Cipião Africano

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Disambig grey.svg Nota: Para outros significados, veja Cipião Africano (desambiguação) ou Públio Cornélio Cipião.
Públio Cornélio Cipião Africano
Cônsul da República Romana
Busto de Cipião no Museu Arqueológico de Nápoles
Reinado 205 a.C.
Cônjuges Emília Paula Tércia
Morte 183 a.C. (53 anos)
Literno

Públio Cornélio Cipião Africano (m. 183 a.C.; em latim: Publius Cornelius Scipio Africanus Maior[nota 1]), mais conhecido apenas como Cipião Africano, foi um político da família dos Cipiões da gente Cornélia da República Romana eleito cônsul por duas vezes, em 205 e 194 a.C., com Públio Licínio Crasso Dives e Tibério Semprônio Longo respectivamente. Um dos maiores generais romanos de toda a história, derrotou Aníbal na Batalha de Zama, encerrando a Segunda Guerra Púnica. Quando Cipião morreu em meio a acusações de seus rivais de ter aceitado suborno do rei da Síria selêucida, Antíoco III, a quem havia derrotado na Ásia Menor, auto-exilado em sua villa na Campânia, teria dito que "Minha pátria ingrata não terá meus ossos" antes de morrer.

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Família[editar | editar código-fonte]

Cipião era membro da gente Cornélia, uma das mais antigas e poderosas famílias patrícias de Roma e era filho do cônsul de 218 a.C., Públio Cornélio Cipião, morto em combate contra os cartagineses na Hispânia com o irmão (e tio de Cipião), Cneu Cornélio Cipião Calvo. Casou-se com Emília Paula, filha do cônsul Lúcio Emílio Paulo e irmã de Lúcio Emílio Paulo Macedônico. Teve dois filhos conhecidos, Públio Cornélio Cipião, que foi pretor em 174 a.C., e Cornélia, famosa por ter sido a mão dos irmãos Graco.

Segundo uma lenda contada por Lívio, Cipião teria nascido, assim como Alexandre Magno, da união com uma grande serpente que se materializava no leito de sua mãe e que desaparecia sempre que ouvia a aproximação de alguém[1].

Segunda Guerra Púnica[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Segunda Guerra Púnica

Iberia 218-217BC-es.svg

Sob o comando do pai (218 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Batalha do Ticino
Rota da invasão de Aníbal. Cipião lutou com seu pai, o cônsul Públio Cornélio Cipião, na Batalha de Ticino (218 a.C.) e na desastrosa Batalha de Canas (216 a.C.)

A primeira notícia sobre a vida pública de Cipião data de 218 a.C., quando, com apenas dezessete anos, serviu no exército do pai na desastrosa Batalha de Ticino. Aníbal havia acabado de cruzar os Alpes e encontrou o exército do cônsul Públio Cornélio Cipião, pai de Cipião Africano, que foi derrotado e gravemente ferido, sendo salvo, segundo Lívio, pelo filho[2][3] :

[...] seu pai lhe havia entregado o comando de uma turma de cavaleiros especialmente selecionados para garantir a segurança pessoal do cônsul; ele [Públio], quando do decorrer da batalha, percebeu que seu pai, junto com somente dois ou três cavaleiros, estava cercado pelo inimigo e havia sido perigosamente ferido, inicialmente tentou incitar os homens que estavam próximos para que fossem socorrer o pai; quando percebeu que eles, diante do grande número de inimigos que cercavam seu pai, titubearam e se acovardaram, conta-se que ele, com incrível audácia, se lançou sozinho à carga contra os inimigos que haviam cercado seu pai. Somente então que os outros cavaleiros se sentiram na obrigação de atacar. Os inimigos surpreendidos se puseram em fuga e Públio Cipião [pai], salvo de uma maneira um tanto inesperada, foi o primeiro a saudar, na presença de todos, o próprio filho como seu salvador.
 
Políbio, Histórias X, 3.4-6[4].

O pai, cônsul e comandante das forças militares romanas na região, quis, por conta do comportamento heroico demonstrado pelo filho, recompensá-lo com a coroa cívica, mas Cipião recusou dizendo "que seu ato foi recompensado por si". Seja como for, o ato lhe valeu uma fama de valoroso e bravo entre os romanos[5]. Políbio conta que, a partir de então, em suas batalhas seguintes, Cipião raramente arriscava a própria vida quando as esperanças de sucesso de sua pátria estavam em suas mãos:

E este é um comportamento típico não de um comandante que se entrega à Fortuna, mas de um dotado de inteligência.
 
Políbio, Histórias X, 3.7[6].

Batalha de Canas (216 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Batalha de Canas
Diagrama da vitória de Aníbal na Batalha de Canas

Dois anos depois, em 216 a.C., os romanos foram novamente derrotados na desastrosa Batalha de Canas, mas os historiadores antigos nada dizem sobre a participação de Cipião. De Lívio, sabemos que ele era, na época, um tribuno militar. Nesta batalha, morreu seu futuro sogro, o cônsul Lúcio Emílio Paulo, que, segundo a tradição polibiano, era contrário ao enfrentamento[7][8]. Também morreram os dois ex-cônsules, Cneu Servílio Gêmino (217 a.C.) e Marco Minúcio Rufo (221 a.C.), que comandavam o centro das fileiras romanas[9], noventa oficiais pertencentes às grandes famílias romanas e das cidades aliadas, incluindo consulares, pretores e senadores[10][11]; no total, segundo Políbio, foram 70 000 mortos e 10 000 capturados[12]. Eutrópio cita 43 000[10] mortos e Lívio, 45 000 mortos e 19 000 prisioneiros[11]. O cônsul com Emílio Paulo, Caio Terêncio Varrão, responsabilizado por Políbio pela derrota, conseguiu liderar cercar de 10 000 sobreviventes até a cidade de Venúsia[13]. Entre eles estava o jovem Cipião[14].

Depois da derrota, Cipião juntou os sobreviventes e os guiou até Canosa, onde ocorreu uma primeira reorganização do exército romano, praticamente destruído, uma missão muito perigosa, pois a cidade estava a apenas quatro milhas do acampamento de Aníbal[15]. Conta a lenda que, ao saber que alguns políticos, entre eles um Cecílio Metelo, estavam a ponto de entregarem Roma para Aníbal e os cartagineses, Cipião e seus aliados invadiram a reunião e, de espada na mão, forçou todos os presentes a jurarem que continuariam fieis a Roma[nota 2]. Felizmente, o Senado concordava com ele e não quis ouvir os argumentos sobre rendição, mesmo tendo que enfrentar as enormes perdas em Canas: aproximadamente um em cada cinco romanos em idade militar já havia sido morto pela invasão de Aníbal[16][17].

Eleição para edil (213 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Situação na Hispânia logo no início da Segunda Guerra Púnica

Segundo Políbio, em 213 a.C., nas eleições para edil, seu irmão mais velho (na verdade, mais novo)[18][19], Lúcio, era candidato, mas com poucas esperanças de sucesso. Públio, percebendo que sua mãe ia de um templo para outro realizando sacrifícios aos deuses em favor de seu irmão, disse para ela ter tido por duas vezes um sonho no qual era eleito edil com o irmão. E, para agradar sua mãe, decidiu apresentar sua própria candidatura para ajudar a do irmão tendo em vista seu sonho[20]. Sua mãe então pegou a toga branca, utilizada pelos candidatos aos cargos públicos, e a deu ao filho, que se apresentou no Fórum. O povo, que adorava o jovem Públio, o recebeu com entusiasmo e, quando foi se colocou no local onde ficavam os candidatos, Públio postou-se ao lado de Lúcio. Ambos acabaram eleitos e correram para casa para dar a boa notícia à mãe[21]. Dali em diante, todos começaram a acreditar que os deuses falaram diretamente com Públio através de seus sonhos e que suas ações foram inspiradas por eles. Públio não desmentiu mais esta crença e utilizou-a habilmente nos momentos mais críticos, fazendo crer aos homens que suas ordens eram oriundas de uma intervenção divina[22][23].

No relato de Lívio, os tribunos da plebe se opuseram à sua nomeação, que consideravam ilegal por ele ser muito jovem. Públio lhes respondeu[19]:

Se todos os quirites desejarem me eleger edil, direis que tenho a idade requerida.
 

Os tribunos, acuados pelo fervor do povo que queria elegê-lo, desistiram de seu impediamento[25]. Públio foi então nomeado edil curul antes da idade requerida[18], um dos passos (depois do cargo de questor) no cursus honorum, cujo ápice era a eleição para o consulado[19].

Os Jogos Romanos organizados pelos irmãos e pelo terceiro edil, Marco Cornélio Cetego, foram celebrados apesar do alto custo tendo em vista a crítica situação de Roma naquele momento, mas só foram prorrogados por um dia. Todos os vicos de Roma receberam cem côngios de azeite (equivalente a 327 litros)[26].

Comando na Hispânia (210-206 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Conquista romana da Hispânia

Procônsul (211 a.C.)[editar | editar código-fonte]

No início de 211 a.C. chegou da Hispânia a triste notícia de que seu pai, Públio, e seu tio, Cipião Calvo, haviam sido derrotados e mortos pelas forças cartagineses depois de vários anos comandando a guerra na região[27]. Naquele ano, a Hispânia provavelmente teria sido perdida se não fosse a intervenção de um obscuro equestre chamado Lúcio Márcio Sétimo, que conseguiu reorganizar as divisões sobreviventes do exército romano na região e conteve o avanço cartaginês conseguindo uma inesperada vitória na Batalha do Bétis Superior[28]. Mesmo assim, o Senado se recusou a confirmar formalmente seu comando, mas nenhum outro general queria ir para a Hispânia. Uma nova expedição romana foi enviada à Hispânia sob o comando de Caio Cláudio Nero[29], mas, no final do ano, o Senado e o povo romano decidiram incrementar as forças militares na região e substituir Nero por um novo comandante. Havia, porém, uma grande indecisão, pois o novo general estava destinado a suceder a dois Cipiões e devia ser escolhido com grande cuidado[30].

Marcha do procônsul Cipião até o rio Ebro (211 a.C.)

Lívio conta que muitos nomes foram propostas e, no final, decidiu-se convocar a Assembleia das centúrias para realizar uma eleição de um procônsul a ser enviado à Hispânia. Os dois cônsules fixaram a data da convocação. Inicialmente, foi permitido que qualquer um apresentasse seu próprio nome, mas ninguém se ofereceu, com medo de gerarem desconforto ou indignação aos generais caídos perante seus concidadãos. Na data estabelecida, as centúrias se reuniram no Campo de Marte[31]:

O povo alternava o olhar entre os rostos dos magistrados e dos mais importantes cidadãos, que, por sua vez, olhavam uns para os outros. O povo temia que a situação não fosse resolvida e se desesperava pela república, pois ninguém tinha coragem de se apresentar para receber o comando do exército na Hispânia, quando, repentinamente, Públio Cornélio, filho do Públio que havia morrido na Hispânia, um jovem de apenas vinte e quatro anos, apresentou sua candidatura e imediatamente se posicionou num local mais elevado para atrair a atenção. Depois que todos os olhares se voltaram para ele, a multidão, com gritos de simpatia e apoio, lhe desejou, imediatamente, um feliz e vitorioso comando. Quando depois se iniciou a votação, todos, não apenas as centúrias, mas também cada um dos cidadãos, deliberaram que o comando militar supremo na Hispânia fosse dado a Públio Cornélio.
 
Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 18.6-9[32].

Com apenas 24 anos, mais uma vez com um ano a menos do que a idade mínima legal para assumir a função, Públio partiu para a Hispânia no final do ano acompanhado do propretor Marco Júnio Silano e de seu fiel companheiro de armas, Caio Lélio. As forças que remanescentes do antigo exército da Hispânia e as que Nero havia levado da Itália foram reforçadas por 10 000 soldados e 1 000 cavaleiros. Cipião, acompanhado por uma frota de trinta quinquerremes, partiu de Óstia, percorrendo o litoral da Etrúria, o Golfo Gálico, os Pireneus e desembarcou na cidade grega de Ampúrias (em latim: Emporiae)[33][34]. A partir dali, depois de ordenar à frota que o seguisse pela costa, marchou à pé com seu exército até Tarraco (moderna Tarragona), onde juntou todas as forças aliadas, vindas de todas as partes da Hispânia depois que souberam da chegada do procônsul. Aos embaixadores aliados, confusos e sem saber o que fazer, respondeu de forma segura, serena e persuasiva, qualidades típicas de Cipião[35]. Lúcio Márcio Sétimo foi confirmado no comando. Porém, é possível que ele tenha acabado com suas próprias chances de ter esse comando confirmado ao assinar seu primeiro comunicado ao Senado como "propretor", o que foi considerado presunçoso.

Decidiu então partir de Tarraco para visitar as cidades aliadas e os acampamentos de inverno do exército (hiberna), louvando o valor dos soldados que, apesar das graves derrotas, conseguiram manter o controle da província, repelindo os cartagineses e mantendo-os ao sul do rio Ebro, protegendo assim as populações aliadas. Lúcio Márcio acompanhou Cipião nesta campanha e ele substituiu também Nero por Silano quando os exércitos foram enviados para seus acampamentos de inverno. Depois de inspecionar e organizar os territórios ao norte do Ebro, retirou-se para Tarraco para preparar sua estratégia de ataque para o ano seguinte[36].

Primeiras operações (210 ou 209 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Cerco de Nova Cartago (209 a.C.)
Marcha do procônsul Cipião até Nova Cartago. A captura da principal cidade cartaginesa na região foi um duro golpe para Cartago

Cipião tinha como objetivo principal acabar com algumas alianças firmadas entre as populações ibéricas e os cartagineses, impossibilitando o recrutamento de novas forças para lutar contra Roma na Itália. Para isso, era necessário invadir profundamente as colônias de ambos. Ele sabia também que Aníbal estava enfrentando dificuldades para enfrentar a estratégia de contenção de Fábio Máximo, "o Protelador, e não conseguia mais avançar em profundidade nos territórios romanos e aliados, vendo-se obrigado a lutar em batalhas de pouca importância para manter o controle de algum território, cada vez mais hostil depois da queda de Siracusa (212 a.C.) e de Cápua (211 a.C.)[37].

No começo da primavera de 210 a.C. (segundo Lívio[38]) ou 209 a.C. (segundo Políbio[39]), Cipião, depois de lançar seus navios ao mar e convocar todas as forças aliadas a Tarraco, ordenou que a frota, incluindo os navios de carga, deveria se juntar na foz do Ebro. Em seguida ordenou que os legionários levantassem seus acampamentos de inverno e também seguissem para lá. Finalmente, decidiu partir também com 5 000 aliados de Tarraco para se juntar ao seu exército. Uma vez reunidas as forças romanas e aliadas, convocou uma assembleia com o objetivo de realizar um discurso (adlocutio), especialmente para os veteranos das derrotas anteriores[40], e lembrou-os que:

Ninguém mais do que eu, depois de ser nomeado general, aproveitou a oportunidade de agradecer os seus soldados pelos méritos obtidos antes de poder utilizá-los [em combate]. Sou, portanto, afortunado pois devo, antes de ver a província ou seus acampamentos, agradecê-los: primeiro de tudo, por terem sido fieis ao meu pai e meu tio, em vida e depois da morte; em segundo lugar, por que, graças ao seu valor, seja pelo povo romano, seja por mim, que sucedo a dois generais caídos em combate, mantiveram intacto o controle desta província, que parecia perdida depois de uma grande derrota.
 

Cipião continuou o discurso anunciando que deviam se preparar, não tanto para permanecer na Hispânia, mas para expulsar os cartagineses; não tanto para impedir que inimigo cruze o Ebro, mas para permitir que os romanos atravessem o rio e levem para o sul a guerra, um plano que parecia ser muito vasto e audaz, talvez pela lembrança da derrota tão recente ou por causa de sua pouca idade[42].

Políbio conta que Cipião enumerou algumas vantagens para os romanos, como o fato de os três exércitos cartagineses estarem em acampamentos separados e distantes entre si. A isto se somava o fato de que o comportamento arrogante dos cartagineses havia feito com que parte dos aliados já os tinha abandonado e enviaram embaixadores aos romanos para tratarem das novas condições para uma aliança[43]:

O fato mais importante é que os comandantes inimigos, inimigos entre si, não poderão combater contra as nossas forças unidas; isto nos permitirá combatê-los separadamente e abatê-los mais facilmente. Eu, portanto, os exorto a considerarem tudo o que eu vos disse que que atravesseis o rio sem medo.
 
Políbio, Histórias X, 6.5-6 e 7.6-7[44].

Depois de inflamar o espírito de seus soldados com este primeiro discurso, Cipião encarregou Silano, à frente de 3 000 legionários e 300 cavaleiros, de governar a província e de proteger os aliados ainda fieis à Roma e seguiu adiante com seu exército[45]. E, apesar de muitos acreditarem ser oportuno atacar o exército cartaginês mais próximo, Cipião considerou arriscado demais atacar um exército que era três vezes maior que o seu e preferiu seguir até Nova Cartago (moderna Cartagena, a mais importante cidade cartaginesa na Hispânia. Quartel-general do exército e um nexo de comunicação com a capital Cartago, Nova Cartago estava repleta de riqueza e era onde estavam todas as armas, o dinheiro e os reféns das forças cartaginesas[46]. Segundo Políbio:

[Cipião] havia, na realidade, decidido não fazer nada do que havia anunciado às tropas; o objetivo que tinham em mente, era, ao invés disto, cercar rapidamente a cidade cujo nome era "Cartago" (Qart-ḥadašt). [...] Uma vez lá, abandonou as soluções fáceis e conhecidas por todos, criando um plano de ação que nem seus inimigos e nem seus amigos esperava. Tudo isto foi feito de forma extremamente cuidadosa e calculada.
 
Políbio, Histórias X, 6.8-12[47].

Nova Cartago era defendida por uma pequena guarnição, pois os cartagineses, que controlavam a costa mediterrânea da península Ibérica, acreditavam que a cidade fosse inexpugnável por causa da conformação física do lugar e das poderosas muralhas defensivas. Cipião, consciente não apenas de sua importância econômica, mas também das implicações psicológicas que sua queda provocaria, preparou-se meticulosamente para tomá-la[37]. Ninguém além de Caio Lélio conhecia o plano[48]. Ele tinha recebido ordens de navegar ao longo da costa a uma velocidade tla que a frota romana] chegasse no porto de Nova Cartago no mesmo momento que Cipião se aproximava por terra[49][50]. Sete dias depois, os romanos chegaram a Nova Cartago juntos, por terra e por mar, e montaram o acampamento (castra aestiva) no setor da cidade voltado para o norte[51][52].

Na época, Nova Cartago, protegida pelo mar por dois lados e no terceiro por uma laguna, era considerada inexpugnável. Todavia, Cipião, aproveitando a maré baixa na laguna, a eles fornecida, na opinião dos soldados, por um favorecimento divino, conseguiram escalar a muralha da cidade sem encontrar oposição e a cidade caiu sem a necessidade de um cerco[53][54].

A |conquista de Nova Cartago é lembrada pela clemência com que Cipião tratou seus cativos, uma tema frequente na arte. Conta-se Cipião teria dito aos 2 000 artesãos que estavam na cidade, que normalmente seriam considerados escravos públicos de Roma, que todos seriam libertados se colaborassem com os romanos com seu trabalho assim que a guerra contra Cartago terminasse com uma vitória romana[55]. Entre os demais prisioneiros, escolheu os melhores pela força, pelo aspecto e pela idade, e os incorporou às tripulações de seus navios, aumentando em 50% o número total de marinheiros que tinha antes[56]. Esta forma de tratar os prisioneiros atraiu uma grande simpatia e lealdade em relação a Públio Cipião, especialmente entre os artesãos, que esperavam reconquistar a liberdade ao final da guerra[57].

Foi neste contexto que ocorreu um dos famosos episódios da vida de Cipião, recontado por Políbio. Depois da captura da cidade, os soldados romanos, conhecendo a fraqueza de seu próprio comandante em relação às mulheres, levaram até ele uma donzela muito bonita que encontraram durante o saque. Mas Cipião, depois de agradecê-los, disse-lhes que, sendo seu comandante, não podia aceitar um presente assim e entregou a garota a seu pai[58]. Depois, sabendo que donzela era a esposa prometida de um jovem comandante dos celtíberos chamado Alúcio, mandou chamá-lo, presenteou-o a donzela e o libertou como presente de casamento por causa dos ricos donativos que os pais da garota haviam feito em sinal de gratidão. Graças a etas atitudes, conta Lívio, Cipião conquistou o respeito das populações conquistadas[59][60].

No final de 210 ou 209 a.C., depois de anunciar ao Senado Romano a sua vitória através de Caio Lélio, teve seu comando prorrogado, junto com Silano, e não por um ano, mas até que fossem reconvocados pelo Senado[61].

Expulsão dos cartagineses da Hispânia (208-206 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Ver artigos principais: Batalha de Bécula e Batalha de Ilipa
O arremate final da campanha de Cipião na conquista romana da península Ibérica (210-206 a.C.).

Em 208 a.C., Cipião lutou a sua primeira batalha campal, expulsando Asdrúbal de sua posição em Bécula, no alto Guadalquivir. Ele temia que os exército de Magão e Giscão pudessem chegar e envolver seu pequeno exército e seu objetivo foi, portanto, eliminar rapidamente um dos exércitos para se preparar para a chegada dos outros dois. A batalha foi decidida por uma determinada carga da infantaria romana pelo centro da linha cartaginesa. As perdas romanas são incertas, mas podem ter sido consideráveis tendo em vista o esforço da infantaria em atacar morro acima a infantaria leve cartaginesa. Cipião em seguida orquestrou um ataque frontal com o resto da infantaria para expulsar o resto das forças inimigas.

Asdrúbal não percebeu as reservas de cavalaria secretas de Cipião se movendo por trás de sua linha e uma carga de cavalaria criou um duplo envolvimento, com Caio Lélio num flanco e Cipião no outro. Este movimento quebrou a espinha das forças de Asdrúbal, que iniciou uma retirada — um feito impressionante para um jovem romano versus um experiente general. Mas, na verdade, do ponto de vista estratégico, este combate foi um retrocesso. Asdrúbal, na verdade, concentrou-se num forte corpo expedicionário e seguiu para a Itália para acudir seu irmão, Aníbal, sem que Cipião conseguisse bloquear ou atrapalhar sua marcha. Theodor Mommsen criticou fortemente seu comportamento e afirmou que a estratégia de Cipião estava incorreta, pois Asdrúbal provocaria grandes problemas aos romanos no ano seguinte (na verdade, ele foi derrotado por Caio Cláudio Nero na Batalha de Metauro)[62]. Howard H. Scullard, por outro lado, minimiza a culpa de Cipião, afirmando que seria impossível bloquear todas as passagens através dos Pirineus e que ele estava correto ao se concentrar em sua missão principal, que era a submissão da Hispânia[63]. Outras teorias citam que o apetite de seus soldados romanos pelo saque teria atrapalhado seus esforços para organizar uma perseguição. A mais provável explicação do ponto de vista estratégico é que Cipião não queria correr o risco de ficar preso entre o exército de Asdrúbal à sua frente e outro, o de Giscão ou de Magão, na retaguarda, ambos maiores que o seu próprio. Alguns dias depois da derrota, os dois conseguiram convergir suas forças até a frente da linha romana, o que permite imaginar o que teria acontecido se Cipião tivesse seguido Asdrúbal. Seja como for, Cipião, depois da Batalha de Bécula, se comportou com grande generosidade em relação aos seus prisioneiros, libertando, entre outros, Massiva, o jovem neto de Massinissa, o rei dos númidas[64], um gesto que o predispôs, mais adiante, a uma aliança que seria muito importante para acabar com a hegemonia cartaginesa na África[65].

Depois de derrotar os chefes hispânicos Indíbilis e Mandônio, Cipião conseguiu uma vitória decisiva em 206 a.C. sobre todo o contingente cartiginês na região na Batalha de Ilipa (moderna Alcalá del Río), o que forçou a retirada de todos os comandantes cartagineses. Depois de enviar Lélio e Lúcio Márcio Sétimo para conquistar o último reduto cartaginês, Gades, conseguiu a rendição de todas as demais cidades da região (206 a.C.). Quando rumores se espalharam sobre uma enfermidade de Cipião, houve um motim entre as tropas e diversas tribos locais se insurgiram quando Cipião de fato ficou doente no final de 206 a.C.[66].

Primeiro consulado (205 a.C.)[editar | editar código-fonte]

No ano seguinte, Roma firmou o Tratado da Fenícia com Filipe V da Macedônia, encerrando a Segunda Guerra Macedônica. Cipião foi eleito cônsul com Públio Licínio Crasso Dives. Graças aos esforços de seus inimigos, Cipião assume a província da Sicília, que tinha à sua disposição apenas as "legiões canenses" e uns poucos navios[67]. As legiões canenses eram aquelas formadas por legionários sobreviventes de derrotas romanas, como na Batalha de Canas. Enquanto Caio Terêncio Varrão, o comandante que era considerado o maior responsável pela derrota, retornou a Roma e foi perdoado, seus soldados, como punição, foram enviados para a Sicília com o direito de retornarem a Roma somente quando Aníbal deixasse a Itália. Apesar das diversas delegações tenham deixado claro aos senadores romanos a diferença de tratamento, a punição permaneceu em vigor.

Sem ajuda do Senado, Cipião se volta aos seus aliados italianos em busca de homens, armas, navios e suprimentos e a resposta foi entusiástica. As cidades da Etrúria e do Lácio providenciaram tripulações e velas para os navios, trigo e cevada de todos os tipos, pontas de flecha, escudos, espadas, lanças e soldados. Além dos cerca de 15 000 homens das legiões canenses, que contavam apenas com Cipião, que havia lutado com eles e sabia que a derrota não havia sido culpa deles, e com o desejo vingança e de redenção social, Cipião contou ainda com os soldados veteranos das campanhas sicilianas de Marco Cláudio Marcelo, muito experientes. Mas ele sabia que as forças especiais cartagineses — especialmente a cavalaria númida, superior à romana — seriam decisivas contra as legiões romanas, fortemente baseadas na infantaria. Além disso, uma grande parte da cavalaria romana era formada por aliados de lealdade questionável ou equestres nobres que não queriam lutar sem comandar nada. Uma anedota conta como Cipião forçou o alistamento de centenas de nobres sicilianos para criar sua nova cavalaria. Os sicilianos se opuseram a esta servidão a um invasor estrangeiro (a Sicília havia sido conquistada dos cartagineses na Primeira Guerra Púnica, menos de cinquenta anos antes) e protestaram vigorosamente. Cipião concordou em eximi-los do serviço desde que eles pagassem por um cavalo, equipamento e um cavaleiro treinado para o exército. Em menos de dois meses, Cipião reforçou suas legiões canenses com cerca de 7 000 voluntários italianos e transformou a Sicília num campo de treinamento.

O Senado enviou uma comissão para descobrir o que se passava na Sicília e encontrou Cipião à frente de um exército bem treinado e bem equipado, além de uma frota com mais de trinta navios. Ele pressionou novamente pela permissão para cruzar para a África, mas alguns no Senado, como Fábio Máximo, foram veemente contra, pois acreditavam que era necessário primeiro expulsar Aníbal do território romano antes de iniciar uma outra frente. Cipião também tinha adversários entre os senadores que não gostavam de seus ideais, crenças e interesses em áreas pouco "romanas" como gostos considerados helenófilos em arte, coisas de luxo e filosofias, como Catão, o Censor. Tudo o que ele conseguiu foi a permissão para cruzar, mas nenhum apoio militar ou financeiro.

Com a permissão dos comissários, Cipião preparou seu embarque, mas só conseguiu de fato prosseguir no ano seguinte por causa de uma fraude de um subalterno em Locri.

Campanha na África (204-201 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Asdrúbal e Sífax[editar | editar código-fonte]
Ver artigo principal: Batalha de Útica (203 a.C.)
No final da guerra, Cipião (em vermelho), vindo da Hispânia, junta suas forças na Sicília e cruza para a África, desembarcando perto de Útica. Depois de derrotados os generais Asdrúbal e Sífax, os cartagineses reconvocam Aníbal (em verde) e os dois se enfrentam na decisiva Batalha de Zama

Em 204 a.C., Cipião foi nomeado procônsul novamente e pode levar adiante seu projeto. Ele parte para África e, por causa de um nevoeiro, desembarca perto de Útica, frustrando os planos dos cartagineses, que reuniram uma força muito superior (60 000 homens contra os 35 000 de Cipião) e esperavam os romanos em Empória. Rapidamente se juntou a Massinissa, o jovem príncipe dos númidas, com que já havia negociado na Hispânia, que liderou a sua famosa cavalaria. Outro príncipe númida, Sífax, havia casado com a bela filha de Asdrúbal, Sofonisba, e era aliado dos cartagineses.

Depois de um vitorioso encontro com uma unidade de cavalaria, Cipião dedicou-se a saquear o território, enviando a Roma riquezas e escravos, o que reforçou sua posição política na capital. Tentou conquistar Útica, mas fracassou e decidiu invernar mandando construir a chamada Castra Cornélia, um grande acampamento que abrigou seu exército na África. Ao saber que o acampamento de inverno do inimigo era feito de acomodações de madeira cobertas de junco adossadas umas nas outras, Cipião pensava em incendiar o acampamento inimigo e aproveitar-se da confusão subsequente para atacar de surpresa o inimigo. Com a desculpa de tentar um acordo para evitar uma guerra, Cipião envia uma série de embaixadas, sempre enviando batedores e centuriões entre os embaixadores com o objetivo de, enquanto se desenrolavam as conversas, obter informações topográficas úteis para um ataque. Depois, na primavera, sentindo-se pronto, Cipião interrompe as negociações e envia sua frota em direção a Útica, como se tivesse a intenção de tentar capturar a cidade a partir do mar. Simultaneamente, aproxima-se do acampamento de Sífax e, depois de ter bloqueado todas as rotas de fuga, ateia fogo às construções, que, como previsto, se alastra rapidamente por todo o campo. Tão logo os cartagineses do acampamento de Asdrúbal, crentes de que o incêndio era acidental, saíram para ajudar, foram atacados e trucidados. Segundo Lívio, foram assassinados ou morreram no incêndio cerca de 40 000 homens e quase 5 000 foram aprisionados. Cipião havia desbaratado, em um só golpe, quase sem perdas, forças numericamente muito superiores. Políbio, que provavelmente obteve informações de Caio Lélio, que participou do ataque, afirmou que, entre todos os numerosos e notáveis feitos de Cipião, este como "o mais extraordinário feito militar que ele planejou e executou"[68]. Tanto Asdrúbal quanto Sífax conseguiram escapar. O primeiro volta para Cartago e o segundo, para a Numídia. Graças a novos alistamentos e à chegada de 4 000 mercenários vindos da Hispânia, apenas um mês depois os dois generais reiniciaram suas operações militares, mas foram derrotados em "Campi Magni" (perto de Souk el-Kremis), no curso superior do rio Bagrada, a cento e vinte quilômetros de Útica. Foi graças à heroica resistência dos celtíberos que conseguiram se salvar. Asdrúbal mais uma vez volta para Cartago enquanto Sífax se retira para sua própria capital, Cirta (a moderna Constantina)[69].

Os historiadores se dividem praticamente ao meio ao elogiar e condenar esta vitória. Diz Políbio, "de todas os brilhantes feitos de Cipião, este parece ser, para mim, o mais brilhante". Por outro lado, um dos principais biógrafos de Aníbal, Theodore Ayrault Dodge, chega a ponto de sugerir que este ataque foi um sinal de covardia e não gasta mais do que uma página sobre o evento no total, apesar de esta vitória ter garantido o cerco a Útica e efetivamente tirou Sífax da guerra.

Cipião aproveita a vitória para ocupar várias cidades de importância estratégia, entre as quais Túnis, a apenas vinte e quatro quilômetros de Cartago, de onde podia controlar as vias de comunicação terrestre do inimigo. Em paralelo, envia Lélio e Massinissa atrás de Sífax, que pôs em marcha uma nova força contra Cipião, mas que acabou derrotado e preso perto de Cirta enquanto sua mulher, Sofonisba]], filha de Asdrúbal, se suicida por envenenamento. Cipião conferiu o título de rei da Numídia a Massinissa e lhe confere grandes homenagens[70]. Finalmente Cartago concorda em iniciar as tratativas de paz. As condições impostas por Cipião, que não pretendia destruir a cidade, são severas: a restituição dos prisioneiros, a retirada dos exércitos cartagineses da Itália, a renúncia a qualquer reivindicação na Hispânia e a submissão de sua marinha de guerra[71], mas os cartagineses aceitaram e, assim, firmou-se um armistício (inverno de 203-202 a.C.). A guerra chegava ao fim, mas, na realidade, os cartagineses aproveitaram a trégua para reconvocar os irmãos Aníbal e Magão. Este, ferido numa batalha sem importância, morreu durante a viagem. Sobre Aníbal, conta-se que nenhum exilado havia deixado sua própria pátria com uma aflição maior que a mostrada por ele ao deixar a terra de seus inimigos e que, no navio que o havia trazido de volta a Cartago, ele próprio se amaldiçoou por não ter atacado Roma logo depois da vitória em Canas (216 a.C.)[72]. Cipião conseguiu, assim, libertar a Itália dos cartagineses.

Na África, a trégua durou pouco. Uma tempestade lançou na costa cartaginesa duzentos navios romanos vindos da Sicília com reforços e suprimentos para Cipião e os cartagineses conseguiram tomar os navios e sua carga. Cipião enviou embaixadores para protestar o roubo, mas os cartagineses — já contando com a iminente chegada de Aníbal — os dispensaram sem resposta e os emboscaram no caminho de volta. Como resposta, Cipião devastou o vale do rio Bagrada para isolar Cartago de sua fonte de suprimentos[73]. Desembarcando com 24 000 soldados em Léptis Menor (moderna Lamta), no Golfo de Hammamet, Aníbal consegue a ajuda de Tiqueão, um parente de Sífax, que lhe envia uma unidade com 2 000 cavaleiros númidas. Aníbal podia contar ainda com os 12 000 homens de Magão, todos veteranos e bem treinados, com os novos alistados na África e com 4 000 macedônios enviados pelo rei Filipe[74].

Batalha de Zama (202 a.C.)[editar | editar código-fonte]
Ver artigo principal: Batalha de Zama
Batalha de Zama
Diagrama da batalha.
Os famosos elefantes de guerra de Aníbal. Aníbal tinha oitenta deles neste combate.

A devastação do vale do Bagrada por Cipião, obriga Aníbal a ir ao seu encontro para tentar chegar em Cartago. Em Zama, Aníbal envia batedores para descobrir as medidas defensivas do acampamento romano[75], mas seus espiões foram capturados. Levados até Cipião, ele não apenas não os pune, mas lhes oferece um tribuno militar com ordens de mostrar-lhes todo o acampamento. Ele depois os interroga para saber se o tribuno que os acompanhou havia lhes mostrado todo o acampamento e, ao receber a resposta afirmativa, os liberta com ordens de contarem a Aníbal tudo o que haviam visto[76].

Este insólito comportamento de Cipião era calculado: servia para demonstrar a Aníbal e aos cartagineses a completa confiança dos romanos em suas próprias habilidades e gerar dúvidas nas fileiras cartaginesas. Assim que estes batedores retornaram de sua missão e relataram o ocorrido, Aníbal pede um encontro com Cipião para discutir a situação. Ele aceita e escolhe como local do encontro uma planície perto da cidade de Naraggara, assegurando assim uma batalha em terreno plano, ideal para aproveitar ao máximo a vantagem de sua cavalaria[77].

No dia do encontro, Aníbal fez ao comandante romano uma proposta de paz: Sicília, Sardenha e Hispânia definitivamente romanas e as ambições cartaginesas limitadas à África. Mas Cipião não aceita, lembrando a Aníbal que ele estava oferecendo territórios que já estavam sob controle romano. Encerrado sem sucesso o encontro[78], no dia seguinte os dois dão início à batalha. O exército de Cipião contava com cerca de 30 000 homens enquanto o de Aníbal superava os 50 000. Além disso, Aníbal dispunha de oitenta elefantes de guerra, mais do que em qualquer outra batalha que ele combatera antes. Com o objetivo de aterrorizar os romanos, o general cartaginês perfila os animais de frente para sua linha e, quando o combate começa, os lança contra as fileiras romanas. Mas Cipião ordena que suas forças soem, simultaneamente, suas trombetas, fazendo levantar assim um enorme estrondo do exército romano, que aterroriza os paquidermos a ponto de muitos se voltarem contra suas próprias tropas, provocando desordem e confusão entre os cartagineses, prontamente aproveitadas pelos romanos[79]. Cipião mais uma vez havia tornado a melhor arma do inimigo contra ele próprio[80]. Políbio conta que a batalha permaneceu indecisa por algum tempo e que seu destino foi decidido pela cavalaria de Lélio e Massinissa, que atacaram os cartagineses pela retaguarda, vencendo a resistência dos homens de Aníbal que ainda defendiam suas posições. Políbio e Lívio afirmam que, da parte dos cartagineses, foram 20 000 mortos e quase outro tanto capturado enquanto entre os romanos morreram cerca de 1 500 homens. Aníbal conseguiu escapar refugiando-se com uns poucos homens em Adrumeto. Tanto Lívio quanto Políbio elogiam Aníbal pela forma como ele dispôs seu exército e lutou naquele dia, reconhecendo que ele perdeu não por que não era bravo, mas por que havia encontrado alguém mais valoroso[81].

Basil H. Liddell Hart escreveu sobre esta batalha: "Se examinarmos os anais da história, não encontramos uma outra batalha na qual dois grandes comandantes militares souberem sempre dar o melhor de si. Arbela, Canas, Farsalos, Breitenfeld, Blenheim, Leuthen, Austerlitz, Jena, Waterloo, Batalha de Sedan: todas marcadas pela inépcia ou algo similar por uma parte ou outra"[82].

Final da guerra (202-201 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Cipião se aproveita imediatamente dos efeitos psicológicas da vitória ordenando que Cneu Otávio marchasse com as legiões por terra até a vizinhança de Cartago e, em paralelo, envia a frota até o porto da cidade, iniciando um bloqueio naval, provocando a rendição imediata dos cartagineses, sem um demorado cerco e nem derramamento de sangue. As condições impostas por Cipião foram moderadas: aos cartagineses não foi imposta nenhuma guarnição romana e eles puderam reaver todas as suas possessões africanas anteriores à guerra. Foram obrigados a devolver aos romanos os navios capturados em violação à trégua do ano anterior e libertar todos os prisioneiros. Também tiveram que entregar todos os seus navios de guerra e todos os seus elefantes; não deveriam guerrear contra ninguém fora da África e contra nenhuma nação africana sem consultar primeiro os romanos. E deveriam pagar uma indenização de 10 000 talentos de prata, dividida em pagamentos anuais, por cinquenta anos e deveriam entregar como reféns cem jovens escolhidos por Cipião[83].

Conta-se que, apesar da moderação das condições de paz propostas por Cipião, quando o Senado Cartaginês se reuniu para discuti-las, um dos senadores contrário à aceitação destes termos começou a discursar. Mas bastou ele começar a falar que Aníbal, favorável aos termos de Cipião, o arrancou da tribuna[84]. Finalmente, os senadores cartagineses aceitaram as condições de paz. E, uma vez ratificada a paz pelo Senado Romano, Cipião imediatamente ateia fogo à toda a frota de guerra cartaginesa, quinhentos navios[85]. Foi o fim de Cartago como grande potência no Mediterrâneo.

Depois de entregar a Massinissa todas as terras de Sífax conquistadas pelos romanos, Cipião embarca para a Sicília e retorna para Roma por terra atravessando o sul da Itália: tratou-se, na realidade, de uma gigantesca procissão triunfal e foi neste período que recebeu o apelido de "Africano". Não sabe se o termo foi cunhado por seus soldados, seus aliados ou pelo povo, o certo é que Cipião foi o primeiro comandante romano a ser homenageado com o nome do povo que havia vencido. O entusiasmo popular é tão grande que, se Cipião poderia ter se apoderado de um título bem mais substancial que um apelido. Na realidade, o povo queria proclamá-lo cônsul e ditador perpétuo, mas ele recusou, reclamando dos romanos por quererem elevá-lo a um poder equivalente de fato, se não de nome, ao de um rei. Cipião, com apenas trinta e três anos, havia salvado Roma e estava no auge de sua fama[86].

Anos finais (200 - 188 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Retorno a Roma (200-192 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Em 200 a.C., livre da ameaça cartaginesa, Roma parte para a conquista do oriente helênico, uma política liderada por Tito Quíncio Flaminino. Admirador da cultura grega, Flaminino tentou proteger a independência das cidades-estado gregas impondo um protetorado romano do qual derivava vantagens econômicas e políticas. Foi eleito censor em 199 a.C. com Públio Élio Petão, mesmo ano no qual foi príncipe do senado.

Segundo consulado (194 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Macedônia e a região do Mar Egeu por volta de 200 a.C.

Foi eleito cônsul novamente em 194 a.C. com Tibério Semprônio Longo. Por coincidência, seus pais foram cônsules juntos durante a Segunda Guerra Púnica (218 a.C.). Durante seu mandato, o Senado decide que, na ausência de perigo iminente fora de seus domínios, os cônsules deveriam permanecer na Itália. Cipião se opõe ferozmente a esta decisão, declarando que "era iminente uma grande guerra contra Antíoco", da Síria selêucida, que havia recebido Aníbal como exilado. Mas o Senado ignora seus apelos e decreta o retorno do exército romano na Macedônia. Os acontecimentos posteriores confirmariam mais uma vez as previsões de Cipião[87]. Ao final de seu consulado, Cipião se retira para uma vida privada, algo raro numa época em que os ex-cônsules optavam geralmente pelo governo de uma província estrangeira[88].

Crise síria (192 - 188 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Ver artigos principais: Guerra romano-síria e Guerra Etólia

Antíoco III da Síria selêucida, depois de ter conquistado toda a Ásia Menor e invadido a Trácia, estava agora na Grécia, para onde havia sido convidado pelos etólios, inimigos dos romanos. Aníbal, exilado na Síria, havia proposto uma invasão da Itália, a única solução, em sua opinião, para derrotar Roma. Segundo seu plano, à frente de tropas fornecidas por Antíoco, ele próprio desembarcaria na África para sublevar os cartagineses. Em paralelo, Antíoco conquistaria a Grécia e se prepararia para invadir a Itália no momento mais oportuno. Ele ocupa Éfeso, mas perde tempo numa campanha estrategicamente inútil contra a Pisídia. Roma, exausta por anos de guerra, tentou resolver a questão diplomaticamente enviando uma embaixada a Éfeso que incluía Cipião Africano. Ali, os embaixadores romanos conversaram com Aníbal.

As palavras trocadas entre Cipião e Aníbal são famosas. Cipião perguntou quem era o maior general de todos os tempos e o cartaginês responde que foi Alexandre Magno. Cipião então lhe pede que indique o segundo melhor e Aníbal responde que foi Pirro. Insistindo, Cipião lhe pergunta quem teria sido o terceiro e finalmente Aníbal afirma que foi ele próprio. Então, Cipião lhe pergunta o que ele teria respondido se ele o tivesse derrotado em Zama e Aníbal responde que, neste caso, teria posto a si mesmo antes de Alexandre, antes de Pirro e antes de qualquer outro[89][90].

Sem conseguir nenhum resultado concreto no plano diplomático, Roma se preparou para a guerra. No ano seguinte (191 a.C.), foram eleitos cônsules Públio Cornélio, homônimo e primo de Cipião Africano, e Mânio Acílio Glabrião. Emissários foram enviados a Cartago e Numídia para comprar os cereais necessários para suprir as tropas que deveriam partir para a Grécia e, na ocasião, os cartagineses não apenas ofereceram os cereais como presentes, mas se ofereceram também para preparar, às suas custas, uma frota. Além disso, eles também se ofereceram para pagar diversas das parcelas anuais devidas pelos termos do tratado de paz. O espírito generoso dos cartagineses em relação às cláusulas do tratado de paz é a prova da sagacidade política de Cipião depois de Zama. Antíoco já havia conquistado toda a Grécia antes que os romanos pudessem intervir, mas não soube aproveitar da vantagem temporária sobre os romanos e, além disso, abandona o plano de Aníbal de uma expedição à África por que temia que, se Aníbal recebesse um papel operacional ativo, a opinião pública passaria a considerá-lo como o verdadeiro comandante. Assim, enquanto Antíoco perde tempo com inúteis ataques contra cidades da Tessália e com os prazeres de Cálcis, o exército romano, liderado pelo cônsul Mânio Acílio, tem todo o tempo que precisa para se preparar e desembarcar na Grécia. Derrotado na Batalha de Termópilas , Antíoco cruza de volta o mar Egeu[91]. Com um único golpe, os romanos expulsaram da Grécia o temido inimigo da Síria.

Antíoco III devolve o filho a Cipião Africano, um gesto que futuramente seria explorado pelos inimigos de Cipião como sendo um suborno.
Por Jean-Pierre Granger, na Ecole Nationale Supérieure des Beaux-Arts em Paris.

Com o objetivo de submeter Antíoco para evitar uma ameaça contínua à sua fronteira oriental, os romanos preparam uma invasão. Foram eleitos cônsules Lúcio, irmão de Cipião Africano, e Caio Lélio, fiel companheiro de armas de Cipião. Os dois queriam o comando na Grécia e a decisão final ficou para o Senado Romano. Como a decisão estava demorando demais, Cipião intervém afirmando que, se a Grécia fosse confiada a seu irmão, ele próprio marcharia com ele como legado[92]. A proposta foi aprovada imediatamente e unanimemente, o que revela mais uma vez suas características pessoais: o maior comandante militar da história romana se submeteria a um cargo subordinado em detrimento de honras ou triunfos.

Em 190 a.C., Cipião dedicou um arco, conhecido como Arco de Cipião Africano, hoje destruído, no Capitólio, perto do Templo de Júpiter Capitolino[93]. A expedição romana partiu nos idos de março do mesmo ano. A presença da frota de Antíoco em Éfeso e de uma outra na Fenícia, sob o comando de Aníbal, fez com que Cipião decidisse conduzir suas tropas na Ásia através da Macedônia e da Trácia. Em paralelo, o almirante Caio Lívio, filho de Marco Lívio Salinador, o vencedor da Batalha do Metauro, conquistou o domínio dos mares, derrotando primeiro a tropa de Aníbal na primeira (e última) batalha naval do general cartaginês, e, depois, a de Antíoco. As derrotas navais acabaram com as esperanças de Antíoco de conseguir defender suas possessões além do Dardanelos e, por isso, ele ordena que a Trácia seja evacuada e ordena a retirada de sua própria guarnição para Lisimáquia, cidade não muito distante da moderna Bulair e que, por conta de sua posição, podia facilmente resistir durante todo o inverno. Assim, quando o exército romano chegou ao Dardanelos, conseguiu atravessar sem encontrar quase nenhuma resistência[94]. Foi nesta campanha que as forças romanas pisaram na Ásia pela primeira vez[95].Contudo, depois da recusa da Assembleia de guerra romana às propostas de Antíoco, os embaixadores, seguindo às ordens que receberam, pedem um conversa privada com Cipião. A ele propõem a devolução de seu filho sem a necessidade do pagamento de um resgate, além de uma grande soma em dinheiro e o co-reinado se ele conseguisse a paz. Cipião recusa secamente as últimas duas propostas e, sobre a restituição de seu filho, afirma que, se Antíoco o tivesse feito, tratar-se-ia de um benefício privado a ser acertado pela gratidão privada: publicamente ele não aceitaria nada dele e nem dar-lhe-ia nada[96]. Apesar disto, este episódio será aproveitado depois pelos inimigos de Cipião logo depois do final da guerra.

A guerra prossegue, mas Cipião fica doente e é levado até Élida, na costa da Grécia. Ao saber disto, Antíoco liberta seu filho e Cipião aconselha sua delegação a não iniciar nenhuma batalha antes que ele pudesse voltar ao campo de batalha. Este conselho implicava que a vida de Antíoco seria salva se ele estivesse no comando das tropas[97]. Todavia, Antíoco, contando com um exército que era o dobro do tamanho do exército romano, inicia a Batalha de Magnésia (moderna Manisa), mas acabou derrotado. Apesar disto, a falta de Cipião foi sentida, pois foi apenas por causa da teimosia do tribuno militar que comandava as tropas romanos no flanco esquerdo que os romanos não foram completamente derrotados pela cavalaria de Antíoco, que conseguiu fugir, refugiando-se primeiro em Sárdis e, depois, na Apameia. As condições de paz impostas pelos romanos foram: Antíoco deveria retirar-se da cordilheira do Tauro, pagar as despesas da guerra e entregar Aníbal. Este, ao saber desta cláusula, fugiu para Creta. Considerando a situação desesperadora de Antíoco, eram condições moderadas e clementes. Através delas, como já havia feito na África, Cipião queria garantir o predomínio e a influência romana de maneira pacífica, sem a necessidade de uma anexação[98]. Em um só movimento, os romanos conquistaram a Ásia Menor e a Grécia Antiga.

De volta a Roma, Lúcio Cipião, "para não ser superador por seu irmão no sobrenome, passou a ser chamado de Asiático"[99]. Além disso, organizou um triunfo que, considerando a pompa, foi mais esplêndido que o de Cipião Africano sobre Cartago. A única recompensa deste por esta campanha foi sua nomeação, pela terceira vez, a príncipe do senado[100].

Declínio político e morte (188-183 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Processos dos Cipiões
Morte de Aníbal. Acredita-se tradicionalmente que Cipião e seu grande rival teriam morrido na mesma época. Aníbal se suicidou para não ser entregue por Antíoco III, do Império Selêucida, aos romanos.
1799. Gravura de Dambrun.

A vitória proporcionou a Roma não apenas imensas riquezas, mas também do domínio do mar Egeu. Cipião, porém, nada ganhou com a vitória. Ao retornarem a Roma, os dois irmãos foram vítimas de uma campanha difamatória com acusações de corrupção, especialmente contra Lúcio, por parte de seus adversários políticos, que estavam desapontados pelas condições brandas impostas na paz em Magnésia e bastante alarmados pelo poder, riqueza e influência dos irmãos sobre a população romana. Os dois foram formalmente acusados de se apropriarem das enormes riquezas de Antíoco III sem entregarem ao Erário público a sua parte devida.

Depois de ter reafirmado duramente seu relato afirmando que sua palavra deveria ser suficiente, Públio retirou-se para sua villa em Literno, na Campânia. Conta-se que foi nesta ocasião que teria dito uma de suas mais famosas frases, "Pátria ingrata, não terás sequer os meus ossos!". Em 183 a.C., muito doente, Públio morreu, aos cinquenta e dois anos, em Literno. Tradicionalmente acredita-se que sua morte tenha ocorrido na mesma época que, em Libissa, na margem oriental do mar de Mármara, teria se suicidado o seu grande inimigo Aníbal.

Túmulo de Cipião[editar | editar código-fonte]

Os arqueólogos ainda não conseguiram determinar onde foi sepultado Cipião Africano. A Tumba dos Cipiões foi descoberta e está aberta a visitação, mas não se acredita que Africano esteja lá. A possibilidade existe de que seus restos tenham sido levados para Roma e depositados ali em alguma cripta ainda não identificada. Lívio afirma que as estátuas de Cipião Africano, Lúcio Cipião e do poeta Ênio (amigo da família) estavam na Tumba quando ele a visitou, mas Sêneca[101], depois de se mudar para a villa em Literno que pertencia a Cipião, diz: "reverenciei seu espírito e um altar que estou inclinado a acreditar que é o túmulo do grande guerreiro". Isto sugere que se sabia que Cipião não estava enterrado em Roma e é possível que seu sarcófago de fato se pareça com um altar (embora não haja evidências disto), dado que o túmulo do fundador dos Cipiões, Lúcio Cornélio Cipião Barbato, que está no Tumba dos Cipiões, de fato se parece com um.

Fontes e análises[editar | editar código-fonte]

Fontes perdidas[editar | editar código-fonte]

Conta-se que Cipião teria escrito suas memórias em grego, mas elas se perderam (ou foram destruídas) juntamente com a história escrita por seu filho mais velho, Públio Cornélio Cipião, o pai adotivo de Cipião Emiliano. Como resultado, os relatos da época sobre sua vida, particularmente sua infância e juventude são praticamente inexistentes. Mesmo o relato de Plutarco sobre sua vida, que escreveu muito depois, se perdeu. O que restou são os relatos de seus feitos nas obras de Políbio, Lívio (que pouco fala sobre sua vida pessoal), suplementados pelas histórias de Apiano e Dião Cássio, além da anedota relatada por Valério Máximo. Destes, Políbio era o que estava mais próximo de Cipião Africano, na idade e nas conexões, mas sua narrativa pode ser enviesada por sua amizade com os parentes próximos de Cipião e pelo fato de que sua principal fonte de informação sobre ele foi um dos seus melhores amigos, Caio Lélio.

Historiadores antigos[editar | editar código-fonte]

Conta Lívio que:

Agia na maior parte das vezes declarando de imediato à multidão que o fazia a pedido ou de visões noturnas ou por inspiração divina, seja por que ele próprio possuía uma devoção às superstições, seja por que queria que seus comandos e recomendações fossem executados sem hesitação, como se fossem inspirados por um oráculo. Para isto ele, desde o princípio, preparou as mentes dos romanos, desde quando assumiu a toga viril, pois não realizava nenhum ato, público ou privado, sem antes visitar o Capitólio. Entrava no Templo de Júpiter, sentava-se sozinho meditando e saía logo em seguida. Este hábito, que manteve por toda a vida, criou a crença [...] que Cipião fosse da linhagem dos deuses.
 
Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 19.4-6[102].

Políbio, ao descrever seu caráter e seu comportamento, conta que ele:

[...] era o homem [romano] mais famoso que já existira [...], embora muitos tivessem deixado uma descrição dele que era tudo menos verdadeira[nota 3]. [...] Muitos historiadores o representaram como um homem afortunado, que teve sucesso na maior parte das ocasiões e sobretudo de maneira inesperada e fortuita.
 
Políbio, Histórias X, 2.2-5[103].

Ele afirma ainda que Cipião era uma pessoa extremamente pensativa e dotada de grande inteligência[104]. E acrescenta:

Na minha opinião, Públio tinha caráter e uma conduta muito similar à do legislador espartano Licurgo. [...] [Não devemos acreditar que] Públio entregou à sua própria pátria um império, como fez, guiado por sugestões de sonhos e presságios. Pelo contrário, uma vez que ambos acreditavam que a maior parte dos homens não aceitava com facilidade o que é extraordinário e teve a coragem de enfrentar os perigos sem o beneplácito dos deuses, [...]. Públio garantiu que os homens sob seu comando fossem os mais corajosos e prontos para enfrentar os riscos de uma guerra convencendo-os de que seus planos teriam sido inspirados pelos deuses.
 
Políbio, Histórias X, 2.2-5[105].

Políbio estava, porém, em desacordo com os historiadores que creditavam o sucesso de Públio, como a conquista de Nova Cartago, não tanto às suas próprias ações, mas sim ao favorecimento dos deuses e da Fortuna[106].

Historiografia[editar | editar código-fonte]

Capa de uma revista patriótica italiana representando a Itália com o "Elmo de Cipião", uma referência ao hino da Itália, que começa citando elmo de Cipião na cabeça da Itália ("Fratelli d'Italia, L'Italia s'è desta; Dell'elmo di Scipio S'è cinta la testa")

O outro grande protagonista da Segunda Guerra Púnica, além de Aníbal, a ter deixado sua marca nesta história é Cipião Africano, o primeiro comandante militar romano a ser homenageado com o nome de povo que conquistou. Conta-se que o entusiasmo do povo romano, depois de seu retorno a Roma da África, foi tão grande que o povo tentou aclamá-lo cônsul e ditador perpétuo, mas Cipião recusou[107]. Esta moderação que lhe valeu a admiração de Cícero, mas que não se confirmou em sua conduta política, que, apesar de respeitar formalmente as instituições republicanas, conseguiu eleger ao consulado sete membros de sua família, além de ter entre os senadores dois clientes, obtendo o controle quase total da política romana[108].

Por isso, os historiadores modernos o consideram como um dos primeiros a extrair ganhos para si e sua família de grandes atos políticos-militares, um precursor do cesarismo:

... apesar de suas afirmações em contrário, ele sempre se viu acima de Roma e, a despeito da aparente submissão às ordens do Senado na Hispânia, na Sicília, na África e na Ásia Menor, fez sempre segundo sua vontade, apelando ou ameaçando apelar demagogicamente ao fórum quando, nervoso, via frustrados seus planos.
 
E. V. Marmorale, Primus Caesarum[109].

Influência[editar | editar código-fonte]

Opinião dos romanos sobre Cipião[editar | editar código-fonte]

Cipião era um homem muito inteligente e culto, fluente em grego, língua que escolheu para escrever suas memórias, e ficou famoso por introduzir a moda do rosto barbeado entre os romanos seguindo o exemplo de Alexandre, o Grande. Esta moda masculina perduraria até a época do imperador romano Adriano e seria revivida novamente por Constantino, o Grande[110]. Ele também gostava de sua própria reputação como orador e considerava que o segredo de seu carisma era sua profunda auto-confiança e seu radiante senso de justiça[111].

Seu estilo de vida helenófilo (filelenismo) e sua forma pouco convencional de usar a toga, que provocou críticas entre os senadores romanos, como Catão, o Velho, que acreditava que a influência grega estava destruindo a cultura romana. Ele e seu aliado, Fábio Máximo, como questores de Cipião na Sicília em 204 a.C. para investigarem acusações de indisciplina militar, corrupção e outras acusações contra Cipião, mas nenhuma das acusações foi confirmada pelos tribunos da plebe que acompanharam Catão. É possível que este fato esteja relacionado ao fato de que Catão, como censor, anos depois, expulsou o irmão de Cipião Africano, Cipião Asiático, do Senado. É certamente verdadeiro que os romanos da época consideravam Catão (e Fábio) como representantes da velha guarda romana e Cipião e seus aliados como helenófilos[111].

Cultura[editar | editar código-fonte]

Dante o representa no Convivio, na Monarquia e no cântico do Inferno da Divina Comédia, como alguém que a divina providência havia transformado em um instrumento de seus próprio projeto de conferir a Roma o maior império do mundo. Cipião é também o herói de Petrarca no poema em latim "África", que reproduz a visão positiva de Lívio sobre o general romano. No célebre "O Príncipe", Maquiavel menciona Cipião no capítulo XVII, "Da Crueldade e da Piedade. Sobre se é melhor ser mais amado que temido ou mais temido que amado", descrevendo o general romano como uma figura muito complacente que havia concedido aos seus comandados "mais liberdades do que previa a disciplina militar". Esta mesma piedade, segundo Maquiavel, teria sido a causa da revolta de suas legiões na Hispânia e da falta de punição de seu comandado que o havia fraudado em Locri. Maquiavel afirma que a piedade, se utilizada em demasia, é uma qualidade danosa e que, no caso de Cipião, só foi motivo de prestígio e glória por que ele vivia sob a proteção do Senado. John Milton o mencionou no livro IX de "Paraíso Perdido", afirmando que ele e Alexandre, o Grande, que se auto-atribuíam uma origem divina, haviam sido gerados por Júpiter transformado em serpente, um tema abordado por Lívio[1][112].

A moderação de Cipião foi um motivo recorrente na literatura e na arte, onde era exaltada a sua clemência perante os vencidos[113][114].

Versões deste tema foram pintadas por muitos artistas, do Renascimento até o final do século XIX, entre eles Andrea Mantegna ("Introdução do culto de Cibele em Roma") e Nicolas Poussin.

Cipião Africano foi o protagonista de uma série de óperas musicais, como as de George Frideric Handel[115] e Carlo Francesco Pollarolo. Seu cesarismo atraiu também o interesse do ditador italiano Benito Mussolini que, pouco antes de invadir a Etiópia, encomendou um filme épico colossal que contasse os grandes feitos dele na África. Carmine Gallone foi escolhido para dirigir "Scipione l'africano", que foi premiado em 1937 na 5ª edição do Festival de Veneza com a Coppa Mussolini, como era então chamado o prêmio de melhor filme.

Em 1971, Luigi Magni escreveu e dirigiu o filme "Scipione detto anche l'Africano", estrelado por Marcello Mastroianni (Cipião), Silvana Mangano (sua mulher, Emília Tércia), Ruggero Mastroianni (seu irmão, Cipião Asiático), Vittorio Gassman (Catão, o Censor) e Woody Strode, no qual os eventos do Processo dos Cipiões foram retratados de forma satírica com algumas referências intencionais aos eventos políticos da época em que foi filmado.

Cipião é citado na letra do hino da Itália, "Il Canto degli Italiani", na estrofe "l'Italia s'è desta, dell'elmo di Scipio s'è cinta la testa" ("A Itália despertou com o elmo de Cipião na cabeça"). A referência foi obra de Goffredo Mameli com um significado em mente: a Itália tem de novo na cabeça o elmo de Cipião Africano, que derrotou Aníbal e os cartagineses. A Itália, portanto, retornou para lutar para conseguir a liberdade e permanecer unida; assim como Cipião havia, no final, liberado o antigo solo italiano dos cartagineses, a nova Itália acordará para expulsar o novo invasor.

Árvore genealógica[editar | editar código-fonte]

Cipião casou-se com Emília Paula Tércia, filha de Lúcio Emílio Paulo, e teve quatro filhos:

Ver também[editar | editar código-fonte]

Cônsul da República Romana
SPQR.svg
Precedido por:
Quinto Cecílio Metelo
com Lúcio Vetúrio Filão



Públio Licínio Crasso Dives
205 a.C.

com Cipião Africano





Sucedido por:
Marco Cornélio Cetego
com Públio Semprônio Tuditano



Precedido por:
Marco Pórcio Catão
com Marco Cláudio Marcelo



Tibério Semprônio Longo
194 a.C.

com Cipião Africano II





Sucedido por:
Lúcio Cornélio Merula
com Quinto Minúcio Termo




Notas[editar | editar código-fonte]

  1. P·CORNELIVS·P·F·L·N·SCIPIO·AFRICANVS significa Publius Cornelius Publii filius Lucii nepos Scipio Africanus, "Públio Cornélio Cipião Africano, filho de Públio, neto de Lúcio".
  2. O relato de Lívio é inconsistente neste ponto, pois ele nomeia um tribuno chamado "Lúcio" neste episódio, mas afirma que foi um "Marco" a ser julgado e condenado por "covardia" pelos censores em 214 a.C.
  3. Neste ponto, é possível que Políbio estivesse fazendo uma referência ao historiador Sileno, criticando a opinião que ele tinha sobre Cipião.

Referências

  1. a b Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 19.7.
  2. Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 46
  3. Políbio, Histórias X, 3.3-4.
  4. Políbio, Histórias X, 3.4-6.
  5. Liddell Hart 1987, p. 1.
  6. Políbio, Histórias X, 3.7.
  7. Lívio, Ab Urbe Condita XXII, 44.
  8. Políbio, Histórias III, 116, 9.
  9. Políbio, Histórias III, 116, 11.
  10. a b Eutrópio, Breviarium ab Urbe condita, III, 10.
  11. a b Lívio, Ab Urbe Condita XXII, 49.
  12. Políbio, Histórias III, 117, 3.
  13. Políbio, Histórias III, 116, 13.
  14. Lívio, Ab Urbe Condita Epit. 22.11.
  15. Liddell Hart 1987, p. 3.
  16. Lívio, Ab Urbe Condita Epit. 22.11
  17. Liddell Hart 1987, p. 3.
  18. a b Lívio, Ab Urbe Condita Epit. 25.1.
  19. a b c Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 2.6.
  20. Políbio, Histórias X, 4.3-6.
  21. Políbio, Histórias X, 5.1-4.
  22. Liddell Hart 1987, pp. 4-6
  23. Políbio, Histórias X, 5.5-8.
  24. Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 2.7.
  25. Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 2.7.
  26. Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 2.8.
  27. Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 33-36.
  28. Lívio, Ab Urbe Condita XXV, 37-39.
  29. Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 17.1.
  30. Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 18.1-3.
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  32. Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 18.6-9.
  33. Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 19.10-11.
  34. Liddell Hart 1987, p. 12.
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  40. Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 41.1-2.
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  43. Políbio, Histórias X, 6.3-4}} e Políbio, Histórias X, 7.1-3.
  44. Políbio, Histórias X, 6.5-6 e 7.6-7.
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  46. Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 42.1-3.
  47. Políbio, Histórias X, X, 6.8-12.
  48. Políbio, Histórias X, 9.1.
  49. Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 42.5
  50. Políbio, Histórias X, 9.4.
  51. Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 42.6
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  53. Políbio, Histórias X, 10-15
  54. Liddell Hart 1987, pp. 21-24.
  55. Políbio, Histórias X, 17.9-10.
  56. Políbio, Histórias X, 17.11-12.
  57. Políbio, Histórias X, 17.14-15.
  58. Políbio, Histórias X, 19.3-7.
  59. Políbio, Histórias X, 16-20
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  62. T. Mommsen, Storia di Roma antica, vol. I, tomo 2, pp. 785-786.
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  65. Liddell Hart 1987, p. 61.
  66. Unknown. "240 – 20 BC Punic Wars and Roman conquest of Hispania" aqui
  67. Lívio, Ab Urbe Condita Epit. 23.10 e 28.10.
  68. Liddell Hart 1987, pp. 91-95.
  69. Liddell Hart 1987, pp. 96-98.
  70. Liddell Hart 1987, p. 103.
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  101. Sêneca, Epist. 86.1
  102. Lívio, Ab Urbe Condita XXVI, 19.4-6.
  103. Políbio, Histórias X, 2.2-5.
  104. Políbio, Histórias X, 2.7.
  105. Políbio, Histórias X, 2.8-10.
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  107. Basil H. Liddell Hart, Scipione Africano, Milano, RCS Lbri, 2006, p. 134-135
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  109. E. V. Marmorale, Primus Caesarum, «GIF» 19, 1966 p.12
  110. «Barba – NumisWiki, The Collaborative Numismatics Project» (em inglês). Forumancientcoins.com. 
  111. a b Liddell Hart 1987, p. 2–10, 24, 25, 200–207
  112. Milton, Op.cit, v.12 e sgg.
  113. Giulio Licinio | The Continence of Scipio | NG643.2 | The National Gallery, London
  114. Raffaello, Il sogno di Scipione, The National Gallery, London
  115. «Scipione» (em italiano). Handel house.org. .

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Cipião Africano

Fontes primárias[editar | editar código-fonte]

Fontes secundárias[editar | editar código-fonte]

  • Broughton, T. Robert S. (1951). The Magistrates of the Roman Republic. Volume I, 509 B.C. - 100 B.C. (em inglês). I, número XV (Nova Iorque: The American Philological Association). p. 578. 
  • Briscoe, John, Livy and Polybius. In Wolfgang Schuller (Hrsg.), Livius - Aspekte seines Werkes, Konstanz, 1993.
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