Não violência

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Manifestação não violenta contra os testes nucleares, Paris, 1995

Não-Violência é um termo que se refere a uma série de conceitos sobre moralidade, poder e conflitos que rejeitam completamente o uso da violência nos esforços para a conquista de objetivos sociais e políticos. Geralmente usado como sinônimo de pacifismo, a partir do meio do século XX passou a ser aplicado também a confrontos sociais que não usem violência, bem como movimentos políticos e filosóficos que tenham aderido aos mesmos conceitos.

O termo é comumente associado à luta pela independência da Índia, liderada por Mahatma Gandhi, e à luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos, liderada por Martin Luther King. O movimento ocorrido na Índia foi fortemente influenciado pelos princípios da religião jainista, pelas ideias de desobediência civil de Henry David Thoreau e do anarquismo cristão de Leon Tolstói. O exemplo indiano inspirou uma série de ações que ocorreram nas décadas seguintes.

A não-violência ativa[editar | editar código-fonte]

Como o termo se tornou muito abrangente, às vezes ele é visto como sinônimo de pacifismo, ou associado à passividade. Para desfazer mal-entendidos, alguns grupos preferiram adotar o termo Não-Violência Ativa, reforçando a posição de que é possível uma ação não-violenta. Outra denominação, menos conhecida, é Firmeza Permanente[1] .

Jean Gooss e Hildegar Goss-Mayr[2] [3] , casal de missionários do IFOR, ajudaram a difundir o termo na América Latina, influenciando na sua adoção por grupos que fundaram o SERPAJ-AL, o Secretariado de Justiça e Não-Violência no Brasil etc.

O termo também é de uso corrente no pensamento de Silo, fundador do Movimento Humanista.

Um decênio da ONU[editar | editar código-fonte]

Em 10 de novembro de 1998, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a primeira década do século XXI (de 2001 a 2010) como o Decênio Internacional da Promoção de uma Cultura da Não-Violência e da Paz em Prol das Crianças do Mundo (International Decade for the Promotion of a Culture of Peace and Non-Violence for the Children of the World).

Por que não-violência?[editar | editar código-fonte]

A maioria dos adeptos da não-violência fizeram esta opção por aspectos religiosos, éticos ou estratégicos. Nos dois primeiros casos, ela é usada como princípio de integridade e respeito à condição humana. No último, trata-se tão só de uma questão circunstancial, em que essa prática se faz útil. Contudo, podemos encontrar estes três aspectos coexistindo em um mesmo movimento de não-violência.

No mundo atual, a não-violência vem sendo amplamente usada em movimentos pelo trabalho, pela paz, pelo meio ambiente e pelos direitos das mulheres. Outra maneira de usar a tática de não-violência é visando direcionar a opinião pública (principalmente a internacional) contra regimes políticos extremamente repressivos, expondo ao mundo os excessos cometidos contra manifestações de cunho pacífico. Teoricamente, isto faria com que a comunidade internacional passasse a pressionar os dirigentes desses regimes.

O estudioso da não-violência Gene Sharp, em seu livro The Politics of Nonviolent Action, sugere que a completa ausência de estudos sobre o tema no meio acadêmico de história pode ser reflexo de que as técnicas que visam conquistas sociais não são do interesse da elite. Ela acreditaria muito mais nos armamentos e no poder do dinheiro do que na capacidade de mobilização de uma comunidade.

O pensador Mario Rodrigues Luís Cobos passou toda sua vida organizando um Movimento Humanista buscando aplicar os princípios da Não-Violência Ativa para solucionar conflitos sociais da atualidade.

Como funciona a não-violência[editar | editar código-fonte]

As ideias não-violentas são radicalmente diferentes das ideias convencionais sobre resolução de conflitos. No entanto, seus princípios fazem parte do senso comum:

  • O poder daqueles que dirigem uma nação depende da aderência e consentimento dos cidadãos comuns. Sem uma burocracia, um exército ou uma força policial para pôr em prática os objetivos estipulados pela classe dominante, as leis perdem força se não encontram respaldo no cidadão comum. A não-violência ensina que o poder de uns depende da cooperação de muitos outros. Assim, a não-violência faz desmoronar o poder dos dirigentes quando consegue extinguir grande parte desta cooperação — um punhado de pessoas não pode mandar em milhões de outras se elas se recusarem a obedecer. Em ações político-reivindicatórias, não-violência e desobediência civil geralmente se somam.
  • Só por meios justos pode-se alcançar um fim justo. Quando Gandhi disse que os meios podem ser comparados a raízes e o fim a uma árvore, referia-se ao objeto central de uma filosofia que alguns denominam “Política Prefigurativa”. No Sermão da Montanha, Jesus Cristo comparou os meios a árvores e os fins aos frutos: “Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros e figos dos abrolhos? Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos” (Mt 7, 16-17). Os propositores da não-violência explicam que as ações do presente inevitavelmente repercutirão na forma como a sociedade se organizará no futuro. É irracional tentar construir uma sociedade pacífica pela violência, ou uma sociedade honesta pela desonestidade (que também é uma forma de violência). O que começa mal não pode acabar bem.
  • Alguns divulgadores da não-violência, como os Anarquistas Cristãos e os Ativistas Humanistas, defendem que devemos respeitar e amar nossos oponentes. Este é o princípio que mais se aproxima das justificativas religiosas e espirituais para a não-violência, como pode ser visto no Sermão da Montanha, quando Jesus Cristo diz a seus seguidores: “Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 43-48). O princípio do respeito aos oponentes também pode ser visto no conceito Taoísta do wu-wei, ou na filosofia da arte marcial Aikido, ou no conceito budista de metta (amor fraterno entre todos os seres vivos) e no princípio de ahimsa (não-violência entre todos os seres vivos), também presente no hinduísmo.

O fim não justifica os meios[editar | editar código-fonte]

Ouve-se frequentemente que os fins justificam os meios, insinuando-se que certos fins podem ou devem ser alcançados por métodos não convencionais, ou antiéticos, ou violentos. Isto é muito usado para tentar minimizar excessos na guerra, na justificação de leis opressivas (como o AI-5 no Brasil, ou a Lei Patriota nos Estados Unidos), na repressão imposta a grupos sociais, religiosos ou étnicos, ou ainda, embora em crescente desuso, na justificação de sistemas e métodos educacionais excessivamente rigorosos e punitivos.

A não-violência entende que o fim resulta dos meios, num ciclo de causas e efeitos que se correlacionam e se estendem numa espiral evolutiva. Desta forma, a paz não pode ser obtida por métodos violentos e repressivos. Uma “paz” que se pretenda obter pela opressão cessa assim que os instrumentos repressivos deixam de ser usados. Não haverá uma paz real enquanto ela não se estender a todos os indivíduos de uma sociedade.

Numa percepção não-violenta, uma releitura de “o fim justifica os meios” seria: os meios justificam o fim, ou seja, o fim é o resultado dos meios.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Da Não-Violência Ativa ou Firmeza-Permanente à Educação para a Paz, por Roberto Zwetsch.
  2. Fragoso, Antônio, Barbé, Domingos, Câmara, Hélder, Jesus, Mário Carvalho de, Pinto, João Breno, Lepargneur, Hubert, Kunz, Alfredo, Arns, Cardeal Dom Paulo Evaristo, and Secretariado de Justiça e Não-Violência. A Firmeza-Permanente: A força da não-violência. 2nd ed. São Paulo: Loyola-Vega, 1977.
  3. Deats, Richard (2009), Marked for Life: The Story of Hildegard Goss-Mayr, Hyde park, NY: New City Press.