Câncer endometrial

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Câncer endometrial
Localização e desenvolvimento do cancro do endométrio.
Classificação e recursos externos
CID-10 C54.1
CID-9 182.0
OMIM 608089
DiseasesDB 4252
MedlinePlus 000910
eMedicine med/674 radio/253
MeSH D016889

Cancro do endométrio (português europeu) ou câncer endometrial (português brasileiro) é o cancro que tem origem no endométrio, o revestimento do útero.[1] A doença é o resultado do crescimento anormal de células com a capacidade de invadir ou de se espalhar para outras partes do corpo.[2] O primeiro sinal é geralmente uma hemorragia vaginal sem estar associada a um período menstrual. Os outros sintomas incluem dor ao urinar ou durante o ato sexual ou dores pélvicas.[1] O cancro do endométrio ocorre com maior frequência depois da menopausa.[3] O cancro do endométrio é referido muitas vezes como "cancro do útero", embora seja distinto de outras formas de cancros do útero, como o cancro do colo do útero, sarcoma uterino ou doença trofoblástica.[4]

Cerca de 40% dos casos estão relacionados com a obesidade.[5] A doença está também associada a ume exposição excesisva ao estrogénio, hipertensão e diabetes.[1] Embora a toma de estrogénio isoladamente aumente o risco de cancro do endométrio, a toma de uma combinação de estrogénio com progesterona, como acontece na maioria das pílulas contracetivas combinadas, diminui o risco.[1][5] Entre 2 e 5% dos casos estão relacionados com genes herdados de um dos progenitores.[5] O tipo histopatológico mais comum de cancro do endométrio é o carcinoma endometrioide, que é responsável por mais de 80% dos casos.[5] O diagnóstico é geralmente realizado mediante biópsia endometrial ou pela recolha de uma amostra através de um procedimento denominado dilatação e curetagem. O teste de Papanicolau não costuma ser suficiente para confirmar a doença.[6] Não está recomendado o rastreio regular em pessoas de risco normal.[7]

A opção de primeira linha para o tratamento de cancro do endométrio é a histerectomia abdominal, que consiste na cirurgia de remoção integral do útero, a par da remoção das trompas de Falópio e dos ovários de ambos os lados, um procedimento denominado ooforectomia. Em estádios mais avançados pode também ser recomendada a realização de radioterapia, quimioterapia ou hormonoterapia. Quando a doença é diagnosticada nos estádios iniciais, o prognóstico é favorável,,[6] com uma taxa de sobrevivência a cinco anos superior a 80%.[8]

Em 2012 houve 320 000 casos de cancro do endométrio que foram responsáveis por 76 000 mortes.[5] A doença é a terceira causa mais comum de morte por cancro entre os cancros que afetam apenas as mulheres, atrás do cancro do ovário e do cancro do colo do útero. É mais comum em países desenvolvidos[5] é o o cancro do sistema reprodutor feminino mais comum entre países desenvolvidos.[6] Entre as décadas de 1980 e 2010, a prevalência de cancro do endométrio aumentou em vários países.[5] Acredita-se que isto seja devido ao aumento do número de idosos e ao aumento da obesidade.[9]

Classificação[editar | editar código-fonte]

Existem vários tipos de cancro do endométrio. Os mais comuns são os carcinomas do endométrio, que se dividem nos subtipos do Tipo I e Tipo II. Existem também tipos mais raros, incluindo carcinoma seroso papilar do útero, carcinoma adenoescamoso, carcinoma sarcomatoide e carcinoma de células claras do útero.[10]

Sinais e sintomas[editar | editar código-fonte]

Em 90% dos casos de cancro do endométrio após a menopausa verifica-se hemorragia vaginal ou metrorragia.[3][11] As hemorragias são particularmente comuns nos casos de adenocarcinomas, correndo em dois terços de todos os casos.[3][7] Antes da menopausa, a ocorrência de ciclos menstruais anormais ou extremamente longos e episódios de hemorragia frequentes ou intensos podem ser sinais de cancro do endométrio.[7]

Os restantes sintomas para além da hemorragia são poucos comuns. Entre estes sintomas estão secreções vaginais esbranquiçadas ou translúcidas em mulheres após a menopausa. À medida que a doença avança, os sintomas começam a ser mais percetíveis ou aparecem sinais que podem ser observados num exame físico. O útero pode aumentar de tamanho ou o cancro espalhar-se, o que provoca dores no baixo abdómen ou cãibras na pelve.[7] A dor durante o ato sexual ou dor ao urinar são sinais pouco comuns.[4] O útero pode também encher-se de pus.[12] Entre as mulheres que manifestam estes sintomas menos comuns (secreções vaginais, dores pélvicas e pus), só 10-15% dos casos é que revelam ser cancro.[13]

Fatores de risco[editar | editar código-fonte]

Os fatores de risco para cancro do endométrio incluem obesidade, diabetes, cancro da mama, uso de tamoxifeno, nunca ter tido filhos, menopausa tardia, níveis elevados de estrogénio e a idade.[12][13] Os estudos migratórios mostram existir alguns componentes ambientais que influenciam o cancro do endométrio,[14] embora estes fatores de risco ambientais não estejam ainda bem caracterizados.[15]

Hormonas[editar | editar código-fonte]

A maior parte dos fatores de risco para o cancro do endométrio envolvem níveis elevados de estrogénios.[5] Tanto a obesidade como a diabetes tipo 2, como a resistência à insulina são fatores de risco para a doença.[16] Estima-se que 40% dos casos estejam relacionados com a obesidade.[5] Esta condição aumenta em 3 ou 4 vezes o risco de cancro do endométrio.[17] Na obesidade, o excesso de tecido adiposo aumenta a conversão de androstenediona para estrona, que é um estrogénio. A quantidade excessiva de estrona no sangue causa a diminuição ou ausência de ovulação e expõe continuamente o endométrio a grandes quantidades de estrogénios.[9][18] A obesidade também faz com que haja menos estrogénio a ser removido do sangue.[18] O síndrome do ovário policístico, que também causa ovulação irregular ou ausência de ovulação, está associado a uma maior incidência de cancro do endométrio pelo mesmo mecanismo da obesidade.[14]

A terapia de reposição hormonal durante a menopausa, quando não é contrabalançada (ou oposta) com progestina, é outro fator de risco. As doses elevadas ou os períodos prolongados de terapia de estrogénios estão associados a um maior risco de cancro do endométrio.[18] Este risco é maior em mulheres de baixo peso.[5] Quando não é contrabalançado, o estrogénio aumenta o risco individual de cancro do endométrio entre 2 a 10 vezes, dependendo do peso da mulher e da duração da terapia hormonal.[5] Outro fator de risco é um período fértil alargado, quer devido a uma menarca precoce quer devido a uma menopausa tardia.[19] Em transexuais masculinos que tomam testosterona e que não removeram o útero, a conversão de testosterona em estrogénio através da androstenediona pode aumentar o risco de cancro do endométrio.[20]

Genética[editar | editar código-fonte]

Algumas anomalias genéticas podem também causar cancro do endométrio. As causas genéticas contribuem para 2 a 10% do total de casos da doença.[5][21] A síndrome de Lynch, uma doença genética autossómica dominante que causa principalmente cancro colorretal, pode também causar cancro do endométrio, principalmente antes da menopausa. As mulheres com síndrome de Lycnh têm um risco de 40 a 60% de desenvolver cancro do endométrio.[14] 20% destas pessoas desenvolvem simultaneamente cancro do endométrio e cancro do ovário. Em quase todos os casos, o cancro do endométrio desenvolve-se primeiro, em média 11 anos antes.[15] A carcinogénese na síndrome de Lynch tem origem numa mutação dos genes MLH1 e/ou MLH2, os quais são responsáveis pela correção de erros no ADN.[14] As mulheres com síndrome de Lynch correspondem a 2–5% dos casos de cancro do endométrio.[15][17] O risco varia de acordo com o gene mutado. Em mutações do gene MLH1, o risco é de 54%; do gene MSH2 21%; e do gene MSH6, 16%.[22]

As mulheres com historial na família de cancro do endométrio apresentam risco acrescido.[4] Os dois genes frequentemente associados com outros cancros em mulheres, o BRCA1 e o BRCA2, não causam cancro do endométrio.[14] Embora exista uma aparente ligação com estes genes, essa ligação é atribuível ao uso de tamofixen nos cancros da mama e do ovário, um fármaco que aumenta o risco de cancro do endométrio.[14] A síndrome de Cowden, uma condição genética hereditária, pode também aumentar o risco de cancro do endométrio. As mulheres com esta condição apresentam um risco de 5–10% de desenvolver a doença ao longo da vida[5] em comparação com o risco de 2–3% entre mulheres não afetadas.[15]

Outros problemas de saúde[editar | editar código-fonte]

Algumas terapias para outros tipos de cancro aumentam o risco de desenvolver cancro do endométrio ao longo da vida.[15] O tamoxifeno, um fármaco usado no tratamento de cancro da mama ER+, tem sido associado com cancro do endométrio em cerca de 0,1% dos consumidores, principalmente mulheres idosas. No entanto, os benefícios de sobrevivência do tamofixeno superam o risco de desenvolver cancro do endométrio.[23] A toma de tamofixeno ao longo de 1-2 anos duplica o risco de cancro do endométrio, enquanto uma terapia com a duração de cinco anos quadruplica o risco.[19] O raloxifeno, um fármaco semelhante, não aumenta o risco de cancro do endométrio.[24]

Ter tido anteriormente cancro do ovário é um fator de risco para o cancro do endométrio.[25] A imunodeficiência tem também implicações no risco de cancro do endométrio.[12] A hipertensão é também um fator de risco,[17] embora a associação se possa dever à obesidade.[22] Permanecer sentado por longos períodos de tempo está associado a uma mortalidade maior por cancro do endométrio. O risco não desaparecer com o exercício físico, embora diminua.[26]

Fatores protetores[editar | editar código-fonte]

Fumar e o uso de progestina oferecem proteção contra o cancro do endométrio. Fumar oferece proteção ao alterar o metabolismo do estrogénio e ao promover a perda de peso e a menopausa precoce. Este efeito protetor permanece ao longo de bastante tempo, mesmo após deixar de fumar. Tanto a pílula contraceptiva oral combinada como o dispositivo intrauterino contêm progestina.[14][27] A diminuição do risco pelas pílulas combinadas é proporcional à duração do tempo ao longo do qual são tomadas: 56% após quatro anos, 67% após oito anos e 72% após doze anos. A diminuição do risco prolonga-se por pelo menos quinze anos após a interrupção da toma.[24] As mulheres obesas podem necessitar de doses maiores de progestina para beneficiar do efeito protetor.[27] Ter tido mais de cinco filhos pode também ser um fator protetor.[12] Ter tido pelo menos um filho diminui o risco em 35%. Amamentar por mais de 18 meses diminui o risco em 23%. O aumento da atividade física diminui o risco individual em 38–46%. Há indícios que o consumo de soja possa ter efeito protetor.[24]

Tratamento[editar | editar código-fonte]

O tratamento frequentemente envolve uma histerectomia abdominal total (remoção cirúrgica do útero) com salpingo-ooforectomia bilateral (remoção de ambas trompas e ovários) e dos gânglios linfáticos da pélvis. Além disso geralmente envolve quimioterapia e radioterapia. Pode-se fazer terapia hormonal para aumentar os níveis de progesterona e reduzir os de estrógeno, para desacelerar o crescimento de tumores ginecológicos.[28]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d «General Information About Endometrial Cancer». National Cancer Institute. 22 April 2014. Consultado em 3 September 2014. 
  2. «Defining Cancer». National Cancer Institute. Consultado em 10 June 2014. 
  3. a b c Kong, A; Johnson, N; Kitchener, HC; Lawrie, TA (18 April 2012). «Adjuvant radiotherapy for stage I endometrial cancer.». The Cochrane database of systematic reviews [S.l.: s.n.] 4: CD003916. doi:10.1002/14651858.CD003916.pub4. PMID 22513918. 
  4. a b c «What You Need To Know: Endometrial Cancer». National Cancer Institute. Consultado em 6 August 2014.  |website= e |publisher= redundantes (Ajuda)
  5. a b c d e f g h i j k l m International Agency for Research on Cancer (2014). World Cancer Report 2014 World Health Organization [S.l.] Chapter 5.12. ISBN 978-92-832-0429-9. 
  6. a b c «Endometrial Cancer Treatment (PDQ®)». National Cancer Institute. 23 April 2014. Consultado em 3 September 2014. 
  7. a b c d Hoffman, BL; Schorge, JO; Schaffer, JI; Halvorson, LM; Bradshaw, KD; Cunningham, FG, : (2012). «Endometrial Cancer». Williams Gynecology 2nd ed. McGraw-Hill [S.l.] p. 823. ISBN 978-0-07-171672-7. 
  8. «SEER Stat Fact Sheets: Endometrial Cancer». National Cancer Institute. Consultado em 18 June 2014. 
  9. a b Hoffman, BL; Schorge, JO; Schaffer, JI; Halvorson, LM; Bradshaw, KD; Cunningham, FG, : (2012). «Endometrial Cancer». Williams Gynecology 2nd ed. McGraw-Hill [S.l.] p. 817. ISBN 978-0-07-171672-7. 
  10. Hoffman, BL; Schorge, JO; Schaffer, JI; Halvorson, LM; Bradshaw, KD; Cunningham, FG, : (2012). «Endometrial Cancer». Williams Gynecology 2nd ed. McGraw-Hill [S.l.] p. 825. ISBN 978-0-07-171672-7. 
  11. Reynolds, RK; Loar III, PV (2010). «Gynecology». In: Doherty, GM. Current Diagnosis & Treatment: Surgery 13th ed. McGraw-Hill [S.l.] ISBN 978-0-07-163515-8. 
  12. a b c d Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas bmj
  13. a b Galaal, K; Al Moundhri, M; Bryant, A; Lopes, AD; Lawrie, TA (15 May 2014). «Adjuvant chemotherapy for advanced endometrial cancer.». The Cochrane database of systematic reviews [S.l.: s.n.] 5: CD010681. doi:10.1002/14651858.CD010681.pub2. PMID 24832785. 
  14. a b c d e f g Hoffman, BL; Schorge, JO; Schaffer, JI; Halvorson, LM; Bradshaw, KD; Cunningham, FG, : (2012). «Endometrial Cancer». Williams Gynecology 2nd ed. McGraw-Hill [S.l.] p. 818. ISBN 978-0-07-171672-7. 
  15. a b c d e Ma, J; Ledbetter, N; Glenn, L (2013). «Testing women with endometrial cancer for lynch syndrome: should we test all?». Journal of the Advanced Practitioner in Oncology [S.l.: s.n.] 4 (5): 322–30. PMC 4093445. PMID 25032011. 
  16. Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas Sivalingam
  17. a b c Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas Colombo
  18. a b c Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas ComprehensiveGyn32
  19. a b Vale, CL; Tierney, J; Bull, SJ; Symonds, PR (15 August 2012). «Chemotherapy for advanced, recurrent or metastatic endometrial carcinoma.». The Cochrane database of systematic reviews [S.l.: s.n.] 8: CD003915. doi:10.1002/14651858.CD003915.pub4. PMID 22895938. 
  20. Committee on Health Care for Underserved Women (December 2011). «Health Care for Transgender Individuals: Committee Opinion No. 512». Obstetrics and Gynecology. American Committee for Obstetrics and Gynecology. pp. 1454–1458. doi:10.1097/aog.0b013e31823ed1c1. PMID 22105293. 
  21. Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas Reinbolt
  22. a b Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas Burke1
  23. Staley, H; McCallum, I; Bruce, J (17 October 2012). «Postoperative tamoxifen for ductal carcinoma in situ.». The Cochrane database of systematic reviews [S.l.: s.n.] 10: CD007847. doi:10.1002/14651858.CD007847.pub2. PMID 23076938. «There is evidence from other reports that tamoxifen increases the risk of endometrial cancer although the data presented in this review describes only 10 events occurring in 1798 participants (0.5%) after seven years of follow-up.» 
  24. a b c «Endometrial Cancer Prevention». PDQ. NIH. 28 February 2014. 
  25. Coleman, RL; Ramirez, PT; Gershenson, DM (2013). «Neoplastic Diseases of the Ovary». In: Lentz, GM; Lobo, RA; Gershenson, DM; Katz, VL. Comprehensive Gynecology 6th ed. Mosby [S.l.] ISBN 978-0-323-06986-1. 
  26. Biswas A, Oh PI, Faulkner GE, Bajaj RR, Silver MA, Mitchell MS, Alter DA (2015). «Sedentary Time and Its Association With Risk for Disease Incidence, Mortality, and Hospitalization in Adults: A Systematic Review and Meta-analysis». Annals of Internal Medicine [S.l.: s.n.] 162 (2): 123–32. doi:10.7326/M14-1651. PMID 25599350. 
  27. a b Hoffman, BL; Schorge, JO; Schaffer, JI; Halvorson, LM; Bradshaw, KD; Cunningham, FG, : (2012). «Endometrial Cancer». Williams Gynecology 2nd ed. McGraw-Hill [S.l.] p. 819. ISBN 978-0-07-171672-7. 
  28. http://www.webmd.com/cancer/tc/endometrial-cancer-treatment-overview