico desde os anos 90, a pintora portuguesa recebeu o título de Mestre honoris causa em Arte pela Winchester School of Art em Hampshire (1992), Doutora honoris causa em Letras pela Universidade de St. Andrews, na Escócia (1999), Doutora honoris causa em Letras pela Universidade de East Anglia em Norwich (1999), Doutora honoris causa em Letras pela Rhode Island School of Design nos Estados Unidos da América (2000), Doutora honoris causa em Letras pelo The London Institute (2002), Doutora honoris causa em Letras pela Universidade de Oxford (2005), Doutora honoris causa em Letras pela Universidade de Roehampton em Londres (2005), Doutora honoris causa pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa (2011) e Doutora honoris causa em Letras pela Universidade de Cambridge (2015), para além de ter sido condecorada como Grande-Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada (1995), pelo Presidente da República Mário Soares, e com a Grã-Cruz da Ordem de Sant'Iago da Espada (2004), concedida pelo Presidente da República Jorge Sampaio, nomeada Dame Commander of the Order of the British Empire pela sua contribuição para as Artes (2010), pela Rainha Isabel II do Reino Unido, recebido a Medalha de Honra da cidade de Lisboa (2016) e a Medalha de Mérito Cultural do Governo Português (2019).

A par de Maria Helena Vieira da Silva, Paula Rego é a pintora portuguesa mais aclamada a nível internacional, estando colocada entre os quatro maiores pintores vivos em Inglaterra.

Em 2020, uma exposição reúne 115 obras da pintora ao lado de telas de Josefa de Óbidos em uma mostra intitulada "Paula Rego/Josefa de Óbidos: Arte Religiosa no Feminino" na Casa das Histórias, em Caiscais.[12][13]

Leilões[editar | editar código-fonte]

  • O quadro The Lesson foi vendido em leilão, arrematado por 596 881 euros em Londres, no dia 7 de Julho de 2007 na leiloeira Christie's. Baying (em português "Uivando"), uma tela pintada a pastel datada de 1994, foi vendido por 740 599 euros (558 800 libras) no dia 27 de fevereiro de 2008 pela leiloeira Sotheby's em Londres.[14]
  • A pintura The egyptian cats, ("Gatos egípcios", em tradução livre), um acrílico sobre papel colado em tela de 1982, foi arrematada na leiloeira Sala Branca, em Lisboa, por 280 mil euros, valor recorde nacional em leilões de obras da autora, em fevereiro de 2008. "Madrasta", foi vendido em 2007 em Portugal por 220 mil euros.
  • O quadro Vivian Girls with Scorpions foi em 16 de outubro de 2009 arrematado num leilão na Sotheby's em Londres por 238 mil euros.[15]
  • O quadro Looking Back ("Olhando para trás", em português), pintado em 1987 por Paula Rego foi arrematado por 769 250 libras (861 960 euros) em junho de 2011, batendo um novo recorde mundial para a artista.
  • The Cadet and his Sister [O cadete e a irmã], um acrílico sobre papel em tela, de 1988, foi arrematado por 1 614 795 euros, um novo recorde da artista, em junho de 2015, num leilão da Sotheby's, um novo record.[16]

Prémios e Distinções[editar | editar código-fonte]

Das distinções salientam-se:

Foi galardoada com vários prémios:

  • 1954 - Prémio de Verão da UCL Slade School of Fine Art [22]
  • 1971 - Grande Prémio Soquil
  • 1984 - TWSA Touring Exhibition, Newlyn Arts Centre [23]
  • 1987 - Prémio Benetton/Amadeo de Souza-Cardoso [24]
  • 1989 - Prémio Turner 89
  • 1998 - Prémio Bordalo [25]
  • 1998 - Prémio AICA'97
  • 2013 - Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso [26]
  • 2001 - Prémio Consagração Celpa / Vieira da Silva Artes [27]
  • 2019 - Prémio Carreira atribuído pela revista Harper's Bazaar [28]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. «Nick Willing: "A Ericeira é a memória mais forte que Paula Rego retém da sua vida"». Azul-Ericeira Mag | O melhor da Ericeira. 22 de abril de 2017 
  2. «Cronologia | Paula Rego». Casa das Histórias - Museu Paula Rego 
  3. «Paula Rego». Diário de Notícias. 3 de dezembro de 2008 
  4. «Paula Rego: Contos tradicionais e contos de fadas». Museu Calouste Gulbenkian. 18 de junho de 2018 
  5. «Paula Rego 1990». Alexandre Pomar 
  6. Horta, Bruno. «Depressão, aborto e fantasmas: já podemos ver as Histórias e os Segredos de Paula Rego». Observador 
  7. «Retrato Oficial do Presidente Jorge Sampaio». Museu da Presidência da República 
  8. «Casa das Histórias - Paula Rego». Casa das Historias - Museu Paula Rego 
  9. «A Dama Pé de Cabra - Paula Rego e Adriana Molder». Câmara Municipal de Cascais 
  10. «Crítica de cinema: Paula Rego, Histórias & Segredos». Revista Sábado 
  11. «"O Grito da Imaginação" de Paula Rego volta a ecoar em Serralves». JPN - JornalismoPortoNet. 25 de outubro de 2019 
  12. «Casa das Histórias. Paula Rego vai entrar em diálogo com Josefa d´Óbidos». www.msn.com. Consultado em 21 de dezembro de 2020 
  13. Renascença (19 de dezembro de 2020). «A arte religiosa no feminino nos olhares de Paula Rego e Josefa d'Óbidos - Renascença». Rádio Renascença. Consultado em 21 de dezembro de 2020 
  14. «Quadro de Paula Rego leiloado pela Christie's». Expresso. 9 de Junho de 2010 
  15. «Quadro de Paula Rego arrematado em leilão por 238 mil euros». Rádio e Televisão de Portugal 
  16. «Quadro de Paula Rego bate recorde em Londres». Jornal de Notícias. 2009 
  17. a b «Cidadãos Nacionais Agraciados com Ordens Portuguesas». Presidência da República Portuguesa 
  18. Paula Rego passa a ser Dama do Império Britânico, 13 de junho de 2010, Jornal de Notícias
  19. Agência Lusa (11 de fevereiro de 2011). «Paula Rego tem primeiro "honoris causa" em Portugal». Diário de Notícias. Cópia arquivada em 9 de junho de 2014 
  20. «Governo entregou a Paula Rego em Londres a condecoração que ″faltava″ - DN». Diário de Notícias 
  21. «Paula Rego vai ser distinguida com a Medalha de Mérito Cultural». Jornal Expresso 
  22. «Paula Rego lança Prémio para estudantes de Belas-Artes de Lisboa». Diário de Notícias 
  23. «Paula Rego». Online24 
  24. «Eduardo Batarda distinguido com Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso 2019». Público 
  25. «Prémios Bordalo • Sindicato dos Jornalistas». Sindicato dos Jornalistas. 22 de janeiro de 2002 
  26. «Eduardo Batarda distinguido com Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso 2019». Público 
  27. Oliveira, Luísa Soares de. «Prémio de Consagração Celpa / Vieira da Silva Artes para Paula Rego». Público 
  28. «Aos 84 anos, Paula Rego é distinguida com o Prémio Carreira pela "Harper's Bazaar"». Público 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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