História de Myanmar

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A História de Myanmar (Birmânia) abrange o período a partir do momento dos primeiros assentamentos humanos conhecidos de 13.000 anos atrás até os dias atuais. Uma sucessão de povos emigrou pelo vale do Irrawadi desde o Tibete e a China e foi influenciada pelas instituições da Índia. Os primeiros foram os môn (3000 a.C.). O povo pyu chegou em 628 d.C., enquanto os birmaneses entraram na região em meados do século IX. Migrações posteriores trouxeram os shan, kachin e os karen.

Os reinos dos tais (chans), mons e birmaneses[editar | editar código-fonte]

Nos primeiros séculos da era cristã, Myanmar esteve incluído na área de influência cultural indiana. Em meados do século IV, os pyu, povo tibeto-birmanês, haviam fundado diversas cidades-estado ao extremo sul como Prome (Pyay), e adotaram o Budismo. Em 832, a antiquíssima civilização dos pyus sucumbiu aos ataques das tribos tais.

Mais ao sul, os Mon, que haviam entrado pelos reinos de Haribhunjaya e Dvaravati no leste, estabeleceram cidades-estado próprias ao longo da costa da Baixa Birmânia e fundaram o reino de Pegu. Na mesma época, os birmaneses do nordeste, chegaram à Birmânia central.

Mapa do reino de Tungoo em 1580, na sua máxima extensão.

O primeiro Estado unificado birmanês foi fundado no século XI em torno de Pagan (fundada em 849), na alta Birmânia. A estrutura do Estado era similar a um reino hindu, com um tribunal na capital mantido graças aos impostos pagos pelos habitantes. Com o passar do tempo, a terra foi sendo doada aos mosteiros budistas, que contavam com o trabalho de aldeias inteiras dedicadas à manutenção dos monges. O rei era o defensor da crença budista.

Pagan foi tomada pelos sino-mongóis de Kublai Khan e depois pelos chans (1287-1299), dando início a um período turbulento. A alta Birmânia ficou dividida entre o domínio shan e uma área tributária da China. A baixa Birmânia voltou ao domínio môn assentado em Pegu. A partir de 1347, os birmaneses começaram a restauraram o reino, com capital em Tungoo. No segundo quarto do século XVI (1539-1541), o rei Tabinshwehti, de uma província meridional, e seu filho, conseguiram, com ajuda dos portugueses, conquistar o território mon, estabelecendo um Estado reunificado e próspero. As disputas pela sucessão, a instalação dos portugueses na costa e a chegada dos tailandeses provocaram o declínio da dinastia Toung, embora o sistema tenha se mantido até 1752, quando os mons apoderaram-se de Ava e puseram fim ao reino de Tungoo.

Durante os séculos XVII e XVIII, britânicos, holandeses e franceses tinham estabelecido empresas comerciais na costa, estimulando as divisões. Em 1752, Alaungpaya subiu ao poder e instaurou a dinastia Konbaung, a qual restaurou o Império birmaniano lutando contra os britânicos e, depois, contra os tailandeses. O controle sobre parte do Sião foi perdido, mas capturou-se a província de Arakan. Entre 1816 e 1824, promoveu-se a expansão do império, com a retomada das região de Manipur e Assam, tomado pelos ingleses em 1826.

O domínio britânico[editar | editar código-fonte]

A expansão do poderio birmanês para o oeste contrariou os interesses do Reino Unido no golfo de Bengala, de forma que após duas guerras anglo-birmanesas, travadas de 1820 a 1826 e de 1852 a 1853, os britânicos incorporaram o delta do Irrawadi. Em 1885, a totalidade do território ficou submetida ao controle do Reino Unido e transformou-se numa província indiana, passando a ser chamado de Burma (Birmânia). A família real exilou-se na Índia. Essas ampliações do domínio britânico foram pouco populares entre a população autóctone, embora tenham introduzido a modernização administrativa e social. O domínio colonial fez com que a cultura birmanesa entrasse em declínio.

Os britânicos mudaram a capital de Mandalay para Rangoon em 1886. O desenvolvimento econômico, baseado no cultivo de arroz e na exploração da teca e da borracha, fora considerável no período colonial. O país tornou-se o maior exportador de arroz. Em 1937, os britânicos separaram a Birmânia da Índia.

Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, tropas japonesas invadiram o país, que se tornou palco de lutas encarniçadas por muitos anos. O movimento thakin havia formado um Exército para a Independência Birmanesa (EIB), que apoiou a invasão japonesa na Birmânia, mas depois resistiu ao domínio japonês sob o nome de Liga Antifascista da Liberdade do Povo (LAFLP). O país foi reconquistado pelos Aliados sob a liderança de Lord Mountbatten e do general Orde Charles Wingate (1944-1945). A Grã-Bretanha negociou com a LAFLP e o país tornou-se independente em 4 de janeiro de 1948, abandonando a Commonwealth.

Pós-independência[editar | editar código-fonte]

A vida política da Birmânia, desde então, foi pouco tranquila. Embora a Constituição consagrasse o estabelecimento de estados autônomos para as etnias shan, karen, kachin e chin, o novo Estado independente teve de enfrentar instabilidade política, insurreições étnicas e várias tentativas de secessão durante três décadas. Durante a década de 1950 começou a reconstrução econômica. O domínio da LAFLP foi ratificado em sucessivas eleições. U Nu, primeiro-ministro (1948-1956; 1957-1958; 1960-1962) da Birmânia, enfrentou a guerra civil deflagrada pelos comunistas e a rebelião dos karenes (1949-1955). Por volta de 1958, o exército estabeleceu um governo provisório que aplicou uma disciplina administrativa e conteve as tendências separatistas nos estados shan. Nas eleições de 1960, venceu a facção de U Nu. O seu apoio ao budismo e sua tolerância ao separatismo étnico precipitou um golpe militar em 1962, encabeçado pelo general Ne Win, que depôs e prendeu o dirigente U Nu, anunciando que havia traçado "a via birmanesa rumo ao socialismo".

O General Ne Win instituiu um governo militar que procedeu à socialização de grande parte do sistema econômico.

Durante as décadas de 60 e 70, o Gal. Ne Win suspendeu a constituição de 1947 e estabeleceu um regime socialista e autoritário. Promulgou-se uma nova constituição em 1974 estabelecendo um sistema unipartidário. Os maiores setores econômicos foram imediatamente nacionalizados, a rápida industrialização fracassou e o isolamento do resto do mundo foi aumentando. Produziram-se várias insurreições nos estados kachin e shan e as tensões entre a maioria budista e as minorias hinduísta, muçulmana e cristã persistiram. Em 1981, Ne Win renunciou à presidência. Não obstante substituído pelo general San Yu no governo, Ne Win manteve o poder. No final da década de 1980, a corrupção e a má administração do Governo tornaram a Birmânia num dos países mais pobres do mundo.

Em 1988, grandes demonstrações de descontentamento popular pela má gestão da economia ao longo de décadas obrigaram o general Saw Maung a liderar novo golpe, que fecha o Congresso unicameral e impõe novo regime de partido único. Depois do golpe militar de 1988, todos os órgãos de governo foram substituídos pelo Conselho de Estado para a Restauração da Lei e da Ordem, que passou a governar com lei marcial. A Birmânia praticou uma política de estrita neutralidade, conseguindo ficar à margem dos grandes conflitos políticos internacionais, tal como as guerras da Indochina. Também soube manter a sua autonomia, reduzindo sua dependência da ajuda externa.

O novo regime militar, em 1989, mudou oficialmente o nome do país para União de Myanmar e o nome da capital de Rangoon para Yangon. A oposição ao poder militar recrudesceu, com exigência de democratização do regime. Os militares permitiram novos partidos e anunciaram eleições para o ano seguinte. Ainda em 1989, voltou ao país Aung San Suu Kyi, filha do líder independentista Aung San, assassinado em 1947. Crítica do regime, foi mantida sob prisão domiciliar pelo governo, então nas mãos do general Saw Maung.

Em maio de 1990 realizaram-se as primeiras eleições multipartidárias em trinta anos para uma Assembléia Nacional Constituinte sem poderes legislativos. A Liga Nacional pela Democracia (LND) obteve a vitória com mais de 80% dos votos, mas as forças militares mantiveram o poder, depois de impedirem os líderes do partido oposicionista, Tin U e Suu Kyi, de governar. Tin U exilou-se no oeste. Os deputados eleitos para elaborar uma nova Constituição tiveram de se reunir clandestinamente perto da fronteira tailandesa. A comunidade internacional condenou sistematicamente as ações sangrentas levadas a cabo pelo regime militar. Transformada em símbolo da resistência pacífica, Aung San Suu Kyi, secretária-geral do LND, obteve em 1991 o Prêmio Nobel da Paz.

Sem partidos de oposição, colocados na ilegalidade, a repressão aumentou, principalmente após o general Than Shwe suceder Saw Maung no comando da junta militar em 1992. Nesse ano, a junta no poder foi unanimemente condenada pela ONU pela política repressiva. Os choques armados e a agitação popular se mantiveram, provocando a saída do país de milhares de pessoas que fugiram da violência, até que, entre fevereiro de 1995 e janeiro de 1996, o exército conseguiu acabar com a resistência armada das etnias karen e mong.

No entanto, a violência institucional, o desrespeito aos direitos humanos e a prisão arbitrária de opositores continuaram. Surpreendentemente libertada em julho de 1995, Aung San Suu Kyi assumiu a liderança da Liga Nacional pela Democracia, o que fez com que meses depois (dezembro de 1996) voltasse à prisão domiciliar. Em abril seguinte, os Estados Unidos anunciaram a adoção de sanções econômicas contra o regime birmanês, devido a seu menosprezo pelos direitos humanos. Nos anos seguintes, Suu Kyi apelou à comunidade internacional para isolar o regime militar no poder, na sequência da política de repressão e de contínuas perseguições aos ativistas da oposição. Contudo, apesar de alguns embargos, o regime foi tendo o beneplácito das organizações em que se pretendia integrar. Em 1997, apesar da falta de abertura política, o país foi admitido na ASEAN.

Conversações foram mantidas entre Aung San Suu Kyi e os líderes militares desde 2000, o que não acontecia desde 1994. Em 2003, após fortes críticas ao governo e confrontos entre os seus fiéis apoiantes e as forças governamentais, Aung San Suu Kyi foi novamente colocada em prisão domiciliar. Foram abertas exceções em 2006 e depois em setembro de 2007 para que pudesse receber Ibrahim Gambari, enviado pelas Nações Unidas numa tentativa de mediar conversações entre o poder e a oposição. Neste último ano, aquando do seu aniversário, cerca de um milhão de apoiantes, liderados por monges budistas, manifestaram-se em frente à sua casa contra a junta militar num apelo à democracia, o mesmo acontecendo em outros locais do país. Este acontecimento deu origem a novos confrontos entre as duas forças políticas, levando a manifestações de apelo internacionais para a restauração da democracia em Myanmar.

Sob pressão, a junta militar foi dissolvida em 2011. O partido de Suu Kyi saiu da ilegalidade. A líder, solta em 2010, foi eleita deputada.

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Ver também[editar | editar código-fonte]


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