Godos da Escandinávia

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A Suécia no século XII
  Gotas (Götar)
  Suíones (Svear)
  Gutas (Gutar)

Os Godos da Escandinávia, conhecidos como Götar (em sueco: Götar ou Göter, PRONÚNCIA APROXIMADA iêtar ou iêter; APORTUGUESADO: Gotas; em nórdico antigo: Gautar; em germânico comum: gautoz*) foram uma tribo germânica, composta por uma amálgama de grupos e clãs com diversos líderes, que habitou parte da atual Gotalândia, na Suécia. Tinham como base territorial a bacia do rio Gota e as províncias históricas da Gotalândia Ocidental, da Gotalândia Oriental e da Varmlândia. Ligados e separados pelo Lago Veter, foi entre os Gotas que se desenvolveram inicialmente as instituições monárquicas, clericais e administrativas da futura Suécia.[1] [2] [3] [4] [5]

O nome[editar | editar código-fonte]

A historiografia moderna sueca vê o termo proto-histórico Götar como uma designação dos antigos habitantes das províncias históricas suecas da Gotalândia Ocidental, Gotalândia Oriental, e até da Dalslândia e da Varmlândia. Mais do que uma eventual identidade étnica histórica comum, o termo poderia indicar grupos populacionais dispersos, organizados em clãs, na região à volta do rio Gota (Göta älv). Os nomes götar, göter, gautar, gutar e goter podem ter uma raiz comum germânica, significando "os homens". Como comparação, o nome do outro povo da Suécia - os Svear - poderiam significar inicialmente "os próprios".[6] [7] [8] [9]

Gotas e Godos[editar | editar código-fonte]

Apesar da semelhança das palavras, não há motivos históricos comprovados para associar os Gotas da Suécia aos Godos da Europa Continental (em gótico: Gut-þiuda). Um ou outro grupo da Escandinávia pode ter feito parte dos exércitos dos godos, mas que os Godos como povo ou "comunidade de povos" tivesse uma origem na Escandinávia parece ser uma ideia sem suficiente fundamento histórico.[10][11][12][13][14][15][16][17][18]

Por consequência, não há evidência histórica, arqueológica ou linguística que sustente a ideia dos Godos da Escandinávia. Designar os Gotas por "Godos da Escandinávia" não tem o apoio da maioria dos historiadores suecos atuais. [19][20]

Há todavia um mito cultivado desde a Idade Média até ao século XIX, desenvolvido pelo movimento cultural patriótico do Goticismo, segundo o qual os Godos seriam originários da região histórica da Gotalândia e da ilha da Gotlândia.[10][19][21][22]

Gotas e Geatas[editar | editar código-fonte]

Igualmente, foi objeto de mito a biografia fantasiosa do lendário rei Beowulf, protagonista do poema anglo-saxão homônimo. Nesta obra de ficção, Beowulf é apresentado como membro da tribo dos Geatas (em anglo-saxão Geátas; PRONÚNCIA APROXIMADA yeats ou yay-ahts), um povo de marinheiros, de difícil identificação, fazendo lembrar os Jutos da Dinamarca, os Gutas da ilha da Gotlândia, ou os olandeses da ilha da Olândia, mas não os continentais Gotas da Gotalândia na Suécia. [23]

Diferentes teorias propõem que estes Geatas poderiam ter sido os Jutos (ou mesmo os Danos) da Dinamarca, os Gotas da Gotalândia na Suécia (tanto Gotas Ocidentais - Västgötas, como Gotas Orientais - Östgötas), os Gutas da ilha da Gotlândia, os olandeses da ilha da Olândia, ou até mesmo os Getas da Europa Oriental. Não há uma resposta a esta questão, mas não seria impossível que o autor inglês, não conhecendo muito bem a geografia e os povos da Escandinávia, tivesse criado um personagem, de um povo inventado, numa região inventada, embora com bastantes semelhanças com a Escandinávia.[24][25]

Os Gotas, os Suíones e a Suécia[editar | editar código-fonte]

O significado dos termos gotas e suíones (svear) variou através dos tempos e das fontes referenciais. Tanto podiam designar vagamente comunidades étnicas e linguísticas, como clãs de líderes dominantes, como ainda todos os habitantes daquilo que mais tarde recebeu o nome de Suécia. Igualmente, está rodeado de incertezas o relacionamento destes grupos com os termos usados por viajantes e cronistas estrangeiros. O cenário desta épocas era protagonizado por uma série de pequenos reinos, com autonomias e dependências variadas, evoluindo à mercê de poderios e alianças militares variáveis e instáveis. [26] [27]

Não se sabe como foi o processo de unificação entre os suíones e os Gotas, pois não há documentos contemporâneos e as fontes históricas existentes são tardias e estrangeiras. Antigamente pensava-se que o processo tinha sido violento, caracterizado por hostilidades entre os dois povos. Hoje em dia, os historiadores inclinam-se para uma integração fundamentalmente pacífica, com um ou outro conflito armado, mas principalmente através de relações comerciais e casamentos, e através da introdução do cristianismo e da cultura medieval europeia na região.[28]

Quando e como teve lugar a fundação do estado sueco, quem foi o primeiro rei, são duas perguntas sem resposta definitiva, embora haja opiniões e conjeturas mais ou menos fundamentadas.[29][30][31]

História[editar | editar código-fonte]

Referências históricas aos Gotas[editar | editar código-fonte]

  • O naturalista romano Plínio, o Velho, menciona na História Natural do século I, escrita em latim, um povo designado pelo termo latino Gutones.[32]
  • O historiador romano Tácito, na sua obra Germânia no século I, refere os Godos pelo termo Gotones.[33][34]
  • O geógrafo grego Ptolemeu, no século II, cita na sua obra Geografia, escrita em grego, um povo da Escandinávia pelo termo grego Goutai.[35][36][37]
  • O historiador bizantino Procópio, no século VI, cita pelo termo grego Gautoi, o povo mais numeroso da ilha de Thule - talvez a Escandinávia, e localiza-os no sul da ilha. [38][39][40]
  • O historiador bizantino Jordanes, no século VI, escreve na sua obra Gética que havia 28 tribos, algures na Escandinávia, entre os quais os Gauthigoth, os Ostrogoth e os Vagoth, possivelmente com conotação aos gotas ocidentais (habitantes da Gotalândia Ocidental), gotas orientais (habitantes da Gotalândia Oriental) e gutas (habitantes da ilha da Gotlândia), e hipoteticamente correspondendo a três povos chamados gautigodos (Gautigoth), ostrogodos (Ostrogothae) e valagodos (Vagoth).[41][42]
  • O historiador alemão Adão de Brema, no século XI, na sua obra Gesta Hammaburgensis Ecclesiae Pontificum, diz que os gotas vivem junto ao rio Gota, e que eles são cristãos, ao contrário dos suíones. Além disto, Adam refere a povoação de Skara na Gotalândia Ocidental. [43]
  • O historiador dinamarquês Saxão Gramático, no século XII, escreve sobre os gotas da Gotalândia e sobre o rei dos gotas, na sua obra Feitos dos Danos. [44]

Gotalândia - A Terra dos Gotas[editar | editar código-fonte]

Embora de impossível demarcação a partir das referências históricas, podemos concluir que os Gotas viviam no interior da Gotalândia - as terras em redor do rio Gota, tanto na Gotalândia Ocidental como na Gotalândia Oriental, e possivelmente em outras zonas adjacentes da Varmlândia, Dalslândia e Esmolândia. [45] [46]

Não há notícia de ter havido uma unidade política na Gotalândia. Enquanto que Pontus Fahlbeck pensa que nunca houve uma união entre a Gotalândia Ocidental e Gotalândia Oriental, Knut Stjerna julga que o reino dos Gotas incluía as duas regiões. Na Idade Média havia duas leis provinciais distintas - a Lei da Gotalândia Ocidental e a Lei da Gotalândia Oriental, e duas dioceses distintas - em Skara e em Linköping. [47]

Era dos viquingues[editar | editar código-fonte]

No início da Era dos viquingues, os gotas estavam confinados ao interior da Gotalândia, particularmente à região situada entre os lagos Veter e Vener, sem terem acesso ao mar devido à presença dos Danos na faixa costeira.[48]

No Heimskringla, Snorri Sturluson descreve diversas batalhas ocorridas durante o século IX entre os Gotas e os noruegueses, comandados pelo rei Haroldo. [49] Na batalha de Hafsfjorden,[50] Haroldo derrotou Érico IV, lendário rei dos Suíones [nota 1], que parecia ter a intenção de conquistar a província norueguesa de Viken, depois de ter submetido a Varmlândia, a Gotalândia Ocidental e a Bohuslän. [51]

Ele também escreveu sobre a expedição do rei norueguês Haakon, o Bom à Dinamarca e à Gotalândia, na batalha de Haroldo I da Dinamarca contra o Conde Otaro [nota 2] de Gotalândia Oriental [nota 3] e as batalhas de o Olavo II da Noruega, o Santo, contra os Godos durante a guerra contra Olavo, o Tesoureiro (995-1022).

Idade Média[editar | editar código-fonte]

Os Gotas viviam, tradicionalmente, divididos em pequenos reinos sem importância, que tinham suas próprias assembleias populares independentes e suas leis. O maior desses distritos era Gotalândia Ocidental (Västergötland), e que era onde deu-se o maior dos redutos ou centros de reuniões dos Gootas, que tinha seu corpo de decisão, formado dentre os cidadãos, renovado a cada ano em Skara.

Ao contrário dos Suíones (svear), que se organizaram em centenas, os Gotas se dividiam, a exemplo dos noruegueses e dinamarqueses, em pequenos grupos. Surpreendentemente, ele seria (o nome "Geat") que se tornaria comum no reino sueco. Esta possibilidade é relacionada com o fato de que vários reis suecos na idade média, provinha, dos Godos e que viviam, por vezes, principalmente em Gotalândia.

No século XI, a dinastia sueca Casa de Munsö foi extinta com Emundo, o Velho. Surgiu a Casa de Estenquilo com a eleição de Estenquilo, um Geat, Rei da Suécia, os Godos tornam-se então um grupo ainda mais influente no reino nascente da Suécia, agora como um reino cristão. No entanto, esta eleição mergulhou o reino em conflitos entre cristãos e pagãos, entre Godos e Suíones. Os Godos tendiam cada vez mais para o cristianismo, e os suíones pendiam para o retorno ao paganismo, isto se dava porque o rei cristão Ingo I da Suécia fugiu para Gotalândia Ocidental, quando ele foi derrubado e substituído no trono por Sueno I, um rei mais favorável o paganismo nórdico, no início de 1080. Inge I retornou para retomar o trono e reinou até à sua morte por volta de 1100.

Os Godos não foram tratados como iguais pelos Suíones. Em seu Feitos dos Danos (livro 13), do século XII, o cronista dinamarquês Saxão Gramático relata que eles não foram levados em conta ao escolher um rei, apenas os Suíones foram quem o escolheram. Quando a Lei da Gotalândia Ocidental (Västgötalagen) foi transcrita para o papel no século XIII, fora recordado que os Godos haviam aceitado a eleição dos Suíones conforme mencionado na Pedra de Mora. [nota 4]

A distinção entre Godos e Suíones foi mantida durante Idade Média, mas os Godos passaram a ter uma crescente importância nas reivindicações de grandeza nacional no Reino Sueco, motivada, supostamente, pela antiga conexão dos Godos da Escandinávia com os godos. Acredita-se, historicamente, que godos e os godos da Escandinávia tinham uma mesma tribo originária, e os godos da Escandinávia faziam parte do Reino da Suécia, isto significa que os suecos tinham derrotado o Império Romano. A primeira menção desta avaliação surgiu no Concílio de Basileia, em 1434, durante o qual, a delegação sueca discutiu com os espanhóis sobre quem, entre eles eram os autênticos godos. Os espanhóis argumentaram que era melhor ser descendente dos visigodos que de seus parentes que permaneceram na Escandinávia.

Idade Moderna[editar | editar código-fonte]

Após o século XV e a União de Calmar, os Godos e Suíones começaram a se ver [em conjunto] como uma nação, o que se refletiu no uso de "svensk" como um topônimo comum e que tornou-se, originalmente, um adjetivo usado para se referir àqueles pertencentes às tribos suecas, que se autodenominavam swear. [nota 5] . Desde o início de seu emprego no século IX, o termo "swear” (jurar) era impreciso já que era usado quando em referência às tribos suecas originais e às vezes era empregado como um termo coletivo com o qual se incluía também os Godos, e neste último caso, no trabalho de Adão de Brema, os Godos aparecem como uma nação própria, a qual fazia parte do reino sueco.

No entanto, a assimilação das duas nações levou um longo tempo. No início do século XX, a enciclopédia “Nordisk familjebok” mencionava que a palavra "svensk" havia quase substituído a palavra "Svear" usada para nomear o povo sueco.

Informações contíguas[editar | editar código-fonte]

Sobre a tradução do poema épico Beowulf, os Godos foram confundidos, em vários momentos, com os jutos da Dinamarca. Embora o mesmo poema faz uma distinção entre os jutos aos quais Beowulf ia acudir, na primeira parte [do poema] e os Godos. Destes últimos [os Godos] era originário o herói épico e a eles se encontra ele governando, na segunda parte do poema, quando enfrenta um dragão.

O parafonia entre Godos, godos (guter, Gotar, göttar) e jutos (juther, Jyl (lander).) e a contiguidade dos primeiros territórios que estes grupos étnicos habitaram na Escandinávia, assim como a filologia de suas respectivas línguas, assinalam uma clara proximidade e uma provável origem comum, antes das invasões bárbaras que ocorreram entre os séculos III e V. 

Vínculo entre gotas, gutas e godos[editar | editar código-fonte]

Diferentes opiniões imperam entre historiadores, arqueólogos e linguistas sobre se há ou não um vínculo entre os Gotas, os Gutas e os Godos. [52][53]

A primeira referência histórica aos Godos (goter) é feita na obra Germânia do historiador romano Tácito, no século I, que os coloca na região do Vístula na atual Polónia. [54]

400 anos mais tarde, o historiador bizantino Jordanes afirma na sua obra Gética, datada do século VI, que os Godos (goter) eram originários da Scandza, uma ilha do Mar Báltico ao norte do rio Vístula na Polónia - referindo-se talvez à ilha da Gotlândia ou à região da Gotalândia da Península Escandinava. [55][56][57][58]

O documento medieval gotlandês Saga dos Gutas – redigido no século XIII, conta que um terço da população da Gotlândia migrou para o sul numa época distante e remota.[59]

Num documento medieval islandês - SÖGUBROT AF NOKKRUM FORNKONUNGUM Í DANA OK SVÍAVELDI - são designados de gotas os habitantes da Gotlândia, e igualmente de gotas os Godos da Europa Continental. [60]

O historiador sueco contemporâneo Dick Harrison afirma na História da Suécia: Idade Média (Sveriges Historia) publicada em 2009, que não há nenhuma conexão historicamente comprovada entre os Godos e os suecos antigos, sendo "este mito impossível de verificar". [61]

Lars Gahrn, historiador sueco, afirma, em 1988, na sua obra O Reino dos Suíones, fontes e descrição histórica (Sveariket i källor och historieskrivning), que considera "muito fraca a motivação de uma migração dos Godos da Escandinávia para a Polónia". [62]

O investigador sueco Tore Janson constata no seu livro Os Germanos (Germanerna) que, apesar dos esforços feitos, não foram encontrados vínculos históricos ou arqueológicos entre Godos e Gotas. [63][64]

O germanista sueco Lars Hermodsson considera, no seu livro Os Godos (Goterna) que não há motivos históricos comprovados para associar os gotas da Suécia aos godos da Europa Continental. [65]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Portal A Wikipédia tem o portal:
  • Cultura germânica primitiva

Notas

  1. Érico Filho de Eimundo, Érico Filho de Anundo, Érico Filho de Emundo ou Érico Chapéu de Ventos?) (fins de 800, Possivelmente morto em 882). Filho de Emundo Filho de Érico, neto de Érico Filho de Refil, bisneto de Refil Filho de Biorno, trineto de Biorno Flanco de Ferro e pai de Biorno III da Suécia.
  2. Jarl Ottar ou Ottar Jarl (-? 970) foi um jarl (conde) de Gotalândia que aparece no Heimskringla (a Saga de Olavo Tryggvasson) e na Jomsviking saga, nesta última é dito que Ottar foi o avô materno do Jomsviking, Palnetoke. No Heimskringla, Snorri Sturluson relata que Haakon Sigurdsson, durante um ataque a Gotalândia, a mando de Haroldo Dente-Azul, matou o conde Otar.
  3. Gotalândia Oriental é uma província histórica (sueco: landskap) da Suécia localizada na antiga nação de Gotalândia.
  4. “Sveær egho em taka ok sva konong vrækæ”", o que significa dizer "“São os Suíones os que têm o direito de eleger e depor o rei.”", possivelmente no sentido de que os Suíones (svear) tinham direito de veto, numa altura em que os reis eleitos tinham curiosamente as suas raízes na "Terra dos Gotas" (Gotalândia).
  5. Que significa jurar em sueco

Referências

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  63. JANSON, Tore (2013). «Myten». Germanerna. Myten – Historien - Språken (em sueco). Estocolmo: Norstedts. p. 23. 239 páginas. ISBN 9789113032863 
  64. JANSON, Tore (2013). «Historien». Germanerna. Myten – Historien - Språken (em sueco). Estocolmo: Norstedts. p. 54. 239 páginas. ISBN 9789113032863 
  65. Lars Hermodsson (1993). «Om goternas urhem». Goterna: Ett krigarfolk och dess Bibel (em sueco). Estocolmo: Atlantis. pp. 23–26. ISBN 91-7486-060-7 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • MELIN, Jan; JOHANSSON, Alf; HEDENBORG, Susanna (2006). «Järnålder». Sveriges historia: koncentrerad uppslagsbok - fakta, årtal, kartor, tabeller (em sueco). Estocolmo: Prisma. pp. 38, 54. ISBN 91-518-4666-7 
  •  Larsson, Mats G (2002). Götarnas Riken: Upptäcktsfärder Till Sveriges Enande. Bokförlaget Atlantis AB ISBN 978-91-7486-641-4 (em alemão)
  •  Jordanes, De origem actibusque Getarum (em latim)
  •  PT Setälä: Sampo Mistério (1932)
  •  SKS: origem finlandesa de palavras (2000)