Homossexualidade na Grécia Antiga

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Jovem e adolescente praticando sexo intercrural; fragmento de taça ática de figuras negras, 550-525 a.C. (Louvre).

O amor homossexual na Grécia Antiga teve diversos de seus aspectos explorados por autores da Antiguidade Clássica, como Heródoto,1 Platão,2 Xenofonte,3 e Ateneu.4 A forma mais difundida e socialmente significativa de relação sexual íntima entre membros do mesmo sexo na Grécia do período era entre adultos e adolescentes, conhecida como pederastia; os casamentos heterossexuais, da mesma maneira, eram costumeiramente arranjados de acordo com as idades dos cônjuges, e envolviam homens na faixa dos trinta anos de idade casando com garotas no início da adolescência. Não se conhece com precisão sobre as relações homossexuais envolvendo mulheres na sociedade geral grega, porém existem exemplos que datam deste pelo menos a época da poetisa Safo.5

Os antigos gregos não concebiam a ideia de orientação sexual como um identificador social, da maneira que as sociedades ocidentais vêm fazendo ao longo do último século. A sociedade grega não distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus participantes, mas sim pela extensão com que tais desejos ou comportamentos se conformavam às normas sociais, que eram baseadas por sua vez no gênero, idade e status social.5 Existe, no entanto, pouco material a respeito de como as mulheres viam a atividade sexual.

Existem dois principais pontos de vista a respeito da atividade sexual masculina na sociedade grega antiga. Alguns acadêmicos, como Kenneth Dover e David Halperin, alegam que esta sociedade era altamente polarizada em parceiros "ativos" e "passivos", o 'penetrador' e o 'penetrado', polarização esta que era associada com os papeis sociais dominante e submisso; o papel ativo (penetrante) estava associado com a masculinidade, status social mais elevado e a idade adulta, enquanto o papel passivo era associado com a feminilidade, status social mais baixo e a juventude.5 De acordo com este ponto de vista, qualquer atividade sexual onde um homem penetrasse um inferior social seu era tida como normal; como "inferiores sociais" poderiam estar incluídos mulheres, jovens rapazes, estrangeiros, prostitutas ou escravos; e ser penetrado, especialmente por um inferior social, era considerado potencialmente vergonhoso.5

Outros estudiosos, no entanto, argumentam que as relações entre homens costumeiramente envolviam um adulto e um jovem: o homem mais velho assumia o papel ativo (penetrante).6 7 Estes estudiosos descrevem estas relações como "calorosas", "amáveis" e "afetuosas",8 e sustentam que a tradição grega de relações entre indivíduos do mesmo sexo era central ao "aprendizado, literatura, arte, política, história e aos conhecimentos militares dos gregos, em suma, ao milagre grego".9

Pederastia[editar | editar código-fonte]

Um jovem nu toca o aulos para um banqueteiro: taça ática de figuras vermelhas do Pintor de Euaion, c. 460-450 a.C.

A forma mais comum de relações homossexuais entre homens na Grécia Antiga era a "paiderastia" ("amor de/por garotos"). Era uma relação entre um homem mais velho e um adolescente; em Atenas este indivíduo mais velho era chamado de erastes, e sua função era a de educar, proteger, amar e agir como um exemplo para seu amado - chamado de eromenos, cuja recompensa para seu amante estaria em sua beleza, juventude e potencial.

Protocolos sociais complexos existiam para proteger os jovens da vergonha associada com o ato de ser penetrado sexualmente. O eromenos devia respeitar e honrar o erastes, porém não desejá-lo sexualmente. Embora ser cortejado por um homem mais velho fosse praticamente um rito de passagem para os rapazes, um jovem que fosse visto reciprocando o desejo erótico de seu erastes poderia sofrer um considerável estigma social.5

Os gregos antigos, no contexto das cidades-Estado pederásticas, foram os primeiros a descrever, estudar, sistematizar e estabelecer a pederastia como uma instituição sócio-educacional. Era um elemento importante da vida civil, militar, filosófica e artística.10 Ainda existem debates entre os estudiosos sobre o quanto a pederastia era difundida entre as classes sociais, ou se estava limitada à aristocracia.

O aspecto moral da pederastia foi investigado com atenção pelos próprios gregos antigos, e enquanto algumas de suas características foram consideradas vis, outras foram consideradas como o melhor que a vida pode oferecer. Nas Leis de Platão, a pederastia carnal é descrita como "contrária à natureza", e o autor chega mesmo a sugerir que se uma lei proibindo tal comportamento fosse proposta, seria popular entre as cidades-Estado gregas - e que "provavelmente tal lei seria aprovada como correta."11

O assunto ainda é debatido entre historiadores, quando muitos ainda afirmam que a teoria de Walter Pater (de que não havia distinções na mentalidade dos antigos gregos de amor platônico e amor carnal) era um equívoco. Até mesmo durante o movimento hippie, inúmeros estudantes também homossexuais se basearam na interpretação de Walter Pater.

O Eros Entre o Mesmo Sexo na Grécia Antiga[editar | editar código-fonte]

Os antigos helenos não identificavam ou categorizavam as pessoas de acordo com suas preferências sexuais como acontece no conceito comum da sociedade contemporânea. Não havia termos de auto-identificação para denotar as diferenças entre pessoas heterossexuais ou homossexuais. A moralidade e as leis relativas às práticas sexuais dos antigos helenos variavam de região a região e de tribo a tribo. Em geral, entre as classes mais ricas, o costume de homens que amavam outros homens ou jovens era bem firmemente estabelecido, assim como a afeição de uma mulher por outra era também considerada como uma prática aceitável. Embora certas figuras históricas masculinas tenham sido notadas como tendo uma devotada preferência sexual por outros homens, isso era mais a exceção do que a regra geral. Para a maioria, a preferência por um gênero não tinha reais conseqüências e não era um fator importante no amor romântico (Eros) ou na prática sexual.

“O nobre amante da beleza se engaja no amor onde quer que ele veja excelência e dotes naturais esplêndidos, sem considerar qualquer diferença em detalhes fisiológicos.” (Plutarco, ‘Erotikos – Um Diálogo de Amor’.)

Eros entre Homens[editar | editar código-fonte]

Na antiga Atenas, os relacionamentos entre homens eram bastante comuns, embora mais casuais do que os arranjos formais de Esparta, Creta e Tebas. O mais velho dos dois homens era chamado de erastes (amante) enquanto o mais jovem era referido como sendo o eromenes (amado). Como o julgamento politicamente crucial de Timarchos em 346/5 A.E.C ilustra, havia leis específicas para proteger os jovens homens (em tais relacionamentos) da violência e exploração, e qualquer um que fosse culpado na acusação de tratar seus eromenes impropriamente seria processado por hybris (desonra, insulto) e seria proibido de manter ofício público. Os helenos foram os primeiros a estabelecer a pederastia como uma instituição e as leis relativas à pederastia na antiga Atenas parecem ter sido introduzidas por Sólon. Nas polis principais de Tebas, Beócia, os legisladores instituíram a pederastia como um artifício educacional para jovens, e Xenofonte declara que os homens poderiam viver juntos na Beócia como um casal casado. O mito pederasta beócio de Narciso de Thespeia, em sua forma arcaica, era um conto preventivo que advertia os jovens homens a não tratar seus amantes com crueldade. Na ilha de Creta, a pederastia parece ter tido origens míticas datando da época do Rei Minos, que, de acordo com Aristóteles, usava a pederastia como meio de controlar a população da ilha. A prática cretense de um homem tomando um jovem amante era bastante elaborada e ritualizada. O ritual que começava o relacionamento deles foi registrado por Strabo e creditado a Ephorus.

Os cretenses tinham um costume único relativo a convenções eróticas. Eles não ganhavam os objetos de seu amor por persuasão, mas sim por abdução. O amante avisava os amigos e família do jovem três ou mais dias antes do dia em que ele planejava abduzi-lo. Para eles, esconder o garoto ou não permitir que ele prossiga pelo caminho ordenado era extremamente vergonhoso, uma vez que eles estariam na verdade publicamente admitindo que o garoto não era digno de obter tal amante. Quando as festas começavam, desde que o abdutor fosse de igual ou superior ao jovem, em distinção/classe ou em outras circunstâncias, os amigos e família do garoto faziam uma demonstração meramente simbólica de resistência e perseguiam o abdutor, para cumprir assim o que a convenção requeria antes de eles alegremente permitirem que ele levasse o jovem embora.

Mas, no caso oposto, se o abdutor não fosse uma pessoa de posição social adequada, eles tirariam o jovem dele. O limite da perseguição é o ponto em que o garoto é conduzido até o Andreium ("casa dos homens") do abdutor. Os jovens mais desejados, de acordo com as convenções de Creta, não são os excepcionalmente lindos, mas sim aqueles que se distinguem por sua coragem viril e comportamento ordeiro. O amante dá presentes ao jovem e o leva embora para algum lugar nos campos ao redor da polis, que ele escolhe. As pessoas presentes na abdução os acompanham e passam dois meses banqueteando e caçando junto a eles (pois não é permitido deter o garoto por mais tempo do que isso), depois eles descem novamente para a cidade. O jovem é enviado para casa com presentes os quais consistem de um traje militar, um boi e uma taça (esses são presentes prescritos por convenção), e além desses muitos outros presentes caros – tão caros que os amigos contribuem cada um com sua parte a fim de diminuir a despesa. O jovem sacrifica o boi a Zeus e dá um banquete a aqueles que foram com ele para as montanhas. Ele então declara, com relação a seu relacionamento com seu amante, se ele aconteceu com seu consentimento ou não; a convenção encoraja isso a fim de que, se qualquer violência for usada contra ele na abdução, ele pode restituir sua honra e terminar com o relacionamento. Para aqueles que são lindos e têm ilustres ancestrais, não ter amantes é desonroso/vergonhoso, uma vez que sua rejeição seria atribuída ao seu mau caráter. Os parastathentes ('que ficam de guarda', significando 'camaradas em batalha e em vida') — pois é esse o termo que usam para aqueles que são abduzidos — desfrutam de certas honras: nas danças corais e nas corridas eles têm os lugares mais honrados; a eles é permitido usar as vestes presenteadas a eles por seus amantes, as quais os distinguem das outras pessoas; e não apenas na tal época, mas na idade madura, eles aparecem em um traje distinto, pelo qual cada indivíduo é conhecido como sendo kleinos ("famoso"); kleinos é o termo equivalente deles para eromenos ("amado") e philetor ("que faz amigos") é o termo para erastes ("amante").

Descobertas arqueológicas em Kato Syme, em um rústico santuário a Hermes e Afrodite no Monte Dikte (local de nascimento do Zeus cretense), aparecem para confirmar o relatório de Strabo de sacrifícios rituais e ofertas feitas pelo kleinos. Escavações descobriram os restos de sacrifícios animais junto com ofertas votivas de bronze retratando dois homens juntos.

A prática espartana de pederastia parece ter sido derivada dos dóricos de Creta e era uma parte integral da agoge, a estrutura educacional da cultura espartana. O mais velho dos dois homens era chamado de eispnelos (inspirador) e o mais jovem que receberia a educação era chamado de aïtas (ouvinte). Era função do inspirador a de instilar a coragem como uma arête (virtude) em seu ouvinte.

Deve ser notado que relatos de relacionamentos entre homens na forma da instituição educacional da pederastia e em outras formas de amizade homoerótica eram muito difundidos. As regiões mencionadas acima não são de forma alguma casos isolados e só foram selecionadas para inclusão específica devido às referências diretas antigas relativas aos costumes e práticas desses homens e seus estilos de vida. Com as referências registradas nos principais centros de pederastia também em outras regiões, a falta de diferenciação entre heterossexualidade e homossexualidade torna tais distinções difíceis de discernir.

Eros entre Mulheres[editar | editar código-fonte]

"E embora esse tipo de amor [a pederastia] fosse tão aprovado entre eles que as mais virtuosas matronas fariam confissões/declarações desse amor às jovens garotas, e ainda a rivalidade não existisse…" (Plutarco)

Há algumas poucas referências a relacionamentos eróticos entre mulheres na Grécia antiga e isso é certamente devido ao fato de que mal havia vozes femininas antigas que foram registradas e preservadas para a posteridade. Uma extensão de estudiosos modernos esboçou paralelos entre o estabelecimento da tradição da pederastia entre os homens e a tutela de Safo com jovens mulheres, baseando-se em certas referências antigas assim como interpretações de fragmentos selecionados de sua poesia.

“O que mais era o amor da mulher de Lesbos senão a arte do amor de Sócrates? Pois eles parecem ter praticado o amor cada um da sua própria forma, ela o das mulheres e ele o dos homens. Ambos amaram muito e ficaram cativados por todas as coisas lindas. O que Alcibíades e Charmides e Fedro eram para ele, Gyrinna e Atthis e Anactoria eram para Safo.” (Maximus de Tyre, filósofo do século III.)

Dessas associações comuns modernas da paixão de Safo por mulheres, o termo ‘lésbica’ se tornou um nome para descrever um homo-erotismo feminino junto com o seu sinônimo de ‘amor sáfico’. Safo se tornou um ícone moderno para a paixão feminina e, no mundo contemporâneo, as mulheres viajam por todo o mundo em uma peregrinação anual para visitar o lugar de nascimento dela em Erresos, na ilha de Lesbos, para celebrar a liberdade de seu fervor expressivo por outras mulheres.

Outra fonte antiga que se acredita registrar a prática de pederastia feminina é Alcman, um poeta coral lírico helênico de Esparta. Aristóteles observa que Alcman foi trazido para Esparta como escravo, mas ganhou sua liberdade devido a seu talento como poeta lírico. Embora a maioria dos poemas de Alcman não tenha sobrevivido à passage do tempo, a descoberta de 1855 de um papiro de seu Partheneion, uma canção coral de mulheres não-casadas, foi considerada como sendo a prova da prática simultânea da pederastia feminina em Esparta. Certos estudiosos acreditam que o Partheneion ilustra os relacionamentos homo-sociais e homo-eróticos que existiam entre as garotas de um coral e a regente delas.

“Pois a abundância de púrpura não é o suficiente para a proteção, nem serpents intrincadas de sólido ouro, não, nem fita de cabelo da Lídia, orgulho das garotas de olhos escuros, nem o cabelo de Nanno, nem mesmo os divines Areta ou Thylacis e Cleësithera; nem irão vocês até a casa de Aenesimbrota dizer 'se apenas Astaphis fosse minha, se apenas Philylla olhasse na minha direção e Damareta e a amável Ianthemis'; não, Hagesichora [a regente do coro] me guarda.” “Eu estava para ver se, por alguma chance, ela iria me amar. Se apenas ela chegasse mais perto e tomasse minha mão macia, imediatamente eu me tornaria sua suplicante.”

É importante notar que, das poucas referências diretas com relação à pederastia feminina que pratica o ‘amor sáfico’ no mundo antigo, parece que ela foi muito mais casual do que os arranjos formais dos homens. Talvez seja essa a razão para a falta de material fonte derivando da antiga Grécia assim como a falta de evidência indicando qualquer vestígio de um ritual de compromisso entre duas mulheres. Os únicos comentários sobre relacionamentos de mulheres foram feitos por autores masculinos, que estão muito longe e retirados da experiência feminina. Suas referências são mais acuradamente definidas como representações de mulheres nos meios íntimos e sociais do que verdadeiros relatos da vida feminina. Os relacionamentos entre mulheres são apenas associadas com a forma de pederastia dentro do contexto de Safo e dos fragmentos de Alcman. Por causa da aceitação geral do amor entre membros do mesmo sexo, representações de relacionamentos entre mulheres não eram distinguidas dentro de seus próprios termos por definições tais como homo-sociais ou homo-eróticas. Aplicar essas distinções modernas entre relacionamentos homo-sociais e homo-eróticos às mulheres helênicas antigas é extremamente difícil, devido à ausência de autoras reais detalhando um relato de vida feminina no mundo antigo.

Referências

  1. Heródoto, Histórias 1.135 (em inglês)
  2. Platão, Fedro 227a (em inglês)
  3. Xenofonte, Memorabilia 2.6.28, Simpósio 8 (em inglês)
  4. Ateneu, Deipnosophistae 13:601-606 (em inglês)
  5. a b c d e Oxford Classical Dictionary, verbete homosexuality, David M. Halperin, pp.720–723.
  6. T.K. Hubbard, crítica de D.M. Halperin, How to Do the History of Homosexuality, em Bryn Mawr Classical Review 2003.09.22
  7. D.H. Mader, "The Greek Mirror: The Uranians and their Use of Greece." em Same-Sex Desire and Love in Greco-Roman Antiquity e em the Classical Tradition of the West, ed. B. C. Verstraete and V. Provencal, Harrington Park Press, 2005, pp.411-412
  8. DeVries, Keith em M. Duberman, ed., Queer Representations: Reading Lives, Reading Cultures (Nova York 1997)
  9. W.A. Percy, III, "Reconsiderations about Greek Homosexualities," in Same-Sex Desire and Love in Greco-Roman Antiquity and in the Classical Tradition of the West, ed. B. C. Verstraete and V. Provencal, Harrington Park Press, 2005, pp.47-48
  10. Golden M. "Slavery and homosexuality in Athens". em Phoenix 1984 XXXVIII : 308-324
  11. Platão, Lei, [1] (em inglês)

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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