Salvador Allende

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Salvador Allende
45º presidente do Chile Chile
Mandato 4 de Novembro de 1970
a 11 de Setembro de 1973
Antecessor(a) Eduardo Frei Montalva
Sucessor(a) Augusto Pinochet Ugarte
Presidente do Senado do Chile
Mandato 27 de dezembro de 1966
a 1969
Antecessor(a) Tomás Reyes Vicuña
Sucessor(a) Tomás Pablo Elorza
Vida
Nome completo Salvador Isabelino del Sagrado Corazón de Jesús Allende Gossens
Nascimento 26 de Junho de 1908
Valparaíso, Chile
Morte 11 de setembro de 1973 (65 anos)
Santiago do Chile
Nacionalidade chilena
Dados pessoais
Partido Partido Socialista
Profissão Médico, funcionário público
Assinatura Assinatura de Salvador Allende

Salvador Allende Gossens (Valparaíso, 26 de junho de 1908Santiago do Chile, 11 de setembro de 1973) foi um médico e político marxista chileno. Fundador do Partido Socialista, governou seu país de 1970 a 1973, quando foi deposto por um golpe de estado liderado por seu chefe das Forças Armadas, Augusto Pinochet.

Allende foi o primeiro presidente de república e o primeiro chefe de estado socialista marxista eleito democraticamente na América. Seus pilares ideológicos foram o socialismo, o marxismo e a maçonaria.[1] Allende foi um revolucionário atípico: acreditava na via eleitoral da democracia representativa, e considerava ser possível instaurar o socialismo dentro do sistema político então vigente em seu país.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Origens[editar | editar código-fonte]

Filho do advogado e notário Salvador Allende Castro e de Laura Gossens Uribe, Allende casou-se em 1940 com Hortensia Bussi Soto, com quem teve três filhas - Paz, Isabel e Beatriz.

A família de Allende era bem de vida, seu pai viajou e mudou com sua família em todo o país devido aos diferentes cargos teve que assumir na administração pública. Por esta razão, os primeiros 8 anos de idade desenvolvem em Tacna.[2]

Estátua de Salvador Allende

Início da carreira política e breve historial[editar | editar código-fonte]

Estudou medicina na Universidade do Chile. Em 1927, é eleito presidente do Centro de Alunos, onde aprofundou o seu interesse pelo marxismo. Entra para a maçonaria, seguindo uma tradição familiar.

Grande orador, em 1933 é um dos fundadores do Partido Socialista Chileno onde integra o grupo parlamentar entre 1937 e 1943. Ocupa o Ministério da Saúde de 1939 a 1942. Sai do partido em 1946.

Em 1945, foi eleito senador, cargo que exerceu durante 25 anos. Candidata-se e perde as eleições presidenciais de 1952, 1958 e 1964.

Foi presidente constitucional do Chile de outubro 1970, apoiado pela Unidade Popular - que integrava comunistas, socialistas, radicais e outras correntes populares. Em 1972 foi-lhe atribuído, pela União Soviética, o Prêmio Lênin da Paz. Em 11 de setembro de 1973, tropas lideradas pelo general Augusto Pinochet, tomaram controle de todo o país e cercaram o palácio presidencial de La Moneda. Allende fez um discurso, transmitido pelas rádios fiéis ao governo, informando que não renunciaria. Mais tarde Allende se suicida, usando o rifle AK-47 que Fidel Castro havia lhe dado de presente.

É difícil encontrar alguém com o espírito de luta, a coragem e a história de Allende. Ele foi um homem que, na verdade, teve o nome marcado na história: democraticamente a esquerda chegou ao poder, e pelas bombas foi apeada do governo.[3]
Mais importante do que encontrar equívocos nos acontecimentos que culminaram nas quedas dos governos de João Goulart, no Brasil, e de Salvador Allende, no Chile, é reconhecer que havia forças imperialistas com interesses nesses países, com democracias frágeis.[4]

Eleito presidente[editar | editar código-fonte]

Trabalhadores chilenos marcham em apoio a Salvador Allende, em 1964.

Em 1964, perdeu as eleições presidenciais para Eduardo Frei, o candidato do Partido Democrata Cristão, graças a uma maciça intervenção publicitária da CIA que apoiou Frei, provendo mais da metade das verbas de sua campanha política, e promovendo uma maciça campanha publicitária em seu favor. Na terceira semana de junho de 1964 a agência publicitária encarregada pela CIA produziu nada menos que 20 spots radiofônicos por dia em Santiago, e em 44 estações provinciais e cinco "noticiários" radiofônicos de doze minutos ao dia em três rádios de Santiago, e em 22 rádios provinciais. No final de junho de 1964 a CIA produzia 26 programas radiofônicos semanais de "comentários políticos".[5]

Nas eleições presidenciais de 1970 concorre como candidato da coalizão de esquerda Unidade Popular (UP) contra mais dois candidatos. Embora sem maioria absoluta, conquista o primeiro lugar com 36,2% dos votos, contra 34.9% de Jorge Alessandri, o candidato da direita, e 27.8% do terceiro candidato, Radomiro Tomic, do Partido Democrata Cristão.

Altos funcionários norte-americanos discutiram o desejo de impedir a posse do então recém-eleito presidente chileno, o esquerdista Salvador Allende, em 1970.[6]
Associated Press

Como a Constituição chilena previa a necessidade de "maioria dupla" (no voto popular e no Congresso), difíceis negociações foram entabuladas para a aprovação do nome de Allende no Parlamento. Após o brutal assassinato do Comandante-em-Chefe das Forças Armadas chilenas, o general constitucionalista René Schneider, perpetrado por elementos ligados à Patria y Libertad, organização política de orientação política neofascista,[7] Allende teve, finalmente, seu nome confirmado pelo Congresso chileno.

O partido da Democrata Cristão do Chile, uma grande confederação interclassista, com sua base popular autêntica no proletariado da grande indústria moderna, da industria moderna pequena e dos pequenos proprietários rurais, aliada ao Partido Nacional, de extrema-direita, controlava o Congresso chileno. A Unidade Popular, representando o proletariado formado pelos operários menos favorecidos, pelo proletariado agrícola, e pela baixa classe média urbana, controlava o Poder Executivo.[8]

A oposição a Allende controlava 82 cadeias de radiodifusão contra 36 da esquerda, a maior parte dos canais de televisão, e possuía 64 jornais contra 10 de esquerda, sendo 10 diários contra 2..[9] O presidente Nixon autorizou pessoalmente uma doação do governo norte-americano de US$ 700.000 para o jornal oposicionista El Mercurio, que depois foi seguida de várias outras.[10]

A presidência[editar | editar código-fonte]

Allende assume a presidência e tenta socializar a economia chilena, com base num projeto de reforma agrária e nacionalização das indústrias. A sua política, a chamada "via chilena para o socialismo", pretendia, segundo ele, uma transição pacífica, com respeito às normas constitucionais chilenas e sem o emprego de força, para uma sociedade de paradigma socializante. Nacionaliza os bancos, a parte das minas de cobre que restou em mãos privadas após as nacionalizações promovidas por Frei, e várias grandes empresas - o Estado chileno chega a controlar 60% da economia - e passa a sofrer pesadas pressões políticas norte-americanas e de grupos de pressão criados no Chile pela CIA, como a organização terrorista Patria y Libertad, de orientação nacionalista-neofascista.

Em seu discurso de 21 de maio de 1971, falando sobre a meta e não apenas sobre a etapa, definiu o socialismo chileno como libertário, democrático e pluripartidário[11]


A adoção dessa linha socialista por Allende, implementada durante seus três anos de permanência no poder, além de gerar a oposição dos democrata-cristãos direitistas, de causar um verdadeiro pânico na maioria da classe média chilena, que passou a sabotar sua economia, paralisando-a, quase totalmente, em 1973,[12] provocou sua indisposição com a esquerda radical chilena, como o MIR, que pugnava pela tomada do poder pela força, e criou antipatia com uma parte importante do efetivo militar chileno, cujos chefes sempre foram treinados e doutrinados nas academias militares dos Estados Unidos. As sucessivas intervenções dos Estados Unidos na política interna chilena, iniciadas com do Projeto Fubelt - Track II) e seguintes, acabaram por aprofundar sensivelmente os problemas da sua já frágil economia. Em 1973, a inflação chegou a cifras de 381,1%, os produtos básicos de consumo desapareceram das prateleiras, o desemprego crescia assustadoramente e a produção e o valor da moeda de então, o Escudo Chileno, em proporção inversa, caíam de forma vertiginosa.

Envolvimento soviético[editar | editar código-fonte]

Declarações do general Nikolai Leonov da KGB, confirmou que a União Soviética apoiou o governo de Allende economicamente, politicamente e militarmente.[13] Leonov declarou em uma entrevista no Centro Chileno de Estudos Públicos (CEP) que o apoio econômico soviético incluiu mais de US$ 100 milhões em crédito.[13]

De acordo com documentos do Arquivo Mitrokhin, a KGB pediu a Allende "a reorganização dos serviços de inteligência do exército do Chile, e o estabelecimento de uma relação entre os serviços de inteligência do Chile e da URSS". Os documentos afirmam também que Allende recebeu da URSS trinta mil dolares, "a fim de solidificar as relações de confiança entre eles".[14]

Selo da RDA, em homenagem a Salvador Allende (nov. 1973).

Allende fez um pedido pessoal de dinheiro a União Soviética através de o oficial da KGB Svyatoslav Kuznetsov (codinome LEONID), chegou ao Chile a partir de Cidade do México para ajudar Allende.[15] A distribuição original do dinheiro para estas eleições através da KGB foi de US$ 400.000 e um subsídio pessoal de US$ 50.000 foi enviada diretamente para Allende, com um adicional de US$ 100.000 canalizado através de fundos para o Partido Comunista do Chile.[15] [13]

O historiador Christopher Andrew argumentou que a ajuda do KGB foi um fator decisivo, porque Allende venceu por uma estreita margem de 39 mil votos em um total de 3 milhões. Após as eleições, o diretor da KGB, Yuri Andropov, obteve permissão para enviar quantias adicionais e outros recursos do Comitê Central do PCUS para garantir a vitória de Allende no Congresso. Em seu pedido, em 24 de outubro, ele afirmou que a KGB "vai levar a cabo medidas destinadas a promover a consolidação da vitória de Allende e sua eleição para o cargo de Presidente do país".[15]

O apoio político e moral vieram principalmente através do Partido Comunista e dos sindicatos. Por exemplo, Allende recebeu o Prêmio da Paz Lênin da União Soviética em 1972. No entanto, houve algumas diferenças fundamentais entre Allende e analistas políticos soviéticos, que acreditavam que alguma violência - medidas que esses analistas "consideravam apenas teoricamente" - deveria ter sido utilizada.[13] De acordo com o relato de Andrew, dos arquivos Mitrokhin: “Na opinião do KGB, o erro fundamental de Allende era a sua falta de vontade de usar a força contra seus oponentes. Sem estabelecer o controle completo sobre toda a máquina do Estado, a sua permanência no poder não poderia ser assegurada”.[14]

O golpe militar no Chile[editar | editar código-fonte]

Uma das razões diretas do fracasso da "via chilena para o socialismo" deveu-se a situação geopolítica mundial de então, de plena Guerra Fria, com os Estados Unidos envolvidos na Guerra do Vietnã, não podendo admitir o nascimento de um segundo regime socialista na sua área de influência, após Cuba. Nos anos de 1970, na América do Sul inteira, apenas o Chile, a Colômbia e a Venezuela mantinham Estados de Direito, [carece de fontes?] com governantes eleitos pelo povo. O Brasil, a Argentina, o Paraguai, a Bolívia, o Peru, o Equador e o Uruguai, estavam tomados por regimes militares, muitos instalados, e todos apoiados, por Washington.

As nacionalizações e estatizações adotadas pela Unidade Popular feriram diretamente os interesses de grandes corporações americanas, dentre elas a então poderosa ITT, que passou a pressionar o governo Richard Nixon "a tomar providências". Um memorando interno da ITT detalhava os planos estadounidense: "A esperança mais realista dentre aqueles que desejam destituir Allende é que uma rápida deterioração da economia provoque uma onda de violência que provoque um golpe militar".[16] [17] Em 1970 a CIA criara o Projeto Fubelt (também chamado Track II, ou "política dos dois trilhos"), com o objetivo de impedir a ascensão de Allende ao governo. Com a posse de Allende o Projeto Fubelt fracassou, e acabou sendo desativado e substituído por outros, não sem antes ter contribuído para o assassinato do Comandante em Chefe das Forças Armadas chilenas, o general constitucionalista René Schneider. Nisso também o Projeto Fubelt não obteve grande sucesso porque o general assassinado foi substituído pelo não menos constitucionalista general Carlos Prats. Esse projeto abarcou um amplo espectro de atividades que iam do apoio a assassinatos seletivos ao fomento greves desestabilizadoras, bem como à contratação de políticos e militares direitistas para articular um golpe de estado.[18]

Rapidamente o governo estadounidense submeteu o Chile a um bloqueio econômico informal, que impedia o Chile de obter empréstimos internacionais ou bons preços para o cobre, o seu principal produto de exportação. Isso foi denunciado por Allende num dramático discurso na ONU. Os Estados Unidos adotaram a estratégia de sufocar gradualmente a economia chilena até que um levante das Forças Armadas pusesse fim a "via chilena para ao socialismo". Edward Korry, o embaixador estadounidense em Santiago, dizia: "não permitiremos que nenhuma porca e nenhum parafuso (americanos) cheguem ao Chile de Allende". O Chile, tradicionalmente dependente de importações dos Estados Unidos, passou a ver suas indústrias e suas frotas de caminhões, tratores, ônibus e táxis serem progressivamente paralisadas por falta de peças de reposição. Richard Nixon num seu despacho ao Departamento de Defesa fora enfático: "Há uma chance em dez, mas salvem o Chile, façam a economia estancar !".[18]

Uma greve de proprietários de caminhões, financiada pela CIA, começou na primavera, em 9 de setembro de 1972,[12] e foi declarada pela Confederación Nacional del Transporte, então presidida por León Vilarín, um dos líderes do grupo paramilitar neofascista Patria y Libertad. Essa greve, por prazo indeterminado, impediu o plantio da safra agrícola 1972/73 no Chile.

A asfixia econômica do Chile, preconizada pelo governo dos Estados Unidos logo começou a dar seus frutos venenosos. Os Estados Unidos sabotaram os empréstimos ao Chile, "convidaram" as empresas estadounidenses a abandonar os países que mantivessem relações comerciais com o Chile, subvencionaram vários conspiradores (por exemplo, a central da CIA no Paraguai financiou boa parte da greve dos proprietários de caminhões,[19] e também deu apoio financeiro ao líder neofacista da Frentre Nacional Pátria y Libertad, Roberto Thieme, que se escondia em Mendoza).[20] Até 1973 os industriais chilenos mantiveram o Sistema de Asociaciones Civiles Organizadas, cujo objetivo era provocar o desabastecimento de gêneros de primeira necessidade no país[21] [22] .

Criou-se um clima de enfrentamento, provocado tanto pela esquerda extremista doMIR, como pela extrema direita neofascista do Patria y Libertad, entidade criada com o apoio da CIA, e cujos membros recebiam treinamento de guerrilha e bombardeio em Los Fresnos, no estado estadounidense do Texas[23] [24] . Os integrantes do MIR fizeram chegar ao Chile armas soviéticas, vindas de Cuba, enquanto os direitistas articulavam-se com a CIA (a agência estadounidense gastou U$ 12 milhões de dólares financiando greves, especialmente a dos proprietários de caminhões - que paralisou o país, impedindo o plantio da safra e provocando a falta de gêneros de primeira necessidade), e com setores militares. Multiplicavam-se os atentados e assassinatos, e as greves gerais patronais.[18]

Essa situação acabou por provocar o almejado "descalabro econômico" - que foi, em sua maior parte, provocado por sabotagens dos opositores de Allende contra a economia chilena[12] [19] - e que atingiu em cheio o governo da Unidade Popular, fazendo com que a inflação saltasse para patamares até então desconhecidos. A inflação passou de 22,1% em 1971 para 163,4% em 1972 e 381,1% no ano do golpe, o que fez com que o crescimento do PIB chileno passasse de 9% positivos em 1971 para 4,2% negativos em 1973.[18]

Primeira tentativa[editar | editar código-fonte]

A primeira tentativa de golpe resultou de uma aliança entre o Patria y Libertad e militares chilenos, quando essa organização se aliou a um setor do exército que ocupava altos postos através do Chile, num projeto - fracassado - que pretendia tomar de assalto o Palácio de La Moneda e derrubar o governo. A operação ficou conhecida como El Tanquetazo e foi realizada em 29 de junho de 1973. A inteligência do exército, então comandado pelo general constitucionalista Carlos Prats, detectou a tentativa de golpe e ele teve que ser abortado, não sem antes alguns tanques terem saído às ruas e se dirigido a La Moneda.[25]

O Estado de sítio[editar | editar código-fonte]

Logo após ter debelado El Tanquetazo, ainda envergando capacete e uniforme de combate, o Comandante em Chefe das Forças Armadas chilenas, o general Carlos Prats, dirigiu-se pessoalmente a Allende para dizer que era imperiosa a instauração imediata do estado de sítio no Chile, sem o que ele considerava ser impossível às forças armadas sufocar os atentados terroristas de direita e de esquerda, que já se multiplicavam, e assegurar a ordem constitucional no Chile. Em 2 de junho de 1973 a requisição de Allende, solicitando a instauração do estado de sítio, fora negada pelo Congresso Nacional, por 51 votos a 82.

O Povo, revoltado, clamava em uníssono nas ruas de Santiago do Chile pelo fechamento do Congresso Nacional, aos gritos de: "a cerrar, a cerrar, el Congresso Nacional…". Diante disso, Allende fez um discurso, no qual chegou até a ser vaiado pela multidão:

Cquote1.svg Faremos as mudanças revolucionárias em pluralismo, democracia e liberdade. Mas isso não significa, tolerância com antidemocratas, nem tolerância com os subversivos, nem tolerância com os fascistas, camaradas! Mas vocês devem entender qual é a real posição deste governo. Não vou, porque seria absurdo, fechar o Congresso. Não o farei. Já disse eu repito. Mas caso necessário, enviarei um projeto de lei de plebiscito para que o povo resolva esta questão.[26] Cquote2.svg
Salvador Allende

Também ajudou a promover a Unidade Popular, o poeta nacional Pablo Neruda, militante comunista, obteve o Prêmio Nobel de Literatura daquele ano. Neste clima, a Unidade Popular chegou a 49,731% dos votos nas eleições municipais.[27]

O cerco se fecha

Em setembro o cerco se fechou. O general Prats, de fortes tendências constitucionalistas, e que se recusava a participar de qualquer golpe militar, desacatado publicamente por uma manifestação de esposas de oficiais golpistas diante de sua residência, se viu obrigado a renunciar a seu posto de Comandante em Chefe das Forças Armadas, e, em 11 de setembro seu sucessor, o general Pinochet, um antigo homem de confiança de Allende, terminou com a democracia chilena, encerrando com sua ditadura o chamado período presidencialista do Chile (1925-1973). O general Prats foi assassinado pela DINA - a polícia secreta pinochetista - no seu exílio em Buenos Aires, num atentado à bomba.

Selo da União Soviética, em homenagem a Allende, 1973

Análises do Governo Allende[editar | editar código-fonte]

Embora Allende se declarasse marxista, aliado dos governos de Cuba e União Soviética, o historiador marxista Moniz Bandeira alega que o chileno não seguiu à risca os ensinamentos do filósofo do século XIX, e acabou isolado no poder. Segundo escreve Bandeira em seu livro Fórmula para o Caos, que narra a experiência socialista do Chile: "a proposta da Unidade Popular de adotar um modelo vinho e empanadas de revolução estava destinada ao fracasso. Karl Marx dizia que o socialismo é inviável como via de desenvolvimento, sobretudo num país atrasado como o Chile, em que 70% da produção era de cobre e 70% dos alimentos tinham de ser importados. Era um país vulnerável, ainda mais na esfera de influência dos Estados Unidos(…)". "Minha ideia é sair do lugar comum de que a CIA fez tudo, ou de que o Brasil fez tudo. O projecto era inviável".[28]

Cquote1.svg O Presidente Salvador Allende compreendeu então, e o disse, que o Povo tinha o Governo, mas não o Poder. Frase mais alarmante, porque Allende levava dentro de si uma amêndoa legalista, que seria a semente de sua própria destruição: um homem que lutou até a morte na defesa de legalidade, teria sido capaz de sair pela porta da frente de La Moneda, de cabeça erguida, se o Congresso o houvesse destituído dentro dos parâmetros da Constituição.[8] Cquote2.svg
Gabriel García Márquez

Versões sobre a morte[editar | editar código-fonte]

Há duas versões aceitas sobre a morte de Allende: a mais aceita é que ele se suicidara no Palácio de La Moneda, cercado por tropas do exército, com a arma que lhe fora dada por Fidel Castro; a outra versão é que ele fora assassinado pelas tropas invasoras. Sua sobrinha Isabel Allende Llona era uma das que acreditam que seu tio fora assassinado. A filha do Presidente, a deputada Isabel Allende, declarou que a versão do suicídio era a correta.[6]

Allende foi inicialmente enterrado numa cova comum, num caixão com as iniciais "NN". Com o término da ditadura de Pinochet, Allende teve um funeral com honras militares, em 1990 no Cemitério Geral de Santiago.

Os restos mortais do ex-presidente do Chile Salvador Allende foram exumados a 23 de Maio de 2011 para determinar a causa da morte. A exumação foi ordenada pelo juiz Mário Carroza, na sequência de um pedido feito em representação dos familiares pela senadora Isabel Allende, filha do ex-presidente chileno, para determinar com "certeza jurídica as causas da sua morte".[29] No dia 19 de Julho de 2011, a perícia realizada nos restos mortais do ex-presidente confirmou que sua morte fora ocasionada "por ferimento de projétil" e que a "forma corresponde a suicídio".[30]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • AGGIO, Alberto. Democracia e Socialismo. São Paulo: Editora UNESP, 1993.
  • AGGIO, Alberto. Frente Popular, radicalismo e revolução passiva no Chile. São Paulo: Annablume/FAPESP, 1999.
  • BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Fórmula para o Caos: a Derrubada de Salvador Allende, São Paulo: Civilização Brasileira, 2008. ISBN 9788520007228
  • BLUM, Williams. Killing Hope: U. S. Military and CIA Interventions Since World War II - Part I, Londres: Zed Books, 2003, ISBN 1842773690 Downlodable gratuitamente de www.4shared.com/file/64730175/796edf6/William_Blum_-_Killing_Hope_-_US_Military_And_CIA_Interventions_Since_WW2_-.html
  • MÁRQUEZ, Gabriel García. Chile, el golpe y los gringos. Crónica de una tragedia organizada., Manágua, Nicaragua: Radio La Primeirissima, 11 de setembro de 2006
  • PAREDES, Alejandro. La Operación Cóndor y la guerra fría. Universum. [online]. 2004, vol.19, no.1 [citado 12 Octubre 2008], p. 122-137. Disponible en la World Wide Web: <http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0718-23762004000100007&lng=es&nrm=iso>. ISSN 0718-2376.
  • PETRAS, James F. e MORLEY, Morris H. How Allende fell: A study in U.S.–Chilean relations, Nottingham: Spokesman Books, 1974.
  • SENATE REPORT: Covert Action in Chile, 1963-1973, um relatório dos membros do Comitê Selecionado para Estudar as Operações Governamentais Relativas às Operações de Inteligência, Senado dos Estados Unidos, 18 de dezembro de 1975. (Mencionada nas referências simplesmente como SENATE REPORT)
  • ASSASSINATION REPORT: Interim Report: Alledged Assassination Plots Involving Foreign Leaders, um relatório dos membros do Comitê Selecionado para Estudar as Operações Governamentais Relativas às Operações de Inteligência, Senado dos Estados Unidos, 20 de novembro de 1975. (Mencionada nas referências simplesmente como ASSASSINATION REPORT)

Referências

  1. CASASÚS, Mario. Mario Amorós: "Allende nos convoca a construir el socialismo del siglo XXI". Entrevista. Santiago do Chile: El Clarín de Chile, 24 de junho de 2008
  2. Veneros, Diana (2003). Allende. Santiago de Chile: Sudamericana. pp. 17–18.
  3. Luta de Allende deve inspirar união sul-americana, diz Simon. Brasília: Agência Senado, 11 de setembro de 2003.
  4. Mensagem de Allende não envelheceu, diz Arthur Virgílio. Brasília: Agência Senado, 11 de setembro de 2003
  5. SENATE REPORT, pp. 15-16
  6. a b EUA tentaram impedir posse de Allende, diz documento. Washington: Associated Press-Agência Estado, in O Estado de S. Paulo, 10 de setembro de 2008, 15:56
  7. ASSASSINATION REPORT: Interim Report: Alledged Assassination Plots Involving Foreign Leaders, the Select Committee to Study Governmental Operations with Respect to Intelligence Activities, (US Senate), 20 November 1975, hereafter referred to as ASSASSINATION REPORT.
  8. a b MÁRQUEZ, Gabriel García. Chile, el golpe y los gringos. Crónica de una tragedia organizada., Manágua, Nicaragua: Radio La Primeirissima, 11 de setembro de 2006
  9. GUIMARÃES. Juarez. Unidade Popular e "general inverno". IN. Revista Teoria e Debate, n° 22, 3º trimestre de 1993.
  10. KORNBLUH, Peter. El Mercurio file, The., Columbia Journalism Review, Sep/Oct 2003
  11. MOULÁN, Tomas. O sonho de Salvador Allende, São Paulo: Le Monde Diplomatique – Brasil, setembro de 2003.
  12. a b c El paro que coronó el fin ó la rebelión de los patrones, El Periodista, 8 June 2003 (em espanhol)
  13. a b c d Soviet intelligence in Latin America during the Cold War – Lectures by General Nikolai Leonov Centro de Estudios Publicos (Chile) (22 September 1999).
  14. a b Christopher Andrew and Vasili MitrokhinHow 'weak' Allende was left out in the cold by the KGB (excerpt from The Mitrokhin Archive Volume II), The Times (UK), 19 setembro 2005.
  15. a b c The World Was Going Our Way: The KGB and the Battle for the Third World, Christopher Andrew, capitulo: Latin America, paginas:27 a 89, 2005, ISBN:978-0465003112.
  16. SENATE REPORT, Revista Time, 30 de setembro de 1974, p. 31
  17. New York Times, 21 de setembro de 1974, p. 12
  18. a b c d BLUM, Williams. Killing Hope: U. S. Military and CIA Interventions Since World War II - Part I, Londres: Zed Books, 2003, ISBN 1842773690
  19. a b Jonathan Franklin, Files show Chilean blood on US hands, The Guardian, 11 October 1999.
  20. YOFRE, Juan Bautista. Misión argentina en Chile (1970-1973). Sudamericana, 2000, p. 336.
  21. CALLONI, Stellas. Los años del lobo. Operación Cóndor. Continente, Buenos Aires, 1999. p. 44
  22. PAREDES, Alejandro. La Operación Cóndor y la guerra fría. Universum. (online). 2004, vol.19, no.1 (citado 12 Octubre 2008), p.122-137. Disponible en la World Wide Web: <http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0718-23762004000100007&lng=es&nrm=iso>. ISSN 0718-2376.
  23. Senate Report, p.31
  24. ALLENDE, Hortensia Bussi de. SENATE REPORT, p. 60-63.A parte que descreve a escola de treinamento de terrorismo de Estado de Los Fresnos (Texas) está na seção Uruguai.
  25. ENTREVISTA: Con Roberto Thieme (Patria y Libertad)., La Memoria de Otra Europa
  26. A Batalha do Chile (La Batalla de Chile) – Cuba/Chile/França/Venezuela, 1975, 1977 e 1979. De Patricio Guzmán. Duração: 272 minutos. Distribuição: Videofilmes.
  27. Felipe Larraín y Patricio Meller, “La experiencia socialista- Populista chilena: La Unidad Popular, 1970-1973”, en Cuadernos de Economía, Año 27, Nº 82, Págs. 339-340
  28. ANTUNES, Cláudia. Fórmula para o Caos", de Moniz Bandeira, narra experiência socialista no Chile dos 70. São Paulo: Fundação Getúlio Vargas, Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP
  29. Restos mortais de Allende exumados 38 anos depois.
  30. AFP. Perícia confirma suicídio do presidente Allende em 1973.

Ver também[editar | editar código-fonte]

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