Demétrio Magnoli

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Demétrio Magnoli
Nome completo Demétrio Martinelli Magnoli
Nascimento 1958
São Paulo, SP
Nacionalidade  Brasileira
Ocupação jornalista, sociólogo e geógrafo

Demétrio Martinelli Magnoli (1958) é um jornalista, doutor em geografia humana e sociólogo brasileiro.[1][2]

Vida profissional[editar | editar código-fonte]

Jornalista pela Escola de Comunicação e Artes da USP, é comentarista de política internacional no Jornal das Dez da Globo News.[3] Faz também análises políticas em suas colunas nos periódicos O Globo e Folha de S.Paulo. Já foi colunista do jornal O Estado de São Paulo, da revista Época e da Rádio BandNews FM, além de ter sido comentarista do Jornal da TV Cultura.[4]

Doutor em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP [5](1996; tese: O Corpo da Pátria - Imaginário Geográfico e Política Externa no Brasil, 1808-1912), é integrante do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional do Instituto de Relações Internacionais da USP.[6]

Posição política[editar | editar código-fonte]

Na juventude, Demétrio Magnoli foi trotskista, militando na Liberdade e Luta (Libelu), uma facção do movimento estudantil ligada à Organização Socialista Internacionalista (OSI).[7]

A partir de 1981, os militantes da Libelu engajaram-se intensamente na formação do jovem Partido dos Trabalhadores, porque a OSI via nele o surgimento de um partido operário de massas. Para legalizar o partido, Demétrio ajudou a filiar um grande número de membros.[7]

No entanto, em 1983 Demétrio rompeu com o marxismo e abandonou a Libelu por acreditar que aquele movimento se aproximava do Stalinismo que tanto criticava. Segundo ele, o marxismo oferece aos intelectuais a ilusão de que são donos de um saber maior: o do fim da história. Como consequência, essa ideologia justificaria o autoritarismo, dando aos intelectuais a função de dirigir a sociedade.[8] Abandonou o PT em 1989, quando percebeu que o partido "se afastou de princípios filosóficos e morais que estavam na sua origem".[7]

Hoje, Demétrio Magnoli se considera "tão de esquerda quanto um social-democrata europeu".[7] Ele justifica sua posição por acreditar que a liberdade econômica não é um valor absoluto, sagrado. Para Demétrio, o Estado deve criar redes de proteção social e prover serviços públicos de qualidade para a população. Ele faz, no entanto, uma distinção entre a esquerda europeia, com a qual se identifica, e a esquerda latino-americana, que ele critica, identificando-a com o castrismo, o chavismo e o kirchnerismo. Segundo ele, a esquerda latino-americana notabiliza-se pelo viés nacionalista e pelo discurso antiamericano; seria autoritária e defenderia o capitalismo de Estado.[9][10]

Crítico do lulopetismo, Magnoli considera o governo petista conservador por estimular o capitalismo de Estado e por se negar a fazer uma série de reformas que tornariam a representação mais efetiva e mais transparente. Segundo ele, o governo PT é também restauracionista, porque quer restaurar o corporativismo varguista.[11]

Controvérsias[editar | editar código-fonte]

Nova direita[editar | editar código-fonte]

Algumas revistas, comentaristas e professores universitários classificam-no como parte de uma nova direita brasileira.[12] Demétrio refuta essa análise e explica que a concepção de que ele é de direita foi construída por porta-vozes do PT, dentro e fora das universidades.[9][11]

Ações afirmativas[editar | editar código-fonte]

Demétrio Magnoli tem-se posicionado ativamente contra ações afirmativas e cotas raciais.[13] Em seu livro de 2009, "Uma Gota de Sangue", a tese central é de que "ações afirmativas e o movimento negro resultam de uma armação ideológica" (o multiculturalismo), que "conspira contra o princípio da igualdade perante a lei". Seu ponto de vista de que no Brasil "a fronteira racial não existe na consciência das pessoas" e de que já no século XIX a História do Brasil era contada como uma "mescla de raças" (enquanto que nos Estados Unidos a segregação racial tornava-se norma), foi contestado mesmo em veículos dos quais ele participa ativamente, como a Folha de S. Paulo.[14] Magnoli refutou esta análise, afirmando que o autor da mesma (Marcelo Leite) havia sido "vítima da pressa" e que em seu livro havia "80 páginas" que comprovariam e esclareceriam sua tese.[15]

Protestos de 2011 na USP[editar | editar código-fonte]

Fez críticas em 2011 aos estudantes da USP que reagiram de forma violenta contra intervenções da Polícia Militar de São Paulo no campus, em busca de usuários de maconha. Na época, ele contestou inclusive a escolha do reitor da universidade pelo voto direto, afirmando que isso só fazia sentido "nas décadas de 1960 e 1970", quando "havia a necessidade de preservar a instituição de ensino como um território da liberdade de expressão".[16]

Ocidentalismo[editar | editar código-fonte]

No começo de 2015, quando houve o Massacre do Charlie Hebdo, Magnoli criticou duramente os intelectuais acadêmicos que, em sua visão, compactuavam com a teoria do choque de civilizações ao "tentar entender" o significado do ataque. Para ele, professores como Arlene Clemesha e Williams Gonçalves aderiram à lógica do terror jihadista quando se manifestaram publicamente buscando motivações para os ataques da Al Qaeda.[17]

Clemesha defendeu que "não se deve fazer humor com o outro" e Gonçalves disse que "quem faz uma provocação dessas não poderia esperar coisa muito diferente", referindo-se aos cartunistas que satirizaram o profeta Maomé. Demétrio avaliou que essas declarações buscavam defender os terroristas "na forma prevísivel da condenação das vítimas 'justiçadas'".

Para Magnoli, essas análises são sinais notáveis da "contaminação tóxica da nossa vida intelectual" e da "célere conversão de departamentos universitários em latas de lixo do pensamento". Ele sustenta que a malignização do ocidente (expressa na ideologia do ocidentalismo) é equivalente à islamofobia da extrema-direita francesa, pois ambos seguem a cartilha do "choque das civilizações" e são cultores relativismo moral.[18] Demétrio entende que a defesa de Gonçalves ao "controle social da mídia" implicaria que a França renunciasse a suas leis e a seus valores, entre os quais a laicidade do Estado.

Arlene Clemesha, em resposta ao artigo de Magnoli, lamentou o "uso do recurso da difamação", por Demétrio, para "minar a credibilidade de seu pensamento sem se dar ao trabalho de rebatê-lo com argumentos". Ela esclareceu que fazer "ressalvas quanto à conveniência ou oportunidade de determinada manifestação prejudicial à convivência" não relativiza o julgamento do atentado. Repudiando veementemente a atitude de Magnoli, Arlene Clemesha diz esperar que ele "compreenda que existem alternativas em prol de uma convivência melhor [...] muito mais propensas a exaurir o terreno do fundamentalismo do que a destilar o ódio."[19]

Em sua resposta ao mesmo artigo, Williams Gonçalves estranhou que Magnoli, em seu texto, defendesse a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, se utilizasse dessa liberdade para "atacar gratuitamente a honra e a dignidade de quem discorda, em vez que usar tão valioso espaço para apresentar ideias." Para ele, Demétrio Magnoli distorceu e descontextualizou as ideias que ele havia exposto em sua participação no noticiário da GloboNews.[20]

Magnoli voltou ao tema em novo artigo, avaliando que os ocidentalistas "não se preocupam com a consistência argumentativa" quando ficam calados diante do atentado no mercado kosher, "comprovando que para os jihadistas, não interessa o que você faz, mas o que você é." Demétrio escreveu ainda que os ocidentalistas "são parasitas intelectuais das correntes minoritárias de intolerância, xenofobia e islamofobia do Ocidente."[18]

Obras[editar | editar código-fonte]

Demétrio Magnoli publicou seu primeiro livro, "O que é Geopolítica?", em 1986.[21] Em 1997, foi um dos finalistas do prêmio Jabuti, concorrendo com o livro "O Corpo da Pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil, 1808-1912" (UNESP).[22]

Lista de obras[editar | editar código-fonte]

  • União Européia: história e geopolítica (São Paulo: Moderna). 1994. p. 80. ISBN 8516010147. 
  • Barbosa, Elaine Senise; et al. (1996). Formação do Estado Nacional: as capitais e os simbolos do poder politico (São Paulo: Scipione). p. 111. ISBN 8526228102. 
  • O corpo da pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil: 1808-1912 (São Paulo: UNESP / Moderna). 1997. p. 318. ISBN 8516017877. 
  • O mundo contemporâneo: os grandes acontecimentos mundiais da guerra fria aos nossos dias (São Paulo: Atual). 2004. p. 320. ISBN 8535705066. 
  • Relações internacionais: teoria e história (São Paulo: Saraiva). 2004. p. 370. ISBN 8502046144. 
  • Araújo, Regina; et al. (2005). O projeto da Alca: hemisfério americano e Mercosul na ótica do Brasil (São Paulo: Moderna). p. 112. ISBN 8516037096. 
  • Serapião Jr., Carlos; et al. (2006). Comércio exterior e negociações internacionais (São Paulo: Saraiva). p. 377. ISBN 8502060090. 
  • O grande jogo: política, cultura e idéias em tempos de barbárie (Rio de Janeiro: Ediouro). 2006. p. 271. ISBN 8500020695. 
  • Uma gota de sangue: história do pensamento racial (São Paulo: Contexto). 2009. p. 398. ISBN 9788572444446. 
  • Barbosa, Elaine Senise; et al. (2011). Liberdade versus igualdade, vol. 1: o mundo em desordem: 1914-1945 (São Paulo: Record). p. 457. ISBN 9788501092243. 

Referências

  1. «Formados CJE» (PDF). ECA-USP. Consultado em 9 de novembro de 2013. 
  2. Saldaña, Paulo. (13 de novembro de 2009). "Demétrio Magnoli critica reitor por propor política retrógrada". O Estado de S. Paulo. Visitado em 9 de novembro de 2013.
  3. «Demétrio Magnoli». Instituto Millenium. Consultado em 9 de novembro de 2013. 
  4. «Palestrante Demétrio Magnoli». CPFL Cultura. Consultado em 9 de novembro de 2013. 
  5. «Demétrio Magnoli». Editora Contexto. Consultado em 9 de novembro de 2013. 
  6. «Demétrio Magnoli participa de seminário do IEE neste sábado». Instituto de Estudos Empresariais. 18 de outubro 2012. Consultado em 9 de novembro de 2013. 
  7. a b c d Fernandes, Anaïs; Tainá, Shimoda (abril de 2013). «"Amigos, amigos, 13 à parte"». ECA-USP. Consultado em 24 de abril de 2016. 
  8. Schelp, Diogo. (5 de novembro de 2008). "Entrevista Demétrio Magnoli - Uma vitória da razão". Veja (edição 2085 – ano 41, número 44): 20.
  9. a b Roda Viva Demétrio Magnoli - 27/04/2015 (Entrevista). TV Cultura. 27 de abril de 2015. Em cena em 3:10 e 13:28. Consultado em 24 de abril de 2016. 
  10. «Confira íntegra da entrevista com sociólogo Demétrio Magnoli». O Povo (jornal de Fortaleza). 24 de outubro de 2014. Consultado em 24 de abril de 2016. 
  11. a b Al’Hanati, Yuri. (9 de novembro de 2013). "“Eu sou de esquerda; o governo é de direita” – Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em geografia humana". Gazeta do Povo.
  12. «Os novos trombones da direita». Época (revista). Consultado em 9 de novembro de 2013. 
  13. «Demétrio Magnoli sobre a política de cotas raciais». Instituto Millenium. 8 de maio de 2012. Consultado em 9 de novembro de 2013. 
  14. Marcelo Leite (23 de setembro de 2009). «Magnoli faz livro de combate contra cotas». Folha de S. Paulo. Consultado em 9 de novembro de 2013. 
  15. Magnoli, Demétrio (10 de outubro 2009). «Resenha expôs leitura apressada de obra». Folha de S. Paulo. Consultado em 9 de novembro de 2013. 
  16. «Os tumultos causados pelos rebeldes sem causa da USP». Veja. 29 de outubro de 2011. Consultado em 9 de novembro de 2013. 
  17. Magnoli, Demétrio. (10 de janeiro de 2015). "Raqqa, aqui". Folha de S.Paulo.
  18. a b Magnoli, Demétrio. (17 de janeiro de 2015). "Ocidentalismo". Folha de S.Paulo.
  19. Clemesha, Arlene. (16 de janeiro de 2015). "Arlene Clemesha: A opção pela convivência". Folha de S.Paulo.
  20. Gonçalves, Williams. (17 de janeiro de 2015). "Williams Gonçalves: Resposta a Demétrio Magnoli". Folha de S.Paulo.
  21. «Demétrio Magnoli». Folha de S. Paulo. Consultado em 9 de novembro de 2013. 
  22. «Revista Pangea Mundo». Consultado em 9 de novembro 2013.