Reino Háfsida

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Reino Háfsida
الحفصيّون
Flag of Morocco 1147 1269.svg
1207 ou 1236 – 1574 Flag of the Ottoman Empire (1453-1517).svg

Bandeira de Reino Háfsida

Bandeira

Localização de Reino Háfsida
Mapa político do Norte de África e Mediterrâneo Ocidental ca. 1400
Continente África
País  Tunísia,  Argélia,  Líbia
Capital Tunes
Língua oficial árabe e berbere
Religião Islão
Governo Monarquia
Período histórico Idade Média e Idade Moderna
 • 1207 ou 1236 Fundação
 • 1574 Dissolução
Mesquita da Casbá, em Tunes, construída entre 1231 e 1235 pelo soberano háfsida Abu Zakariya Yahya

Os Háfsidas (em árabe: الحفصيون‎; transl.: al-Ḥafṣiyūn) ou Banu Hafs foram uma dinastia berbere que governou a Ifríquia (atual Tunísia) de 1229 a 1574. No seu zénite, os seus territórios estendiam-se desde o que é hoje o leste da Argélia até ao oeste da atual Líbia.[1] [nt 1]

História[editar | editar código-fonte]

A dinastia deve o seu nome a Muhammad bin Abu Hafs, um berbere da tribo Masmuda de Marrocos, que foi nomeado governador de Ifríquia pelo califa almóada Maomé an-Nasir entre 1198 e 1213.[2] Os Banu Hafs eram grupo poderoso entre os almóadas e eram descendentes de Omar Abu Hafs al-Hentati, também conhecido como Omar Inti, um membro do conselho de dez membros do império e um companheiro próximo de Ibn Tumart. O seu nome original era Fesga Oumzal, que foi depois mudado para Abu Hafs Omar ibn Yahya al-Hentati, seguindo a tradição de Ibn Tumart de dar outros nomes aos seus companheiros mais chegados quando eles aderiam aos seus ensinamentos religiosos.[3] [nt 1]

Como governadores em nome dos almóadas, os Háfsidas enfrentaram ameaças constantes dos Banu Ghaniya, descendentes dos príncipes almorávidas que foram derrotados pelos almóadas e substituídos por estes como dinastia reinante. OS Háfsidas foram governadores de Ifríquia até 1229, quando se declararam independentes sob a liderança de Abu Zakariya Yahya, filho de Maomé bin Abu Hafs, que reinou entre 1229 e 1249. Abu Zakariya organizou a administração e tornou Tunes o centro económico e cultural do seu império. Ao mesmo tempo, muitos muçulmanos da Andaluzia, fugidos da Reconquista levada a cabo por Castela e Aragão foram acolhidos e integrados no império, Conquistou Tlemcen em 1242 e tornou os Abdelwadidas seus vassalos. O seu sucessor Maomé I al-Mustansir (r. 1249–1277) tomou o título de califa.[nt 1]

No século XIV, o império sofreu um declínio temporário. Embora por alguma tempo os Háfsidas tenham logrado subjugar o império dos Abdelwadidas (ou Zianidas) de Tlemcen, entre 1347 e 1357, foram derrotados duas vezes pelos Merínidas de Marrocos. Contudo, os Abdelwadidas não conseguiram derrotar os Beduínos. Durante o período de declínio, deu-se igualmente uma grande perda de população devido a uma epidemia de peste, que enfraqueceu ainda mais o império. Os Háfsidas acabariam por recuperar o seu império.[nt 1]

Sob os Háfsidas, o comércio com a Europa cristã cresceu significativamente,[2] mas o mesmo se passou com a pirataria contra navios cristãos, particularmente durante o reinado de Abd al-Aziz II (r. 1394–1434). Os lucros desta foram usados para um vasto programa de construção e para apoiar a arte e cultura. Contudo, a pirataria também provocou retaliações por parte do Reino de Aragão e da República de Veneza, que várias vezes atacaram as cidades costeiras tunisinas. Durante o reinado de Uthman (r. 11435–1488) os Hásidas atingiram o seu zénite, com o comércio de caravanas através do Saara e com o Egito a serem ainda mais desenvolvidos, bem como o comércio marítimo com Veneza e Aragão. Mas ao mesmo tempo, os Beduínos e as cidades do império tornaram-se em grande parte independentes, com os Háfsidas a controlarem mais diretamente apenas Tunes e Constantina.[nt 1]

No século XVI os Háfsidas viram-seenvolvidos nos combates entre Espanha e os corsários apoiados pelo Império Otomano. Estes conquistaram Tunes em 1534 e mantiveram-na durante um ano. Devido à ameaça otomana, os Háfsidas tornaram-se vassalos de Espanha depois de 1535. Os Otomanos voltaram a conquistar Tunes em 1569, desta vez mantendo-a por quatro anos. João de Áustria retomou a cidade em 1573 e no ano seguinte os Háfsidas reafirmaram a sua vassalagem. Maomé IV,[necessário esclarecer] o último califa háfsida, foi levado para a capital otomana, Constantinopla, e acabaria por ser executado devido à sua colaboração com Espanha e ao desejo do sultão otomano de tomar o título de califa, pois então controlava as cidades santas de Meca e Medina. A linhagem dos Háfsidas sobreviveu ao massacre otomano através dum ramo da família que foi levado pelos espanhóis para a ilha de Tenerife.[nt 1]

História[editar | editar código-fonte]

Fundação[editar | editar código-fonte]

No início do século XIII, o Magrebe ainda se encontrava sob o domínio dos soberanos almóadas. Após a irrupção na Bernéria oriental dos irmãos Ali e Yahia Ben Ghania, descendentes do Almorávidas que tinham sido depostos pelo almóada Abd al-Mu'min. Depois de terem atravessado a Argélia vitoriosamente, os dois irmãos fundam um principado no Jerid. Ali é morto, mas o seu irmão Yahia inicia a conquista do centro e norte da Ifríquia. Logra apoderar-se de Mahdia, Cairuão e Tunes em 1202, prendendo o governador almóada e os seus filhos. Seguidamente, Ben Ghania pilha as cidades, as hortas e os animais que encontra.[nt 2]

Perante esta situação de perigo, o califa Maomé an-Nasir, que reinava em Marraquexe, parte ele mesmo à reconquista da Ifríquia e em fevereiro de 1206 entra em Tunes, que entretanto tinha sido abandonada pelo inimigo. O califa almóada permaneceu durante um ano em Tunes para restabelecer a autoridade almóada sobre o conjunto do território tunisino. Antes de voltar para Marrocos confia o governo da província a um dos seu fiéis lugar-tenentes, o xeque Abû Muhammad 'Abd al-Wahid ben Abi Hafs (ou mais simplesmente Abd al-Wahid ibn Hafs, uma forma arabizada do nome berbere Fazkat, cujo ancestral era Inti da tribo Hintata dos Masmudas.[nt 2]

O novo governo foi investido de poderes mais alargados que no passado: passou a recrutar as tropas que necessitasse para manter e paz e preparar eventuais guerras, nomear os funcionários do estado, os cádis (juízes), etc. Após a morte de Abd al-Wahid, o seu filho Abu Zakariya Yahya sucede-lhe em 1228. Um ano depois da sua nomeação, proclama-se independente do califa de Marraquexe sob o pretexto de que este tinha aderido ao sunismo, fundando assim a dinastia háfisde que reinará na Berbéria oriental durante três séculos e torna Tunes a capital do seu reino.[nt 2]

Esplendor e declínio[editar | editar código-fonte]

Abu Zakariya alarga as fronteiras do seu estado submetendo o Magrebe central, chegando a impôr a sua suserania ao reino de Tlemcen, ao Marrocos setentrional e aos nasridas de Granada, no sul da península Ibérica. Os háfsidas obtêm formalmente a independência total em 1236. O sucessor de Abu Zakariya, Maomé I al-Mustansir, proclama-se califa em 1255 e continua a política do seu pai. É durante o seu reino que tem lugar a segunda cruzada de São Luís de França que redunda em fracasso. Tendo desembarcado em Cartago, o rei francês morre de desinteria rodeado pelo seu exército dizimado pela doença em 1270.[nt 2]

Depois da morte de Maomé al-Mustansir, estalam distúrbios que duram 40 anos. A estes juntam-se os ataques do Reino de Aragão com o qual Maomé al-Mustansir tinha mantido boas relações. A dinastia háfsida atravessa então um ligeiro declínio. O sul da Tunísia e a Tripolitânia separam-se da autoridade háfsida e posteriormente o sul da região de Constantina sob o controlo do emir de Bugia tornou-se praticamente independente em 1294. Bugia torna-se novamente um centro de comércio, científico e cultural próspero sob o domínio dos háfsidas.[nt 2]

Abu Yahya Abu Bakr al-Mutawakkil reunifica a unidade do estado háfsida, mas após a suas morte, o reino é novamente dividido em três partes: Tunes, Bugia e Constantina e depois em duas, quando Bugia e Constantina passam a estar sob a mesma autoridade em 1366. O estado é finalmente reunificado por Abu al-`Abbas Ahmad al-Fadi al-Mutawakkil. O país conhece então um grande desenvolvimento económico e torna-se um centro de comércio da bacia do Mediterrâneo. O desenvolvimento dá-se igualmente ao nível cultural — é nesta época que vive o historiador e precursor da sociologia ibn Khaldun.[nt 2]

Quando chegou ao poder em 1394, Abû Fâris `Abd al-`Azîz al-Mutawakkil reforçou a autoridade do poder central, pacifica o sul, apodera-se de Argel, impõe a suserania ao soberano de Tlemcen, rechaça um ataque dos aragoneses contra Djerba e mantém boas relações com a generalidade dos estados cristãos. O seu neto Abu Amr Uthman prosseguiu a sua obra nos mesmos campos. Com a morte de Abu Amr Uthman inicia-se um novo período de decadência, desta vez irremediável, marcada por lutas pelo poder. No século XVI, os háfsidas vêem-se envolvidos nas lutas entre as potências otomana e espanhola. Aliados desta última, são derrotados em 1574 na batalha de Tunes. A Tunísia torna-se então uma província do Império Otomano.[nt 2]

Nos séculos XV e XVI muitos mouriscos e judeus perseguidos em Espanha procuraram refúgio em território háfsida.[nt 2]

Economia[editar | editar código-fonte]

Zocos

A maior parte da atividade económica das cidades háfsidas concentrava-se nos zocos (suques, mercados), constituídos por redes de ruelas cobertas onde se encontravam lojas de comerciantes e de artesãos agrupadas por especialidades. Usualmente situadas em volta de uma grande mesquita, os bairros dos zocos expandiram-se fortemente durante o período háfsida. Maomé al-Mustansir organizou em corporações os tecelões e criou fábricas de tecelagem de seda que ficaram conhecidos como funduques. Além disso fundou oficinas do estado chamadas tiraz.[nt 2]

Moeda

Os sultões háfsidas cunhavam como moeda o dinar de ouro, que pesava cerca de 4,72 gramas, e o dirham de prata, que pesava cerca de 1,5 gramas.[nt 2]

Alfândega

A administração aduaneira era uma instituição do estado que atingiu um certo grau de de aperfeiçoamento sob os háfsidas. O diretor das alfândegas, ou superintendente era sempre considerado um dos principais xeques do império. Colaborava na conclusão dos tratados e era frequente receber plenos poderes para os negociar. A alfândega era também o lugar onde se efetuava grande parte das operações de compras e vendas entre europeus e árabes.[nt 2]

Comércio

Os negociantes estabelecidos em Tunes nessa época eram quase todos originários dos estados da península Itálica com os quais o sultão háfsida tinha assinado tratados de comércio: genoveses, venezianos, pisanos, florentinos, mas também catalães.[nt 2]

Os comerciantes cristãos alojavam-se em funduques ou caravançarais situados fora das muralhas das cidades. Os funduques eram grandes edifícios quadrados fechados com paredes sem janelas, que tinham uma só porta que dava acesso a um pátio para o qual se abriam os alojamentos e as lojas dos mercadores. Na época háfsida, o funduque dos genoveses e o dos venezianos dispunham de capelas onde era celebrada missa todas as manhãs.[nt 2]

O comércio de exportação e importação com a Europa estava maioritariamente nas mãos dos negociantes italianos. Exportava-se trigo, azeite, tâmaras, amêndoas e sobretudo lãs, couros e peles. Importavam-se grandes quantidades de lã, algodão e seda, vinho, papel, armas e lingotes de ouro e de prata para a cunhagem de moeda e joalheria. Todos estes produtos pagavam, em princípio, um imposto de 10%, ou dízimo. O comércio de especiarias fazia-se também com o Oriente.[nt 2]

Cultura[editar | editar código-fonte]

Vida intelectual[editar | editar código-fonte]

Na corte háfsida brilhavam os poetas, versejadores hábeis cuja principal produção literária era o elogio do soberano. O interesse de Abu Zakariya Yahya pela cultura em geral levou-o a constituir uma biblioteca de 30 000 manuscritos que punha à disposição dos letrados. Alguns médicos, a maioria deles do al-Andalus, mantiveram a qualidade da medicina ligada às tradições médicas legadas pelas escola de Cairuão, mas sem originalidade nem descobertas.[nt 2]

O reino háfsida também deixou a sua marca na história intelectual da humanidade através do historiador e filósofo ibn Kaldun.[nt 2]

A vida intelectual da Ifríquia está ligada indiretamente ao percurso de alguns europeus. O maiorquino Anselm Turmeda (ou Abdallah at-Tarjuman; 1355–1423) renunciou ao cristianismo e converte-se ao islão quando chegou a Tunes em 1388. Leão, o Africano foi feito prisioneiro em Trípoli em 1520, quando regressava duma viagem ao Orinete, e levado para Nápoles, onde redige em italiano a sua famosa obra Descrição de África; batizado em Roma pelo papa, provavelmente morreu em Tunes antes de 1550.[nt 2]

Notas

  1. a b c d e f Trechos baseados no artigo «Hafsid dynasty» na Wikipédia em inglês (acessado nesta versão).
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q Trechos baseados no artigo «Hafsides» na Wikipédia em francês (acessado nesta versão).

Referências

  1. Fyle, C. Magbaily (1999) (em inglês), Introduction to the History of African Civilization: Precolonial Africa, University Press of America, p. 84 
  2. a b U.S. Library of Congress. Hafsids (em inglês) countrystudies.us. Visitado em 10 de fevereiro de 2013. Cópia arquivada em 22 de janeiro de 2013.
  3. al-Baydhaq, Muhammad (século XII), Benmansour, Abdelwahab, ed., Kitab al-Ansab fi Marifat al-Ashab, 1971, p. 32 
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