António Álvares da Cunha

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D. António Álvares da Cunha
Vice-rei do Brasil Portugal
Período 1763—1767
Antecessor(a) Junta provisória
Sucessor(a) António Rolim de Moura Tavares
Governador de Angola Portugal
Período 1753—1758
Antecessor(a) António de Almeida Soares Portugal
Sucessor(a) António de Vasconcelos
Dados pessoais
Nascimento 1700
Lisboa
Morte 1791 (91 anos)
Lisboa

Dom António Álvares da Cunha, primeiro Conde da Cunha, (Lisboa, 1700 — Lisboa, 1791) foi um fidalgo e administrador colonial português, durante o reinado de D. José, 25.o rei de Portugal (1750-1777).

D. António era neto do homónimo António Álvares da Cunha, Senhor de Tábua, 17.o senhor de Tábua, cujo senhorio fora dado aos Cunhas ainda no século XII; e como refere Braamcamp Freire,

"...em cuja casa êle permaneceu durante sete séculos. Em nenhuma linhagem portuguesa, me parece, se manteve durante tam largo periodo o senhorio de uma terra, ainda com a notável circumstância dêle ter passado sempre em linha varonil, sem bastardia, até D. José Maria Vasques Álvares da Cunha, 4.o conde da Cunha..."[1]

D. António era ainda sobrinho do grande diplomata D. Luís da Cunha, embaixador a Londres, Madrid, Paris, etc.[2]

Foi capitão de mar e guerra da Armada Real, governador e capitão general de Mazagão em Marrocos (1745-1752), governador de Angola (1753-1758) e vice-rei do Brasil (1763-1767).[3]

Como recompensa pelos serviços do seu tio, assim como pelos seus serviços pessoais, foi agraciado com o título de Conde da Cunha em 1760.[4]

Aquando da transferência do governo colonial do Brasil de Salvador (Bahia) para o Rio de Janeiro, foi o primeiro vice-rei do Brasil a ter sede no Rio de Janeiro.

Governador de Mazagão[editar | editar código-fonte]

Durante o governo de Bernardo Pereira de Berredo e Castro (1734-1745), a praça de Mazagão, última praça portuguesa em Marrocos, fora durantemente assediada pelos marroquinos, tendo sofrido sete assédios nos últimos sete anos desse governo, em Janeiro de 1738, Outubro de 1738, Janeiro de 1739, Setembro de 1741, Janeiro de 1743, Novembro de 1743, e por fim Maio de 1745.

Assim, ao tomar D. António posse do governo da praça em Agosto de 1745, tudo indicava que poderia esperar frequentes assédios por parte dos marroquinos, o que de certo modo indica a confiança que o monarca nele depositava. No entanto, nada disto veio a acontencer. Apenas mais tarde foram os ataques resumidos, o que levaria ao ambandono da praça em 1769 e à subsequente fundação da vila homónima no Brasil em 1770, povoada com colonos vindos da Mazagão marroquina. Quando D. António, após sete anos de governo em Mazagão, foi promovido a governador de Angola em 1754, nem um único ataque marroquino tinha tido que repelir.

Governador de Angola[editar | editar código-fonte]

Ligar Angola a Moçambique[editar | editar código-fonte]

De Marrocos, D. António passou a Angola. Logo ao chegar à África Austral em 1754, o novo governador anunciou à majestade que iria realizar um velho plano idealizado por seu tio em 1725: o de descobrir um caminho terrestre que pudesse ligar Angola a Moçambique. Para esse efeito o governador financiou de seu próprio bolso uma expedição a Cassange, onde o seu comandante, Manuel Correia Leitão, um natural de Luanda, se deveria informar sobre os caminhos em terras ingónitas mais a Leste. A expedição foi realizada de 1754 a 1756, quando Correia Leitão regressou a Luanda. Infelizmente, os seus resultados mostraram-se decepcionantes, ainda que o chefe da expedição tenha deixado um interessantíssimo relato.[5]

Como governador de Angola, D. António Álvares da Cunha estudou ainda pessoalmente o problema de abastecimento de água de Luanda, e da canalização das águas do Rio Bengo e do Cuanza. Iniciou ainda o restauro da fortaleza de São Pedro da Barra de Luanda, que devido a obras posteriores apenas se concluiu durante o governo de D. José Gonçalo da Câmara (1779-1782).

Conde da Cunha[editar | editar código-fonte]

O título de Conde da Cunha foi-lhe dado de juro e herdade por D. José por carta de 14 de Março de 1760,

”tendo consideração aos notaveis e distinctos serviços que D. Luis da Cunha me fez, por espaço de sessenta e dous annos successivos [...] nos empregos de enviado extraordinario na corte de Londres, de embaixador extraordinario e plenipotenciario no congresso de Utreque, e de embaixador nas cortes de Londres, Haia, Madrid e Paris [...] contemplando ao mesmo tempo os serviços pessoaes com que o dicto D. Antonio se tem distinguido [...] nos empregos de governador e capitão general da praça de Mazagão e do reino de Angola...” [6]

Vice-rei do Brasil[editar | editar código-fonte]

Arsenal da Marinha[editar | editar código-fonte]

Como vice-rei do Brasil, o Conde da Cunha melhorou as fortificações então existentes na cidade do Rio de Janeiro. No entanto, a sua iniciativa mais importante foi a fundação, a 29 de Dezembro de 1763, do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, ainda hoje o principal centro de manutenção da Marinha do Brasil. O conde fundou ainda o Arsenal de Guerra, na mesma cidade.

Em frente ao Arsenal de Marinha ergue-se hoje uma herma em sua homenagem, obra do escultor Luís Pais Leme.

Hospital dos Lázaros[editar | editar código-fonte]

O Conde da Cunha foi também responsável, no Brasil, por um importante apoio ao Hospital dos Lázaros, um dos mais antigos da cidade do Rio de Janeiro, que se dedicava a cuidar de vítimas de lepra, com capacidade para 52 enfermos na altura.

A 19 de Dezembro de 1763, dez dias antes de fundar Arsenal da Marinha, o vice-rei escreveu uma longa carta a Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Secretário de Estado da Marinha e do Ultramar (1760-1769) e irmão do todo-poderoso ministro do rei, o futuro Marquês de Pombal. Nessa carta, recomendou associar um mosteiro confiscado aos Jesuítas após a expulsão dos Jesuítas em 1759 ao hospital, dado que o edificio poderia acomodar bastantes enfermos, com possibilidade de separar os doentes do sexo masculino dos do sexo feminino.

Na longa carta, o Conde da Cunha fez notar, entre muitas outras considerações, que o velho mosteiro jesuíta se encontrava desabitado, que estava já equipado com uma capela para os defuntos, e que tinha acesso a água potável do Rio Maracanã para cuidar dos enfermos. O vice-rei recomendou ainda, para financiar a expansão do hospital com este novo edificio, um modesto imposto, que acreditava que os habitantes da cidade pagariam de bom grado para poder ver menos enfermos nas ruas. A 31 de Janeiro de 1765 recebeu então o vice-rei um aviso régio que aprovava todas as suas sugestões.

A 31 de Janeiro de 1766, exactamente um ano mais tarde, terminaram então as obras de adaptação do antigo mosteiro jesuíta a hospital, com lugar para mais 55 enfermos para além de empregados e escravos. O Hospital dos Lázaros via assim, em menos de três anos, a sua capacidade ser duplicada.[7]

Outras iniciativas[editar | editar código-fonte]

Deve-se ainda ao Conde da Cunha o ter-se acabado com a grande vala utilizada como esgoto no Rio de Janeiro, na antiga rua da Vala, hoje rua Uruguaiana.

Conta-se que terminou o seu governo pobre, e que teria que ter pedido dinheiro emprestado para regressar a Portugal.

Referências

  1. FREIRE, Anselmo Braamcamp: Brasões da Sala de Sintra. Vol. I, p. 154.
  2. Id., ibid.
  3. Id., ibid.
  4. Id., ibid.
  5. SEBESTYÉN, Evá & VANSINA, Jan: ”Angola's Eastern Hinterland in the 1750s: A Text Edition and Translation of Manoel Correia Leitão's "Voyage" (1755-1756)”.
  6. FREIRE, Anselmo Braamcamp, op. cit.
  7. SMITH III, Thomas Hunter: "A Monumnet to Lazarus: the Leprosy Hospital of Rio de Janeiro".

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • FREIRE, Anselmo Braamcamp: Brasões da Sala de Sintra. 3 Vols. 3.ª Edição, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1996.
  • SEBESTYÉN, Evá & VANSINA, Jan: ”Angola's Eastern Hinterland in the 1750s: A Text Edition and Translation of Manoel Correia Leitao's "Voyage" (1755-1756)”. In History in Africa, Vol. 26, January 1999, pp. 299-364.
  • SMITH III, Thomas Hunter: "A Monumnet to Lazarus: the Leprosy Hospital of Rio de Janeiro". In História. Ciência. Saúde. Manguinhos. Vol.10, Suppl.1. Rio de Janeiro (2003).
Precedido por
Bernardo Pereira de Berredo e Castro
Governador e Capitão-General de Mazagão
1745 — 1752
Sucedido por
José Leite de Sousa
Precedido por
António de Almeida Soares Portugal
Governador e Capitão-General de Angola
1753 — 1758
Sucedido por
António de Vasconcelos
Precedido por
Gomes Freire de Andrade
Governador de Minas Gerais
1763
Sucedido por
Luís Diogo Lobo da Silva
Precedido por
Junta governativa provisória: Tomás Rubi de Barros Barreto, José Carvalho de Andrade e Barros e Alvim
Vice-rei do Brasil e
Governador do Rio de Janeiro

1763 — 1767
Sucedido por
Antônio Rolim de Moura Tavares
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