Fortaleza de São Miguel de Luanda

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Aspecto Aéreo da Fortaleza de S. Miguel.

A Fortaleza de São Miguel de Luanda com ordem militar localiza-se no antigo monte de São Paulo, actualmente denominado de Morro da Fortaleza, nas proximidades da ponte da Ilha de Luanda, em Angola. Foi a primeira fortificação a ser erguida em Luanda, no século XVI, durante o governo de Paulo Dias de Novais, primeiramente construída em taipa e adobe, substutuídos em 1638 por barro, taipa e adobes. Nessa época apresentava a forma de uma estrela com quatro pontas, com o sistema abaluartado, segundo os métodos italianos mais atualizados da época, sobretudo os do mestre Benedetto da Ravenna. Depois de oito anos de ocupação holandesa, começou a ser construída em alvenaria em 1669, fazendo parte das obras obrigatórias dos sucessivos governadores. Finalmente, no governo de D. Francisco de Sousa Coutinho (1764-1772), as obras terminam, com a construção de uma bateria do cavaleiro, armazéns à prova de bomba e uma cisterna que ficou conhecida como Cova da Onça, seguindo o estilo barroco militar, na base da ambiguidade, pluralidade e descentramento. Os muros foram-se consolidando em pedra e cal em diferentes épocas, concluindo-se já no século XX. Ficava assim engenharia militar de Angola. Do ponto de vista urbano, a fortaleza foi sempre um marco ordenador do espaço da cidade. Nos primeiros tempos, foi o limete do aglomerado que se desenvolvia para sudoeste, em direção à Praia do Bispo. Mais tarde, cerca de 1648, quando a Barra da Corimba ficou assoreada, a cidade passou a desenvolver-se para o lado norte, do outro lado do morro, mantendo desta forma o seu papel ordenador. Actualmente, é Museu das Forças Armadas.[1]

História[editar | editar código-fonte]

Erguida por determinação do primeiro Governador, Paulo Dias de Novais, em 1575, é a primeira estrutura defensiva construída em Luanda (e em Angola).

No contexto da Dinastia Filipina, a cidade de São Paulo de Luanda foi alçada à categoria de capital administrativa da região de Angola em 1627. Para a sua defesa, foi erguida uma nova fortificação, concluída em 1634.

O forte e a cidade caíram em mãos da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais no período de 24 de Agosto de 1641 a 15 de Agosto de 1648, quando foram recuperadas para a Coroa Portuguesa por uma expedição armada na Capitania do Rio de Janeiro, no Brasil, por Salvador Correia de Sá e Benevides. Durante o período de ocupação Neerlandesa foi denominado como Fort Aardenburgh. Em 1650 o governador Salvador Correia de Sá e Benevides apresentou ao Conselho Ultramarino os novos planos de fortificação de Luanda, a cargo do engenheiro francês Pedro Pelique, que trouxera do Rio de Janeiro (SANTOS, 1967:22). O forte, que até à invasão holandesa se chamara de São Paulo, teve o seu nome trocado para São Miguel, santo da particular devoção de Salvador Correia de Sá.[2]

Sob o governo de Francisco de Távora (1669-1676), o forte foi reconstruído em alvenaria, ficando concluídos um baluarte e duas cortinas. Sob o governo de César Meneses (1697-1701) foi erguida, no interior da fortificação, a Casa da Pólvora (op. cit., p. 27).

A Portaria de 15 de Setembro de 1876 estabeleceu o Depósito de Degredados de Angola, nas dependências da fortaleza. Entretanto, a instituição só começou a funcionar em 1881, sendo realizadas algumas obras de adaptação para esse fim, como a construção de um edifício de dois pavimentos.

No século XX, com a extinção do Depósito de Degredados, por Portaria de 8 de Setembro de 1938, do então ministro das Colónias Francisco José Vieira Machado, a fortaleza foi classificada como Monumento Nacional por Decreto Provincial de 2 de Dezembro do mesmo ano. Nela veio a instalar-se, no ano seguinte, o Museu de Angola, criado pela portaria n.º 6, tendo sido feitas as necessárias obras de adaptação, como a colocação de painéis de azulejos numa casamata com cenas da história de Angola e de exemplares da fauna e flora nativos.

Em 1961 o acervo do museu foi retirado por completo e a fortaleza voltou a assumir funções militares, nela tendo ficado sediado o Comando das Forças Militares Portuguesas.

Após a Independência, em 1978 as dependências da fortaleza passara a albergar o Museu das Forças Armadas.

Considerada como um dos principais patrimónios edificados da capital e do país, em 1995 sofreu intervenções de conservação no exterior do edifício, encontrando-se bem conservada. De propriedade do Estado, está afectada ao Ministério da Defesa e ao Ministério da Cultura.

Características[editar | editar código-fonte]

A fortaleza de S. Miguel tem uma forma muito irregular;... O poligono da fortificação de S. Miguel, pode considerar-se inscripto em uma curva fechada oblonga, cujo diametro maior é de 340 pés e o menor de 47. O seu perimetro está dividido em 17 frentes de desigual grandesa, formando angulos salientes e reintrantes, para que as partes mais expostas aos ataques sejão defendidas por aquellas que o estão menos, e só uma abaluartada, segundo o primeiro sisthema de Vauban, ou quatro traçado francez, com revelim na frente, cercada de estrada coberta e explanada. As mais frentes não tem fosso, para as aproximar, quanto possível, a encosta do monte.

As obras exteriores são o revelim que cobre a porta principal e uma bataria(obra de fortificação com peças assestadas,que podem atirar a barbete ou em canhoneiras. Fileira de peças de artilharia) inferior do lado que olha o N.E.. Esta bataria, tendo servido de fundição de artilharia - em tempo do Capitão General Sousa Coutinho, não está hoje frotificada convenientemente pois que para se construirem os telheiros e forno de reverbero, que ainda existe em bom estado, foi preciso tapar algumas canhoneiras, e alterar as muralhas de revestimento do S.O. e N.O.;...

A porta, que dá entrada á fortalesa, fica no meio da cortina que prende os dois baluartes, e é aberta na massa do seu reparo, ao lado da qual está o corpo da guarda, que serve de prisão aos galés. Não tem ponte, mas communica com fosso, por meio de uma rampa de alvenaria, que partindo do ressalto que impede, que a porta seja immediatamente forçada pelo inimigo, e cuja altura é de 56 polegadas; vai terminar um pouco alem do meio do fosso. Esta rampa, podia ser substituida por uma de madeira, descançada sobre cavalletes, pela vantagem de se poder destruir, ou retirar, com facilidade.

A largura do fosso defronte das faces, é menor que o dobro da altura da muralha, que reveste o recinto;... Defronte dos salientes, a largura do fosso é menor, afim de diminuir a frente das contrabaterias do sitiante - contra os flancos.

A fortalesa, gosa da vantagem de ter arvores plantadas no terrapleno do reparo, e na explanada, sendo para admirar que não as haja, no terrapleno da estrada coberta. As arvores plantadas em taes lugares, consolidão melhor as terras; tornão dificil a construção de aproxes; fornecem durante o sítio, madeiras e ramagens para blindagens, revestimentos, plataformas, e outras obras próprias á defensa.

S. Miguel, tem 82 canhoneiras, nas 16 frentes, não abaluartadas; 3 em cada face da frente abaluartada, 2 em cada flanco, e 7 na cortina, ou 23 na totalidade da dita frente, 16 no cavalleiro; 4 no revelim e 6 na bateria inferior, ou 131 por todas.

Tem a fortalesa, casa para residencia do Governador, que tem patente de Capitão; uma capella de invocação de S. Miguel, diversos armasens e o paiol construido na massa de reparo do lado do N.O., ao qual se desce por uma escada de tijolo, toda arruinada, até ao patamal em que está o guardafogo tem 18 pilares de alvenaria, fica ao abrigo dos tiros inimigos; distante do fogo, e preservado da humidade; porem parece não ter servido, se não de deposito de lenha, principal causa da ruina da escada; tem a fortalesa cosinha, e duas letrinas que estão muito arruinadas... [3]

As principais partes ou designações Fortaleza de S.Miguel, conforma o esquema, são as seguintes: [4]

1.Saída da estrada coberta

2.Contra-escarpa do fosso do revelim

3.Revelim

4.Baluarte (Obra de fortificação constituindo um saliente numa linha fortificada de que faz parte: Compõe-se de duas faces a dois planos)

5.Cavaleiro (Construção acasamatada em lugar eminente ou com comandamento)

6.Guarita ou vedeta

7.Estada de circunvalação

8.Porta falsa

9.Canhoneiras (Abertura nas muralhas para assestar os canhões)

10.Guarita ou vedeta

11.Casa da Pólvora

12.Caminho de ronda

13.Casamata central

14.Cisterna (Edifício abobadado à prova de bombas)

15.Túnel

16.Merlão (Porção de espaldão compreendida entre canhoneira a canhoneira)[5]

17.Bateria do cavalheiro

18.Bateria da cortina

Defeitos nas fortificações de S. Miguel[editar | editar código-fonte]

Os defeitos que se notarão nas fortificações de S. Miguel, não se podem attribuir - se não ao terem sido feitos em differentes ephocas, e reparados e augmentados depois, ao gosto, ou capricho dos Governadores, ou directores das obras.

Os baluartes, são pouco espaçosos, e as tropas não podem, nelles, manobrar com facilidade, ficando expostos aos projecteis, que o inimigo pode lançar em seus terraplenos.

As faces, pela sua posição mais avançada para a campanha; achão-se muito expostos a serem batidas em brecha; pois que o revelim cobre só o angulo de espalda.

Os flancos, em virtude das dimensões da frente, batem os fossos; faces, e defendem a cortina com fogos pouco eficases.

A casa do Governador, é construída entre a cortina, e o Cavalleiro; prohive a comunicação entre os dois baluartes, e a cortina; e para que desta se possa tirar a força de resistência de que é susceptivel, é necessário destruir a dita casa, em ocasião de combate. Não supomos, que fosse abuso de autoridade a construção desta casa – em tal sitio; mas sim - que tenho sido o cavaleiro construído posteriormente, não tratarão de lançar por terra este edifício, o qual devia durar – até hoje em bom estado.

O revelim, não tem reduto, e é muito pequeno para poder encerrar uma guarnição, que vigie sobre a segurança da porta, e para retardar com o seu fogo, a marcha do sitiante pelas direcções dos capitaes prolongadas dos baluartes lateraes: e fica muito pouco avançado, para impedir - que se abra brecha em todo o comprimento da face, batel-a de revez, e obrigar o inimigo a tomal-o, antes de dar o assalto. O revelim não pode ser guarnecido com a artilheria de grosso calibre, por o não consentir a largura e construção da sua escada; mas só se podem assestar alguns canhões de pequeno calibre, para varrer e estrada coberta, e a explanada.

O cavaleiro, proteje com os seus fogos - o revelim; estrada coberta, e domina toda a extenção da Cidade, que lhe fica fronteira; sendo o unico que tem as canhoneiras bem construídas; em todas as mais frequentes, a intersecção da escarpa interior do parapeito, com os dois planos verticaes conduzidos pelas extremidades da aresta interior da soleira, e que tem por objecto cobrir, quanto possivel, os artilheiros, bocas de fogo e seus reparos: não estão regulares, nem apresentão a indispensavel solidez. Os merlões, i. é., a parte do parapeito compehendida entre as directrises de duas canhoneiras contiguas, são muito pequenos, para o serviço das bocas de fogo se faça commoda, e regularmente: pois que devendo aquelle intervallo ser de 27 palmos, é apenas, de 19; roubando-se, deste modo, em todas as frentes – o espaço útil de 128 pés ou 192 palmos. [6]

Cronologia[editar | editar código-fonte]

[7]

Acontecimento Data
Provisão real galardoando quem construísse «hum castello» 12 de Abril 1574
Partida de Paulo Dias de Novais de Lisboa 23 de Out.1574
Chegada de Paulo Dias de Novais à Ilha de Luanda 11 de Fev.1575
Passagem de Paulo Dias de Novais para Morro de S. Paulo 30/Jun/1576?

25/Jan/1576(?)

15/Dez/1576(?)

Morte de Paulo Dias de Novais 09 Mai/1589(?)

Out/1588(?)

Aparecimento na Costa de Angola de 4 corsários 1599/1600
Memorial afirmado que Luanda não tem fortaleza ou fortificação 09/Jul/1616
Aparecimento de corsários holandeses,que foram batidos pelos navios portugueses 1623
Entrada do porto de Luanda de corsários holandeses Out/1624
Abandono da Ilha de Luanda pelos holandeses 07/Dez/1624
Nomeação real de uma comissão para estudo da fortificação de Luanda 22/Ago/1625
Envio para Lisboa do Relatório sobre a fortificação de Luanda 28/Dez/1626
Relatório do sindicante António Bezerra Fajardo solicitando para que no morro de Sam-Paulo se faça um forte 29/Fev/1629
Manuscrito de Fernão de Sousa (1624 a 1629) mencionando «fiz outro bo Môrro de Sam-Paulo» 1624 a 1629
Início da construção da fortaleza no morro de S. Paulo 1636 (?) ou 1638 (?)
Envio de um técnico militar para estudar a fortificação de Luanda (1639)
Aparecimento da equerda holandesa, desembarque e ocupação de Luana Agosto/1641
Desembarque de Salvador Correia de Sá 15 de Agosto de 1648
Entrada das forças portuguesas no forte de S. Paulo 24 (?) de Agosto de 1648
Entrada triunfal da imagem de S. Miguel no forte de S. Paulo que desde então se passou a designar por São Miguel 24(?) de Agosto de 1648
Início das construções de alvenaria na fortaleza de S. Miguel 1672 (?)
Conclusão, em alvenaria, de um baluarte e de duas cortinas 1675 (?)
Conclusão de um segundo baluarte, em taipa e de outras obras 1685 (?)
Construção da «Casa da Pólvora» 1700
Ofício para o Rei informando que a fortaleza estava arruinada a inútil 10 de Janeiro de 1726
Ofício para o Rei informando que as Fortalezas de Luanda já estavam reparadas 27 de Fevereiro de 1728
Construção, a cantaria de um segundo baluarte 1737
Construção de «hum lanço de cortina» e das obras exteriores» 1738 a 1748
Construção de «huma praça baixa» 1753 a 1758
Elaboração, pelo Sargento-mor Magalhães e Bragança de «um códice» com a planta de todas as fortalezas de Luanda 1755
Construção da cisterna 1766 a 1772
Construção do «Cavaleiro» 1768
Adaptação da «bataria-baixa» a fundição de canhões 1770 (?)
Primeira fundição de canhões em Luanda 1771
Transferência dos armazéns da «Casa da Pólvora» e adaptação do edifício a prisão 1760 a 1770
Envio ao Rei de uma planta da Fortaleza 25 de Novembro de 1768
Terraplanagem da esplanada 1795 (?)
Envio para Lisboa de uma planta das Fortaleza Dezembro de 1799
Motim militar em que os soldados do Regimento de Linha foram à fortaleza libertar o seu comandante 1822
Ofício para o Rei informando que a cisterna da fortaleza secara, «facto este que não há memória» 2 de Fevereiro de 1817
Rebelião do Batalhão Expedicionário aquartelado na fortaleza 1823
Entrada na fortaleza de «soldadesca desenfreada» que assassinou o respectivo comandante 30 de Agosto de 1836
Movimento constitucional da «Atochada» 1834
Queda de um raio sobre o cavalheiro, danificando a abóbada Março de 1843
Melhoramento da estrada de acesso e reparação do revelim 1861
Criação do Depósito de Degredados de Angola, Portaria de 15 de Setembro de 1876
Grandes obras de adaptação da fortaleza ao Depósito de Degredados, com destruição de muitas das seculares caractéristicas 1882
Extinção do Depósito de Degredados 8 de Setembro de 1938
Adaptação da Fortalezas ao Museu de Angola, Portaria de 8 de Setembro de 1938
Descerramento de um lápide alusiva à vista Presidencial 30 de Julho de 1939
Festas comemorativas de Restauração de Angola e descerramento de uma lápide 25 de Agosto de 1948
Surto de terrorismo em Angola 15 de Março de 1961
Ocupação da fortaleza pelo Batalhão de Páraquedistas 1961
Homenagem dos Município às Forças Armadas, com o descerramento de uma lápide 2 de Maio de 1964
Última cerimónia do arrear da Bandeira Portuguesa em Angola 10 de Novembro de 1975
Inauguração do Museu Central das Forças Armadas 31 de Julho de 1978
Incluído na Lista Indicativa a Património Mundial da UNESCO 1996
A fortaleza volta a ter uma utilização militar (parcial) sendo integrado no sistema de defesa área de pontos sensíveis da capital angolana 2001/2005 (?)
Inauguração do Museu Nacional de História Militar 4 de Abril de 2013

Referências

  1. Património de origem portuguesa no mundo, Volume II, 2010, p. 445-446
  2. O Mundo Português, Volume VIII, 1941, p. 283
  3. Trés Fortalezas de Luanda em 1846, p. 43-44
  4. A Fortaleza de S. Miguel, p. 103-104
  5. Elementos da Arte Militar, p. 57, Tomo II
  6. Trés Fortalezas de Luanda em 1846, p. 29-30
  7. A Fortaleza de S. Miguel, p. 105-107

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BOXER, C. R.. Salvador de Sá and the Struggle for Brazil and Angola, 1602-1686. (1952)
  • SANTOS, Nuno. A Fortaleza de São Miguel. Luanda: Instituto de Investigação Científica de Angola, 1967.
  • XAVIER, Francisco. Trés fortalezas de Luanda em 1846. Museu de Angola, 1954.
  • MATTOSO, José. Património de origem portuguesa no mundo, Volume II, África/Mar Vermelho/Golfo Pérsico. Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]