Tsar Bomba

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Tsar-Bomba
Tsar Bomba Revised.jpg
Réplica da Bomba Tsar no Museu de Bombas Atômicas de Sarov
Tipo Arma nuclear
Local de origem União das Repúblicas Socialistas Soviéticas União Soviética
Histórico de produção
Quantidade
produzida
1
Especificações
Peso 27  ton
Comprimento m
Diâmetro m
Poder explosivo 50 a 57 megatons
Local da detonação

Tsar Bomba (em russo: Царь-бомба) é o nome dado à bomba RDS-220, a mais potente arma nuclear já detonada. Desenvolvida pela União Soviética, a bomba de 58 megatons (equivalente a 58 milhões de toneladas de trinitrotolueno, sendo duas vezes mais potente que o segundo maior teste nuclear chamado de Teste 219 que rendeu 24,2 Mt) levava o nome-código de "Ivan", (em russo: Иван), dado pelos seus desenvolvedores.[1] A bomba foi testada em 30 de Outubro de 1961, em Nova Zembla, uma ilha no oceano Ártico. O dispositivo foi reduzido de seu desenho original de 100 megatons para minimizar a escala de destruição.[2] [3] [4] [5] . Devido ao seu enorme tamanho a bomba não era prática para propósitos de guerra, e foi criada primariamente para ser usada como propaganda na Guerra Fria. Não há evidências de que outra bomba de poder similar tenha sido feita.

Origens[editar | editar código-fonte]

O premiê soviético Nikita Khrushchov, líder da União Soviética depois da morte de Stalin, começou o projeto em 10 de Julho de 1961, requisitando que os testes fossem realizados em Outubro do mesmo ano, enquanto o 22º Congresso do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) ainda estava em sessão. Este prazo de 15 semanas foi alcançado porque os componentes nucleares necessários já estavam todos à sua disposição.

O termo "Tsar Bomba" remete para a histórica prática russa de construir objetos incrivelmente grandes para mostrar poder. Exemplos incluem o Grande Sino (Tsar Kolokol), o maior canhão do mundo (Tsar Pushka) e o incrível Tsar Tank. Apesar de a bomba ter sido tachada com este nome pelo ocidente, o mesmo acabou sendo amplamente utilizado na futura Rússia.

Com o nome-código de "Ivan" durante o seu desenvolvimento, a Tsar Bomba não foi feita para o uso bélico prático. Khrushchov deu o parecer final para o teste em um momento de grande tensão: o primeiro muro de Berlim havia sido levantado em agosto de 1961. E mais ainda: a União Soviética havia recentemente encerrado uma moratória de testes nucleares (que durou aproximadamente três anos), e estava próxima de levar armas para Cuba, o que acabaria levando à chamada Crise dos Mísseis.

Com a palavra na Assembleia Geral das Nações Unidas sobre o teste, Khrushchev usou em seu idioma o termo "mostrar a alguém a mãe de Kuzka", que quer dizer "punir". Por causa disso, às vezes a bomba é chamada na Rússia de "A Mãe de Kuzka" (Кузькина мать).

Projeto[editar | editar código-fonte]

A "Tsar Bomba" era uma bomba de hidrogênio de três estágios com uma potência em torno de 50 megatons (Mt).[6] Tal capacidade de destruição equivalia a todos os explosivos usados na Segunda Guerra Mundial multiplicados por dez.[7] O design inicial trifásico apresentava um primário, que era uma bomba atômica do tipo de implosão; o secundário era o estágio termonuclear, onde a detonação do primário o implodiria, fazendo com que o seu material físsil entrasse em fissão, a fissão no secundário criava as condições de temperatura e pressão ideais para que o deutério e o trítio se unissem pela fusão nuclear; o terciário era outro estágio termonuclear igual ao secundário que era implodido pelo secundário. Além disso a bomba apresentava uma "jaqueta" de urânio empobrecido, que só sofre fissão pelos nêutrons energéticos da fusão nuclear (a jaqueta não deve ser confundida com o terceiro estágio verdadeiro, veja aqui para mais detalhes); nessa configuração a bomba era capaz de liberar aproximadamente 100 Mt, mas o resultado seria um excesso de resíduos e partículas radioativas liberadas na atmosfera. Para limitar os efeitos dos resíduos radioativos, a "jaqueta" de urânio (que ampliava muito a reação, fissionando átomos de urânio com nêutrons mais rápidos da reação da fusão anterior), foi trocado por uma de chumbo. Isso eliminou a rápida fissão dos nêutrons resultantes da fusão (estágio 2 e estágio 3), de forma que 97% do total da energia seria resultado apenas do estágio de fusão. Houve forte incentivo para a redução de potência, já que a maioria dos resíduos radioativos resultantes do teste da bomba acabaria chegando ao próprio território soviético.

Os componentes da bomba foram desenvolvidos por uma equipe de físicos, liderada por Juliï Borisovich Khariton, que incluía Andrei Sakharov, Victor Adamsky, Yuri Babayev, Yuri Smirnov, e Yuri Trutnev. Logo após a detonação da Tsar Bomba, Sakharov começou a fazer uma campanha contra as armas nucleares, o que levou à sua dissidência.

Teste[editar | editar código-fonte]

A Tsar Bomba foi levada ao campo de teste por um avião bombardeiro Tu-95 especialmente modificado, que levantou voo de uma base aérea na península de Kola, pilotado pelo Major Andrei E. Durnotsev. O bombardeiro foi acompanhado de um avião de observação Tupolev Tu-16, que coletou amostras do ar e filmou o teste. Ambos os aviões foram pintados com uma tinta reflexiva especial de cor branca para limitar os danos causados pelo calor gerado pelo teste.

A bomba de 27 toneladas era tão grande (8 metros de comprimento por 2 metros de diâmetro) que as portas de lançamento e os tanques de combustível das asas do Tu-95 tiveram de ser removidos. Ela foi presa a um pára-quedas de retardo de queda que pesava mais de 800 quilos, o que dava a ambos os aviões a possibilidade de voar para pelo menos 45 km de distância do ponto zero de detonação. Se houvesse uma falha nesse retardo, a bomba ou teria atingido a sua altitude de detonação mais rápido do que o previsto tornando o teste uma missão suicida para os aviões, ou atingiria o solo a uma velocidade alta demais com resultados imprevisíveis. Os EUA também equiparam algumas de suas bombas com pára-quedas de retardo pelas mesmas razões.

A Tsar Bomba foi detonada às 11h32, aproximadamente 73.85° N 54.50° E [8] sobre o campo de testes na Baía de Mityushikha, ao norte do Círculo polar ártico na ilha de Nova Zembla. Ela foi lançada de uma altitude de 10 500 metros, e programada para detonar a 4000 metros acima da superfície terrestre (4200 metros acima do nível do mar) por sensores barométricos.

Os Estados Unidos estimaram na época que a potência gerada pela bomba era de 57 Mt, mas desde 1991 todas as fontes Russas atestam que era de "apenas" 50 Mt. Khrushchev chegou a avisar durante um discurso (gravado em vídeo) o Parlamento Comunista sobre a existência da bomba de 100 megatons.

Zona de destruição da Tsar Bomba (no exemplo, sobre o mapa de Paris): círculo vermelho = destruição total (raio de 35 quilômetros); círculo amarelo = bola-de-fogo (raio de 3,5 quilômetros)

A bola de fogo gerada pela explosão tocou o solo e quase alcançou a mesma altitude do avião bombardeiro, podendo ser vista a mais de 1.000 km de distância. O calor gerado poderia causar queimadura de 3º Grau em uma pessoa que estivesse a 100 km de distância. A nuvem em forma de cogumelo que se seguiu chegou a 60 km de altura e algo em torno de 35 km de largura. A explosão pôde ser vista e também sentida na Finlândia, tendo até mesmo quebrado algumas janelas por lá[carece de fontes?].

O deslocamento de ar causou danos diretos até a 1.000 km de distância. A pressão da explosão abaixo do ponto de detonação foi de 300 PSI, seis vezes a pressão de pico experimentada em Hiroshima. Um participante no teste viu um flash brilhante através dos óculos escuros de proteção e sentiu os efeitos de um pulso térmico mesmo a uma distância de 270 quilômetros.

Já que 50 Mt é igual a 2,1×1017 joules, a média de força gerada durante todo o processo fissão-fusão (que durou cerca de 3,9×10−8 segundos ou 39 nanosegundos) seria estimada em 5,3×1024 watts ou 5,3 YottaWatts. Isso é o equivalente aproximado de 1% da energia que o Sol libera durante a mesma fração de segundo. A maior arma construída pelos EUA, agora desativada (B41), tinha uma força máxima estimada de 25 Mt, sendo que a maior bomba nuclear já testada pelos EUA (Castle Bravo) gerou 15 Mt.

Análise[editar | editar código-fonte]

Raio comparativo da bola de fogo de armas nucleares, incluindo a Tsar Bomba. Os efeitos da explosão estendem-se por várias vezes a própria bola de fogo.

O peso e o tamanho da Tsar Bomba limitaram o alcance e a velocidade do bombardeiro especialmente modificado que a carregava, o que a tornou impossível de ser carregada por um ICBM (Intercontinental Ballistic Missile). Muito de sua alta potência era ineficientemente irradiada pelo espaço. Foi estimado que, se detonada no seu design original de 100 Mt, o montante de resíduos radioativos seria correspondente a 25% de toda a radiação emitida na Terra desde a invenção das armas nucleares.[9] Os soviéticos chegaram à conclusão de que um teste de tamanha potência criaria uma catástrofe nuclear e tinham a certeza de que o avião bombardeiro que a lançasse não alcançaria um lugar seguro após a detonação.

A Tsar Bomba foi a culminação de uma série de armas termonucleares de alta potência desenvolvidas pela URSS e pelos EUA durante a década de 1950 na guerra fria. Tais bombas foram desenvolvidas porque:

  • As bombas nucleares daquela época eram grandes e pesadas, independente da potência, e só podiam ser lançadas por bombardeiros estratégicos.
  • Temia-se que muitos, se não a maioria, dos bombardeiros falhassem em alcançar os alvos, já que seu tamanho e velocidade tornavam a detecção e interceptação uma coisa fácil. Portanto, maximizar o poder de ataque carregado por um único bombardeiro era vital.
  • Ambos os lados não tinham conhecimento preciso da localização das fábricas militares e industriais do inimigo; uma bomba lançada sem recursos avançados de sistemas de navegação inercial poderia facilmente errar o seu alvo. E o retardamento da queda pelo pára-quedas só aumentava essa ineficiência.

Tais bombas foram desenvolvidas para dizimar grandes cidades inteiras mesmo que lançadas entre 5 a 10 km do seu centro. Com esse objetivo chegava-se à conclusão de que potência e efetividade estavam diretamente ligadas, pelo menos até certo ponto. Mas com o advento dos ICBMs e sua precisão de 500 metros ou até mais, bombas guiadas a laser e sistemas de navegação por satélite (GNSS) estas armas acabaram se tornando obsoletas. As armas nucleares subsequentes, nas décadas de 60 e 70, tiveram como foco a precisão, miniaturização e segurança em detrimento da potência.

Relatos[editar | editar código-fonte]

Devido a sua potência houve diversos relatos sobre a Tsar Bomba. Um operador de câmera registrou:

"As nuvens a uma grande distância abaixo e acima do avião foram iluminados pelo clarão da bola de fogo e por um instante tornaram-se transparentes. A propagação da luz incandescente sobre o mar era algo impressionante. Nesse momento nosso avião emergiu do meio de uma camada de nuvens e pudemos observar uma gigantesca esfera de fogo brilhante e alaranjada rolando em direção ao céu."

"A esfera era tão poderosa e tão arrogante como Júpiter."

"Lenta e silenciosamente rastejou para cima…"

"E fundindo-se a camadas mais grossas de nuvens, continuou a subir e a crescer. Parecia sugar toda a terra nele. O espetáculo foi fantástico, irreal, sobrenatural."'

Um outro observador, mais distante, descreveu o que testemunhou da seguinte forma:

"Um gigantesco clarão sobre o horizonte, e após um longo período de tempo ouvi um sopro distante e pesado, como se a terra tivesse sido morta."

Uma outra testemunha relata:

"A neve derreteu, as bordas e os lados das rochas ficaram brilhantes como se tivessem sido lapidadas, não há um traço desigual sequer…"

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

  1. Viktor Suvorov, Kuz'kina Mat'. A Chronicle of Great Decade, Dedicated to 50 years of Caribbean Crisis (Russian: Кузькина мать: Хроника великого десятилетия), Moscow, 2011, ISBN 978-5-98124-561-9
  2. Memoirs, Andrei Sakharov, 1990, New York: Alfred A. Knopf, pp. 215-225, ISBN 0-679-73595-X
  3. Sakharov, Andrei. Memoirs. New York: Alfred A. Knopf, 1990. 215–225 p. ISBN 0-679-73595-X
  4. Khalturin, Vitaly I.; Rautian, Tatyana G.; Richards, Paul G.; Leith, William S.. (2005). "A Review of Nuclear Testing by the Soviet Union at Novaya Zemlya, 1955–1990". Science and Global Security 13 (1): 1–42. DOI:10.1080/08929880590961862.
  5. Central Intelligence Agency, National Intelligence Estimate 11-2A-62, "Soviet Atomic Energy Program", (16 May 1962), pages 2 and 13.
  6. A potência da bomba foi estimada entre 50 e 57 megatons por diferentes fontes pela história. Hoje as fontes russas usam 50 megatons como número oficial. Vide a seção "Was it 50 Megatons or 57?" ("Era de 50 Megatons ou 57?") em The Tsar Bomba ("King of Bombs"). Nuclearweaponarchive.org. Página visitada em 11 de maio de 2006.
  7. DeGroot, Gerard J. The Bomb: A Life. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2005. p. 254
  8. A Review of Nuclear Testing by the Soviet Unionat Novaya Zemlya, 1955 - 1990 (PDF) (em inglês). Ldeo.columbia.edu.
  9. The Nuclear Weapon Archive: Soviet Nuclear Weapons (em inglês). Nuclearweaponarchive.org.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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