Governo de Pinochet

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Primeiros Anos da Junta Militar[editar | editar código-fonte]

Após derrubar o governo democrático de Allende, de esquerda, os membros da Junta de Governo começaram um processo de estabelecimento de seu sistema de governo. De acordo com o Decreto Lei Nº 1, de 11 de setembro de 1973, Augusto Pinochet assumia a presidência da Junta de Governo, em sua qualidade de comandante em chefe do ramo mais antigo das Forças Armadas. Este cargo, que originalmente seria rotativo, finalmente se tornou permanente; em 27 de junho de 1974 Pinochet assume como "Chefe Supremo da Nação", em virtude do Decreto Lei n.º 527, cargo que seria substituído pelo de Presidente da República, em 17 de dezembro de 1974, pelo Decreto Lei Nº 806. Entretanto, a Junta assume as funções constituinte e legislativa em lugar do Congresso Nacional, que foi fechado em 21 de setembro.

Diante de tal situação, militantes de grupos de esquerda começaram a sofrer a repressão exercida pelo novo governo. A maioria dos líderes do governo da Unidade Popular e outros líderes da esquerda foram presos e transferidos a centros de reclusão. Cuatro Álamos, Villa Grimaldi, o Estádio Chile e o Estádio Nacional de Santiago foram utilizados como campos de detenção e tortura, assim como a Oficina Salitrera Chacabuco, a Ilha Dawson na Patagônia, o porto de Pisagua, o Buque Escola Esmeralda e outros locais ao longo do país. 3 mil pessoas teriam sido assassinadas por membros da Direção de Inteligência Nacional (DINA) e de outros organismos das Forças Armadas, entre os que se destacam Victor Jara e José Johá. Muitas dessas pessoas permanecem como detidos desaparecidos na atualidade. Além disso, existem relatos de tortura, prisões foram realizadas e outros tiveram que se exilar em diversos países do mundo, principalmente membros de guerrilhas armadas, alguns dos quais foram mortos em atentados à bomba no exterior, como Carlos Prats e Orlando Letelier. As sistemáticas violações aos direitos humanos pela ditadura de Pinochet provocaram o repúdio de diversos estados e da Organização das Nações Unidas (ONU).

No âmbito econômico, o Regime Militar tenta uma "política de choque" para corrigir a crise em que havia sido assumida pelo governo, com inflação superior a 300%. Para tanto, solicita-se a ajuda de um grupo de jovens economistas ingressados da Universidade de Chicago, que implantam o modelo de liberalismo de Milton Friedman. Os Chicago Boys aproveitaram as ideias nascidas em El Ladrillo e, seguindo as ideias de Friedman, começaram um tratamento de choque para a economia chilena: o gasto público foi reduzido em 20%, foram demitidos 30% dos empregados públicos, o Imposto de Valor Agregado (IVA) foi aumentado e os sistemas de empréstimo e financiamento de moradia foram eliminados. Como previsto, a economia depois destas medidas despencou, algo que Friedman considerava necessário para fazê-la "ressurgir". O PGB e as exportações caíram em 12% e 40%, respectivamente, e o desemprego aumentou para 16%. Porém as medidas aplicadas durante esse período começaram a surtir efeito em 1977, quando a economia começou a se levantar e se deu início ao que foi o "Boom" ou o "Milagre Chileno". Nestes anos, finalizaram-se os trabalhos do Metrô de Santiago e começaram os da Carretera Austral. A economia do Chile é considerada a mais "livre", estável e próspera da América Latina graças ao liberalismo econômico imposto por Pinochet.

Aproveitando a conjuntura na América Latina, liderada por múltiplos governos militares, o Chile se integrou junto a outros estados na Operação Condor, um plano de inteligência destinado ao combate às guerrilhas e grupos de orientação marxista no Cone Sul, apoiado pela CIA. Um dos ideólogos deste plano foi o chefe da DINA (Diretora de Inteligência Nacional), Manuel Contreras, um dos homens com maior poder no país durante estes anos. A proximidade que tinha com líderes de outros países permitiu que, por exemplo, o Chile acertasse posições com a Bolívia, liderada pelo general Hugo Banzer. Isso permitiu a firmação do Acordo de Charaña, uma tentativa de solucionar o problema da mediterraniedade da Bolívia e em que se restabeleciam as relações diplomáticas, rompidas desde décadas atrás.

A Troca de Década[editar | editar código-fonte]

O ano de 1978 marca um dos anos mais críticos do governo de Pinochet. Os Estados Unidos, que havia apoiado no princípio ao regime torna-se um dos seus principais detratores, devido principalmente ao atentado terrorista contra Orlando Letelier, exilado em Washington. Jimmy Carter, que assume o governo do país no ano anterior, realiza uma forte campanha junto a diversos organismos internacionais exigindo maiores liberdades civis no Chile e criticam a censura contra a imprensa e a repressão à oposição. Antes disso, Pinochet convoca um plebiscito, quando ainda não existiam registros eleitorais. De acordo com os resultados publicados pelo governo, votaram 5.349.172 pessoas: 4.012.023 votos pela opção "Sim", 1.092.226 pela opção "Não" e 244.923 foram brancos ou nulos. Porém, tais cifras foram questionadas devido às diversas irregularidades do processo.

As violações aos direitos humanos continuaram apesar da pressão internacional. Enquanto Pinochet promulga o Decreto Lei Nº 2.191, que concedeu anistia a todos os que haviam cometido feitos delituosos desde a data do golpe, em qualidade de autores, cúmplices ou encobridores, a imprensa começa a revelar o destino dos primeiros detidos desaparecidos na zona de Lonquén. No entanto, a DINA é substituída pela CNI, enquanto o cardeal Raúl Silva Henriquez encara o problema e cria a Vicaria da Solidariedade.

Neste ambiente, Gustavo Leigh manifesta publicamente suas diferenças de opinião com Pinochet. Leigh, o gestor do golpe, opõe-se ao excessivo personalismo de Pinochet e ao modelo econômico imposto. Leigh também esperava apurar os prazos para o retorno da democracia e estava contra as práticas terroristas que estava exercendo o Estado. Diante das declarações do Comandante da Força Aérea ao periódico italiano Corriere della Sera e sua negativa de se retratar, Leigh é destituído pela Junta Militar e é substituído por Fernando Matthei.

Ainda que as relações diplomáticas com os países vizinhos haviam se aproximado, foram rompidas durante 1978. A proximidade da comemoração do centenário da Guerra do Pacífico produziu efervescência no Peru (com que teve problemas diplomáticos em 1974) e na Bolívia. As tentativas de outorgar uma saída ao mar a este último viram-se acabadas pelo veto do Peru ao Acordo de Charaña, veto que poderia exercer de acordo com o estabelecido no Protocolo Adicional do Tratado de Ancón, chegando o ditador do Peru, General EP Juan Velasco Alvarado a mobilizar a 18ª Divisão Blindada do Exército do Peru ao sul, próximo à fronteira do Chile; dias depois o general EP Francisco Morales Bermúdez Cerruti derrota o general Velasco, desmobiliza a 18ª Divisão Blindada, cujos tanques retornam aos seus quartéis e a normalidade volta à fronteira, mantendo o veto ao Acordo de Charaña. Diante de tal quadro Banzer rompe relações diplomáticas com o Chile.

Ao mesmo tempo surge com a Argentina o Conflito de Beagle. A Rainha Elizabeth II do Reino Unido abdica das ilhas Picton, Lexxon e Nueva ao Chile, as quais estavam em disputa com o país vizinho. Ambos países haviam se comprometido a aceitar o laudo britânico de 1967, porém Jorge Rafael Videla declara o ocorrido como "insanamente nulo" e a possibilidade de guerra com a Argentina é iminente, a que se somava a possibilidade de um "quadrilhaço" (guerra com a Argentina, Peru e Bolívia).

O Chile tenta solucionar as diferenças através de uma mediação papal com Paulo VI, mas sua morte e a de seu sucessor, João Paulo I, agravam a situação. As tropas chilenas estão recrutadas em Punta Arenas e a esquadra chilena zarpa para enfrentar a da Argentina, em 22 de dezembro de 1978. Uma tempestade nas águas da Patagônia evita o primeiro enfrentamento, enquanto João Paulo II chama através dos meios a uma mediação entre ambos países, a qual é aceita pela Argentina. O conflito seria encerrado com o "Tratado de Paz e Amizade", firmado em 29 de novembro de 1984.

Em outubro de 1978, o Conselho de Estado (um organismo assessor à Junta, presidido por Jorge Alessandri) recebeu um anteprojeto de Constituição redigido pela Comissão Ortúzar. Em 8 de junho de 1980, Alessandri entrega um dictamen e informe elaborado pelo Conselho, contendo várias correções ao anteprojeto. A fim de analisar o projeto apresentado pelo Conselho, a Junta de Governo nomeia um grupo de trabalho que praticou suas funções durante um mês, realizando diversas modificações no texto. Finalmente, em 10 de agosto Pinochet informa que a Junta aprovou a nova Constituição e que a submeterá a um plebiscito. Os registros eleitorais, no entanto, não foram abertos, motivo pelo qual várias irregularidades teriam sido cometidas. A oposição só pôde se manifestar em um ato político liderado por Eduardo Frei Montalva no teatro Caupolicán. em 11 de setembro de 1980 realizou-se o referendo que obteve um respaldo de 68,95% dos votos. Assim, a nova Constituição Política da República do Chile entrou em vigor em 11 de março de 1981.

Em 1981, os primeiros sintomas de uma nova crise econômica começam a ser sentidos no país. O Chile, graças ao Boom, havia crescido a uma média anual de 7,5% entre 1976 e 1981; porém a balança de pagamentos alcançou um déficit de 20% neste ano e os preços do cobre caíram rapidamente. Os investidores estrangeiros deixaram de investir, enquanto o governo dizia que tudo isso era parte da recessão mundial. Os investidores nacionais e as empresas chilenas haviam aproveitado durante esse períodopara pedir diversos empréstimos, com base na promessa de um câmbio fixo de um dólar a 39 pesos chilenos.

A situação não pôde se sustentar e, em junho de 1982, o peso foi desvalorizado e a política de câmbio fixo se encerrou. Diante disso, os empréstimos alcançaram taxas exorbitantes e muitos bancos e empresas quebraram. O desemprego se elevou a 25% e o governo não encontrava fórmula capaz de manejar a situação. A inflação alcançou 20% e o PIB caiu em 15%. Começaram, então, a aparecer os primeiros protestos de caráter pacífico, que foram violentamente reprimidas pelos carabineros e pelo exército. Implanta-se o estado de sítio e o momento é aproveitado por diversas organizações terroristas como a Frente Patriótica Manuel Rodriguez, que decidiu iniciar a "Operação Retorno" e começar com o fim do Regime pela via armada.

Em 27 de dezembro de 1986 comandos do Frente Patriótica Manuel Rodríguez - FPMR tentam assassinar o general Pinochet no caminho ao Cajón de Maipo. Diante do fracasso dos comandos comunistas, Pinochet ordena uma forte onda repressiva que termina com a morte de diversos frentistas (Operação Albânia. No mesmo período tornou-se público o assassinato de cinco professores comunistas que foram encontrados degolados, delito cometido por corpo de carabineiros, o que obrigou à renúncia do diretor geral César Mendoza, que foi substituído por Rodolfo Stange.

Com a renúncia de Sergio Fernández ao Ministério do Interior, Sergio Onofre Jarpa, seu sucessor, permite a aproximação à Aliança Democrática (composta por democratas cristãos e socialistas moderados). Graças à participação do Cardeal Francisco Fresno, partidários do governo e parte da oposição formularam, em agosto de 1985, um "Acordo Nacional para a Transição à Plena Democracia". Tal acordo foi recebido com ceticismo por setores da extrema esquerda e sérias discrepâncias ao interior da Junta de Governo.

No âmbito econômico, Hernán Büchi (1985-1989) conseguiu produzir um "segundo milagre" chileno (definitivo), que foi por ele idealizado, adotando uma fina calibragem entre certas medidas keynesianas adotadas anteriormente, que manteve, e a reimplantação de algumas medidas do antigo modelo neoliberal dos Chicago Boys, que custaram ao Chile uma queda 30% do seu PIB, até que Büchi encontrasse o caminho certo para o crescimento.[1] O PIB do Chile duplicou nos anos seguintes, mas a redução dos gastos sociais aumentou o abismo entre ricos e pobres, fazendo do Chile um dos países com pior desigualdade social e de renda no mundo. De 1970 a 1987 a proporção da população chilena abaixo da linha de pobreza saltou de 20 porcento para 44,4 porcento.

A política econômica é necessária para orientar corretamente o esforço da poupança e dos investimentos. A experiência nos ensinou a importância de uma adequada regulamentação das variáveis macroeconômicas, já que sem ela o mercado se desorienta e as poupanças se desperdiçam, ou fluem para o exterior, de forma que os investimentos se canalizam para operações improdutivas ou especulativas.[2]
Ministro Hernán Büchi

Por outro lado, a zona do Chile Central foi sacudida por um terremoto em 3 de março de 1985, tendo os edifícios de Santiago, Valparaíso e San Antonio sofrido graves danos nas estruturas.

Últimos Anos[editar | editar código-fonte]

O governo promulga em 1987 a Lei Orgânica Constitucional dos Partidos Políticos, que permite a criação de partidos políticos, e a Lei Orgânica Constitucional sobre sistema de inscrições eleitorais e Serviço Eleitoral, que permite abrir os registros eleitorais. Com estas disposições legais, abriria-se a brecha para cumprir o estabelecido pela Constituição de 1980. Segundo ela, devia-se convocar os cidadãos a um plebiscito onde se ratificaria um candidato proposto pelos Comandantes em Chefe das Forças Armadas e o General Diretor dos Carabineros, para ocupar o cargo de presidente da República no período seguinte de 8 anos.

No caso do resultado ser adverso, o período presidencial de Augusto Pinochet se prorrogaria por mais um ano, como as funções da Junta de Governo, devendo se convocar a eleição de Presidente e de Parlamentares.

No início de 1987, o país presenciaria a visita do Papa João Paulo II, que percorreu as cidades de Santiago, Viña del Mar, Valparaíso, Temuco, Punta Arenas, Puerto Montt e Antofagasta. O Sumo Pontífice seria testemunha presente da repressão durante alguns protestos, durante a cerimônia de beatificação de Teresa dos Andes no Parque O'Higgins (3 de abril de 1987). Durante sua visita, João Paulo II manteve uma longa reunião com Pinochet em que trataram do tema do retorno à democracia. Nesta reunião, o Pontífice haveria instigado Pinochet a fazer modificações no regime e inclusive haveria solicitado sua renúncia. No ano seguinte, convocou-se a realização do plebiscito, fixado em 5 de outubro.

Em 30 de agosto de 1988, os Comandantes em Chefe das Forças Armadas e o General Diretor dos Carabineros, de conformidade com as normas transitórias da Constituição em vigor, propuseram como seu candidato Augusto Pinochet. Os partidários do "Sim" estariam integrados por membros do governo e os partidos Renovação Nacional, a União Democrata Independente e outros partidos menores. Por outro lado, a oposição criou a Concertação de Partidos pelo "Não" que agrupava 16 organizações políticas opositoras ao regime, entre as que se destacavam a Democracia Cristã, o Partido pela Democracia e algumas fações do Partido Socialista. No entanto, o Partido Comunista ainda estava proscrito.

Em 5 de setembro deste ano foi permitida a propaganda política após 15 anos de ditadura. A propaganda seria um elemento chave para a campanha do "não", ao mostrar um futuro colorido e otimista, contraponto a campanha oficial, notoriamente deficiente de qualidade técnica e que pressagiava o retorno do governo da Unidade Popular em caso de uma derrota de Pinochet. Ainda que a campanha do "sim" conseguiu reverter os magros resultados do começo, revitalizando sua campanha, os resultados finais entregaram a vitória à oposição: o "sim" obteve 44,01% contra 55,99% do "não".

Apesar do silêncio inicial de Pinochet (o que, segundo algumas informações, aparentemente havia pensado em não reconhecer os resultados no princípio), reconhece a vitória do "não" e afirma que continuará o processo traçado pela Constituição de 1980. Assim, chamou-se eleições para a presidência e parlamento no dia 14 de dezembro de 1989. Previamente, um plebiscito realizado em 30 de julho deste ano havia aprovado uma série de reformas à Constituição, reduzindo em parte o autoritarismo que possuía a Carta Fundamental.

Patricio Aylwin, candidato da Concertação, obteve 55,17% dos votos, frente a 29,4% de Büchi e 15,43% de Francisco Javier Errázuriz, candidato independente de centro.

Transição para a Democracia[editar | editar código-fonte]

Governo de Patricio Aylwin (1990-1994)[editar | editar código-fonte]

Patricio Aylwin recebeu o mandato das mãos de Augusto Pinochet, em 11 de março de 1990 no novo Congresso Nacional do Chile, localizado na cidade de Valparaíso, dando início ao processo de transição à democracia.

No início de seu governo, Patricio Aylwin teve que trabalhar em um sistema que mantinha inacessíveis muitos vestígios do Regime Militar. Ainda que a Concertação tivesse obtido a maioria dos votos nas eleições parlamentares, devido ao sistema binomial e a existência de senadores designados, não se poderia fazer as esperadas reformas à Constituição e a administração local das comunas ainda estava nas mãos de pessoas designadas pelo governo militar, que foram substituídas nas eleições de junho de 1992.

Patricio Aylwin, Presidente do Chile após a restauração da democracia

Aywlin governou cautelosamente, cuidando das relações com o exército, onde Pinochet ainda se mantinha como Comandante em Chefe. O exército, ainda que houvesse deixado de participar do governo, seguia sendo um importante ator político e manifestou seu rechaço a certas medidas do governo concertacionista através de movimentos táticos como o "Exército em Enlace" e o "Boinazo", em 1991 e 1992, respectivamente.

Neste contexto, constituiu-se a Comissão Nacional de Verdade e Reconciliação, destinada a investigar e esclarecer as situações de violações dos direitos humanos durante os anos do Regime Militar. Dirigida por Raúl Rettig, a Comissão enfrentou o rechaço das autoridades castrenses. Apesar disso, o informe da comissão foi trazido ao conhecimento público através da televisão pelo Presidente Aylwin, em 4 de março de 1991, após nove meses de trabalho. No seu pronunciamento, Aylwin apresentou o resultado dos estudos, pediu perdão às famílias das vítimas em nome da Nação, anunciou medidas de reparação moral e material para estas e o desejo do Estado de impedir e prevenir novas violações aos direitos humanos.

Durante sua gestão, Aylwin propôs criar modificações nas normas tributárias para aumentar o gasto de imposto e melhorar a distribuição de renda, no momento em que a economia chilena seguia prosperando devido ao aumento das exportações de cobre e dos produtos agrícolas. Com tanto, a pobreza em seu mandato reduziu-se de 38,75% para 27,5%. Promulga-se a Lei Indígena, que reconhece pela primeira vez aos povos indígenas e que cria a Corporação Nacional de Desenvolvimento Indígena, organismo encarregado da promoção de políticas que fomentem o desenvolvimento integral desses povos. Igualmente, o Escritório de Planificação Nacional e Cooperação (ODEPLAN) se transforma em Ministério de Planificação e Cooperação; cria-se o Fundo de Solidariedade e Inversão Social, para fomentar as políticas sociais, e com a promulgação da Lei sobre Bases Gerais do Meio Ambiente, que buscava estruturar um marco para a ordenação ambiental, cria-se a Comissão Nacional do Meio Ambiente, para promover o desenvolvimento sustentável e coordenar as ações derivadas das políticas e estratégias ambientais do governo.

Em 1993 foram realizadas novas eleições presidenciais e renovou-se a Câmara dos Deputados e metade do Senado. Eduardo Frei Ruiz-Tagle, filho do mandatário homônimo e também democrata-cristão, obteve 58,01% dos votos, a maior votação em eleições livres da história republicana. O segundo, Arturo Alessandri Besa, candidato da União pelo Progresso (RN e UDI), obteve só 24,3% dos sufrágios.

Governo de Eduardo Frei Ruiz-Tagle (1994-2000)[editar | editar código-fonte]

Frei, que assumiu em 11 de março de 1994, reiniciou as relações do país com exterior, após certo isolamento em que esteve durante o Regime Militar. A economia se expandiu ainda mais e o crescimento médio foi de 8% ao ano durante os três primeiros anos de governo, o que permitiu o início das negociações com o Canadá, Estados Unidos e México para a integração ao Nafta e o ingresso como membro associado do Mercosul. O Chile também ingressou no Grupo do Rio e no decorrer da década conseguiu resolver os últimos litígios fronteiriços com a Argentina (Laguna del Desierto e Campos de Hielo Sur).

Ademais, iniciam-se as primeiras gestões para um tratado de livre comércio e de associação com a União Europeia e, em 1997, o Chile se converte em membro da APEC, abrindo sua economia até a costa da Ásia, principalmente Japão e China. A pobreza continuou com seu ritmo descendente e, em 1998, chegou a 21,7% da população. Várias obras públicas foram construídas ao longo do país e inicia-se o sistema de licitações que permitem a construção das primeiras rodovias de nível internacional do país.

Porém na metade de seu mandato tem início a crise asiática, que afetará grande parte da pujante economia chilena. Durante estes mesmos anos, o país enfrentou importantes crises ambientais: a alta contaminação atmosférica em Santiago de Chile|Santiago, o terremoto Blanco de 1995 que assolou o sul do Chile, as fortes secas de 1996 que impediram a geração de hidroeletrecidade e o corte do abastecimento às principais cidades, as enchentes de 1997 na zona centro-sul e o terremoto de Punitaqui no mesmo ano.

O crescimento do Chile estancou-se (o PIB diminuiu em 1%) e o desemprego começou a aumentar, superando os 12% (em 1997, mantinha-se próximo a 5%). As decisões errôneas do ministro Eduardo Aninat e do Banco Central expandiram o efeito e a recessão se estabeleceu nos últimos anos do governo de Eduardo Frei.

Concomitantemente, uma crise política inicia-se no país devido à detenção, em Londres, de Augusto Pinochet, que em 1998 havia assumido como senador vitalício após abandonar o Comando do Exército, devido a uma ordem de captura internacional emanada do juiz espanhol Baltasar Garzón pelo assassinato e tortura de cidadãos de nacionalidade espanhola durante seu governo. A detenção de Pinochet supôs uma humilhação ao Chile, visto que em seu país não havia sequer sido processado por causa alguma. A postura oficial do governo então foi que Pinochet deveria voltar ao país para ser julgado pelos tribunais nacionais e não na Espanha ou Suíça, países que solicitam sua extradição ao Reino Unido. Os partidos de direita apoiam fortemente Pinochet, realizando manifestações contra sua detenção, nas embaixadas da Espanha e do Reino Unido e ocorrem alguns embates com simpatizantes da Concertação, cujos partidos da ala progressista apóiam a reclusão de Pinochet.

As gestões dos ministros de relações exteriores José Miguel Insulza e, posteriormente, Juan Gabriel Valdés, sofrem avanços e retrocessos. A Câmara dos Lordes revoca, em novembro de 1999, uma resolução de um tribunal que aceitava a imunidade diplomática de Pinochet como senador e ex-Presidente. A ex-Primeira Ministra Margaret Thatcher visita Pinochet, que começa a sofrer graves problemas de saúde, e confessa que o Chile havia apoiado ao Reino Unido durante a Guerra das Malvinas (1992), conflito em que o Chile era neutro, o que provocou reações de protesto por parte do governo argentino. Thatcher ainda chamou Pinochet de "um amigo que ajudou a combater o comunismo". Ainda que o governo de Tony Blair quisesse que se julgasse Pinochet, os exames neurológicos verificaram a gravidade do estado de saúde de Pinochet. Para evitar que o general morresse na Grã-Bretanha, Jack Straw, ministro das Relações Exteriores de Blair, decide liberar Pinochet em 2 de março de 2000 por "razões humanitárias". Pinochet retorna a Santiago no dia 3 e se levanta de sua cadeira de rodas, levantando sua bengala de forma vitoriosa, caminhando alguns metros na pista de aterrisagem do Aeroporto, irritando os políticos que estavam contra seu traslado.

Durante estes anos, a direita aumentou seu apoio na mão de Joaquín Lavín, prefeito de Las Condes e figura relativamente nova no âmbito político, e que consegue se aproximar do eleitorado popular. Aproveitando as deficiências dos governos da Concertação no período da crise, Lavín consegue colocar em xeque o candidato oficial Ricardo Lagos, um dos principais líderes da esquerda concertacionista durante a época do plebiscito, pré-candidato presidencial nas duas oportunidades anteriores e ministro de Obras Públicas durante o governo de Frei. Diante da forte luta para ser o nominado da Concertação frente ao democrata-cristão Andrés Zaldivar, em que Lagos havia obtido mais de 71% em eleições primárias, grande parte do eleitorado de centro havia votado em Lavín temorosos da chegada de um socialista ao governo, repetindo a experiência de Salvador Allende. Da mesma forma, muitos comunistas e a esquerda extrap-arlamentar temem a vitória do candidato gremialista em primeiro turno e decidem votar por Lagos, deixando de lado a candidata Democrata-Cristã, Gladys Marín. Nas eleições de 12 de dezembro de 1999, Ricardo Lagos obtém 47,96% dos votos, apenas 30.000 a mais que Lavín. Marín obtém apenas 3,92%. O segundo turno é fixada para 16 de janeiro de 2000: o comando de Lagos é refeito e integra Soledad Alvear, ex-ministra de Justiça de Frei, como coordenadora de campanha para aproximar-se do voto de centro que havia escapado para Lavín. Finalmente, Lagos é eleito com 51,3%, contra 46,7% do candidato da UDI.

Referências

Ver também[editar | editar código-fonte]