Daminhão Experiença

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Daminhão Experiença
Informação geral
Nome completo Damião Ferreira da Cruz
Nascimento 27 de setembro de 1935
Local de nascimento Santo Amaro de Ipitanga, Salvador, Bahia Bahia
 Brasil
Data de morte 10 de dezembro de 2016 (81 anos)
Local de morte Rio de Janeiro,  Rio de Janeiro
Gênero(s) Acid rock, música experimental, noise rock, psych folk, MPB, protopunk, reggae, rock psicodélico, lo-fi
Ocupação(ões) Cantor, compositor, letrista, produtor musical
Instrumento(s) Vocal, guitarra elétrica, violão, bongô, marimba, chocalho, bateria, gaita
Período em atividade 19731994; 20072009
Gravadora(s) Gravadora Planeta Lamma, Discos Destruição
Afiliação(ões) Luiz Melodia, Lulu Santos, Rogério Skylab, Zumbi do Mato, Walter Franco, Supersimetria, Professor Antena
Influência(s) The Jimi Hendrix Experience

Damião Ferreira da Cruz (Lauro de Freitas, Bahia, 27 de setembro de 1935[Nota 1]Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 2016), mais conhecido por seu nome artístico Daminhão Experiença,[Nota 2] foi um cantor-compositor, letrista, multi-instrumentista, produtor de discos e acumulador compulsivo brasileiro. Considerado um dos maiores ícones da cena contracultural brasileira, e um dos músicos marginais mais famosos do país, já foi elogiado por figuras como Tony Bellotto, George Israel e Rogério Skylab,[1] e também constantemente comparado ao artista marginal esquizofrênico Bispo do Rosário e aos músicos Frank Zappa, Moondog e Jandek.[2] Seus álbuns, geralmente vendidos por ele nas ruas ou até mesmo distribuídos de graça quando sentia vontade,[3] se tornaram itens de colecionador muito procurados, e sua personalidade reclusiva, excêntrica e despretensiosa lhe rendeu um apaixonado séquito cult.[4]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Damião Ferreira da Cruz supostamente nasceu em 27 de setembro de 1935 no distrito soteropolitano de Santo Amaro de Ipitanga, Bahia (atual município de Lauro de Freitas), mais precisamente no bairro de Portão. Vivenciou uma infância infeliz e era constantemente maltratado pelos pais, o que o levou a fugir de casa para o Rio de Janeiro quando tinha somente 10 anos.[5] Quando jovem serviu de operador de radar da Marinha do Brasil; enquanto na Marinha alegadamente caiu de cabeça de cima do mastro de um navio, o que poderia ter provocado seu estado mental errático.[1] Diz-se também (em sua autobiografia que vem como um livreto-bônus em alguns de seus álbuns[6]) que certa vez foi condenado à solitária por muitos anos por deserção. Depois de reformar-se precocemente da Marinha em 1963 (provavelmente devido a seu acidente), foi viver com uma prostituta numa casa de palafita, tornou-se cafetão e foi capaz de produzir seus álbuns graças a dinheiro obtido com proxenetismo.[7] A primeira gravação conhecida de Damião foi uma participação especial no álbum de estreia de Luiz Melodia, Pérola Negra, de 1973 – contribuiu com o backing vocal na faixa "Forró de Janeiro" –, e subsequentemente adotou o nome artístico "Experiença" (óbvia corruptela da palavra "experiência") como uma homenagem à sua banda favorita e maior influência, The Jimi Hendrix Experience.[8] Em 1974 lançou por conta própria seu primeiro álbum, Planeta Lamma,[9] e muitos outros seguiram ao decorrer dos anos 1970 até o princípio dos anos 1990.

Conhecido por sua personalidade insociável, desde sempre evitava entrevistas e atenção da mídia, até mesmo se recusando a dar autógrafos e a assinar documentos.[1] (Rogério Skylab, um dos fãs mais apaixonados de Damião, dedicou seu álbum de 2002 Skylab III a ele;[5][10] em 2012 tentou entrevistá-lo para seu talk show Matador de Passarinho, mas Damião veementemente recusou o convite.) Em 1994 foi convidado para participar do álbum de estreia da banda de rock experimental Professor Antena, e concordou; porém, recusou-se a assinar o contrato da gravadora, e nunca recebeu dinheiro ou crédito por sua participação.[1] Pouco depois entrou num longo período de hiato, no qual apareceu somente em shows esporádicos (um destes famosamente junto de Lulu Santos) e não lançou mais nenhum álbum, e em certo ponto do início dos anos 2000 foi até mesmo presumido morto.[11]

Ressurgiu em 2007, lançando dois álbuns: Sarafina 1937 e Amorzinho 1914, os nomes de sua mãe e pai, respectivamente.[4] Em 2009 realizou uma turnê por São Paulo numa série de shows junto às bandas experimentais Zumbi do Mato e Supersimetria, e aos músicos Walter Franco e Rogério Skylab. Depois destas performances entrou em outro período de hiato, alegando que já não podia mais tocar devido à idade avançada e à saúde em declínio, e que já não tinha mais dinheiro o suficiente para financiar a produção de novos álbuns com a frequência de antes.[12] Seu último lançamento conhecido foi a compilação de 2013 Cemitério Nazista II; foi seu único álbum a não sair por sua gravadora de costume, a Gravadora Planeta Lamma, fundada por ele próprio.

Damião nunca se casou ou teve filhos, e até os últimos dias de sua vida viveu sozinho num apartamento dilapidado e repleto de lixo (já que nunca jogava nada fora) próximo ao complexo de favelas do Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, recebendo uma pensão por invalidez mensal da Marinha.[1] Era frequentemente visto rondando as ruas de Ipanema e a Praça General Osório, confundido com um mendigo por quem não estivesse familiarizado com sua carreira musical. Morreu em 10 de dezembro de 2016, aos 81 anos,[13] e foi sepultado dois dias depois no Cemitério de São João Batista.[14] Apenas duas pessoas (um fã seu que por acaso estava de passagem e uma vizinha) estiveram presentes em seu funeral.[3][15]

Musicalidade e estética[editar | editar código-fonte]

O estilo musical de Damião é impossível de se categorizar com precisão, sendo que ele experimenta com inúmeros gêneros diferentes, mais proeminentemente psych folk, rock psicodélico, reggae e música experimental. Suas canções não têm um sentido lógico à primeira vista, e a maioria delas é cantada num dialeto criado por ele, o "dialeto do planeta Lamma" (falado em seu epônimo "planeta natal"), com letras improvisadas.[7]

Sua discografia é vasta, com números oscilando entre 24 a mais de 38 álbuns de acordo com fontes distintas, todos em formato de vinil[4] (Damião já disse que nunca pretendeu relançar seu catálogo em CD) e gravados num pequeno estúdio dentro de seu apartamento. Entre seus temas líricos estão o apoio a regimes autoritários e ditatoriais (particularmente o nazismo e o comunismo), ao apartheid e ao movimento rastafári, oposição ao aborto, ao feminismo, ao trabalho assalariado e a qualquer forma de religião organizada, sexo, homossexualidade, drogas, semiótica e planetas criados por ele,[3] enquanto alude a personalidades como João Cândido, Isabel Perón, Bob Marley, Pieter Botha, Adolf Hitler, Fidel Castro, Manuel du Bocage e Getúlio Vargas. As capas de seus álbuns são colagens feitas com recortes de jornais e revistas e fotografias de si próprio, num estilo similar ao dos álbuns do músico nigeriano Fela Kuti.

Geralmente toca vários instrumentos enquanto canta ao mesmo tempo. Em seus primeiros álbuns, Damião utilizava exclusivamente violões com diferentes números de cordas (por exemplo, seu primeiro álbum Planeta Lamma foi tocado com um violão de uma só corda), gaitas, chocalhos e ocasionalmente marimbas, misturando português com seu próprio dialeto nas letras. Este estilo é proeminente em seu álbum de estreia de 1974, Planeta Lamma, continuando nos lançamentos seguintes 69 (também de 1974) e Damião Experiença no Planeta Lavoura (1978). Seus lançamentos posteriores dos anos 1980/princípio dos anos 1990 são mais elaborados, contando com a presença de uma banda completa; nos vocais, abandona seu característico dialeto para cantar num português quebrado com letras de cunho altamente sexual e político, frequentemente misturando ideologias incompatíveis. Estas características são mais predominantes nos álbuns Planeta Guerrilha e Ezabelitaperonsim.

Filme[editar | editar código-fonte]

Um curto documentário sobre Damião, intitulado Daminhão Experiença: O Filme e dirigido por Ricardo Movits e Jimi Figueiredo, estreou online em 15 de dezembro de 2016; cinco dias depois de sua morte. É uma das muito poucas entrevistas para as quais Damião concordou em participar. O filme foi originalmente rodado em 2007, e um trailer foi enviado para o canal oficial da dupla no YouTube no ano seguinte. Atualmente Movits e Figueiredo estão finalizando um longa-metragem intitulado Marinheiro Só: O Mendigo do Planeta Lamma, e pretendem lançá-lo no final de 2017.

Discografia parcial[editar | editar código-fonte]

Álbuns datados[editar | editar código-fonte]

  • 1974: Planeta Lamma
  • 1974: 69
  • 1978: Damião Experiença no Planeta Lavoura
  • 1992: Comando Planeta Lamma
  • 1992: Guerrilheiro do Planeta Lamma
  • 1992: Boca Fechada Não Entra Mosquito, Só Felicidade
  • 2007: Amorzinho 1914
  • 2007: Sarafina 1937
  • 2013: Cemitério Nazista II (compilação)

Álbuns com data desconhecida[editar | editar código-fonte]

  • 4c/308
  • Damião Experiença no Planeta Roça
  • Damião Experiença Chupando Cana Verde no Planeta Lamma / Damião Experiença Cheirando Alho no Planeta Lamma
  • Damião Experiença no Planeta Mendigo
  • Planeta Quentão
  • Planeta Cachaça
  • Planeta Cabelo
  • Daimião
  • Daimião Experiença Quinteto Planeta Lamma / Alta Fidelidade
  • Planeta Galinha / Bocagi
  • Planeta Guerrilha
  • Planeta Guerra 1914
  • AdeusAdolfHitler1945fim
  • Ezabelitaperonsim
  • A Morte é a Dor, a Dor é a Morte, Eu Amo a Morte
  • Cemitério Nazismo
  • Praça Vermelha
  • M19 Bomba Atômica
  • Fim do Mundo

Participações especiais[editar | editar código-fonte]

Luiz Melodia
Professor Antena
  • 1994: Professor Antena (vocais adicionais; não creditado)

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Planeta Lamma (autopublicado; data desconhecida)

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Apesar de muitas fontes alegarem que sua data de nascimento foi 27 de setembro de 1935, esta data exata nunca foi confirmada ou negada por ele.
  2. Outros modos de grafar seu nome, como aparecem em seus álbuns, incluem Damminhão Experiênça/Esperiênça, Damião Experiência, ou Daimeão/Daimião Experyênça, entre outras combinações.

Referências

  1. a b c d e André Miranda (19 de novembro de 2015). «Da lenda ao ostracismo, a história de Daminhão Experiença». O Globo. Consultado em 9 de dezembro de 2016 
  2. Planeta Lamma – Marco Bravo
  3. a b c «A suposta morte de Daminhão Experiença». Tribuna de Minas. 21 de dezembro de 2016. Consultado em 21 de fevereiro de 2017 
  4. a b c Carlos Messina (4 de abril de 2014). «DAMIÃO, A EXPERIENÇA». SerHurbano. Consultado em 9 de dezembro de 2016 
  5. a b Leon Carelli (13 de dezembro de 2016). «'Só os mendigos salvam o planeta'». Consultado em 14 de janeiro de 2017 
  6. Livro - Damião Experiença
  7. a b Millos Kaiser (16 de junho de 2009). «LOUCA EXPERIÊNCIA». Trip. Consultado em 19 de dezembro de 2016 
  8. Mauro Ferreira. «Damião Experiência sai de cena aos 81 anos e deixa discografia cultuada». G1. Consultado em 20 de dezembro de 2016 
  9. «Galeria - 13 "heróis" desconhecidos do rock nacional - 13 - Damião Experiença». Rolling Stone. Consultado em 19 de dezembro de 2016 
  10. Marco Antônio Barbosa (2002). «Rogério Skylab em 'Skylab III'». Consultado em 11 de abril de 2017 
  11. Silvia D (20 de novembro de 2000). «Daminhão Experiênça está vivo». Cliquemusic. Consultado em 19 de dezembro de 2016 
  12. Roberta Salomone (16 de maio de 2014). «ENCONTRO COM DAMINHÃO EXPERIENÇA». Consultado em 21 de dezembro de 2016 
  13. «Morre Daminhão Experiença, ícone cult e 'maldito' da música brasileira». Jornal do Commercio. 13 de dezembro de 2016. Consultado em 19 de dezembro de 2016 
  14. «Morre Daminhão Experiença, figura folclórica da música brasileira». O Globo. 13 de dezembro de 2016. Consultado em 19 de dezembro de 2016 
  15. Alex Antunes (13 de dezembro de 2016). «Daminhão Experiença, flerte fractal (1935-2016)». Yahoo! Notícias. Consultado em 19 de dezembro de 2016 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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