Gripe espanhola de 1918

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Vírus da gripe espanhola reconstituído

A Gripe de 1918 (frequentemente citada como Gripe Espanhola) foi uma pandemia do vírus influenza que se espalhou por quase toda parte do mundo[1]. Foi causada por uma virulência incomum e frequentemente mortal de uma estirpe do vírus Influenza A do subtipo H1N1. Vitimando entre 50 e 100 milhões de pessoas pelo mundo (ou até 5% da população mundial), foi a pandemia mais letal da história da humanidade.[2][3] Seus sintomas são: tosse, dor de garganta, febre, calafrios, fraqueza, prostração e dores nos músculos e juntas. O contágio é feito pelas gotículas expelidas pela pessoa contaminada.

Descrição[editar | editar código-fonte]

A origem geográfica da pandemia de gripe de 1918-1919 (espanhola) é desconhecida. Foi designada de gripe espanhola, gripe pneumónica, peste pneumónica ou, simplesmente, pneumónica.

A designação "gripe espanhola" deu origem a algum debate na literatura médica da época, que talvez se deva ao fato de a imprensa na Espanha, não participando na guerra, ter noticiado livremente que civis em muitos lugares estavam adoecendo e morrendo em números alarmantes.[4]

A doença foi observada pela primeira vez em Fort Riley, Kansas, Estados Unidos, em 4 de Março de 1918,[5] e em Queens, Nova Iorque em 11 de Março do mesmo ano. Os primeiros casos conhecidos da gripe na Europa ocorreram em Abril de 1918 com tropas francesas, britânicas e americanas, estacionadas nos portos de embarque na França durante a Primeira Guerra Mundial. Em Maio, a doença atingiu a Grécia, Portugal e Espanha. Em Junho, a Dinamarca e a Noruega. Em Agosto, os Países Baixos e a Suécia. Todos os exércitos estacionados na Europa foram severamente afectados pela doença, calculando-se que cerca de 80% das mortes da armada dos Estados Unidos se deveram à gripe.

Estima-se que a gripe espanhola tenha vitimado entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo, se tornando um dos desastres naturais mais letais da história humana.[6]

História da Epidemia[editar | editar código-fonte]

Um hospital nos Estados Unidos, em 1918, lotado de vítimas da gripe espanhola.

Na segunda metade de 1918, justo no último ano de uma guerra como nunca se havia visto antes, a Primeira Guerra Mundial, surgiu uma gripe cujo vírus foi 30 vezes mais letal. Ou seja, caracterizou-se mundialmente pela elevada morbilidade e mortalidade, especialmente nos sectores jovens da população e pela frequência das complicações associadas. A Gripe Espanhola provocou a morte de cerca de 50 a 100 milhões de pessoas em todo o globo durante os dois anos da pandemia[7] — chegando a afetar cerca de 50% da população mundial, enquanto a Primeira Guerra Mundial, nos seus quatro anos de duração, matou aproximadamente 8 milhões de pessoas. Em Portugal, verificou-se uma elevadíssima taxa de mortalidade, com duas ondas epidêmicas e uma ocorrência muito marcada entre os 20 e os 40 anos, que terá causado cerca de 120 000 mortos.[8]Ademais, a falta de estatísticas confiáveis, principalmente no Oriente (como China e Índia) pode ocultar um número ainda maior de vítimas.

Suas origens são desconhecidas, mas é comum entre alguns mamíferos e aves, tanto selvagens como domésticas. Como não há registros entre outros primatas, é considerada uma doença da civilização, surgida pela sedentarização ocorrida no período neolítico[9]. Ainda, é provável que o vírus responsável pela pandemia esteja relacionado com o vírus da gripe suína, isolado por Richard E. Shope em 1920.

Apesar do nome, a gripe não começou na Espanha. A pandemia tomou essa denominação porque a Espanha — que durante a guerra tinha se mantido neutra, não censurava notícias e a imprensa espanhola divulgava “o terror causado pelos 8 milhões de infectados pela ‘fiebre de los três dias’ — que atingiu até o rei Alfonso 13”[7], enquanto os exércitos das demais nações bloqueavam informações que fossem estrategicamente desfavoráveis e pudessem atingir o ânimo das tropas: “Daí a dedução equivocada de que a doença matava mais naquele país, consagrando o nome Gripe Espanhola”[10].

A gripe manifesta-se no aparelho respiratório, cujos sintomas são tosse, dor de garganta, febre, calafrios, fraqueza, prostração e dores nos músculos e juntas. O contágio é feito pelas gotículas expelidas pela pessoa contaminada. Mais tarde, foi descoberto que o vírus tem três subtipos – A B e C, com diferentes graus de morbidade, com ampla capacidade de mutação e de gerar outras recombinações, o que forma novas variantes virais. Essa dificuldade de uma imunização longa ou definitiva fez com que fosse criada a Rede Mundial de Vigilância na qual a comunidade científica e as autoridades de saúde de diversos países se unem para monitorar as mutações do vírus.

Uma das mais letais epidemias da história humana, a gripe, também chamada de Influenza, percorreu todos os continentes em três ondas distintas.

As três ondas da Gripe Espanhola[editar | editar código-fonte]

  1. A primeira onda aconteceu entre março e abril, no Kansas, Estados Unidos, num campo de treinamento de tropas destinadas ao front da 1ª Guerra e, apesar de ter sido considerada branda, levou à morte, em todo o primeiro semestre, aproximadamente dez mil pessoas, grande parte atribuídas à pneumonia.
  2. A segunda onda, aconteceu quando, depois de percorrer os continentes, retornou aos Estados Unidos em agosto, matando milhões, transformada “em algo monstruoso, parecendo-se muito pouco com o que é comumente considerado gripe”[9], com uma taxa de letalidade de 6 a 8%.
  3. A terceira onda foi mais moderada e aconteceu no início de 1919, de fevereiro a maio daquele ano. No entanto, “Nada – nem infecção, nem guerra, nem fome – jamais tinha matado tantos em tão pouco tempo”[9].

A Gripe Espanhola no Imaginário Social[editar | editar código-fonte]

No clima de horror e desespero gerado pela pandemia, havia diversas explicações para o seu acontecimento. Três versões rondavam o imaginário social ocidental[9]:

  1. Devido a sua matriz judaico-cristã, no Ocidente há quem pensasse que o apocalipse estava por vir. A guerra e a peste seriam então, uma punição divina pelos pecados cometidos, pela falta de religião, pela devassidão e pelo materialismo.
  2. Com base em crenças ancestrais e em antigas teorias médicas, a passagem de três cometas foi acusada de ser responsável pela guerra, doença e fome
  3. A guerra levou a alguns à creditarem a contaminação aos inimigos bélicos.

A Gripe Espanhola no Brasil[editar | editar código-fonte]

No Brasil, as referências sobre a Influenza circularam na imprensa em princípios de agosto e ganharam força quando membros de uma esquadra brasileira foram contaminados pela doença no norte da África, na segunda metade de setembro[9]. Foi no dia 24 daquele mês que a Missão Médica enviada pelo país para ajudar no esforço de guerra francês foi atingida pela gripe no porto de Dacar, Senegal, que à época era colônia francesa. Há divergências quanto às datas, mas autores alegam que provavelmente Recife foi o primeiro porto brasileiro infectado, ainda em setembro, com a chegada do navio Demerara[9], vindo da Europa, que depois seguiu para Salvador e Rio de Janeiro e, em novembro de 1918 à Amazônia. O jornal cearense O Povo[11] informa que em setembro de 1918 a epidemia chegou em Fortaleza. Os portos eram os principais focos de disseminação da doença, pelo grande trânsito de navios que provinham da Europa e atracavam nos principais portos brasileiros. Assim o Demerara transformou-os em focos de difusão da doença[9].

A pandemia chegou a matar mais de 35 mil pessoas no país. Segundo o Instituto Butantan, foram "[...] 12.700 no Rio de Janeiro, 6.000 em São Paulo, 1.316 em Porto Alegre, 1.250 em Recife e 386 em Salvador.". A doença foi tão severa que vitimou até o Presidente da República, Rodrigues Alves, em 1919.

Os períodos de periculosidade de infecção levaram à imposição de medidas sanitárias. Foram fechadas escolas, estabelecimentos comerciais, cinemas, cabarés, bares, festas populares e partidas esportivas foram proibidas, tudo isso para evitar a aglomeração de pessoas. Isto, pois, as atividades que exigiam maior contato interpessoal aumentavam as chances de contaminação. Foram meses em que a vida social limitou-se ao máximo.

Consequentemente, no Brasil, o primeiro festejo popular de maior dimensão (o Carnaval) que ocorreu após o término da terceira onda da doença, houve um exacerbamento dos sentidos. Em fevereiro de 1920 uma euforia geral tomou conta da população, levando aos extremos a liberação dos usos e costumes, acabando com pudores. Em 1938, referindo-se a esse período, Carmem Miranda gravou "E o mundo não se acabou". A música, composta por Assis Valente, expressa a atmosfera apocalíptica do contexto pandêmico.

"Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar... acreditei nessa conversa mole/Pensei que o mundo ia se acabar/E fui tratando de me despedir/E sem demora fui tratando de aproveitar/Beijei na boca de quem não devia/Peguei na mão de quem não conhecia/Dancei um samba em traje de maiô/E o tal mundo não se acabou... Ih! Vai ter barulho e vai ter confusão/ Porque o mundo não se acabou".

A Gripe Espanhola em Porto Alegre[editar | editar código-fonte]

Janete Silveira Abrão[12] cita Sandra Pesavento que afirmava sobre a organização sanitária no Rio Grande do Sul em 1918 e, mais especificamente, em Porto Alegre: “as ruas não eram limpas, a cidade não tinha esgotos cloacais, o recolhimento do lixo era mal feito e, como coroamento destes descasos das autoridades, as epidemias encontravam ambiente propício para se desenvolver”.

Segundo Abrão, a gripe Espanhola chegou ao Rio Grande do Sul em outubro de 1918, através dos navios procedentes do Rio de Janeiro que atracavam no porto de Rio Grande. A influenza atingiu todas as zonas da cidade, repartições públicas e privadas. Colégios e faculdades tiveram suas aulas suspensas, as lojas fechavam uma vez que não havia funcionários para atender os clientes e nem clientes para serem atendidos. As casas de diversões suspendiam seus espetáculos. Bancários, carteiros, empregados da Companhia Telefônica Rio-Grandense, todos ficaram doentes. A gripe Espanhola e, seus efeitos, mudaram a rotina da cidade, ruas, praças e cafés tornaram-se desertos. As notícias foram amplamente divulgadas através dos jornais Correio do Povo, A Federação, Revista Máscara, O Independente etc.

O retorno do vírus no século XXI[editar | editar código-fonte]

Em 2009, o vírus H1N1 — do tipo A — tornou a assustar a população mundial[11], felizmente com uma força infinitamente menor do que no século anterior. Diante disto, governos de inúmeros países se mobilizaram numa ampla campanha de vacinação. Não houve epidemia ou pandemia, o que ocorreu em massa foi justamente a vacinação, que se repete anualmente desde então.

Atualmente, os grupos de risco são:

  • Gestantes;
  • Mães até 45 dias após o parto;
  • Idosos;
  • Crianças de seis meses a cinco anos;
  • Portadores de doenças crônicas não transmissíveis;
  • Trabalhadores da saúde;
  • População Indígena;
  • Pessoas privadas de liberdade.

Personalidades infectadas pelo vírus[editar | editar código-fonte]

Personalidades brasileiras vítimas da gripe[editar | editar código-fonte]

Personalidades portuguesas vítimas da gripe[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Fernandes & Salgado (21 de fevereiro de 2018). «The 100 years of Influenza Pandemic» (PDF). EC Microbiology. Consultado em 1 de março de 2018 
  2. Patterson, K. D.; Pyle, G. F. (1991). «The geography and mortality of the 1918 influenza pandemic». Bull Hist Med. 65 (1): 4–21 
  3. Billings, Molly (1997). «The 1918 Influenza Pandemic». Virology at Stanford University. Consultado em 1 de maio de 2009. Cópia arquivada em 4 de maio de 2009 
  4. «Spanish flu facts» (em inglês). Channel 4. 5 de Outubro de 2005. Consultado em 19 de Abril de 2018 .
  5. Avian Bird Flu. 1918 Flu (Spanish flu epidemic)
  6. Taubenberger, Jeffery K.; Morens, David M. (2006). «1918 Influenza: the mother of all pandemics». Centers for Disease Control and Prevention. Emerging Infectious Diseases. 12 (1). PMC 3291398Acessível livremente. PMID 16494711. doi:10.3201/eid1201.050979. Consultado em 5 de março de 2016. Cópia arquivada em 1 de outubro de 2009 
  7. a b «100 anos Gripe Espanhola». 100anosgripeespanhola.tmp.br. Consultado em 11 de novembro de 2018 
  8. Gripe Espanhola foi provocada por um vírus das aves
  9. a b c d e f g TEIXEIRA, Luiz Antonio et al (orgs) (2018). História da Saúde no Brasil. São Paulo: Hucitec Editora. pp. 284–327 
  10. BERTUCCI, Liane Maria (2004). Influenza, a medicina enferma. Campinas: Unicamp. 442 páginas 
  11. a b Online, O POVO. «Há 100 anos, Gripe Espanhola matou presidente, afetou o Ceará e mudou o mundo». www.opovo.com.br. Consultado em 11 de novembro de 2018 
  12. ABRÃO, Janete Silveira (1998). BANALIZAÇÃO DA MORTE NA CIDADE CALADA: a Hespanhola em Porto Alegre, 1918. Porto Alegre: EDIPUCRS. pp. 51–72 
  13. Alfaro 2006, pp. 491-493

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Alfaro, Catarina (2006). «Biografia de Amadeo de Souza-Cardoso: 1887-1918». In: A.A.V.V. Amadeo de Souza-Cardoso: diálogo de vanguardas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. ISBN 978-972-635-185-6