Zengi

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Mapa do mundo muçulmano medieval. A vermelho, os territórios do império da dinastia dos zengidas (1127-1250), fundada por Zengi

Imad ad-Din Atabeg Zengi (al-Malik al-Mansur) (em turco: İmadeddin Zengi&nbsp:I; em árabe: عماد الدین زنكي;[1] ca. 108514 de setembro de 1146), mais conhecido pela forma abreviada Zengi ou Zangi, Zengui, Zenki, Zanki, Zengid cognominado de Sanguinus[2] pelos cronistas francos das cruzadas, foi um atabey de Mossul e Alepo ao serviço dos turcos seljúcidas, na época em conflito com os cruzados.

Relações com Bagdade[editar | editar código-fonte]

Vista panorâmica de Mossul em 1932

Zengi era filho de Aq Sunqur al-Hajib, governador de Alepo desde 1085, sob o sultanato de Malik Shah I. O seu pai foi decapitado por traição em 1094, e Zengi foi educado por Kerbogha, governador de Mossul.

Em 1126 tornou-se governador de Bassora e reprimiu a revolta do califa abássida al-Mustarshid. Poucos meses depois recebeu o governo de Mossul. A 18 de Junho de 1128 entrou em Alepo. Para garantir a sua legitimidade nesta cidade, casou-se com a filha de Fakhr al-Mulk Radwan, governador desta cidade em 1095-1113, já então viúva de Ilghazi, o vencedor da batalha de Ager Sanguinis contra o Principado de Antioquia, e de Balak Nasr al Dawla, também governador de Alepo em 1123-1124.

Zengi transladou os restos mortais do seu pai para a cidade e obteve de Mahmud II, o jovem sultão seljúcida de Bagdade que Zengi apoiara contra o califa al-Mustarshid, um documento oficial que lhe conferia autoridade sobre a Síria e o norte do Iraque. Agora com Mossul e Alepo sob o seu governo pessoal, durante 18 anos percorreria estes territórios à frente de um temível exército disciplinado.

Em 1130 aliou-se a Taj al-Mulk Buri de Damasco contra os cruzados, mas esta união teria sido apenas pretexto para aumentar o seu poder. Em pouco tempo aprisionou o filho de Buri e conquistou-lhe a cidade de Hama, depois cercou Homs mas não conseguiu concluir esta conquista. Ao voltar a Mossul, recebeu um resgate de 50 000 dinares pelos seus prisoneiros damascenos.

No ano seguinte Zengi concordou em devolver o dinheiro a Buri para resgatar o emir de al-Hilla (no Iraque), que fugira de Damasco para escapar a al-Mustarshid. Quando um embaixador do califa veio para capturá-lo, Zengi atacou-o, matou parte da sua escolta e o embaixador voltou a Bagdade sem o emir.

O sultão Mahmud II morreu em 1132 e Zengi aproveitou para marchar sobre Bagdade, mas foi travado perto de Tikrit, a norte da capital, pelas forças do califa al-Mustarshid, que tentava tomar a tutela dos seljúcidas. Zengi evitou por pouco a prisão, graças ao governador de Tikrit, um jovem oficial curdo que o ajudou a atravessar o rio Tigre e a voltar apressadamente para Mossul.

Em Junho de 1133, al-Mustarshid avançou sobre Mossul, decidido a pôr fim ao poder de Zengi. Ghiyath ad-Dîn Mas'ûd, o novo sultão seljúcida, teve um papel dúbio: por um lado sugeriu até a reunião da Síria e do Iraque sob a sua própria autoridade, e ao mesmo tempo ajudou secretamente Zengi, que resistiu durante três meses ao cerco do califa, até este acabar por se retirar.

Damascenos e cristãos[editar | editar código-fonte]

Cidadela de Damasco, capital da Síria, na actualidade

No ano seguinte, interessado na posse de Damasco, Zengi aliou-se ao emir Timurtash (filho de Ilghazi). Em 1135 recebeu um pedido de ajuda de Ismail, filho de Buri, caído em desgraça e acusado de tirania pelo seu próprio povo, que lhe oferecia essa cidade se repusesse a paz. Mas o resto da família e conselheiros não aceitou esta política e Ismail foi assassinado pela sua própria mãe, sendo sucedido pelo seu irmão.

Ainda assim Zengi tentou a conquista, mas sem sucesso, acabando por acordar uma paz pela qual essa cidade aceitou a sua suserania, mas puramente nominal. No caminho de volta a Alepo ainda cercou Homs e mais uma vez acabou por desistir, mas foi bem sucedido a tomar quatro praças dos francos junto ao rio Orontes.

Em 1137 voltou a cercar Homs. Em resposta, os damascenos que controlavam esta cidade pediram ajuda aos cruzados do Reino Latino de Jerusalém, afirmando que não podiam resistir mais tempo. Os cristãos não pretendiam que este poderoso inimigo ficasse na posse de uma cidade a apenas dois dias de marcha de Trípoli, e por isso acorreram.

Zengi assinou então um tratado com Homs e pôs cerco à fortaleza cruzada de Baarin, obtendo uma vitória decisiva. Cercado na cidadela, o rei Fulque de Jerusalém negociou a sua rendição: recebeu permissão para sair da região com os sobreviventes do seu exército em troca de um resgate de 50 000 dinares. Pouco depois de abandonarem a cidade encontrariam um grande contingente de reforços e arrepender-se-iam de não ter resistido um pouco mais. Mas entretanto, percebendo que era muito provável que esta expedição resultasse em fracasso, Zengi acordou uma paz com Damasco.

De facto, pouco depois foi confrontado em Alepo por um exército do imperador bizantino João II Comneno, que tinha passado a controlar o Principado de Antioquia, um dos estados cruzados, e obtido a aliança de Joscelino II de Edessa e Raimundo de Antioquia. Enfrentando agora a ameaça combinada de bizantinos e cruzados, Zengi mobilizou as suas forças e recrutou a ajuda de outros líderes muçulmanos. Em Abril de 1138 os cristãos cercaram Shaizar, mas foram forçados a retirar no mês seguinte.

Depois desse triunfo, Zengi chegou a um acordo com Damasco. Casou-se com Zumurrud, a mãe que assassinara o seu filho Ismail, e recebeu Homs, cidade em que celebrou a cerimónia, como dote. Significativamente, o seu casamento contou com a presença de representantes do sultão, do califa de Bagdade, do califado do Cairo e de embaixadores do Império Bizantino. Entretanto, o ex-governador de Homs enviou um homem da sua confiança a Jerusalém para sondar a possibilidade de uma aliança contra Zengi. O seu enviado obteve um acordo de princípio.

Em Julho de 1139, o outro filho de Zumurrud, sucessor do irmão em Damasco, foi também assassinado. De Harã, Zengi marchou sobre a região para assumir o seu governo. Em Agosto cercou Baalbek, em posse dos damascenos, onde ocorreria um dos episódios mais sangrentos da sua carreira. Conquistou esta cidade sem dificuldades, mas a sua cidadela resistiu até ao final de Outubro. Irado, o atabey ordenou a crucificação ou o enforcamento de 37 dos defensores e também que o comandante da praça fosse esfolado vivo.

O embaixador damasceno junto aos francos voltou a Jerusalém no início de 1140, desta vez com propostas precisas: as forças cristãs forçariam Zengi a afastar-se de Damasco; os dois estados aliar-se-iam em caso de novas ameaças; os muçulmanos forneceriam 20 000 dinares para financiar as operações; seria organizada uma expedição conjunta para ocupar a fortaleza de Banias (junto a uma nascente do rio Jordão no sopé do monte Hermon), entretanto tomada por um vassalo de Zengi, para a devolverem ao domínio do rei de Jerusalém. Para provar boa fé, ofereceram reféns a Fulque.

Edessa, actual Şanlıurfa (ou Urfa), na província homónima da Turquia - Mesquita construída onde, segundo a tradição muçulmana, nasceu o profeta Abraão.

Em Abril Zengi preparou-se para o ataque, mas o acordo entre cristãos e muçulmanos foi cumprido e o senhor de Mossul e Alepo teve de retirar-se para norte, onde se dedicou à luta contra os ortoquídas e os curdos. Durante os próximos anos realizou campanhas de conquista de fortalezas aos arménios.

Em 1144 voltou para cercar o Condado de Edessa, o estado cruzado mais fraco, menos latinizado e mais a oriente. Desta vez a conquista foi bem sucedida, a 24 de Dezembro. 6 000 habitantes da capital foram massacrados, os francos que não sofreram execução foram enviados em cativeiro para Alepo. Mas ao contrário de Saladino algumas décadas mais tarde, Zengi não unificou os muçulmanos e manteve-se na posição de um poderoso príncipe local, mais preocupado com os problemas do oeste da Alta Mesopotâmia.

Instalado em Baalbek, preparou uma ofensiva de grande envergadura contra as principais cidades na posse dos francos. Os damacenos também temiam um ataque. Em Janeiro de 1146 foi obrigado a partir para o norte. Os seus espiões tinham-no informado de uma conspiração urdida por Joscelino II, com alguns apoiantes arménios ainda em Edessa, para massacrar a guarnição turca da cidade.

Avisado, Zengi executou os partidários do conde cristão e instalou trezentas famílias de judeus seus apoiantes em Edessa. Em Junho cercou Jaabar, uma fortaleza junto ao rio Eufrates ocupada por um emir árabe que se recusava a reconhecer a sua autoridade e ameaçava as comunicações entre Alepo e Mossul. O cerco duraria três meses.

Morte[editar | editar código-fonte]

Zengi ...um dos criados, por quem ele tinha um afecto especial e em cuja companhia se deliciava... que nutria um ressentimento secreto contra ele devido a alguma ofensa anteriormente feita a ele pelo Atabeg, ao encontrar uma oportunidade quando ele estava desprevenido na sua embriaguez, e com a conivência e assistência de alguns dos seus camaradas entre os criados, assassinou-o durante o sono na véspera de domingo, dia 6 do Segundo Rabi. Zengi

 — Tradução livre da crónica de Ibn al-Qalanisi[3]

de Damasco (ca. 1070-1160), sobre a morte de Zengi

Zengi continuou sempre a tentar conquistar a actual capital síria, mas na noite de sábado, 14 de Setembro de 1146 foi assassinado por um escravo eunuco de origem franca chamado Yarankash. Este apunhalou-o várias vezes, depois fugiu para a fortaleza de Dawsar, e de lá para Damasco, «na crença confiante que estaria seguro lá, falando abertamente da sua acção como um acto de valor e imaginando que seria bem-vindo» [3] . Mas o governador prendeu-o e enviou-o para o filho de Zengi, Nur ad-Din, em Alepo. Nur ad-Din enviou-o ao seu irmão Saif ad-Din Ghazi I em Mossul, que o executou.

O cronista cristão Guilherme de Tiro escreveu que Zengi fôra morto por alguns dos seus acompanhantes quando adormecera embiagado na sua cama. E que as notícias da sua morte foram recebidas com os comentários «Que feliz coincidência! Um assassino culpado, cujo nome sangrento, Sanguinus, se tornou ensanguentado com o seu próprio sangue».[2] [4]

A morte inesperada de Zengi deixou os seus seguidores em pânico. O seu exército desintegrou-se, o tesouro foi saqueado e os príncipes cruzados, encorajados com a morte deste líder, planearam atacar Alepo e Edessa. E Damasco retomou rapidamente Baalbek, Homs, e outros territórios perdidos para Zengi ao longo dos anos.

Avaliação, lenda e legado[editar | editar código-fonte]

Zengi foi o fundador da epónima dinastia dos zengidas. Em Mossul foi sucedido pelo seu filho primogénito Saif ad-Din Ghazi I, e em Alepo pelo segundo filho, Nur ad-Din. A sua conquista do Condado de Edessa a 24 de Dezembro de 1144 acabou por despoletar a Segunda Cruzada e, segundo cronistas muçulmanos posteriores, o início da jihad contra os estados cruzados.

Segundo uma lenda cruzada, a sua mãe era Ida de Formbach-Ratelnberg, mãe do marquês Leopoldo III da Áustria que, ao participar da chamada Cruzada de 1101, teria sido capturada e colocada num harém. Uma vez que esta nobre europeia tinha 46 anos de idade em 1101, Zengi nasceu ca. 1085 e o seu pai morreu em 1094, isto não é possível.

Era um líder corajoso, forte e um guerreiro muito hábil, segundo os cronistas islâmicos seus contemporâneos, contando-se a conquista de Edessa como o seu maior feito. No entanto, esses mesmos cronistas descrevem-no como um homem muito violento, cruel e brutal. Muçulmanos, bizantinos e francos, todos soferam nas suas mãos.

Ao contrário de Saladino em Jerusalém em 1187, Zengi não manteve a sua palavra de proteger os seus prisioneiros em Baalbek, em 1139. Segundo Ibn al-'Adim, «Ele prometera às pessoas da cidadela, com fortes juramentos, sobre o Corão e sob pena de divórcio [das suas próprias esposas]. Quando eles saíram da cidadela ele traíu-os, esfolou o seu governador e enforcou os restantes.»[5] [6] e «O atabey era violento, poderoso, impressionante e passível de atacar subitamente... Quando cavalgava, as tropas costumavam andar atrás dele como se estivessem entre dois fios, com medo de pisar em campos cultivados e, temendo, ninguém se atrevia a pôr os pés em um simples caule nem conduzir o seu cavalo nos campos... Se alguém transgredisse, era crucificado. Ele costumava dizer: "Não acontece haver mais de um tirano [referindo-se a si próprio] por vez."»[6]

Segundo Imad ad-Din al-Isfahani: «Ele era tirânico e punia com irreflectida indiscriminação. Era como um leopardo em carácter, como um leão em fúria, não renunciando a qualquer severidade, não conhecendo qualquer gentilieza... Era temido pelos seus ataques súbitos; evitado pela sua rudeza; agressivo, insolente, morte dos inimigos e cidadãos.»[7]

E por Imad ad-Din al-Isfahani: «Quando ele ficava insatifeito com um emir, matava-o ou bania-o e deixava os filhos desse homem vivos, mas castrava-os. Quando um dos seus pagens o agradava pela sua beleza, tratava-o da mesma forma, para que as características da juventude durassem mais tempo»[8]

Notas[editar | editar código-fonte]

Um inimigo dos cruzados, ilustração de Gustave Doré
  1. Deste modo o seu nome poderia ser lido como: o defensor da religião, governador e tutor de príncipes, Zengi, soberano vitorioso.
    De facto, o cronista muçulmano do século XII Ibn al-Qalanisi escreve o seu nome e título completo como:
    «O emir, o general, o grande, o justo, o auxílio de Deus, o triunfante, o único, o pilar da religião, o alicerce do Islão, ornamento do Islão, protector das criaturas de Deus, associado da dinastia, auxiliar da doutrina, engrandecedor da nação, honra dos reis, apoiante de sultões, vitorioso sobre os infiéis, rebeldes e ateus, comandante dos exércitos muçulmanos, o rei vitorioso, o rei de príncipes, o sol dos merecedores, emir dos dois Iraques e da Síria, conquistador do Irão, Bahlawan, Jihan Alp Inassaj Kotlogh Toghrulbeg atabeg Abu Sa'id Zangi Ibn Aq Sunqur, protector do príncipe dos fiéis.»
  2. a b Sanguinus pode tanto ser entendido como uma referência ao sangue que fez correr pelas batalhas que liderou, como simplesmente uma corruptela da palavra Zengi pelos francos.
  3. a b The Damascus Chronicle of the Crusades, Extracted and Translated from the Chronicle of Ibn al-Qalanisi, H.A.R. Gibb, 1932, Dover Publications, 2002
  4. A History of Deeds Done Beyond the Sea, Guilherme de Tiro, traduzido para o inglês por E.A. Babcock e A.C. Krey, Columbia University Press, 1943
  5. Mufarrij al-Kurub, Ibn Wasil, p.86)
  6. a b Zubda, Ibn al-'Adim, vol.2, p.471
  7. Zubdat al-nusra, Al-Bundari, p.205, ed. M.Y. Houtsma, Leiden, 1889
  8. The Second Crusade Scope and Consequences, ed. Jonathan Phillips e Martin Hoch, 2001

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • The Crusades Through Arab Eyes, Amin Maalouf, 1985; Les croisades vues par les Arabes, Amin Maalouf, 1983
  • A History of the Crusades, vol. II: The Kingdom of Jerusalem, Steven Runciman, Cambridge University Press, 1952
  • An Arab-Syrian Gentleman and Warrior in the Period of the Crusades; Memoirs of Usamah ibn-Munqidh (Kitab al i'tibar), traduzido para o inglês por Philip K. Hitti, New York, 1929