Benito Mussolini

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Sua Excelência
Benito Mussolini
Il Duce, Benito Mussolini
40º primeiro-ministro da Itália
Período 31 de outubro de 1922
a 25 de julho de 1943
Antecessor Luigi Facta
Sucessor Pietro Badoglio
Primeiro Marechal do Império
Período 30 de março de 1938
a 25 de julho de 1943
Il Duce da República Social da Itália
Período 23 de setembro de 1943
a 25 de abril de 1945
Dados pessoais
Nome completo Benito Amilcare Andrea Mussolini
Nascimento 29 de julho de 1883
Predappio, Forli, Itália
Morte 28 de abril de 1945 (61 anos)
Mezzegra, Itália
Nacionalidade Italiana
Progenitores Mãe: Rosa Maltoni (18581905)
Pai: Alessandro Mussolini (18541910)
Casamento dos progenitores 25 de janeiro de 1882
Esposa Rachele Mussolini
Filhos 6 (Benito Albino Mussolini, Edda Mussolini, Vittorio Mussolini, Bruno Mussolini, Romano Mussolini e Anna Maria Mussolini)
Partido Partido Socialista Italiano (1901–1914)
Partido Nacional Fascista (1921–1943)
Partido Republicano Fascista (1943–1945)
Profissão Político, militar, jornalista
Assinatura Assinatura de Benito Mussolini
Serviço militar
Lealdade Reino de Itália
Serviço/ramo Exército italiano
Anos de serviço 19141918
19221945
Graduação Primeiro Marechal do Império
Condecorações OSMM, GCTE

Benito Amilcare Andrea Mussolini (Predappio, 29 de julho de 1883Mezzegra, 28 de abril de 1945) foi um político italiano que liderou o Partido Nacional Fascista e é creditado como sendo uma das figuras-chave na criação do fascismo. Tornou-se o primeiro-ministro da Itália em 1922 e começou a usar o título Il Duce desde 1925, onde abandonou qualquer estética democrática do seu governo e estabeleceu sua ditadura totalitária. Após 1936, seu título oficial era "Sua Excelência Benito Mussolini, Chefe de Governo, Duce do Fascismo e Fundador do Império".[1] Mussolini também criou e sustentou a patente militar suprema de Primeiro Marechal do Império, junto com o rei Vítor Emanuel III da Itália, quem deu-lhe o título, tendo controle supremo sobre as forças armadas da Itália. Mussolini permaneceu no poder até ser substituído em 1943; por um curto período, até a sua morte, ele foi o líder da República Social Italiana.

Mussolini foi um dos fundadores do fascismo, que incluía elementos de nacionalismo, corporativismo, sindicalismo nacional, expansionismo, progresso social e anticomunismo, se opondo as ideias de luta de classes e igualitarismo, combinado com a censura de subversivos e maciça propaganda do Estado e culto à personalidade em volta do líder.[2] Nos anos seguintes à criação da ideologia fascista, Mussolini conquistou a admiração de uma grande variedade de figuras políticas.[3]

Entre suas realizações nacionais de 1924 a 1939 destacam-se os seus programas de obras públicas como a drenagem das áreas pantanosas da região do Agro Pontino[4] e o melhoramento das oportunidades de trabalho e transporte público. Mussolini também resolveu a Questão Romana ao concluir o Tratado de Latrão entre o Reino de Itália e a Santa Sé. Ele também é creditado por garantir o sucesso econômico nas colônias italianas e dependências comerciais.[5] Embora inicialmente tenha favorecido o lado da França contra a Alemanha no início da década de 1930, Mussolini tornou-se uma das figuras principais das potências do Eixo e, em 10 de junho de 1940, inseriu a Itália na Segunda Guerra Mundial ao lado dos alemães. Três anos depois, foi deposto pelo Grande Conselho do Fascismo, motivado pela invasão aliada. Logo depois de preso, Mussolini foi resgatado da prisão no Gran Sasso por forças especiais alemãs.

Após seu resgate, Mussolini chefiou a República Social Italiana nas partes da Itália que não haviam sido ocupadas por forças aliadas. Ao final de abril de 1945, com a derrota total aparente, tentou fugir para a Suíça, porém, foi rapidamente capturado e sumariamente executado próximo ao lago de Como por guerrilheiros italianos. Seu corpo foi então trazido para Milão onde foi pendurado de cabeça para baixo em uma estação petrolífera para exibição pública e a confirmação de sua morte.

Infância e juventude

Local de nascimento de Mussolini, em Dovia de Predappio, Forlì em Emília-Romanha, Itália. Hoje em dia, a casa é utilizada como um museu.

Mussolini nasceu em Dovia di Predappio, uma pequena cidade na província de Forlì em Emilia-Romagna em 1883. Na era fascista, Predappio viria a ser chamada de "município do Duce", e Forlì de "cidade do Duce". Alguns peregrinos ainda vão até Predappio e Forlì para ver o local de nascimento de Mussolini. Seu pai, Alessandro Mussolini, era um ferreiro e ativista anarquista[6], enquanto sua mãe Rosa Mussolini (nascida Maltoni) era uma professora de escola e uma devota católica.[7] Devido à orientação política de seu pai, Mussolini foi nomeado Benito em homenagem ao presidente reformista mexicano Benito Juárez, enquanto seus sobrenomes Andrea e Amilcare vieram dos socialistas italianos Andrea Costa e Amilcare Cipriani.[8] Benito era o mais velho de seus dois irmãos, seguido por Arnaldo e depois, Edvige.

Quando criança, Mussolini teria passado um tempo ajudando seu pai na ferraria.[9] Foi lá que ele foi exposto às crenças políticas de seu pai. Alessandro era um socialista e republicano, mas também sustentava algumas visões nacionalistas, especialmente no que diz respeito aos italianos que viviam sob o governo do Império Austro-Húngaro,[9] o que não era consistente com o socialismo internacionalista da época. O conflito entre seus pais sobre religião fez com que, diferente da maioria dos italianos, Mussolini não fosse batizado no nascimento. No entanto, em compromisso com sua mãe, ele foi enviado para uma escola interna regida por monges salesianos. Mussolini era rebelde e foi rapidamente expulso após uma série de incidentes relacionados ao seu comportamento, incluindo atirar pedras na congregação após uma missa, e por participar de uma luta em que feriu seu colega de classe sênior com uma faca.[9] Após ingressar em uma nova escola, alcançou boas notas, e se qualificou como um professor de escola primária em 1901.[7][8]

Tal como o seu pai, Benito tornou-se um socialista. As primeiras opiniões políticas foram fortemente influenciados por seu pai, um revolucionário socialista que idolatrava figuras de nacionalistas italianos com tendências humanistas do século XIX, como Carlo Pisacane, Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi.[10] e de anarquistas como Carlo Cafiero e Mikhail Bakunin.[11] Em 1902, no aniversário da morte de Garibaldi, Benito Mussolini fez um discurso público em louvor do republicano nacionalista.[11]

Foi influenciado por aquilo que leu de Friedrich Nietzsche. Outra doutrina muito corrente da época e que o influenciou foi a do "sindicalismo revolucionário", sustentada pelo escritor francês Georges Sorel (1847 - 1922). Mussolini era rebelde e foi logo expulso da escola após uma série de incidentes relacionados com o comportamento, inclusive atirando pedras contra a congregação, e por participar de uma luta em que feriu um seu colega de classe sênior com uma faca.[9]

Emigração para a Suíça

Fotografias da prisão de Mussolini pela polícia suíça, no Cantão de Berna, 19 de junho de 1903.

Em 1902, Mussolini emigrou para a Suíça, com o objetivo de evitar o serviço militar.[6] Ele trabalhou brevemente em Genebra como um pedreiro, no entanto, foi incapaz de encontrar um emprego profissional permanente no país. Na Suíça, adquiriu um conhecimento prático de francês e alemão.

Durante este tempo, estudou as ideias do filósofo Friedrich Nietzsche, o sociólogo Vilfredo Pareto, e o sindicalista Georges Sorel. Mussolini, mais tarde, viria a creditar o marxista Charles Péguy e o sindicalista Hubert Lagardelle como algumas de suas influências.[12] A ênfase de Sorel sobre a necessidade de derrubar a democracia liberal e o capitalismo pelo uso da violência, ação direta, greve geral, e o uso do neo-maquiavelismo apelando à emoção impressionou Mussolini profundamente.[6] Ainda na Suíça, também conheceu alguns políticos russos vivendo no exílio, incluindo os marxistas Angelica Balabanoff e Vladimir Lenin.[13] Durante este período, uniu-se ao movimento socialista marxista.

Mussolini tornou-se ativo no movimento socialista italiano na Suíça, trabalhando para o jornal L'Avvenire del Lavoratore, organizando encontros, discursando para trabalhadores e servindo como secretário da união dos trabalhadores italianos em Lausanne. Em 1903, foi preso pela polícia bernense pela sua defesa de uma greve geral violenta; passou duas semanas preso, foi deportado à Itália, liberto lá, e retornou à Suíça. Em 1904, após ter sido encarcerado novamente em Lausanne, por falsificação de documentos, retornou à Itália, tirando proveito de uma anistia por deserção a qual ele havia sido condenado in absentia.[14]

Posteriormente, voluntariou-se ao serviço militar no Exército Italiano. Após servir por dois anos nas forças armadas (de janeiro de 1905 até setembro de 1906), voltou a lecionar.[15]

Jornalista político

Mussolini por volta de 1900.

Em fevereiro de 1908, Mussolini deixou a Itália mais uma vez, desta vez para assumir o cargo de secretário do partido trabalhista da cidade de Trento, que na época estava sob o controle do Império Austro-Húngaro, mas onde o idioma predominante era o italiano. Também trabalhou para o partido socialista local, e editou seu jornal L'Avvenire del Lavoratore (O Futuro do Trabalhador, em tradução livre). Ao retornar à Itália, passou um breve período na cidade italiana de Milão e, então, em 1910, retornou à sua cidade natal, onde editava o jornal semanal Lotta di classe (A Luta de Classes, em tradução livre).

Durante este período, publicou Il Trentino veduto da un Socialista (O Trentino visto por um Socialista, em tradução livre) no periódico radical La Voce.[16] Também escreveu vários ensaios sobre a literatura alemã, algumas histórias, e um romance: L'amante del Cardinale: Claudia Particella, romanzo storico (A Amante do Cardeal, tradução livre). Este romance foi co-escrito com Santi Corvaja, e publicado como um livro de série no jornal de Trento Il Popolo. Ele foi lançado de 20 de janeiro a 11 de maio de 1910.[17] O romance foi amargamente anticlerical, e anos depois, foi retirado de circulação, somente após Mussolini dar trégua ao Vaticano.[6]

Em 1909, Mussolini conheceu Ida Dalser em Trento ou em Milão (não há informação correta sobre o local). Os dois começaram um relacionamento e, posteriormente ela empenhou suas jóias e vendeu seu salão de beleza para ajudar Mussolini, que era então um jornalista de esquerda, estabelecer seu próprio jornal. Há relatos que eles teriam se casado em 1914, fato jamais comprovado, e em 1915 nasceu seu primeiro filho, Benito Albino Mussolini. A insistência de Ida em ver seu casamento e seu filho reconhecidos por Mussolini fez com que eles fossem mandados para o hospício, onde viriam a morrer.[18]

Até os dias atuais, Mussolini é considerado um dos socialistas mais proeminentes da Itália. Em setembro de 1911, participou de uma manifestação, liderada pelos socialistas, contra a Guerra Ítalo-Turca na Líbia. Ele amargamente denunciou a estratégia, que classificou como "guerra imperialista", da Itália de capturar a capital da Líbia, Tripoli, uma ação que lhe valeu um período de cinco meses na prisão.[19] Após sua libertação, ajudou a expulsar do partido socialista dois 'revisionistas' que apoiaram a guerra, Ivanoe Bonomi, e Leonida Bissolati. Como resultado, foi promovido à editoria do jornal do Partido Socialista Avanti!. Sob sua liderança, a circulação do jornal passou rapidamente de 20 000 para 100 000.[20]

Em 1913, publicou Giovanni Hus, il veridico (Jan Hus, verdadeiro profeta, em tradução livre), uma biografia política e histórica sobre a vida e missão do reformista eclesiástico tcheco Jan Hus, e seus seguidores militantes, os hussitas. Durante este período socialista de sua vida, Mussolini, algumas vezes, utilizou o pseudônimo Vero Eretico (Herege Sincero). Durante esta época, tornou-se importante o suficiente para a polícia italiana preparar um relatório; os seguintes excertos são de um relatório policial preparado pelo inspetor geral de Segurança Pública em Milão, G. Gasti.

Ruptura com os socialistas

Mussolini como diretor do Avanti!

O inspetor geral escreveu:

A respeito de Mussolini Professor Benito Mussolini,...38, socialista revolucionário, tem um registro policial; professor de escola primária qualificado a ensinar em escolas secundárias; ex-primeiro-secretário das Câmaras em Cesena, Forli, e Ravenna; após 1912, editor do jornal Avanti! pelo qual deu uma orientação violenta, sugestiva e intransigente. Em outubro de 1914, encontrando-se em oposição à direção do partido Socialista Italiano, porque advogou um tipo de neutralidade ativa por parte da Itália na Guerra das Nações contra a tendência absoluta de neutralidade do partido, retirou-se no vigésimo mês na diretoria do Avanti! Então, dia quinze de novembro [1914], iniciou a publicação do jornal Il Popolo d'Italia, onde apoiou - em contraste com o Avanti! e em meio a amargas polêmicas contra o jornal e seus partidários-chefes - a tese da intervenção italiana na guerra contra o militarismo dos Impérios Centrais. Por esta razão, foi acusado de indignidade moral e política e o partido então decidiu expulsá-lo. Posteriormente, ele... encarregou-se de uma campanha muito ativa em favor da intervenção italiana, participando de demonstrações em praças e escrevendo artigos bastante violentos em Popolo d'Italia....[20]

Em seu resumo, o inspetor também observa:

Ela era o editor ideal para o Avanti! para os socialistas. Neste trabalho, foi muito apreciado e amado. Alguns de seus antigos companheiros e admiradores ainda confessam que não havia ninguém que compreendesse melhor a forma de interpretar o espírito do proletariado e não havia ninguém que não tivesse observado sua apostasia com tristeza. Isto não ocorreu por razões de interesse pessoal ou dinheiro. Ele foi um defensor sincero e apaixonado, o primeiro de neutralidade circunspeta e armada, e depois, da guerra; e ele não acreditava que era comprometido com sua honestidade pessoal e política fazendo uso de todos os meios - não importando de onde vieram ou onde poderia obtê-los - para pagar pelo seu jornal, seu programa e seu curso de ação. Este foi seu curso inicial. É difícil dizer até que ponto suas convicções socialistas (que ele nunca abjurou aberta ou privadamente) poderiam ser sacrificadas no curso dos negócios financeiros indispensáveis, que foram necessários para a continuação da luta que foi comprometido... Porém, supondo que estas modificações não tenham lugar... ele sempre quis dar a aparência de ainda ser um socialista, e se enganou ao pensar que este era o caso.[21]

Serviço na Primeira Guerra Mundial

Mussolini em seus trajes militares, quando, em 1917, serviu em nome da Itália, na Primeira Guerra Mundial.

Mussolini tornou-se aliado do político irredentista e jornalista Cesare Battisti, e assim como ele, entrou no exército e serviu na guerra. "Ele foi enviado à zona de operações onde foi seriamente ferido pela explosão de uma granada."[20]

O inspetor continua:

Foi promovido ao posto de cabo "por mérito em guerra". A promoção foi recomendada por causa de sua conduta exemplar e qualidade de combate, sua calma mental e falta de preocupação com o desconforto, seu zelo e regularidade na realização das suas atribuições, onde foi sempre primeiro em todas as tarefas que envolviam trabalho e coragem.[20]

A experiência militar de Mussolini é narrada em sua obra Diario di Guerra[20]. No total, narrou cerca de nove meses na ativa. Durante este período, ele contraiu febre paratifoide.[22] Suas façanhas militares terminaram em 1917, quando foi ferido acidentalmente pela explosão de um morteiro em seu alojamento. Ele foi levado ao hospital com pelo menos 40 pedaços de metal no corpo.[22] Recebeu alta em agosto de 1917 e retomou ao seu cargo de editor-chefe do seu jornal, Il Popolo d'Italia. Escreveu artigos positivos sobre as Legiões Checoslovacas na Itália.

Em 25 de dezembro de 1915, em Treviglio, casou-se com sua compatriota Rachele Guidi, dando-lhe uma filha, Edda, em Forli, 1910. Em 1915, teve um filho com Ida Dalser, uma mulher nascida em Sopramonte, uma vila próxima a Trento.[7][8][23] Ele reconheceu legalmente seu filho em 11 de janeiro de 1916.

Carreira política e ditadura

Retrato de Benito Mussolini Fotografado por George Grantham Bain, Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos

No início da sua carreira de jornalista e político foi um tenaz propagandista do socialismo italiano, em defesa do qual escreveu vários artigos no jornal esquerdista Avanti, de que era redator-chefe. Em 1914, dirigiu o jornal Popolo d'Itália, onde defendeu a intervenção italiana em favor dos aliados e contra a Alemanha. Expulso do Partido Socialista Italiano, alistou-se no exército - quando a Itália entrou na Primeira Guerra Mundial, aliando-se à Grã-Bretanha e à França - e alcançou a patente de sargento, vindo a ser ferido em combate por uma granada. Segundo o historiador Peter Martland, de Cambridge, nessa época, o jornal de Mussolini era pago pela inteligência britânica para fazer propaganda favorável à guerra, de modo que a Itália permanecesse engajada no conflito. Há evidências de pagamentos semanais no valor de 100 libras feitos pelo MI5 a Mussolini, em 1917.[24]

Em 1919, fundou os Fasci Italiani di Combatimento, organização que originaria, mais tarde, o Partido Fascista. Baseando-se numa filosofia política teoricamente socialista, conseguiu a adesão dos militares descontentes e de grande parte da população, alargou os quadros e a dimensão do partido. Sua oratória era tão notável – possuía uma bela voz digna de um barítono – quanto seu uso eficaz de propaganda política. Após um período de grandes perturbações políticas e sociais, durante o qual alcançou grande popularidade, guindou-se a chefe do partido (Duce). Em 1922 organizou, juntamente com Bianchi, De Vecchi, De Bono e Italo Balbo, a famosa marcha sobre Roma[25], um golpe de propaganda. O próprio Mussolini sequer esteve presente, tendo chegado de comboio. Usando as suas milícias chamadas de camicie nere ("camisas negras") para instigar o terror e combater abertamente os socialistas, conseguiu que os poderes investidos o nomeassem para formar governo. Foi nomeado primeiro-ministro pelo rei Vítor Manuel III, alcançando a maioria parlamentar e, consequentemente, poderes absolutos no governo do país.

Logo após a sua subida ao poder, iniciou uma campanha de fanatização que culminaria com o aumento do seu poder, devido à interdição dos restantes partidos políticos e sindicatos. Nessa campanha foi apoiado pela burguesia e pela Igreja. Em 1929, necessitando de apoio desta e dos católicos, pôs fim à Questão Romana (conflito entre os papas e o Estado italiano) assinando a Concordata de São João Latrão com o cardeal Pietro Gasparri. Por esse tratado, firmou-se um acordo pelo qual se criava o Estado do Vaticano, o Sumo Pontífice recebia indemnização monetária pelas perdas territoriais, o ensino religioso era obrigatório nas escolas italianas, o catolicismo virava a religião oficial da Itália e se proibia a admissão em cargos públicos dos sacerdotes que abandonassem a batina. A 19 de abril daquele ano foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito de Portugal.[26] Internamente, Mussolini buscou retirar a Itália da recessão econômica e modernizar a nação. Era um período turbulento na Europa pós-primeira grande guerra, com o medo do comunismo por parte das elites políticas e os desejos das classes trabalhadoras, resultando em um caos social.[27]

Benito Mussolini, a cavalo, falando com soldados do exército italiano.

Uma vez firme no poder, Mussolini iniciou seu projeto da Itália Fascista, concentrando todos os poderes administrativos em suas mãos. Primeiro, buscou silenciar a oposição, indo atrás de sindicalistas, socialistas, intelectuais e qualquer voz dissidente. Entre 1925 e 1927 desmantelou todas as proteções constitucionais que garantiam, entre outras coisas, liberdade de expressão e de associação, instituindo um Estado policial. Ao mesmo tempo implementou um extensivo programa de culto à personalidade, colocando ele, o Duce ("Líder") como a figura central da nação. Partidos políticos foram suspensos nesse período e uma nova lei eleitoral aboliu as eleições parlamentares. Para lidar com a Máfia no sul, apontou Cesare Mori para o senado e deu a ele controle da cidade de Palermo. Por meio de tortura e intimidação, conseguiu reduzir a criminalidade e forçou vários mafiosos a fugir (especialmente para os Estados Unidos). Com o tempo, a pressão do Estado e a corrupção garantiu uma tênue paz entre o regime fascista e a máfia siciliana.[2] Durante o regime de Mussolini, a Máfia acabaria perdendo muito poder e influência no sul da Itália, com os índices de assassinato e crimes em geral caindo consideravelmente, especialmente na Sicília.[28] No sul, muitos dos movimentos anti-fascistas tinham ligações com a máfia.[29]

Na área econômica iniciou um programa de construção de obras públicas, investimentos em educação de base, propaganda fascista nas escolas, e introdução de novas técnicas de agricultura. Ao contrário do que se viu na Alemanha Nazista na década de trinta, onde houve um óbvio crescimento econômico e avanços, o governo italiano fascista de Mussolini teve que apelar para a propaganda por parte dos meios de comunicação (agora controlados pelo Estado) para dar uma ideia de modernidade e progresso, que para a população não era tão aparente assim. Em 1935, tomou cerca de três-quartos dos negócios industriais e de serviços da Itália, tirando poder da iniciativa privada. No ano seguinte instituiu controle de preços para tentar combater a inflação. Seu projeto visava transformar o país auto-suficiente, através de medidas como protecionismo comercial. No âmbito externo, tentou cultivar boas relações com os vizinhos europeus, mas as desavenças eram crescentes com o Reino Unido e com a França, especialmente quando o assunto era as possessões coloniais na África. Assim, buscou se aproximar mais e mais da Alemanha de Adolf Hitler.[2]

Invasão de outros países e Segunda Guerra

Benito Mussolini e Adolf Hitler.

Em 1935, invadiu a Abissínia - atual Etiópia (Segunda Guerra Ítalo-Etíope), perdendo assim o apoio da França e da Inglaterra, até então seus aliados políticos. Esta campanha militar fez mais de meio milhão de mortos entre os africanos, face a cerca de 5.000 baixas do lado italiano. Foram usadas armas químicas contra a população local, um facto que não foi noticiado na imprensa italiana, controlada por Mussolini (ver: Crimes de Guerra da Itália).

Somente então aliou-se de fato a Adolf Hitler, com quem firmaria vários tratados (Hitler chegou a enviar 10 mil rifles Mauser para a Abíssinia e 10 milhões de cartuchos).[30] Em 1936, assinou com o Führer e com o Japão o Pacto Tripartite, pelo qual Alemanha nazista, Itália e Japão formavam uma aliança político-militar que levaria o mundo à Segunda Guerra Mundial.

Em 1938, ocupou a Albânia e enviou vários destacamentos que lutaram ao lado dos falangistas de Franco durante a Guerra Civil de Espanha. Em seguida, fez os exércitos italianos atacarem a Grécia – apenas para serem expulsos em oito dias. Com o início da Segunda Guerra Mundial combateu os aliados e, após várias e quase consecutivas derrotas, apesar do apoio militar alemão e sobretudo depois do desembarque aliado na Sicília, caiu em desgraça, vindo a ser derrubado e preso em 1943. Foi libertado pelos pára-quedistas SS alemães do hotel/prisão de Gran Sasso em 12 de setembro de 1943 em ação de resgate chamada de Operação Carvalho liderada por Otto Skorzeny, conhecida como Operação Eiche (Carvalho).[31]

Morte

Ver artigo principal: Morte de Benito Mussolini
Corpos de Mussolini e Clara Petacci no necrotério de Milão, 29 de abril de 1945.

Fundou a República Social Italiana (conhecida como República de Salò), no Norte do país, mas pouco depois viria a ser novamente preso por guerrilheiros da Resistência italiana, que o mataram a 28 de abril de 1945, juntamente com a sua companheira, Clara Petacci – que embora pudesse fugir, preferiu permanecer ao lado do Duce até o fim. As últimas palavras de Mussolini – em óbvia deferência à sua personalidade egocêntrica – foram:

Atirem aqui (disse ele apontando para o peito) Não destruam meu perfil.

O seu corpo e o de Clara Petacci ficaram expostos à execração pública durante vários dias, pendurados pelos pés, na Piazza Loreto em Milão. Encontra-se sepultado no Túmulo da Família Mussolini em Predappio, na Emília-Romanha, localidade onde nasceu.[32]: o seu mausoléu é visitado pelos turistas, e é local de peregrinação dos neo-fascistas italianos. Em abril de 2009, o município baniu a venda de recordações fascistas.[33]

Investigação

As últimas horas de vida de Mussolini foram vasculhadas por um tribunal do júri de Pádua, em maio de 1957. Mas o processo não esclareceu as circunstâncias da morte. Até hoje não se sabe, de fato, quem disparou os tiros mortais. O pesquisador Renzo de Felice suspeita que o serviço secreto britânico tenha tramado a captura junto com os partigiani.

Michele Moretti, último sobrevivente do grupo de guerrilheiros antifascistas que matou o ditador, morreu em 1995, aos 86 anos em Como (norte da Itália). Moretti, que na época da guerrilha usava o codinome "Pietro", levou para o túmulo o segredo sobre quem realmente disparou contra Mussolini e sua amante. Alguns historiadores italianos afirmam que o próprio Moretti matou os dois. Para outros, o autor dos disparos, feitos com a metralhadora de "Pietro", foi outro partigiano, chamado Walter Audisio. É certo, porém, que a ação foi obra da Resistência italiana.

Vida pessoal

Mussolini foi casado primeiramente com Ida Dalser em Trento em 1914. O casal teve um filho um ano depois e o nomeou Benito Albino Mussolini. Em dezembro de 1915, Mussolini se casou com Rachele Guidi, sua amante desde 1910, e com a sua posterior ascensão política a informação sobre seu primeiro casamento foi suprimida, e tanto sua primeira esposa como seu filho foram posteriormente perseguidos.[23] Com Rachele, Mussolini teve duas filhas, Edda (1910-1995) e Anna Maria (1929-1968); e três filhos Vittorio (1916–1997), Bruno (1918–1941), e Romano (1927–2006). Mussolini teve uma série de amantes, entre elas: Margherita Sarfatti e sua companheira final, Clara Petacci. Além disso, Mussolini teve inúmeros casos breves com partidárias femininas como relatado por seu biógrafo Nicholas Farrell.[34]

Legado

Sobreviveram a Mussolini: sua esposa, Rachele Mussolini, dois filhos, Vittorio e Romano Mussolini, e as filhas Edda, a viúva do Conde Ciano, e Anna Maria. Um terceiro filho, Bruno, faleceu em um acidente aéreo enquanto voava em um bombardeiro P108 em uma missão de teste, em 7 de agosto de 1941.[35] Seu filho mais velho, Benito Albino Mussolini, de seu casamento com Ida Dalser, recebeu ordens para que parasse de declarar que Mussolini era seu pai e em 1935 foi internado à força em um asilo, em Milão, onde foi assassinado em 26 de agosto de 1942, após repetidos coma induzidos por injeções.[23] A irmã da atriz Sophia Loren, Anna Maria Scicolone, foi casada com Romano Mussolini, filho de Mussolini. A neta de Mussolini, Alessandra Mussolini, era membro do Parlamento Europeu pelo partido de extrema-direita Alternativa Sociale, e atualmente atua na Câmara dos Deputados como membro do O Povo da Liberdade.

Ver também

Referências

  1. Image Description: Propaganda poster of Benito Mussolini, with caption "His Excellency Benito Mussolini, Head of Government, Leader of Fascism, and Founder of the Empire...".
  2. a b c Brenda Haugen (2007). Benito Mussolini: Fascist Italian Dictator. [S.l.]: Compass Point Books. ISBN 978-0-7565-1988-9 
  3. Hakim, Joy (1995). A History of Us: War, Peace and all that Jazz. New York: Oxford University Press. ISBN 0-19-509514-6 
  4. Cf. La storia della bonifica pontina
  5. Warwick Palmer, Alan (1996). Who's Who in World Politics: From 1860 to the Present Day. [S.l.]: Routledge. ISBN 0415131618 
  6. a b c d Mediterranean Fascism 1919-1945 Edited by Charles F. Delzel, Harper Rowe 1970, page 3
  7. a b c «Benito Mussolini». Grolier.com. 8 de janeiro de 2008 
  8. a b c Living History 2; Chapter 2: Italy under Fascism - ISBN 1-84536-028-1
  9. a b c d «Benito Mussolini». HistoryLearningSite.co.uk. 8 de janeiro de 2008 
  10. Gregor, Anthony James. Young Mussolini and the intellectual origins of fascism. Berkeley and Los Angeles, California, US; London, England, UK: University of California Press, 1979. Pp. 29
  11. a b Gregor, Anthony James. Young Mussolini and the intellectual origins of fascism. Berkeley and Los Angeles, California, US; London, England, UK: University of California Press, 1979. p. 31.
  12. Mediterranean Fascism by Charles F. Delzel page 96
  13. «"Modern Leftism as Recycled Fascism"». FrontPageMag.com. 24 de outubro de 2009 
  14. Haugen, Brenda (2007). Benito Mussolini. [S.l.]: Compass Point Books. ISBN 9780756518929 
  15. «"Mussolini: il duce"». ThinkQuest.org. 24 de outubro de 2009 
  16. "The Life of Benito Mussolini" by Margherita G. Sarfatti, p. 156
  17. Taken from WorldCat's entry for this book's title.
  18. «Tragic story of Mussolini's wife made into film». The Guardian. 17 de março de 2007 
  19. Mediterranean Fascism 1919-1945 Edited by Charles F. Delzel, Harper Rowe 1970, bottom of page 3
  20. a b c d e Mediterranean Fascism 1919-1945 Edited by Charles F. Delzel, Harper Rowe 1970, page 4
  21. Mediterranean Fascism 1919-1945 Edited by Charles F. Delzel, Harper Rowe 1970, page 6
  22. a b Mussolini: A Study In Power, Ivone Kirkpatrick, Hawthorne Books, 1964. ISBN 0-837-18400-2
  23. a b c Owen, Richard (13 de janeiro de 2005). «Power-mad Mussolini sacrificed wife and son». Times Online. Consultado em 14 de maio de 2009 
  24. Documentos revelam que Mussolini espionou para a Grã-Bretanha, por Georgina Cooper. O Globo, 14 de outubro de 2009.
  25. SASSOON, Donald (2009). Mussolini e a ascensão do fascismo. Rio de Janeiro: Agir. 200 páginas. ISBN 978-85-220-0806-3 
  26. «Cidadãos Estrangeiros Agraciados com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Benito Mussolini". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 16 de abril de 2015 
  27. Konrad Jarausch, Out of Ashes: A new history of Europe in the 20th century (2015)
  28. The Mafia and Politics Arquivado em 4 de janeiro de 2009 no Wayback Machine., por Judith Chubb, Cornell Studies in International Affairs, Occasional Papers No. 23, 1989
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Precedido por
Luigi Facta
Primeiro-ministro da Itália
1922 - 1943
Sucedido por
General Pietro Badoglio