Jürgen Habermas
| Jürgen Habermas | |
|---|---|
| Filosofia e sociologia | |
| Nacionalidade | |
| Nascimento | 18 de Junho de 1929 (82 anos) |
| Local | Düsseldorf |
| Actividade | |
| Campo(s) | Filosofia e sociologia |
| Prêmio(s) | Prêmio Gottfried Wilhelm Leibniz (1986), Prêmio Kyoto (2004) |
Jürgen Habermas (Düsseldorf, 18 de Junho 1929) é um filósofo e sociólogo alemão.
Licenciou-se em 1954 na Universidade de Bonn, com uma tese sobre Schelling (1775-1854), intitulada O Absoluto e a História. De 1956 a 1959, foi assistente de Theodor Adorno no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. No início dos anos 1960, realizou uma pesquisa empírica sobre a participação estudantil na política alemã, intitulada 'Estudante e Política' (Student und Politik).
Em 1968, transferiu-se para Nova York, passando a lecionar na New School for Social Research de Nova York. A partir de 1971, dirigiu o Instituto Max Planck, em Starnberg, na Baviera. Em 1983, transferiu-se para a Universidade Johann Wolfgang von Goethe, de Frankfurt, onde permaneceu até aposentar-se, em 1994.
Continua, até o presente momento, muito prolífico, publicando novos trabalhos a cada ano. Freqüentemente participa de debates e atua em jornais, como cronista político.
Índice |
[editar] Pensamento
Em geral considerado como o principal herdeiro das discussões da Escola de Frankfurt, uma das principais correntes do Marxismo cultural, Habermas procurou, no entanto, superar o pessimismo dos fundadores da Escola, quanto às possibilidades de realização do projeto moderno, tal como formulado pelos iluministas. Profundamente marcados pelo desastre da Segunda Guerra Mundial, Adorno e Horkheimer consideravam que houvesse um vínculo primordial entre conhecimento racional e dominação, o que teria determinado a falência dos ideais modernos de emancipação social.
Para recolocar o potencial emancipatório da razão, Habermas adota o paradigma comunicacional. O seu ponto de partida é a ética comunicativa de Karl Otto Apel[1] , além do conceito de "razão objectiva" de Adorno, também presente em Platão, Aristóteles e no Idealismo alemão - particularmente na ideia hegeliana de reconhecimento intersubjectivo.
Assim, Habermas concebe a razão comunicativa - e a acção comunicativa ou seja, a comunicação livre, racional e crítica - como alternativa à razão instrumental e superação da razão iluminista - "aprisionada" pela lógica instrumental, que encobre a dominação. Ao pretender a recuperação do conteúdo emancipatório do projecto moderno, no fundo, Habermas está preocupado com o restabelecimento dos vínculos entre socialismo e democracia.
Segundo o autor, duas esferas coexistem na sociedade: o sistema e o mundo da vida. O sistema refere-se à 'reprodução material', regida pela lógica instrumental (adequação de meios a fins), incorporada nas relações hierárquicas (poder político) e de intercâmbio (economia).
O mundo da vida é a esfera de 'reprodução simbólica', da linguagem, das redes de significados que compõem determinada visão de mundo, sejam eles referentes aos fatos objectivos, às normas sociais ou aos conteúdos subjectivos.
É conhecido o diagnóstico habermasiano da colonização do mundo da vida pelo sistema e a crescente instrumentalização desencadeada pela modernidade, sobretudo com o surgimento do direito positivo, que reserva o debate normativo aos técnicos e especialistas. Contudo, desde a década de 1990, mudou sua perspectiva acerca do direito, considerando-o mediador entre o mundo da vida e o sistema.
Na acção comunicativa ocorre a coordenação de planos de dois ou mais actores via assentimento a definições tácitas de situação. Tem-se não raro uma visão reducionista deste conceito, entendido como mero diálogo. Mas de facto a acção comunicativa pressupõe uma teoria social - a do mundo da vida - e contrapõe-se à acção estratégica, regida pela lógica da dominação, na qual os actores coordenam seus planos no intuito influenciar, não envolvendo assentimento ou dissentimento. Habermas define sinteticamente a acção estratégica como "cálculo egocêntrico".
Seus estudos voltam-se para o conhecimento e a ética. Sua tese para explicar a produção de saber humano recorre ao evolucionismo, pois a racionalidade comunicativa é considerada 'aprendente'. Segundo Habermas, a falibilidade possibilita desenvolver capacidades mais complexas de conhecer a realidade, além de representar garantia contra regressões metafísicas, com possíveis desdobramentos autoritários. Evolui-se assim através dos erros, entendidos como falhas de coordenação de planos de acção.
Habermas defende também uma ética universalista, deontológica, formalista e cognitivista. Para ele, os princípios éticos não devem ter conteúdo, mas garantir a participação dos interessados nas decisões públicas através de discussões (discursos), em que se avaliam os conteúdos normativos demandados naturalmente pelo mundo da vida.
Sobre sua teoria discursiva, aplicada também à filosofia jurídica, pode ser considerada em prol da integração social e, como consequência, da democracia e da cidadania. Tal teoria coloca a possibilidade de resolução dos conflitos vigentes na sociedade não com uma simples solução, mas a melhor solução - aquela que resulta do consenso de todos os concernidos.
Sua maior relevância está, indubitavelmente, em pretender o fim da arbitrariedade e da coerção nas questões que circundam toda a comunidade, propondo uma participação mais activa e igualitária de todos os cidadãos nos litígios que os envolvem e, concomitantemente, obter a tão almejada justiça. Essa forma defendida por Habermas é o agir comunicativo que se ramifica no discurso.
[editar] Principais obras
(ordenada de acordo com a data de publicação original, e complementada com traduções em inglês)
- [1962] (1994), The Structural Transformation of the Public Sphere, Cambridge, Polity Press.
- [1968] (1994), Técnica e Ciência como “Ideologia”, Lisboa, Edições 70.
- (1970), “On Sistematically Distorted Communication”, in Inquiry, vol. 13, nº 3, pp. 205-218.
- [1972] (1998), “A Postscript to Knowledge and Human Interests”, in Knowledge and Human Interests, Cambridge, Polity Press, pp. 351-86
- [1973] (1976), Legitimation Crisis, London, Heinemann.
- (1974), “The Public Sphere: An Encyclopedia Article (1964)”, in New German Critique, vol. 1, nº 3, pp.49-55.
- [1976] (1995), Communication and the Evolution of Society, Cambridge, Polity Press.
- [1981a], (1986), The Theory of Communicative Action: Reason and the Rationalization of Society, vol. 1, Cambridge, Polity Press.
- [1981b], (1986), The Theory of Communicative Action: The Critique of Functionalist Reason, vol. 2, Cambridge, Polity Press.
- [1981c] (1999), “Modernity: An Unfinished Project”, in Habermas and the Unfinished Project of Modernity, eds. Maurizio Passerin D’Entrèves e Seyla Benhabib, Cambridge, Polity Press, pp. 38-56.
- [1983] (1990), Moral Consciousness and Communicative Action, Cambridge, Polity Press.
- (1985a), “A Nova Opacidade: A Crise do Estado-Providência e o Esgotamento das Energias Utópicas”, in Revista Comunicação e Linguagens, Dezembro, Porto, Edições Afrontamento.
- [1985b] (1990), O Discurso Filosófico da Modernidade, Lisboa, Publicações Dom Quixote.
- (1986), Autonomy and Solidarity: Interviews with Jürgen Habermas, ed. Peter Dews, London, Verso.
- (1987), “Tendências de Juridicização”, trad. Pierre Guibentif, in Sociologia – Problemas e Práticas, nº. 2, pp. 185-204.
- [1988] (1998), Postmetaphysical Thinking, Cambridge, Polity Press.
- (1989), The New Conservatism, Cambridge, Polity Press.
- [1991a] (1993), Justification and Application, Cambridge, Polity Press.
- (1991b), “Comments on John Searle: «Meaning, Communication, and Representation»”, in John Searle and His Critics, eds. Ernest Lepore e Robert Van Gulick, Oxford, Basil Blackwell, pp. 17-29.
- [1992a] (1996), Between Facts and Norms. Contributions to a Discourse Theory of Law and Democracy, Cambridge, Polity Press.
- [1992b] (1996), “Further Reflections on the Public Sphere”, in Habermas and the Public Sphere, ed. Craig Calhoun, Cambridge, Massachussets, MIT Press, pp. 421-461.
- [1992c] (1996), “Concluding Remarks”, in Calhoun, C., (ed.), Habermas and the Public Sphere, Cambridge, Massachussets, MIT Press, pp. 462-470.
- (1994), «Carl Schmitt dans l`histoire des idées politiques de la RFA», in Les Temps Modernes, 49 année, nº 575, pp. 27-35.
- (1996a), “Three Normative Models of Democracy”, in Democracy and Difference. Contesting the Boundaries of the Political, ed. Seyla Benhabib, Princeton, Princeton University Press, pp. 21-30.
- [1996b] (1998), The Inclusion of the Other. Studies in Political Theory, Cambridge, Polity Press.
- (1997a), “Sur le droit et la démocratie. Note pur un débat”, in Le Débat, nº 97, Nov./Dez.
- (1997b), Débat sur la Justice Politique, Paris, Éditions du Cerf. Com John Rawls.
- (1997c), “Popular Sovereignty as Procedure”, in Deliberative Democracy: Essays on Reason and Politics, eds. James Bohman e William Rehg, Cambridge, Massachussets, MIT Press, pp. 35-65.
- (1998a), On the Pragmatics of Communication, ed. Maeve Cooke, Cambridge, Polity Press.
- [1998b] (2001), The Postnational Constellation. Political Essays, Cambridge, Polity Press.
- (2006) The Divided West, Cambridge, Polity Press.
- (2007) The Dialectics of Secularization: On Reason and Religion, São Francisco, Ignatius Press. Com Joseph Ratzinger.
- (2008) Between Naturalism and Religion: Philosophical Essays, Cambridge, Polity Press.
- (2009) Europe. The Faltering Project, Cambridge, Polity Press.
- (2010) An Awareness of What is Missing: Faith and Reason in a Post-secular Age, Cambridge, Polity Press.
Referências
Sobre Habermas
- Corchia, L. Jürgen Habermas. A Bibliography: works and studies (1952-2010), Pisa, Edizioni Il Campano – Arnus University Books, 2010, 344 pp.
- Dutra, D. V. Razão e Consenso: a teoria discursiva da verdade, da moral, do direito e da biotecnologia, Florianópolis, EDUFSC
- Gimbernat, J.A. (ed.) (1997), La Filosofía Moral y Política de Jürgen Habermas, Madrid, Biblioteca Nueva.
- Ingram, D., (1987), Habermas and the Dialectic of Reason, New Haven, Yale University Press.
- McCarthy, T., (1996), The Critical Theory of Jürgen Habermas, Cambridge, Massachussets, MIT Press.
- Outhwaite, W., (1994), Habermas. A Critical Introduction, Cambridge, Polity Press.
- Pinzani, A. (2009), Jürgen Habermas, Porto Alegre, Artmed
- Silva, F.C., (2009), Virtud y Democracia. Ideas Republicanas en el Pensamiento Contemporáneo, Madrid, Biblioteca Nueva.
- Velasco, J.C. (2003): Para leer a Habermas, Alianza Editorial, Madrid.
- Velasco, J.C. (2000): La teoría discursiva del derecho. Sistema jurídico y democracia en Habermas, Centro de Estudios Políticos y Constitucionales, Madrid.
- White, S.K. (1990), The Recent Work of Jürgen Habermas, Cambridge, Cambridge University Press.
- Wiggershaus, R., (1994), The Frankfurt School, Cambridge, Polity Press.