Enciclopédia

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Primeira edição da Enciclopédia da Iugoslávia, cujos oitos volumes foram publicados entre 1955 e 1971.

Enciclopédia (do grego antigo ἐγκυκλοπαιδεία, ἐγκυκλο "circular" + παιδεία "educação")[1] é uma coletânea de textos bastante numerosos, cujo objetivo principal é descrever o melhor possível o estado atual do conhecimento humano. Pode-se definir como uma obra que trata de todas as ciências e artes do conhecimento do homem atual.[2] [3] Pode ser tanto um livro de referência para praticamente qualquer assunto do domínio humano como também uma obra na internet.

As enciclopédias podem ser divididas em dois grupos: genéricas, que coletam conhecimentos de todo o conhecimento humano (como, por exemplo, a Encyclopaedia Britannica), ou especializadas, com tópicos relacionados a um assunto específico (como, por exemplo, uma enciclopédia de medicina ou de matemática).

O termo enciclopédia começou a ser utilizado em meados do século XVI, embora trabalhos de formato similar já existissem em épocas anteriores.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A palavra "enciclopédia" provém do Grego Clássico ἐγκύκλιος παιδεία" (transliterado: "enkyklios paideia"), literalmente "educação circular", isto é, "conhecimento geral". Embora a noção de um compêndio de conhecimento remonte a milhares de anos, o termo foi utilizado pela primeira vez no título de um livro publicado em 1541 por Joachimus Fortius Ringelbergius, Lucubrationes vel potius absolutissima kyklopaideia (Basileia, 1541). A palavra "enciclopédia" foi utilizada primeiramente como um substantivo, no título do livro do enciclopedista croata Skalić, Encyclopaedia seu orbis disciplinarum tam sacrarum quam prophanarum epistemon (Enciclopédia, ou conhecimento do mundo das disciplinas, Basel, 1559). Um dos mais antigos usos em francês foi realizado por François Rabelais em sua obra Pantagruel, em 1532.[4] [5]

Várias enciclopédias têm nomes que incluem o sufixo -pedia, como por exemplo a Banglapedia, uma enciclopédia sobre as questões relevantes para Bengala, ou a própria Wikipédia, uma enciclopédia redigida com o sistema wiki).

Características[editar | editar código-fonte]

Enciclopédia Lituano-Soviética, Lietuviskoji tarybine enciklopedija.

A enciclopédia como conhecemos hoje foi desenvolvida a partir do dicionário no século XVIII. Um dicionário concentra-se principalmente em palavras e as suas definições e, normalmente, dá uma informação limitada, a análise do uso linguístico ou o contexto para cada termo definido. Essa definição linguística pode deixar de informar ao leitor o significado, a importância ou as limitações de um prazo, ou as relações do termo com um vasto campo de conhecimento.

Para fazer face a essas necessidades, um artigo de enciclopédia aborda, além da palavra, o próprio conceito e também o tema ou disciplina, tratando-os com profundidade, a fim de transmitir o conhecimento acumulado sobre esse tema. Uma enciclopédia muitas vezes também inclui mapas e ilustrações, bem como bibliografias e estatísticas. Historicamente, tanto a enciclopédia como o dicionário foram pesquisados e escritos com o fim de contribuir para a educação e informação, muitas vezes com a contribuição de peritos, ou especialistas.

Algumas obras intituladas "dicionário" são, de facto, similares a uma enciclopédia, especialmente as ligadas a área determinada (como os Dictionary of the Middle Ages, Dictionary of American Naval Fighting Ships e Black's Law Dictionary). O Dicionário Macquarie, reconhecido como o dicionário oficial da Austrália, tornou-se um dicionário enciclopédico após a sua primeira edição, em reconhecimento do uso de nomes próprios em comum, e as palavras derivadas de tais nomes próprios, típicos de uma básica obra enciclopédica.[6]

História[editar | editar código-fonte]

Antiguidade[editar | editar código-fonte]

Uma página da Suda, reconhecida como a primeira enciclopédia da humanidade, publicada na cidade de Constantinopla no século X.[7]

Grande parte dos escritos que procuravam englobar o conhecimento humano na Antiguidade eram de estilo específico, ou especializado (geralmente relacionados à natureza ou à filosofia). Alguns dos grandes filósofos da Antiguidade já haviam tentado escrever sobre todos os campos de conhecimento estudados.

Aristóteles escreveu um conjunto de obras sobre os seres vivos, que foram preservadas: De anima, Parva naturalia, Historia animalium, De partibus animalium, De motu animalium, De incessu animalium e De generatione animalium. Muitas delas tratam de assuntos bastante teóricos, discutindo os motivos dos fenômenos da vida; outras são mais descritivas, compreendendo um vasto volume de fatos. Em Historia animalium, o filósofo grego apresentou uma descrição muito detalhada de aproximadamente 550 espécies, incluindo vertebrados e invertebrados. Também tratou de descrever as aparências externa e interna, os costumes dos animais, redigiu uma comparação detalhada entre as espécies e tentou descrever suas principais características e diferenças.[8]

Capa da Naturalis Historia, obra universalmente famosa, em termos enciclopédicos, de Plínio, o Velho, republicação de 1669.[9]

Quatro séculos após a obra de Aristóteles ser publicada, Plínio, o Velho coligiu, em sua obra Naturalis historiae, todas as informações que pôde encontrar sobre plantas, animais, minerais e diversos outros tópicos, repartidos em 37 partes. A primeira obra apresenta um índice e uma bibliografia por completo. Os livros II a VI tratam, respectivamente, sobre a astronomia e a geografia; os livros VII a XI, tratam sobre a zoologia; os XII a XIX, sobre a botânica e a agricultura; os XX a XXVII, sobre apenas a botânica médica; os livros XXVIII a XXXII descrevem diferentes remédios e antídotos retirados de diferentes animais e do próprio homem; e os livros XXXIII a XXXVII tratam unicamente sobre mineralogia e metais. Essa obra, em conjunto, é considerada uma grande enciclopédia sobre a natureza.[8] [9]

Idade Média[editar | editar código-fonte]

No século X, em Constantinopla, apareceu uma obra coletiva greco-bizantina de grande interesse para o conhecimento da Antiguidade Grega.[7] Trata-se de uma compilação de obras e personagens classificadas de forma inovadora por ordem alfabética que se apresenta, portanto, como a primeira enciclopédia: a Suda. Apesar de várias imprecisões e erros, a Suda contém informações inestimáveis, uma vez que seus autores tiveram acesso a obras agora perdidas. Esse cobiçado livro, nos dias atuais, é conhecido como a primeira enciclopédia de que se tem notícia, pela amplidão de conhecimento atingido (porém, não se extinguem possibilidades de terem existidas outras obras, talvez mais completas, de não tanto sucesso).

Santo Isidoro de Sevilha, um dos maiores estudiosos do início da Idade Média, é amplamente reconhecido como sendo o autor da primeira enciclopédia de que se tem conhecimento dos tempos medievais, o Etymologiae[10] (publicado em torno do ano de 630), no qual ele compilou a mais ampla possível aprendizagem disponível na sua época, criando uma enorme leva de conhecimento de 448 capítulos em 20 volumes; é muito valioso não só pela sua importância, mas também por causa das citações e fragmentos de textos de outros autores que teriam sido perdidos, nos tempos atuais não se tem mais vestígios e que não tinha sido feito pelo Santo Isidoro.[11]

De Rerum proprietatibus (1240) de Bartholomeus Anglicus foi a mais lida e citada enciclopédia na Baixa Idade Média,[12] [13] [14] enquanto Speculum Majus (1260) de Vicente de Beauvais foi a mais ambiciosa enciclopédia do período tardo-medieval, com mais de 3 milhões de palavras.[12]

Árabes e Persas[editar | editar código-fonte]

As primeiras compilações de conhecimento muçulmanas de que se tem notícia na Idade Média incluía muitas obras já completas, e um desenvolvimento respeitosamente vasto do que, agora, chamamos método científico, método histórico, e citação. Por volta do ano 960, os Irmãos da Pureza de Baçorá[15] se empenharam na confecção de sua obra "Enciclopédia dos Irmãos da Pureza". Obras notáveis incluem: enciclopédia de ciências de Abu Bakr al-Razi, a prolífica produção de Al-Kindi de 270 livros, e a enciclopédia médica de Ibn Sina, que foram, por séculos, padrões de referência para trabalhos. Também notáveis são obras de história universal (ou sociologia), como História de Profetas e Reis de Asharites, al-Tabri, al-Masudi, Tabari, Ibn Rustah, al-Athir, e Ibn Khaldun, cuja Muqadimmah contém alertas quanto a confiança em registos escritos que permanecem totalmente aplicáveis hoje. Esses estudiosos tiveram uma incalculável influência sobre os métodos de investigação e edição, em parte devido à prática islâmica isnad que destacou a fidelidade do registo escrito, verificando fontes, e céticos inquéritos.

Idade Moderna[editar | editar código-fonte]

Hoje em dia, é creditada a criação da primeira enciclopédia moderna a Encyclopédie, de 28 volumes, 71 818 artigos, e 2 885 ilustrações, editada por Jean le Rond d’Alembert e Denis Diderot em 1772, tendo como colaboradores Rousseau, Voltaire, Montesquieu e outros ensaístas ilustres. Porém, antes destes respeitáveis iluministas terem atingido um grau de amplitude muito superior, John Harris havia escrito, anteriormente, a Lexicon technicum e a ele é creditado o estabelecer do formato moderno de uma enciclopédia, tal como a conhecemos hoje.

No século seguinte, George Wilhem Hegel publicou a sua Enciclopédia das Ciências Filosóficas, em que se cristaliza a ideia de enciclopédia como apresentação sistemática de uma ciência ou de um conjunto de ciências.

Formatos contemporâneos[editar | editar código-fonte]

O formato hierárquico e sua natureza em permanente evolução tornam obras enciclopédicas alvos perfeitos para publicação em formato digital e praticamente todas as grandes enciclopédias tiveram uma versão em CD-ROM no final do século XX. A versão em CD-ROM conta com a vantagem de ser portátil e de produção extremamente econômica. Além disso, uma enciclopédia em formato digital pode ter conteúdos como animações e áudio, impossíveis de serem inseridos numa tradicional publicação escrita. A inclusão de hyperlinks ligando artigos relacionados também é uma enorme vantagem do formato digital.

Por fim, o advento da internet possibilitou a criação das enciclopédias livres, sendo atualmente as mais conhecidas: a Everything2, a Encarta, a h2g2 e a Wikipédia. Nestas, pela primeira vez na história da humanidade, qualquer pessoa pode fazer contribuições e corrigir e/ou ampliar as entradas já existentes, o que resulta num banco de dados universal que é continuamente aperfeiçoado. Este tipo de enciclopédia permite ainda que o significado de um determinado verbete seja consultado em vários idiomas, expandindo os resultados da pesquisa.

Algumas enciclopédias famosas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Wikicionário na versão de língua inglesa. Definição etimológica de "εγκυκλοπαίδεια". Página visitada em 3 de abril de 2009.
  2. Priberam.pt. Definição da palavra "enciclopedia" no dicionário de português europeu Priberam. Página visitada em 20 de março de 2009.
  3. Dicionário Michaelis, UOL. Definição da palavra "enciclopedia" no dicionário de português brasileiro Uol Michaelis. Página visitada em 20 de março de 2009.
  4. Bert Roest (1997). "Compilation as Theme and Praxis in Franciscan Universal Chronicles". Peter Binkley Pre-Modern Encyclopaedic Texts: Proceedings of the Second Comers Congress, Groningen, 1–July 4, 1996: 213, BRILL. ISBN 90-04-10830-0. 
  5. Sorcha Carey. Pliny's Catalogue of Culture: Art and Empire in the Natural History. [S.l.]: Oxford University Press, 2003. 17 pp. ISBN 0199259135
  6. Macquarie Dictoinary. Dicionário Macquarie Online. Página visitada em 27 de março de 2009. (em inglês)
  7. a b Suda On Line, SOL. História da Suda. Página visitada em 28 de março de 2009. (em inglês)
  8. a b Roberto de Andrade Martins. Uma comparação entre Aristóteles e Plínio, o Velho. Página visitada em 21 de março de 2009.
  9. a b Pesquisa de livros do Google. Naturalis Historia completo em latim. Página visitada em 28 de março de 2009. (em latim)
  10. Isidoro de Sevilha, repassado ao site "The latin library". Etymologiae transcrito por completo em latim. Página visitada em 1º de abril de 2009. (em latim)
  11. Texts and Documents Research Guide. Explicação do Etymologiae. Página visitada em 1º de abril de 2009. (em inglês)
  12. a b Ver "Encyclopedia" em Dictionary of the Middle Ages.
  13. Website Bartholomeus Anglicus' De Proprietatibus Rerum. Explicação do De Rerum proprietatibus no site dedicado a este livro. Página visitada em 1º de abril de 2009. (em inglês)
  14. Pesquisa de livros do Google. Livro autêntico De Rerum propritatibus completo em latim. Página visitada em 1º de abril de 2009. (em latim)
  15. P.D. Wightman (1953), O Nascimento das Ideias Científicas (título original, em inglês: The Growth of Scientific Ideas)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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