Dialetos do grego antigo

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Distribuição dos dialetos gregos no período clássico.[1]
Grupo ocidental: Grupo central: Grupo oriental:
  ático
  aqueu

Durante a Antiguidade Clássica o grego antigo dividia-se em diversos dialetos, antes do advento do koiné como lingua franca da civilização helenística. Da mesma maneira, o grego moderno divide-se em diversos dialetos, a maioria dos quais é descendente direta deste koiné.

Origem e cronologia[editar | editar código-fonte]

  • O dialeto mais antigo conhecido do grego é o micênico, que foi reconstruído a partir das tabuletas escritas em Linear B, feitas pela Civilização Micênica, que habitou a Grécia na Idade do Bronze Tardia, durante o fim do segundo milênio a.C.. A distribuição clássica dos dialetos originou-se das migrações ocorridas no início da Idade do Ferro - também conhecida como Idade Grega das Trevas, porque a escrita desapareceu até a adaptação do alfabeto fenício, alguns séculos mais tarde - após o colapso da Civilização Micênica. Alguns falantes do micênico foram deslocados para Chipre, enquanto outros permaneceram no interior, na Arcádia, dando origem ao dialeto arcado-cipriota. Este é o único dialeto com um precedente conhecido à Idade do Bronze; os outros dialetos seguramente tiveram formas anteriores às conhecidas, porém a sua relação com o micênico ainda está por ser estabelecida.
História da
língua grega

(ver também: alfabeto grego)
P46.jpg

Proto-grego
Micênico (c. 1600–1000 a.C.)
Grego antigo (c. 1000–330 a.C.)
Dialetos:
eólico, arcado-cipriota, ático-jônico,
dórico, lócrio, panfílio;
grego homérico.
possivelmente macedônio.

Koiné (c. 330 a.C.–330 d.C.)*
Grego medieval (330–1453)
Grego moderno (a partir de 1453)
Dialetos:
capadócio, cretense, cipriota,
dimotikí, griko, katharévussa,
ievânico, pôntico, tsacônio


*Datas (começando com o grego antigo) de Wallace, D. B.. Greek Grammar Beyond the Basics: An Exegetical Syntax of the New Testament. Grand Rapids: Zondervan, 1996. p. 12. ISBN 0310218950

  • O eólico dividia-se em três subdialetos: um, lésbio, falado na ilha de Lesbos e na costa ocidental da Ásia Menor, ao norte de Esmirna, enquanto os outros dois, o beócio e o tessálio, eram falados no nordeste da Grécia continental (na Beócia e na Tessália, respectivamente).
  • A invasão dórica espalhou o grego dórico de um local hipotético no noroeste da Grécia até a costa do Peloponeso, e o implementou em locais tão diversos quanto Esparta, Creta e o extremo sul da costa ocidental da Ásia Menor. O dórico tornou-se o padrão para a poesia lírica grega, de autores como Píndaro. Já o grego do noroeste, por vezes classificado como um dialeto independente, costuma ser visto como tendo relações estreitas com o dórico.
  • O macedônico antigo é tido por alguns estudiosos e autores como mais um dialeto grego, possivelmente relacionado ao dórico ou ao grego do noroeste; ainda existem questionamentos, no entanto, se o macedônio era um idioma separado, porém aparentado ao grego, ou até mesmo uma língua indo-europeia que deve suas possíveis semelhanças com o grego à posição geográfica da Macedônia.
  • O jônico era falado especialmente na costa oeste da Ásia Menor, inclusive em Esmirna e na área ao sul da cidade. A Ilíada e a Odisseia de Homero foram escritas no grego homérico (também conhecido como 'grego épico'), uma versão primitiva do grego oriental. Já o grego ático, um subdialeto (ou um dialeto-irmão) do jônico, foi por diversos séculos a língua de Atenas, no qual foram escritas sa grandes obras da filosofia e da dramaturgia que ajudaram a tornar célebre esta cidade. Devido a esta influência, o ático foi adotado na Macedônia pouco antes das conquistas de Alexandre, o Grande; com a difusão do Helenismo, o ático tornou-se o dialeto padrão, que acabou por evoluir e tornar-se o koiné.

Autores[editar | editar código-fonte]

Entre alguns dos autores mais significativos de cada um dos dialetos estão Tucídides, para o ático, Heródoto e Arquíloco de Paros para o jônico, Álcman e Ibico de Régio para o dórico, Safo e Alceu para o eólico (lésbio), Corina de Tânagra para o beócio. O tessálico e o arcado-cipriota nunca se tornaram dialetos literários, e só são conhecidos através de inscrições e, até certo ponto, pelas paródias cômicas de Aristófanes. O grego épico é uma mistura de eólico, dórico e ático-jônico, de acordo com Díon Crisóstomo; no entanto, os elementos supostamenter "dóricos" não são mais tidos atualmente como tal, e sim como arcaísmos dentro do próprio eólico.

Grupos[editar | editar código-fonte]

Os dialetos do grego falados na Antiguidade Clássica são agrupados de maneira um pouco diferente pelas diversas autoridades no assunto. O panfílio é um dialeto marginal falado na Ásia Menor e costuma ser deixado fora das categorias. O micênico foi decifrado apenas em 1952 e, portanto, não consta dos esquemas anteriores a esta data.

Noroeste, sudeste Ernst Risch, Museum Helveticum (1955): Alfred Heubeck:
Ocidental,
Central,
Oriental
A. Thumb, E. Kieckers,
Handbuch der griechischen Dialekte (1932):
W. Porzig, Die Gliederung des indogermanischen Sprachgebiets (1954):
Grego oriental
Grego ocidental
C.D. Buck, The Greek Dialects (1955):[2]
  • Grego oriental
  • Grego ocidental
    • Grupo do grego do noroeste
      • Fócio (incluindo o délfico)
      • Lócrio
      • Eleata
      • Koiné do noroeste grego
    • Grupo dórico
      • Lacônio e heracleense
      • Messênio
      • Megário
      • Coríntio
      • Argólida
      • Rodiense
      • Coano
      • Terano e cirenaico
      • Cretense
      • Dórico siciliano

Problemas dos agrupamentos[editar | editar código-fonte]

Os dialetos do grego são definidos como reuniões distintivas de características linguísticas; estas características, individualmente, são raramente dintintivas, mas são compartilhadas por outros dialetos diferentes. A seleção dos grupos é, portanto, até certo ponto arbitrária; os linguistas a definir o grupo, no entanto, costumam iniciar as classificações a partir de uma localidade geográfica com um centro preciso, como a Ática e Atenas.

Os próprios gregos antigos reconheciam uma distinção entre o dório e o ateniense, e até certo ponto cada cidade principal tinha uma maneira característica e identificável de falar.

A existência dos dialetos gregos não pode ser explicada nem somente pela 'Teoria dos Nódulos', nem somente pela 'Teoria das Ondas'. Um dos proponentes da primeira, Leonard Bloomfield, escreveu:[3]

"Por vezes, para se ter certeza, a história nos mostra uma fragmentação repentina …. Uma destas fragmentações ocorre quando parte duma comunidade emigra."

Na Teoria dos Nódulos, presume-se que a população original, ou 'nódulo', que fala um idioma ancestral de todos os dialetos subsequentes, tenha existido, ou que sua existência tenha sido provada. O nódulo para os dialetos gregos seria o proto-grego, porém ele pode apenas ser reconstruído. Os candidatos mais fortes para a Teoria do Nódulo seriam o grego ocidental e o oriental, que eram reconhecidos em tempos antigos como diferenças geográficas significantes.

Já na Teoria das Ondas, definida por Johannes Schmidt em 1872,[4]

"Diferentes mudanças linguísticas podem se espalhar como ondas sobre a área de uma maneira de falar…."

A maior parte das características individuais são isoglossas, isto é, um mapa que mostre apenas uma característica abrange mais do que o campo de um nódulo. Os linguistas, portanto, sentiram-se com liberdade para definir o grupo de isoglossas que lhes parecia mais apropriado para agrupar os antigos grupos de falantes, de acordo com seus próprios documentos e crenças.

Mudanças sonoras que levaram à dialetalização[editar | editar código-fonte]

Os dialetos gregos antigos eram primordialmente fonêmicos e vocálicos, isto é, eram reconhecidos principalmente pelas suas diferenças no que dizia respeito às vogais. Estas diferenças ocorriam como resultado da perda do s intervocálico, e do i e do w consonantal do proto-grego; esta perda provocou a justaposição de dois fonemas vocálicos, uma circunstância conhecida como "colisão de vogais".[5] Por motivos desconhecidos, os falantes do grego viam duas vogais juntas como algo inapropriado, e com o tempo alteraram sua pronúncia para evitá-lo; a maneira com a qual fizeram isto determinou o seu dialeto.

Por exemplo, a palavra para designar o deus do mar, independente da cultura e lugar de onde ele teria vindo, vinha de uma forma pré-histórica Poseidāwōn, genitivo Poseidāwonos, dativo Poseidāwoni, e assim por diante. A perda do w intervocálico deixou Poseidāōn, que é encontrado tanto no grego micênico quanto no épico. O jônico muda o a para e: Poseideōn, enquanto o ático o contrai para Poseidōn. Entre as dialetalizações adicionais estão o coríntio Potedāwoni, e posteriormente Potedāni e Potedān; o beócio Poteidāoni; e o cretense, ródio e délfio Poteidān; lésbio Poseidān; arcádio Posoidānos; lacônio Pohoidān. A partir dos dialetos, pode-se perceber facilmente que estas isoglossas não seguem qualquer tipo de estrutura nodular.

O objetivo inconsciente destas mudanças parece ter sido principalmente a criação de um fonema a partir de dois, um processo chamado de contração se um terceiro fonema for criado, ou hiférese ("subtração") se um fonema cair e os outros forem mantidos. Por vezes os dois fonemas são mantidos, ou são mantidos e modificados, como no Poseideōn jônico.

Outro princípio da dialetalização vocálica segue a série do ablaut indo-europeu, ou graduação vocálica. O proto-indo-europeu podia tanto alternar o e (grau e) com o o (grau o), ou não usar nenhum (grau zero); da mesma maneira, o grego herdou a série (por exemplo) ei, oi, i, que são, respectivamente, o grau e, o e zero do ditongo. Podiam aparecer em diferentes formas verbais: leipo "[eu] parto", leloipa "[eu] partira", elipon "[eu] parti", ou serem usados como base da dialetalização: no ático deiknumi "[eu] aponto", é diknumi no cretense.

Pós-Helenismo[editar | editar código-fonte]

Os dialetos do grego antigo eram resultados de isolação e deficiências na comunicação entre as diferentes comunidades que viviam no terreno irregular e acidentado da Grécia; nenhum historiador grego pode deixar de indicar esta influência do relevo no desenvolvimento das cidades-Estado gregas. Frequentemente, no desenvolvimento de um idioma, a dialetalização resulta na sua eventual separação em diversas línguas-filhas; esta fase não ocorreu no grego, e os dialetos foram substituídos pelo grego padrão. O aumento da população e da comunicação colocou os falantes de diversas regiões em contato mais próximo, e uniu-os sob as mesmas autoridades; o grego ático tornou-se o idioma literário em toda a região:

"… muito tempo depois que o ático já se tornara a norma da prosa literária, cada Estado empregava seu próprio dialeto, em monumentos privados e públicos, tanto em assuntos de interesse interno ou naqueles de um caráter mais … interestadual, tais como … tratados…."[6]

Nos primeiros séculos antes da Era Cristã os dialetos regionais, como o koiné do noroeste da Grécia, o koiné dórico e, é claro, o koiné ático, vieram substituir os mais locais. O último acabou por tomar o lugar dos outros na fala popular já nos primeiros séculos depois de Cristo. Após a divisão do Império Romano e o surgimento do Império Romano do Oriente, a forma mais antiga do grego moderno já tinha forma. A distribuição dialetal então era a seguinte:

De acordo com alguns estudiosos, o tsacônio seria o único dialeto grego moderno que descenderia do dórico, em vez do koiné; outros acreditam que seria um descendente do lacônio local, uma variante do koiné influenciada pelo dórico.[carece de fontes?]

Referências

  1. Roger D. Woodard (2008), "Greek dialects", em: The Ancient Languages of Europe, ed. R. D. Woodard, Cambridge: Cambridge University Press, p. 51.
  2. Publicado pela primeira vez em 1928, foi revisado e expandido por Buck e republicado em 1955, no ano de sua morte. Buck disse, a respeito da nova edição (no prefácio): "…este é virtualmente um novo livro." Houve novas impressões, porém nenhuma nova alteração ao texto, e a edição de 1955 permanece o texto padrão sobre o assunto nos Estados Unidos. Parte desta tabela é baseada na Introdução desta edição, e um exemplo de uma utilização atual desta classificação pode ser encontrada na página da Universidade de Columbia, no artigo The Major Greek Dialects, de Richard C. Carrier.
  3. Bloomfield, Leonard. Language, diversas edições e impressões desde 1933.
  4. Bloomfield, op. cit.
  5. Isto não deve ser confundido com um ditongo, que é um fonema mais complexo grafado com duas letras.
  6. Buck, Greek Dialects

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Inscrições[editar | editar código-fonte]