Francisco Milani

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Francisco Milani
Nome completo Francisco Milani
Nascimento 19 de novembro de 1936
São Paulo, SP
Nacionalidade brasileiro
Morte 13 de agosto de 2005 (68 anos)
Rio de Janeiro, RJ
Ocupação ator, dublador, humorista, político
Atividade 1949-2005 (ator, humorista)
1976-1996 (dublagem)

Francisco Milani (São Paulo, 19 de novembro de 1936Rio de Janeiro, 13 de agosto de 2005) foi um ator, dublador, humorista, diretor de televisão e político brasileiro.[1][2] Com uma vasta carreira no cinema, teatro e TV, destacou-se na comédia, dirigindo e atuando em programas humorísticos clássicos, como Viva o Gordo[3] e Chico Anysio Show.[4] Consagrou-se por interpretar tipos mal-humorados, sendo o mais memorável o personagem "Saraiva", do humorístico Zorra Total.[5]

Início[editar | editar código-fonte]

A carreira artística de Francisco Milani começou treze 13 anos de idade quando conseguiu seu primeiro emprego em uma rádio no interior de São Paulo. Em 1959, participou da “TV de Vanguarda” e “TV de Comédia”, na extinta Rede Tupi.[5]

Convidado pelo dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, foi trabalhar no Centro Popular de Cultura (CPC), na União Nacional dos Estudantes, tendo presenciado a invasão e o incêndio do mesmo. Devido ao endurecimento da Ditadura Militar brasileira, foi embora de São Paulo e acabou interrompendo sua carreira artística por oito anos. Jô Soares relata em sua autobiografia (2018) que, por Milani ser filiado ao Partido Comunista, foi perseguido pelos órgãos de repressão e que teria conseguido fugir com ajuda de Cyro del Nero no porta-malas de um carro.[6] Trabalhou como caminhoneiro, nesse período, para despistar seu paradeiro.[7] Apenas na década de 70, viajou para o Rio de Janeiro, cidade em que passou a viver e na qual retomou sua vida artística.[5]

Cinema[editar | editar código-fonte]

No cinema, seus primeiros filmes são Crime no Sacopã e Esse Mundo é Meu, ambos de 1963. Participou do clássico Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. Nos anos 70, participa dos filmes O Último Malandro (1974), Pecado na Sacristia (1975) e Essa Mulher É Minha... E Dos Amigos (1976). Na década de 80, atua no drama Eles Não Usam Black-Tie (1981), de Leon Hirszman. Nas décadas de 90 e 2000, trabalha nos filmes O Lado Certo da Vida Errada (1996), O Coronel e o Lobisomem (2005) e no infantil Eliana e o Segredo dos Golfinhos. Sua última participação no cinema foi no filme Irma Vap – O Retorno, lançado após a sua morte.[8][9][5]

Novelas e minisséries[editar | editar código-fonte]

Milani estreia na Rede Globo na telenovela Irmãos Coragem (1970)[10][5], a partir daí, participou de várias outras novelas da emissora, entre elas, Selva de Pedra (1972)[11], Elas por Elas (1982)[12], Barriga de Aluguel (1990)[13] e Vamp (1991)[14]. Também trabalhou nas novelas da Rede Tupi, sendo estas, Roda de Fogo e, em 1979, Gaivotas, de Jorge de Andrade, interpretando o delegado João Leite.[15]

Participou das minisséries Bandidos da Falange (1983)[16], Riacho Doce (1990)[17] e Anos Rebeldes (1992), que reunia inúmeros atores que foram perseguidos ou presos durante a ditadura militar. Curiosamente, Francisco Milani, que foi perseguido pelos órgãos de repressão deste período, interpretou o inspetor Camargo, um agente da ditadura.[18]

Comédia[editar | editar código-fonte]

Sua trajetória na comédia se inicia na década de 1980, no programa Viva o Gordo, de Jô Soares, do qual tornou-se diretor entre os anos de 1985 a 1987.[3]No programa, interpretava inúmeros papéis. Sua personagem mais famosa, sem nome específico, dizia ou pedia coisas absurdas a outras pessoas e, quando o olhavam com estranheza, falava o bordão "Tá me olhando por quê? Eu sou normal!".[19] Também dirigiu e atuou no programa Chico Anysio Show (1988).[5] Em 1985, interpreta o rabugento chefe da personagem Zelda Scott (Andrea Beltrão) no seriado Armação Ilimitada.[5]

Na década de 1990, integra o elenco da Escolinha do Professor Raimundo, na qual viveu o cético advogado Pedro Pedreira, cujo principal bordão era "Pedra noventa, só enfrenta quem aguenta!", um tipo que contestava tudo que o Professor Raimundo dizia, exigindo provas para cada fato histórico apresentado. Quando o professor não conseguia apresentar as provas, a personagem soltava o bordão "Então, não me venha com chorumelas!"[20]. De acordo com Ramos (2002), o nome "Pedreira" reforça a simbologia da "unidade", da "força" e "coesão"[21]. O "noventa", de seu bordão, expressa seu peso como expressão de valor, ou seja, o peso da rigidez de sua personalidade, por isso, para "enfrentar" ele é preciso "aguentar" sua força.[21]

Em 2000, quando a Escolinha havia se tornado um quadro do Zorra Total, Milani, que integrava o elenco, foi demitido. Sem ser informado, Chico Anysio só tomou conhecimento de sua demissão ao notar sua ausência no estúdio. Tendo ficado profundamente revoltado, Chico cancelou a gravação e mandou todos os atores e convidados de volta para casa.[22]

Em 2015, na nova versão da Escolinha do Professor Raimundo, a personagem Pedro Pedreira foi interpretado por Marco Ricca.[23][24][25]

Consagrou-se com a personagem "Saraiva", do programa humorístico Zorra Total da Rede Globo,[26] dono do bordão “Pergunta idiota, tolerância zero!”, personagem mal-humorada e rabugenta que não suportava ouvir perguntas "pouco inteligentes" e causava constrangimento a sua esposa vivida pela atriz Stella Freitas.[2] A personagem foi criada da década de 1950 pelo comediante Ary Leite.[27]

No ano de 1999 a família de Ary, na época já falecido, processou a Rede Globo pelo não pagamento de direitos autorais e a condenação veio no ano de 2003 com a Globo sendo obrigada a pagar uma indenização e a retirar a personagem do ar, a partir daí, o quadro deixou de ser exibido.[28][29]

Em 2005, Maurício Sherman, diretor-geral do humorístico Zorra Total, declarou que Milani, apesar de estar doente, estava se preparando para interpretar novamente a personagem Saraiva e estava bastante entusiasmado, porém, viria a falecer uma semana antes do início das gravações.[30] A personagem só retornou em 2010 interpretado pelo ator Leandro Hassum.[31]

Milani também interpretrou o rabugento tio Juvenal (conhecido também como o "tio mala"), em A Grande Família.[2] A personagem estreou dois meses depois da morte de Rogério Cardoso, que interpretava "Seu" Flor. O "tio Juvenal" fez um grande sucesso com o público, tendo retornado posteriormente para o seriado.[2]

Sua última personagem cômica foi "Cambises: Pão Duro" um homem que só pensava em economizar seu dinheiro, questionando os valores e a utilidade de cada produto comprado por sua esposa no caixa do supermercado.[32] O quadro foi lançado em 2005 no Zorra Total, sendo este seu último trabalho em vida. No dia 20 de agosto de 2005, uma semana após sua morte, Francisco Milani foi homenageado pelo programa com uma edição de imagens relembrando seus personagens mais famosos. Depois, o ator Milton Gonçalves leu um texto em homenagem ao colega e foi exibido um esquete inédito da personagem Cambises, o último gravado por Milani.[33]

Em 2004 concedeu uma entrevista na qual foi perguntado o que ele achava de interpretar inúmeras personagens mal-humoradas, respondendo que achava o mau-humor muito engraçado. Segundo Milani, "quando você vê uma pessoa mal-humorada na rua, acaba achando aquilo engraçado, pois ela tem um comportamento fora do normal e fazer um papel desses é prazeroso para qualquer ator".[34]

Dublagens[editar | editar código-fonte]

Milani foi também narrador e dublador. Trabalhou para o Fantástico e, entre 1994 e 1997, foi locutor do programa Casseta & Planeta, Urgente!. Na área de dublagem, emprestou sua voz ao protagonista do seriado Magnum (Tom Selleck), entre outros.

Política[editar | editar código-fonte]

Sempre interessado pela política, Milani foi eleito vereador no Rio de Janeiro pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) nas eleições de 1992, tendo ainda durante o mandato passado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB)[35]. Em 1995, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), partido pelo qual, no ano 2000, foi candidato derrotado a vice-prefeito na chapa de Benedita da Silva (PT) nas eleições municipais do Rio de Janeiro. O vencedor foi Cesar Maia (PTB). É de sua autoria a lei que criou a Riofilme.[36][37]

Vida pessoal[editar | editar código-fonte]

Filho de Donato Milani e Fernanda Ferreira, Francisco nasceu e foi criado no bairro do Belenzinho na capital paulista. Sua família transferiu-se para o Rio de Janeiro já na sua adolescência. O ator foi casado por duas vezes, uma delas com a atriz Joana Fomm.[38][8]É pai do cineasta e diretor de telenovelas Carlo Milani.[39]

A viúva de Chico Anysio, Malga Di Paula, em 2021 concedeu uma entrevista ao programa A Noite é Nossa da TV Record e, quando perguntada quais eram os artistas que Chico mais gostava declarou que ele adorava Francisco Milani, Rogério Cardoso e Tom Cavalcante.[40]

Morte[editar | editar código-fonte]

Milani morreu aos 68 anos no Hospital Barra d'Or, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, devido a um edema pulmonar agudo, consequência de um câncer retal metastático.

Atendendo a seu desejo o velório foi curto, durando duas horas. Além de sua família, estavam presentes integrantes do elenco dos programas "A Grande Família" e "Zorra Total" além de outros atores. O velório terminou com todos cantando o hino da Internacional Socialista e do Corinthians, seu time do coração.[30] O corpo de Milani foi cremado e as suas cinzas, jogadas ao mar.[41][42]

Referências

  1. Cultural, Instituto Itaú. «Francisco Milani | Enciclopédia Itaú Cultural». Enciclopédia Itaú Cultural 
  2. a b c d Globo Online (13 de agosto de 2005). «Morre o ator global Francisco Milani, aos 68 anos». Gazeta do Povo. Consultado em 26 de janeiro de 2022 
  3. a b Viva o Gordo. «Viva o Gordo». Memória Globo. Consultado em 1 de fevereiro de 2022 
  4. «Chico Anysio Show - Formato». Memória Globo. Consultado em 17 de março de 2022 
  5. a b c d e f g Memória Globo. «Francisco Milani». Memória Globo. Consultado em 20 de janeiro de 2022 
  6. Soares, Jô; Suzuki Jr. (2018). O Livro de Jô: Volume 2. [S.l.]: Companhia das Letras. p. Seção 8. ISBN 9788554513092 
  7. «10 anos sem Francisco Milani». Globoplay. Arquivo de vídeo. 13 de agosto de 2015. Consultado em 1 de fevereiro de 2022 
  8. a b AdoroCinema. «Filmografía de Francisco Milani». AdoroCinema. Consultado em 25 de outubro de 2017 
  9. «Francisco Milani». Filmes no Cinema. Consultado em 2 de fevereiro de 2022 
  10. Xavier, Nilson. «Irmãos Coragem». Teledramaturgia. Consultado em 18 de maio de 2022 
  11. Xavier, Nilson. «Selva de Pedra (1972)». Teledramaturgia. Consultado em 14 de fevereiro de 2022 
  12. «Ficha técnica: Elas por Elas». Memória Globo. Consultado em 14 de fevereiro de 2022 
  13. «Ficha Técnica: Barriga de Aluguel». Memória Globo. Consultado em 14 de fevereiro de 2022 
  14. «Vamp: Ficha Técnica». Memória Globo. Consultado em 21 de março de 2022 
  15. Xavier, Nilson. «Gaivotas». Teledramaturgia. Consultado em 21 de março de 2022 
  16. Xavier, Nilson. «Bandidos da Falange». Teledramaturgia. Consultado em 16 de maio de 2022 
  17. Xavier, Nilson. «Riacho Doce». Teledramaturgia. Consultado em 16 de maio de 2022 
  18. Xavier, Nilson. «Anos Rebeldes». Teledramaturgia. Consultado em 16 de maio de 2022 
  19. Garcia, Roosevelt (17 de outubro de 2017). «20 bordões inesquecíveis dos programas humorísticos clássicos». Veja São Paulo. Consultado em 1 de fevereiro de 2022 
  20. Memória Globo. «Escolinha do Professor Raimundo». Memória Globo. Consultado em 26 de janeiro de 2022 
  21. a b Ramos, Roberto (2002). A ideologia da Escolinha do Professor Raimundo. [S.l.]: EDIPUCRS. p. 185 
  22. «Chico Anysio se revolta com demissão de Francisco Milani». Diário do Grande ABC. 27 de janeiro de 2000. Consultado em 20 de março de 2022 
  23. Vianna, Katiúscia (29 de outubro de 2015). «Conheça o elenco da nova Escolinha do Professor Raimundo». Adoro Cinema. Consultado em 21 de março de 2022 
  24. «Marco Ricca será o contestador Pedro Pedreira na 'Escolinha do Professor Raimundo'. Francisco Milani foi o primeiro intérprete da personagem». Purepeople. Consultado em 21 de março de 2022 
  25. «Pedro Pedreira duvida que 2016 já acabou». Globoplay. Arquivo de vídeo. 1 de janeiro de 2017. Consultado em 21 de março de 2022 
  26. «Ficha Técnica: Zorra Total». Memória Globo. Consultado em 14 de fevereiro de 2022 
  27. «Ary Leite». Mapa de Cultura. Consultado em 11 de abril de 2022 
  28. Rosalem, Viviane (1999). «Bom humor em disputa na TV: família do comediante Ary Leite briga por direitos do quadro "Saraiva e Carolina"». Isto é Gente. Consultado em 11 de abril de 2022 
  29. «"Zorra Total" vai parar na justiça». Estadão. 19 de fevereiro de 2003. Consultado em 11 de abril de 2022 
  30. a b «Despedida de Milani teve hino do Corinthians e a "Internacional Socialista"». Gazeta do Povo. 14 de agosto de 2005. Consultado em 11 de abril de 2022 
  31. «Leandro Hassum interpretará "Seu Saraiva" no 'Zorra Total'». Terra. 22 de março de 2010. Consultado em 2 de fevereiro de 2022 
  32. «Zorra Total: quadros e personagens». Memória Globo. Consultado em 22 de março de 2022 
  33. «Zorra Total: Programas especiais». Memória Globo. Consultado em 22 de março de 2022 
  34. Swerts, Flávia (23 de setembro de 2004). «Francisco Milani reluta em fazer novela». Diário do Grande ABC. Consultado em 20 de fevereiro de 2022 
  35. Câmara Municipal do Rio de Janeiro. «Vereadores: Francisco Milani». Consultado em 16 de julho de 2022 
  36. Goia, Ancelmo (21 de agosto de 2017). «Rio Filme completa 25 anos com homenagens a Francisco Milani e José Wilker». O Globo. Consultado em 3 de março de 2022 
  37. «Rio Filme festeja 25 anos de vida». Distribuidora de filmes S.A. - Rio Filme. Consultado em 3 de março de 2022 
  38. «Folha Online - Ilustrada - Ator Francisco Milani morre de câncer aos 68 anos - 13/08/2005». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 25 de outubro de 2017 
  39. «Carlo Milani». Globo Filmes. 15 de abril de 2016. Consultado em 9 de fevereiro de 2022 
  40. «Viúva de Chico Anysio diz que deseja retomar contato com filhos do humorista». Folha de São Paulo. 14 de abril de 2021. Consultado em 7 de agosto de 2022 
  41. «Arquivo JN: morre o ator Francisco Milani». Jornal Nacional. 13 de agosto de 2010 
  42. «Folha Online - Ilustrada - Corpo do ator Francisco Milani é cremado no Rio de Janeiro - 14/08/2005». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 25 de outubro de 2017 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]