César Lattes

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César Lattes
Física
Nacionalidade  Brasileiro
Residência  Brasil
Nascimento 11 de julho de 1924
Local Curitiba, Brasil
Morte 8 de março de 2005 (80 anos)
Local Campinas, Brasil
Causa Parada cardíaca
Atividade
Campo(s) Física
Instituições Universidade Estadual de Campinas, Universidade de São Paulo, Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Alma mater Universidade de São Paulo
Tese 1940: A abundância de núcleos no universo
Orientador(es) Gleb Wataghin
Conhecido(a) por Píon

Cesare Mansueto Giulio Lattes, mais conhecido como César Lattes, (Curitiba, 11 de julho de 1924Campinas, 8 de março de 2005) foi um físico brasileiro, co-descobridor do méson pi, descoberta que levou o Prêmio Nobel de Física de 1950, concedido a Cecil Frank Powell. Lattes nasceu em Curitiba, estado do Paraná. Fez os seus primeiros estudos naquela cidade e em São Paulo, vindo a graduar-se na Universidade de São Paulo, formando-se em 1943, em matemática e física.

Lattes é um dos físicos brasileiros mais ilustres e honrados e seu trabalho foi fundamental para o desenvolvimento da física atômica. Ele também foi um grande líder científico de física brasileira e foi um dos principais personalidades por trás da criação do importante Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Ele figura como um dos poucos brasileiros na 'Biographical Encyclopedia of Science and Technology de Isaac Asimov, como também na Encyclopædia Britannica. Embora fosse o principal pesquisador e primeiro autor do artigo que descreve o mesón pi, apenas Cecil Powell foi agraciado com o Prêmio Nobel de Física em 1950 por "seu desenvolvimento do método fotográfico de estudo dos processos nucleares e suas descobertas em relação mésons feito com este método". A razão para esta aparente negligência é que a política do Comitê do Nobel até 1960 era dar o prêmio para a cabeça do grupo de pesquisa, apenas.

Em sua homenagem, o CNPq batizou o sistema utilizado para cadastrar cientistas, pesquisadores e estudantes como o nome de Plataforma Lattes. A Plataforma Lattes é uma base de dados de currículos e instituições das áreas de Ciência e Tecnologia (C&T). O Currículo Lattes registra a vida profissional dos pesquisadores sendo elemento indispensável à análise de mérito e competência dos pleitos apresentados, atualmente, a quase todas as agências de fomento no Brasil.

Carreira[editar | editar código-fonte]

Lattes fazia parte de um grupo inicial de brilhantes jovens físicos brasileiros que foram trabalhar com professores europeus como Gleb Wataghin e Giuseppe Occhialini. Lattes foi considerado o mais brilhante destes e foi descoberto, ainda muito jovem, como um pesquisador de campo. Seus colegas, que também se tornaram notáveis cientistas brasileiros, foram Oscar Sala, Mário Schenberg, Roberto Salmeron, Marcelo Damy de Souza Santos e Jayme Tiomno. Com 23 anos de idade foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro.

De 1947 a 1948, Lattes começou a sua principal linha de pesquisa, o estudo dos raios cósmicos, descobertos em 1932 pelo físico estadunidense Carl David Anderson. Montou um laboratório a mais de 5.000 metros de altitude em Chacaltaya, uma montanha dos Andes, na Bolívia, empregando chapas fotográficas para registrar os raios cósmicos.[1]

Méson pi e Prêmio Nobel de 1950[editar | editar código-fonte]

Viajou para a Inglaterra com seu professor Occhialini, onde foi trabalhar no H. H. Wills Laboratory da Universidade de Bristol, dirigido por Cecil Frank Powell. Após melhorar uma nova emulsão nuclear usada por Powell, pedindo à empresa britânica Ilford para adicionar boro a ela, em 1947, realizou com a ajuda dessas chapas uma grande descoberta experimental, de uma nova partícula atômica, o méson pi (ou pion)[2] , a qual desintegra em um novo tipo de partícula, o méson mu (muon). Foi uma grande reviravolta na ciência. Era aceito até então que os átomos eram formados por somente 3 tipos de sub-partículas ou partículas elementares (prótons, nêutrons e elétrons). Alguns cientistas contestaram os resultados, mas o apoio do dinamarquês Niels Bohr, um dos maiores físicos da época, pesou na aceitação da novidade, que daria início a uma nova área de pesquisa, a física de partículas.

Giuseppe Occhialini, que havia sido professor de Lattes na Universidade de São Paulo ainda durante a Segunda Guerra, ao revelar as novas chapas com boro -- expostas por ele no Pic di Midi no final de 1946 -- começou então a escrever um trabalho para a revista Nature, sem se preocupar com o consentimento de Powell. Ainda nessas chapas, foram descobertos dois decaimentos do méson pi em méson mi (múon). Essas descobertas foram relatadas em "Processes involving charged mesons", com Muirhead, Occhialini e Powell.[3] No mesmo ano, foi responsável pelo cálculo da massa da nova partícula, em um meticuloso trabalho. Um ano depois, trabalhando com Eugene Gardner na Universidade da Califórnia em Berkeley, Estados Unidos, Lattes detectou a produção artificial de partículas píon no ciclotron do laboratório, pelo bombardeio de átomos de carbono com partículas alfa. Tinha então 24 anos de idade.

Embora tenha sido o principal pesquisador e primeiro autor do histórico artigo da Nature, descrevendo o méson pi, Cecil Powell foi o único agraciado com o Prêmio Nobel de Física em 1950, pelo seu desenvolvimento de um método fotográfico de estudo dos processos nucleares e sua descoberta que levou ao descobrimento dos mésons. A razão para esta aparente negligência é a política do Comitê do Nobel, que até 1960 era de premiar somente o líder do grupo de pesquisa. Em 2001, Lattes mencionou o fato de não ter ganho o Nobel de Física em uma entrevista para o Jornal da Unicamp: "Sabe por que eu não ganhei o prêmio Nobel? Em Chacaltaya, quando descobrimos o méson-pi, se publicou: Lattes, Occhialini e Powell. E o Powell, malandro, pegou o prêmio Nobel pra ele. Occhialini e eu entramos pelo cano. Ele era mais conhecido, tinha o trabalho da produção de pósitrons em 1933. Depois fui para a Universidade da Califórnia, onde foi inaugurado o sincrociclotron em 1946. Já era 1948 e estava produzindo mésons desde que entrou em funcionamento em 1946, tinha energia mais que suficiente. Então, detectamos, Eugene Garden e eu, o méson artificial, alimentando a presunção de retirar do empirismo todas as pesquisas que se relacionassem com a libertação da energia nuclear. Sabe por que não nos deram o Nobel? Garden estava com beriliose, por ter trabalhado na bomba atômica durante a Guerra, e o berílio tira a elasticidade dos pulmões. Morreu pouco depois e não se dá o prêmio Nobel para morto. Me tungaram duas vezes."[4]

Em sua última entrevista, concedida a revista Superinteressante em 2005, Lattes voltou a mencionar o episódio do Nobel de Física de 1950: "Apesar de a comissão julgadora ser formada por ingleses, acredito que não foi minha nacionalidade que pesou na decisão do vencedor. Tanto na descoberta do méson pi, em 1946, como na sua criação artificial, em 1948, tive colaboração do Giuseppe Occhialini. Quem deveria ter ganho era ele. E, em 1950, quem levou o prêmio foi o Cecil Powell, que também participou do trabalho. Mas deixa isso para lá. Esses prêmios grandiosos não ajudam a ciência."[5]

Existem rumores de que Niels Bohr pode ter deixado uma carta intitulada "Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel - Abra 50 anos após a minha morte",[6] no entanto pesquisas feitas no Arquivo Niels Bohr em Copenhague, na Dinamarca, nunca encontraram tal documento.[7]

Retorno ao Brasil[editar | editar código-fonte]

Em 1949, Lattes retornou como professor e pesquisador na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Depois de outra breve estada nos Estados Unidos (de 1955 a 1957), voltou para o Brasil e aceitou uma posição na sua alma mater, o Departamento de Física da Universidade de São Paulo (USP). Também nesse ano, Lattes ingressou na Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Depois de ter-se mudado para Campinas, em 1963, ajudou a fundar o Instituto de Física. [2] Em 1967, Lattes aceitou a posição de professor titular no novo Instituto "Gleb Wataghin" de Física na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), nome que se originou de seu professor fundador, o qual ele também ajudou a fundar. Ele também se tornou diretor do Departamento de Raios Cósmicos, Altas Energias e Léptons. Em 1969, ele e seu grupo descobriram a massa das co-denominadas bolas de fogo, um fenômeno espontâneo que ocorre durante colisões de altas-energias, e os quais tinham sido detectados pela utilização de chapas de emulsão fotográfica nucleares inventadas por ele, e colocadas no pico de Chacaltaya nos Andes Bolivianos.

Lattes aposentou-se em 1986, quando recebeu o título de doutor honoris causa e professor emérito pela Universidade de Campinas. Mesmo aposentado continuou a viver em uma casa no distrito próximo ao campus da universidade. Morreu de ataque cardíaco em março de 2005. Depois de sua morte, a UNICAMP decidiu nomear sua biblioteca central como "César Lattes".

Honrarias[editar | editar código-fonte]

  • Cavaleiro da Grande Cruz , outorgado pela Ordo Capitulares Stellae Argentae Crucitae (1948);
  • Prêmio Einstein, da Academia Brasileira de Ciências (1951);
  • Prêmio Ciências, do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (1953);
  • Prêmio Evaristo Fonseca Costa, do Conselho Nacional de Pesquisas (1957);
  • Sua atuação no continente sul-americano foi reconhecida pelo governo boliviano, que lhe concedeu o título de cidadão honorário daquele país, em 1972;
  • Medalha Carneiro Felipe, do Conselho Nacional de Energia Nuclear (1973);
  • Pelo governo da Venezuela, que lhe conferiu a comenda Andrés Bello em 1977;
  • Pela OEA Organização dos Estados Americanos, que lhe outorgou o prêmio Bernardo Houssay, em 1978;
  • Prêmio em Física, da Academia de Ciências do Terceiro Mundo, no ICTP - The Abdus Salam International Centre for Theoretical Physics, sediado em Trieste, Itália (1987);
  • Medalha do Mérito Santos-Dumont (1989);
  • Símbolo do Município de Campinas (1992);
  • Centro de Estudos Astronômicos César Lattes de Minas Gerais;
  • Biblioteca Central César Lattes - UNICAMP;
  • Centro de Nanociência e Nanotecnologia Cesar Lattes, Campus do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) - Campinas;
  • Auditório César Lattes - Parque Tecnológico Itaipu (PTI);
  • Grêmio Estudantil César Lattes(GECEL)- UTFPR;
  • Centro Acadêmico do curso de Engenharia de Controle e Automação da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - UNESP;
  • Centro Acadêmico dos cursos de Matemática e Física da Universidade de Taubaté - UNITAU;
  • Associação Atlética Acadêmica César Lattes - AAACeL - Atlética dos cursos de Física (bacharel e licenciatura) e do curso integrado em Física, Matemática e Matemática Aplicada Computacional da Unicamp;
  • Nome de avenida em sua homenagem, na Vila Novo Horizonte, em Goiânia, Goiás;
  • Diretório Acadêmico César Lattes - UFF
  • Diretório Acadêmico César Lattes - Faculdade de Engenharia da Fundação Armando Álvares Penteado - criado em 1.970

Impacto cultural[editar | editar código-fonte]

César Lattes e José Leite Lopes são os protagonistas de Cientistas Brasileiros, um documentário de 2002 dirigido por José Mariani que narra sua trajetória e suas contribuições para o desenvolvimento da Física no Brasil.[8]

Gilberto Gil, vencedor do Grammy de 1998, incluiu no álbum Quanta uma canção dedicada ao Lattes, chamado de "Ciência e Arte".[9]

Citações[editar | editar código-fonte]

Wikiquote
O Wikiquote possui citações de ou sobre: César Lattes
Cquote1.svg A ciência deve ser universal, sem dúvida. Porém, nós não devemos acreditar incondicionalmente nisto. Cquote2.svg
Cquote1.svg A ciência universal seria o ideal. Mas a prática é bem diferente. Felizmente, todo segredo dura pouco. Cquote2.svg
[10]

Publicações[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Marques, Alfredo. (fevereiro 2012). "Cesar Lattes, a descoberta do méson-π e a física de partículas". Cosmos e Contexto (3). Visitado em 14 de março de 2012.
  2. a b Breve Histórico de César Lattes, Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.
  3. César Lattes e os 50 anos do méson pi, Grupo de História e Teoria da Ciência, Unicamp.
  4. Carlos Alberto dos Santos (12 de março de 2005). Zero HoraCesar Lattes e o Nobel tungado. Visitado em 23 de setembro de 2014.
  5. Daniel Azevedo (Abril de 2005). SuperinteressantePrêmio Nobel: Foi quase. Visitado em 23 de setembro de 2014.
  6. Heilbron, J. L. (2005), "The Oxford Guide to the History of Physics and Astronomy, Volume 10", Oxford Univ. Press
  7. Niels Bohr Archive. Visitado em 13 de julho de 2012.
  8. Raios cósmicos e astros humanos Jornal da Unicamp (10 a 16 de junho de 2002). Visitado em 9 de julho de 2010.
  9. Correio PopularCiência e arte de Cesar Lattes (20 de março de 2005). Visitado em 23 de setembro de 2014.
  10. http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/outubro2004/ju271pag06.html

Ligações externas[editar | editar código-fonte]