Afonso VI de Leão e Castela

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Afonso VI
Rei de Leão, Castela, Toledo e Galiza,
Imperador de toda a Hispânia
AlfonsoVI of Castile.jpg
Imagem do século XII na
Catedral de Santiago de Compostela
Governo
Reinado Leão (1065-1072 e 1072-1109)
Castela (1072-1109)
Galiza (1073-1109)
Consorte Inês da Aquitânia
Constança de Borgonha
Berta de Borgonha
Isabel (Zaida de Sevilha?)
Beatriz (da Aquitânia?)
Antecessor Fernando I de Leão e Castela
Sucessor Urraca de Leão e Castela
Dinastia Navarra
Títulos Rei de Toledo (1085-1109)
Imperador de toda a Hispânia
Vida
Nascimento 1047[1]
Morte 1 de Julho de 1109 (62 anos)
Toledo, Espanha
Sepultamento Mosteiro de Sahagún, Espanha
Filhos Ver descendência
Pai Fernando I de Leão e Castela
Mãe Sancha I de Leão

Afonso VI de Leão e Castela o Bravo (1047[2] [a]1 de Julho de 1109) foi, até à sua morte, rei de Leão desde 27 de Dezembro de 1065,[3] rei de Castela desde 6 de Outubro de 1072, rei da Galiza desde 1073, intitulado Imperator totius Hispaniæ (imperador de toda Hispânia) desde 1077 e rei de Toledo desde 1085.

Herança de Fernando I[editar | editar código-fonte]

Em Dezembro de 1063, o rei Fernando Magno reuniu os magnatas e bispos na cidade de Leão e anunciou que, para evitar a discórdia entre seus filhos depois de sua morte, tinha decidido dividir o reino entre os três filhos: Sancho, Alfonso e Garcia:[4]

Desde cedo no seu reinado, à 27 de Dezembro de 1065, o dia da morte de seu pai,[3] Afonso VI teve que lutar contra os desejos expansionistas do seu irmão Sancho. Assim que a rainha mãe morreu em 1067, este disputou o testamento do pai e tentou apoderar-se dos territórios herdados pelos seus irmãos. Garcia foi o primeiro a ceder (1071), devido ao acordo dos dois irmãos mais velhos em repartir o seu reino. Mas pouco depois estes enfrentaram-se e Afonso foi feito prisioneiro de Sancho, que assumiu também a coroa leonesa.

Estátua de El Cid na cidade Burgos

Depois de encarcerado em Burgos, fugiu para se refugiar no reino taifa de Toledo de Al-Mamun. Mas ainda no mesmo ano Sancho II de Castela seria assassinado por um nobre de Zamora, sem deixar herdeiro, o que permitiu Afonso recuperar Castela e assumir a coroa de Leão, e Garcia recuperar a Galiza.

A suspeita de participação de Afonso na conspiração para matar Sancho ficou presente no imaginário da época, melhor representada na lenda das Juras de Santa Gadea e na canção de gesta Cantar de mío Cid. Contam estas que Rodrigo Díaz de Vivar obrigou Afonso a jurar a sua inocência no assassinato, na igreja de Santa Gadea em Burgos. Em represália a esta afronta, o futuro imperador desterraria El Cid dos seus reinos.

Em 1073, Garcia foi novamente deposto por Afonso e encarcerado no castelo de Luna, onde morreria em 1090. Afonso VI apoderava-se assim de toda a herança do pai.

Reinado[editar | editar código-fonte]

Em 1076, depois da morte do monarca Sancho Garcés IV de Pamplona, anexou Álava, Biscaia, Guipúzcoa e La Bureba. E a partir de 1077 intitulou-se Imperator totius Hispaniæ (Imperador de toda a Hispânia), recuperado da tradição visigótica.

Mas os esforços de expansão territorial do rei estavam agora centrados na reconquista de terras aos mouros, combinando a pressão militar e a extorsão económica. Usando o sistema de parias (imposto de não-agressão pago pelos pequenos reinos muçulmanos aos mais poderosos reinos cristãos), conseguiu que a maior parte dos reinos de taifas de Al-Andaluz se tornassem seus tributários.

Estátua de D. Urraca de Leão e Castela no passeio das estátuas do Retiro de Madrid

Em 1085, aproveitando o pedido de ajuda do rei taifa de Toledo contra um usurpador, sitiou esta cidade e aceitou a sua rendição a 25 de Maio. Depois desta vitória, passou a intitular-se imperador das duas religiões. A ocupação do reino de Toledo significou a inclusão do território entre o Sistema montanhoso central da Península Ibérica e o rio Tejo no seu reino. Desta forma, pôde iniciar uma grande actividade militar contra as taifas de Córdoba, Sevilha, Badajoz e Granada.

Nestas circunstâncias, os reis das taifas decidiram pedir ajuda ao novo poder berber dos almorávidas. O emir Yusuf ibn Tashfin atravessou o estreito de Gibraltar e venceu Alfonso VI na batalha de Zalaca, perto de Badajoz. Os mouros ainda cercaram Toledo, mas não lhes foi possível tomar a cidade. Nos últimos anos do seu reinado, Afonso tentou sem sucesso impedir a consolidação da dinastia almorávida em Andaluzia. Ocuparam as taifas do sul da Espanha e a Taifa de Dénia e impuseram-lhe uma nova derrota na batalha de Uclés (1108), onde morreria Sancho Alfónsez, o seu único filho varão. A coroa passaria assim para as mãos da sua filha Urraca, enquanto que Teresa, herdaria o Condado Portucalense.

Quando morreu, em 1 de Julho de 1109 na cidade de Toledo, foi enterrado no Mosteiro beneditino de Sahagún, vila muito apreciada pelo monarca, à qual concedera certos privilégios pelo Foral de Sahagún, conseguindo mais tarde fundar a sua própria universidade.

Mapa da reconquista, mostrando a Al-Andalus dos Almorávidas, os reinos de Portugal (P), Leão (L) Castela (C), Navarra (N), Aragão (A) e o condado de Barcelona

Afonso VI, o conquistador de Toledo e grande monarca europeizador, viu nos últimos anos do seu reinado como a grande obra política realizada podia ser arruinada frente ao impulso almorávida e às debilidades internas. Tinha assumido plenamente a ideia imperial leonesa e a sua abertura à influência europeia permitiu-lhe conhecer as práticas políticas feudais que, na França desse tempo, estavam no auge.

Na conjunção destes elementos, está segundo o historiador Claudio Sánchez-Albornoz a explicação da concessão iure hereditario - anómala na tradição histórica castelhano-leonesa - dos governos da Galiza e de Portugal aos seus dois genros borgonheses, Raimundo e Henrique. Dessa decisão resultaria alguns anos depois a independência de Portugal e a perspectiva de uma Galiza independente sob Afonso Raimundes, que não chegou a realizar-se devido a este ter sido coroado Afonso VII de Castela e Leão.

Cultura, religião e lenda[editar | editar código-fonte]

Afonso VI foi uma figura emblemática da renomada convivência (de culturas e religiões) de Toledo. Assegurava protecção a muçulmanos, judeus e moçárabes, mas também não se inibia de os taxar ou oprimir se tal servisse um propósito político. Por outro lado era permeável a influências árabes. Cunhou moeda com inscrições em letras árabes e acolheu na sua corte e na sua cama a princesa muçulmana Zaida, refugiada de Sevilha.

Página da canção de gesta Cantar de mío Cid

Na canção de gesta Cantar de mío Cid, ele tem o papel atribuído aos poetas medievais aos grandes reis, e ao próprio Carlos Magno. É alternadamente opressor e vítima de nobres heróicos e determinados — os tipos idealizados dos patronos para quem os trovadores compunham as suas obras. É o herói de uma canção de gesta que, como quase todas as deste período da Espanha, só sobreviveu nos fragmentos incorporados na crónica de Afonso o Sábio ou em forma de balada.

A sua fuga do mosteiro de Sahagún, onde o seu irmão o encarcerara, a sua amizade cavaleiresca para com o seu anfitrião Al-Mamun de Toledo, cavaleiro ainda que mouro, a lealdade apaixonada do seu vassalo Pedro Ansúrez, e o seu amor fraternal pela irmã Urraca de Zamora, poderão ser criações do poeta que o fez herói do seu canto. O reverso da medalha fôra o canto que representava o rei submetido ao juramento degradante sob Rodrigo Díaz de Vivar para negar a sua intervenção na morte do irmão, e depois perseguido o homem corajoso que o desafiara.

Descontando o lirismo, Afonso VI fica com uma imagem de homem forte, um rei dedicado à lei e ordem, e o líder de uma nação na reconquista. Foi visto pelos mouros como um inimigo aguerrido e astuto, mas fiel à sua palavra. Uma história de origem muçulmana, com provavelmente tanta validade como a do juramento na igreja de Santa Gadea, conta como deixou "enganar" por Ibn Ammar, o favorito de Al-Mutamid, o rei taifa de Sevilha. A jogar xadrez, fizeram uma aposta: se o rei ganhasse, ficaria com o belo tabuleiro e as ricas peças, que pertenciam a Ibn Ammar. Mas se este vencesse, nomearia o seu prémio. Venceu e pediu que o rei cristão poupasse Sevilha. Afonso manteve a sua palavra.

Independentemente do que possa ser verdade nas histórias românticas de cristãos e muçulmanos, é sabido que Afonso representou, de uma forma marcante, essas duas grandes influências no carácter e na civilização da Espanha.

No plano cristão, fomentou a segurança do Caminho de Santiago, impulsionou a introdução da reforma cluniacense nos mosteiros de Leão e Castela. Conta-se que, por influência da sua segunda esposa, Constança de Borgonha, trouxe a Ordem de Cister para a Espanha, estabelecendo-a em Sahagún, e escolheu Bernard, um cistircense francês, como primeiro arcebispo de Toledo depois da reconquista desta em 25 de Maio de 1085. Casou as suas filhas, Urraca, Teresa e Elvira com nobres franceses, e fomentou a influência desta que era a maior força civilacional na Europa. Também com isto aproximou a Espanha do papado. Foi por sua decisão que foi estabelecido o ritual romano em lugar do anterior missal de Santo Isidoro, o rito moçárabe ou visigótico.

Casamentos e descendência[editar | editar código-fonte]

Afonso negociou um noivado com Águeda da Normandia, filha de Guilherme I da Inglaterra,[6] mas com o falecimento desta em 1080 - segundo algumas versões por desgosto com a perspectiva de casar com Afonso - o projecto foi frustrado. Afonso VI terá casado cinco vezes e ficado noivo uma outra vez, para além de ter tido diversas ligações extra-matrimoniais:

O primeiro casamento foi com Inês da Aquitânia, com quem aparece pela primeira vez à 15 de Junho de 1074, filha de Guilherme VIII da Aquitânia e de Matilde de la Marche, matrimónio do qual não houve descendência. Alguns autores diz que o matrimónio foi anulado devido à esterilidade da esposa. Aparecem juntos pela última vez em 22 de Maio de 1077 e Inês morreu em 6 de Junho de 1078 segundo o Tumbo Negro de Santiago.[7]

O segundo casamento foi com Constança da Borgonha, bisneta de Hugo Capeto, e filha de Roberto I da Borgonha e de Hélia de Semur.[8] Afonso e Constança aparecem juntos pela primeira vez em 8 de Maio de 1081.[8] Até à sua morte, entre Septembro e o 25 de Outubro em 1093, ela teve seis filhos, mas só dois sobreviveram:[8]

  • Urraca de Leão e Castela (ca. 1081–Saldaña, 8 Marzo de 1026), futura rainha de Leão e de Castela. Contraiu um primeiro matrimónio entre Dezembro 1092 e Janeiro de 1093 com Raimundo de Borgonha e depois em Setembro de 1109 com Afonso I de Aragão.[9]
  • Sancha de Leão

O terceiro casamento se realizou em 25 de Novembro de 1093 com Berta, de filiação desconhecida,[b] que aparece pela última vez com o rei em 17 de Novembro de 1099 e morreu antes do 15 de Janeiro de 1100 quando o rei aparece só fazendo uma doação à Catedral de Compostela. Não houve descendência deste casamento.[10]

Não está claro a partir das fontes, se o rei casou ou não com Zaida que alguns historiadores defendem que seria uma nobre cristã, outros que seria a moura Zaida, filha de Ismail ibn-Abbad de Sevilha e viúva do rei Al-Mutamid da taifa de Sevilha, baptizada Isabel. Na crônica De rebus Hispaniae, o arcebispo de Toledo Rodrigo Jiménez de Rada, está entre as esposas de Alfonso VI. Embora, a Chronica Naierensis e o Chronicon Mundi indicam que Zaida foi a concubina e não a esposa de Alfonso VI.[11] Não se sabe se o rei e Zaida começou seu relacionamento antes ou depois da morte da rainha Constança. De acordo com o historiador Gonzalo Martínez Díez, casou-se depois de 1100, sendo legitimado o seu filho, que se tornou o príncipe herdero do reinho cristão.[12] [13] [c] Morreu à 12 de Setembro de 1197. Desta relação nasceram três filhos:

O seu quarto o quinto e último casamento terá antes de 28 de Maio de 1108, quando ambos aparecem juntos, com Beatriz de Poitier,[6] possivelmente da Casa de Este ou da Aquitânia (talvez meio-irmã da primeira esposa dele, Inês), em 1108. Durante o ano de casados até à morte do monarca, não tiveram descendência.

De uma ligação ilegítima com Ximena Moniz (c. 1060-1128),, filha de Munio Moniz de Bierzo e de Muniadona Moniz de Bierzo[14] [15] [16] , Afonso VI teve duas filhas bastardas:

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ Embora alguns historiadores dizem que ele nasceu em 1040, um texto anônimo de um cronista contemporâneo de Sahagún que conheceu o monarca e estava presente quando ele morreu, informa que morreu ao 62 anos de vida e 44 de seu reinado, assim, teria nascido em 1047. Cfr. Salazar y Acha (1992-1993), p. 303.
[b] ^ Em 1096, ambos confirmaram uma venta de Ero Rodrigues no Mosteiro de San Martim de Xubia: Regnante rex Adefonsus in Toleto et coniuge sua de genere francorum.
[c] ^ Em 27 de Março de 1106, o rei confirmou uma doação ao Mosteiro de São Salvador de Villanueva em Lourenzá (...) eiusdemque Helisabeth regina sub maritali copula legaliter aderente, uma fórmula unusual que comfirma o legítimo matrimónio. Cfr. Salazar y Acha (1992-1993), p. 324-325.

Referências

  1. a b Martínez Díez 2003, p. 19.
  2. Martínez Díez 2003, p. 19,21 e 160.
  3. a b Martínez Díez 2003, p. 35.
  4. Martínez Díez 2003, p. 30–33.
  5. a b c Martínez Díez 2003, p. 33.
  6. a b Salazar y Acha 1992-1993, p. 332.
  7. Salazar y Acha 1992-1993, p. 308-309.
  8. a b c Salazar y Acha 1992-1993, p. 316.
  9. a b c Salazar y Acha 1992-1993, p. 333.
  10. Salazar y Acha 1992-1993, p. 323.
  11. Pallares Méndez e Portela 2006, p. 19.
  12. Martínez Díez 2003, p. 121.
  13. Salazar y Acha 1992-1993, p. 323-324.
  14. Actas do 17º Congresso Internacional de Ciências Genealógica e Heráldica, Instituto Português de Heráldica, Lisboa, 1986, Tábua III-pg. 317
  15. Nobiliário das Famílias de Portugal, Felgueiras Gayo, Carvalhos de Basto, 2ª Edição, Braga, 1989, vol. VI-pg. 51 (Gusmão)
  16. A Herança Genética de D. Afonso Henriques, Luiz de Mello Vaz de São Payo, Universidade Moderna, 1ª Edição, Porto, 2002, vol. VI-pg. 51 (Gusmão)
  17. Canal Sánchez-Pagín 1988, p. 25.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Canal Sánchez-Pagín, José M.. (1988). "El conde Osorio y los marqueses de Astorga" (em espanhol). Astorica: revista de estudios, documentación, creación y divulgación de temas astorganos (7): 11-32. ISSN 0212-6141.
Precedido por
Fernando I
e Sancha I
Armas do reino de Leão
Rei de Leão

1.º reinado: 1065 - 1072
Sucedido por
Sancho II
Precedido por:
Sancho II
Armas do reino de Leão
Rei de Leão

2.º reinado: 1072 - 1109
Seguido por:
Urraca
Precedido por:
Sancho II
Armas do reino de Castela
Rei de Castela

1072 - 1109
Precedido por:
Garcia II
Armas do reino da Galiza
Rei da Galiza

1073 - 1109
Precedido por:
Al-Qadir
Armas do reino de Toldo
Rei de Toledo

1085 - 1109
Precedido por
---
Armas Hispânia
Imperador de toda a Hispânia
(Imperator totius Hispaniæ)

1077 - 1109
Sucedido por
Afonso VII
(1135)


Reinos cristãos da Península Ibérica
Astúrias
Reis e Rainhas
Leão
Reis e Rainhas
Castela
Reis e Rainhas
Galiza
Reis e Rainhas
Navarra
Reis e Rainhas
Aragão
Reis e Rainhas
Espanha
Reis e Rainhas
Portugal
Reis e Rainhas

Ligações externas[editar | editar código-fonte]