Pagu

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Pagu
Retrato de Pagu feito no final da década de 1920.
Nome completo Patrícia Rehder Galvão
Outros nomes Patsy, Zazá, Mara Lobo, Paula, G. Léa, Peste, King Shelter, Gim, Ariel, Leonnie, Pt.., K. B. Luda.[1]
Nascimento 9 de junho de 1910
São João da Boa Vista, São Paulo
Morte 12 de dezembro de 1962 (52 anos)
Nacionalidade  brasileira
Cônjuge Oswald de Andrade (1930-1935)
Geraldo Ferraz (1941-1962)
Filho(s) Rudá de Andrade (1930-2009)
Geraldo Galvão Ferraz (18-6-1941 a 08-02-2013)
Ocupação Escritora e jornalista
Movimento literário Modernismo no Brasil

Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo pseudônimo de Pagu, (São João da Boa Vista, 9 de junho de 1910Santos, 12 de dezembro de 1962[2] ) foi uma escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista, jornalista e militante política brasileira. Teve grande destaque no movimento modernista iniciado em 1922, embora não tivesse participado da Semana de Arte Moderna, tendo na época apenas doze anos de idade. Militante comunista, foi a primeira mulher presa no Brasil por motivações políticas.[3]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Pagu foi a terceira de quatro irmãos, filhos de Thiers Galvão de França, advogado e jornalista, e de Adélia Rehder Galvão. Seus irmãos chamavam-se Conceição, Homero e Sidéria. Os avós paternos eram Joaquim Galvão Freire de França e Guilhermina Galvão, e os maternos, Germano Rehder Sobrinho e Ordália Aguiar Rehder. [4]

Bem antes de se tornar Pagu, apelido que lhe foi dado pelo poeta Raul Bopp, Zazá, como era conhecida em família, já era uma mulher avançada para os padrões da época, dada a algumas "extravagâncias", como fumar na rua, usar blusas transparentes, cabelos curtos e eriçados e dizer palavrões. Seu comportamento não era compatível com sua origem familiar conservadora e tradicional[5] . Em 1925, com quinze anos, passou a colaborar no Brás Jornal, assinando Patsy. [6]

Embora se tenha tornado a musa dos modernistas, Pagu não participou da Semana de Arte Moderna. Tinha apenas 12 anos em 1922, quando a Semana se realizou. Entretanto, aos 18 anos, pouco depois de completar o curso na Escola Normal da Capital (São Paulo, 1928) integra-se ao movimento antropofágico, sob a influência de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. O apelido Pagu surgiu de um erro do poeta modernista Raul Bopp, ao dedicar a ela, em 1928, o poema "Coco de Pagu":

Pagú tem uns olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-coco quando passa.
Coração pega a bater.
Eh Pagú eh!
Dói porque é bom de fazer doer (...)
[7]

Bopp inventara o apelido, imaginando que seu nome fosse Patrícia Goulart e pretendendo fazer uma brincadeira com as primeiras sílabas do nome.

Da esquerda para a direita: Pagu, Elsie Lessa, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Eugênia Álvaro Moreyra, por volta de 1930

O poema de Raul Bopp foi também responsável pela celebridade da jovem Pagu. Foi publicado em vários jornais da época e interpretado por sua musa no palco do Teatro Municipal de São Paulo, em 1929. Além disso, como foi ultimamente descoberto pelo pesquisador e tradutor francês Antoine Chareyre, o texto até virou letra de canção: uma toada, com o mesmo título, composta e cantada por Laura Suarez em 1929, e lançada em disco, pela mesma, no início de 1930, o que possibilitou a radiodifusão da canção.[8]

Em 1930, um escândalo para a sociedade conservadora de então: Oswald separa-se de Tarsila e casa-se com Pagu. Especula-se que eles eram amantes desde a época em que Oswald era casado. No mesmo ano nasceu Rudá de Andrade, segundo filho de Oswald e primeiro de Pagu. Os dois se tornaram militantes do Partido Comunista Brasileiro.

Em 1931, ao participar da organização de uma greve de estivadores em Santos, Pagu foi presa pela polícia política de Getúlio Vargas. Foi a primeira de uma série de 23 prisões ao longo da vida. Depois de alguns anos de militância, em 1933, partiu para uma viagem pelo mundo, deixando no Brasil o marido e o filho. No mesmo ano publicou o romance Parque industrial, sob o pseudônimo de Mara Lobo.

Em 1935 foi presa em Paris como comunista estrangeira, com identidade falsa, sendo repatriada para o Brasil. Separou-se definitivamente de Oswald, após muitas brigas e ciúmes. Retomou sua atividade jornalística, sendo novamente presa e torturada pelas forças da ditadura de Getúlio Vargas, ficando na cadeia por cinco anos. Nesses cinco anos, seu filho foi criado por Oswald.

Ao sair da prisão, em 1940, rompeu com o Partido Comunista, passando a defender um socialismo de linha trotskista. Integrou a redação de A Vanguarda Socialista junto com seu marido Geraldo Ferraz, o crítico de arte Mário Pedrosa, Hilcar Leite e Edmundo Moniz.

Casou novamente com Geraldo Ferraz, e desta união nasceu seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz, em 18 de junho de 1941. Passou a morar com os dois filhos e o marido. Nessa mesma época viaja à China, obtendo as primeiras sementes de soja que foram introduzidas no Brasil.

Em 1945, lançou novo romance, A Famosa Revista, escrito em parceria com o marido Geraldo Ferraz. Tentou, sem sucesso, uma vaga de deputada estadual nas eleições de 1950.

Em 1952 frequentou a Escola de Arte Dramática de São Paulo, levando seus espetáculos a Santos. Ligada ao teatro de vanguarda, apresentou sua tradução de A Cantora Careca de Ionesco. Traduziu e dirigiu Fando e Liz de Fernando Arrabal, numa montagem amadora na qual estreava o jovem ator Plínio Marcos. Também traduziu poemas de Guillaume Apollinaire.

Conhecida como grande animadora cultural em Santos, lá passou a residir com o marido e os dois filhos. Conviveu e incentivou jovens talentos santistas que apenas começavam suas carreiras, como o ator e dramaturgo Plínio Marcos e o compositor Gilberto Mendes. Dedicou-se em especial ao teatro, particularmente no incentivo a grupos amadores.

Ainda trabalhava como crítica de arte, quando foi acometida de um câncer. Viajou a Paris para se submeter a uma cirurgia, sem resultados positivos. Decepcionada e desesperada por estar doente, Patrícia tentou o suicídio, o que não se concretizou. Sobre o episódio, escreveu no panfleto "Verdade e Liberdade": "Uma bala ficou para trás, entre gazes e lembranças estraçalhadas". Voltou ao Brasil e morreu em 12 de dezembro de 1962, em decorrência da doença.

Em 2004, em Santos, a catadora de papel Selma Morgana Sarti encontrou no lixo uma grande quantidade de fotos e documentos da escritora e do jornalista Geraldo Ferraz, seu último companheiro. Estes fazem parte atualmente do arquivo da UNICAMP.

Em 2005, a cidade de São Paulo comemorou os 95 anos de nascimento de Pagu com uma vasta programação, que incluiu lançamento de livros, exposição de fotos, desenhos e textos da homenageada, apresentação de um espetáculo teatral sobre sua vida e inauguração de uma página na Internet. No dia exato de seu nascimento, convidados compareceram com trajes de época a uma "festa Pagu", realizada no Museu da Imagem e do Som.

Desenho[editar | editar código-fonte]

Outra faceta de Pagu é como desenhista e ilustradora. Participou da Revista de Antropofagia, publicada entre 1928 e 1929, entre outras. Em 2004, foi publicado o Caderno de croquis de Pagu e outros momentos felizes que foram devorados reunidos, com 22 desenhos da artista. O livro foi organizado por Lúcia Maria Teixeira Furlani, com a colaboração de Leda Rita Ferraz e de Rudá de Andrade, o filho de Pagu e Oswald de Andrade. Foi também realizada uma exposição de seus desenhos no MIS, em São Paulo.[9] [10]

Literatura[editar | editar código-fonte]

Patrícia na década de 1930

Pagu publicou os romances Parque industrial (edição da autora, 1933), sob o pseudônimo Mara Lobo, considerado o primeiro romance proletário brasileiro, e A Famosa Revista (Americ-Edit, 1945), em colaboração com Geraldo Ferraz. Parque industrial foi publicado nos Estados Unidos em tradução de Kenneth David Jackson, em 1994, pela University of Nebraska Press, e em França em tradução e edição crítica de Antoine Chareyre, em 2015.

Escreveu também contos policiais, sob o pseudônimo King Shelter, publicados originalmente na revista Detective, dirigida pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, e depois reunidos em Safra Macabra (Livraria José Olympio Editora, 1998).

Em seu trabalho, junto a grupos teatrais, revelou e traduziu grandes autores até então inéditos no Brasil como James Joyce, Eugène Ionesco, Fernando Arrabal e Octavio Paz[5] .

Representações na cultura[editar | editar código-fonte]

Sua vida e sua obra já foram tema de trabalho acadêmico em Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão: a experiência literária do Suplemento Literário do Diário de S. Paulo (Annablume, 2005).[11] Em A "moscouzinha" brasileira: cenários e personagens do cotidiano operário de Santos (1930 - 1954) (São Paulo, Humanitas, 2007), é citada a participação de Pagu, como militante comunista, num comício do PC e dos estivadores de Santos, em agosto de 1931, quando ela foi presa pela primeira vez. Escolhida como principal oradora, ela é agarrada por policiais, que tentam amordaçá-la. O estivador negro Herculano de Souza vai em sua defesa e é morto pela polícia. Pagu é presa e levada ao cárcere 3, na Praça dos Andradas, dita a "pior cadeia do continente", onde permanece duas semanas. Torna-se assim a primeira mulher a ser presa, no Brasil, por motivos claramente políticos.[12] [4]

Em 1988, a vida de Pagu foi contada no filme Eternamente Pagu (1987), no primeiro longa metragem dirigido por Norma Benguell, com Carla Camurati no papel-título, Antônio Fagundes como Oswald de Andrade e Esther Góes no papel de Tarsila do Amaral.

Pagu foi tema de dois documentários - o primeiro baseado na obra de Lúcia Maria Teixeira Furlani Patrícia Galvão – livre na imaginação no espaço e no tempo (Unisanta, 1988), com o título homônimo e ganhador do prêmio Exu Jorge Amado, da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, sob a direção de seu filho com Oswald de Andrade, Rudá de Andrade e também do cineasta, Marcelo Tassara. O outro documentário, do cineasta Ivo Branco, tem o título Eh, Pagu!, Eh!. Ela também aparece como personagem do filme O Homem do Pau Brasil. Na TV, foi personagem na minissérie Um Só Coração (2004), interpretada por Miriam Freeland.

Há também canção, Pagu, composição de Rita Lee e Zélia Duncan,[13] já interpretada por Maria Rita (nos álbuns Maria Rita e Segundo: Ao Vivo ):

Nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem
Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque...


A história de Pagu também chegou aos palcos do teatro. No ano do centenário de seu nascimento entrou em cartaz o espetáculo Dos Escombros de Pagu, baseado no livro homônimo de Tereza Freire.

Em 2006, Pagu foi enredo da Escola de Samba X-9 de Santos.

No ano do centenário de seu nascimento (2010), foi publicada a Fotobiografia Viva Pagu, de autoria de Lúcia Maria Teixeira Furlani e Geraldo Galvão Ferraz.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Obra de Patrícia Galvão[editar | editar código-fonte]

  • Parque industrial (romance proletário). São Paulo: Edição particular, 1933.
  • A Famosa Revista (em colaboração com Geraldo Ferraz). Americ-Edit , 1945.
  • Verdade e Liberdade. Edição da autora, 1950.
  • Safra Macabra. Editora José Olympio, 1998.
  • Croquis de Pagu (org. Lúcia Maria Teixeira Furlani). Editora Unisanta, 2004.
  • Paixão Pagu (A autobiografia precoce de Patricia Galvão). AGIR, 2005, 164 págs.

Em tradução[editar | editar código-fonte]

  • Parc industriel (roman prolétaire). Prologo de Liliane Giraudon, tradução francesa, notas e posfácio de Antoine Chareyre. Montreuil (França): Le Temps des Cerises, coleção "Romans des Libertés", 2015, 166 págs.

Sobre Patrícia Galvão[editar | editar código-fonte]

  • ANDRADE, O. GALVÃO, P.. Pagu, Oswald, Segall. Globo, 2009.
  • CAMPOS, A. Pagu Vida-obra. São Paulo: Brasiliense. Editora Ediouro,2005
  • FREIRE, Tereza. Dos escombros de Pagu. São Paulo: SENAC, 2008
  • FURLANI, Lúcia Maria Teixeira. Pagu – Patrícia Galvão: livre na imaginação, no espaço e no tempo. 5ª ed. Santos: UNISANTA, 1999.
  • FURLANI, Lúcia Maria Teixeira. Viva Pagu – Fotobiografia de Patrícia Galvão. São Paulo: Imprensa Oficial e Editora Unisanta, 2010.
  • GALVÃO, Thelma. Pagu - Literatura e Revoluçao. Ateliê Editorial, 2003
  • NEVES, Juliana. Geraldo Ferraz e Patricia Galvão. Annablume, 2005, 214 págs.
  • TAVARES, Rodrigo Rodrigues. A "Moscouzinha" brasileira: cenários e personagens do cotidiano operário de Santos. São Paulo: Humanitas/FAPESP, 2007
  • ZATZ, Lia. Pagu - A Luta De Cada Um. Callis, 2005.

Referências

  1. ZATZ, Lia. In: Callis. Pagu. São Paulo: [s.n.]. ISBN 85-98750-08-5
  2. UOL Biografias: pagu
  3. Portal Vermelho. Cem anos de Pagu, musa do modernismo. Visitado em 04/07/2010.
  4. a b Pagu - Patrícia Rehder Galvão
  5. a b Patrícia Rehder Galvão (Pagu) (em português) amulhernaliteratura.ufsc.br. Visitado em 9 de junho de 2012.
  6. Pagu. Por Taciana Aparecida Rodrigues. Infoescola.
  7. Jornal de poesia. Coco de Pagu, por Raul Bopp
  8. CHAREYRE, Antoine. "Pagu Face B : l'égérie oubliée du Carnaval de 1930 !", no blog Bois Brésil & Cie., 16 de fevereiro de 2015.
  9. MIS abre o caderno de desenhos de Pagu. Estadão, 4 de maio de 2004.
  10. MIS expõe desenhos inéditos de Pagu até dia 30 de maio
  11. Vida e obra de uma menina nada comportada: Pagu e o Suplemento Literário do Diário de S. Paulo. Por Heloisa Pontes. Cadernos Pagu, n° 26 Campinas, jan.-jun de 2006 ISSN 0104-8333
  12. Patrícia Galvão (Pagu). Escritora: 1910 - 1962, por Camila Ventura Frésca.
  13. Indômita Pagu. Por Walnice Nogueira Galvão.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Wikiquote
O Wikiquote possui citações de ou sobre: Patrícia Galvão