Camané

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Camané
Camané
Informação geral
Nome completo Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos
Nascimento 20 de dezembro de 1966 (49 anos)
Origem Pt-oer1.png Oeiras
País  Portugal
Gênero(s) Fado
Gravadora(s) EMI Portugal
Afiliação(ões) Carlos do Carmo, José Mário Branco, Humanos, Dead Combo, "UPA – Unidos Para Ajudar", Rodrigo Leão, David Fonseca
Página oficial Camané.com

Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos, conhecido por Camané (Oeiras, 20 de Dezembro de 1966) é um fadista português.

É irmão mais velho dos fadistas Hélder Moutinho e Pedro Moutinho.

Biografia[editar | editar código-fonte]

1966-1990[editar | editar código-fonte]

Camané desperta para a música um pouco por acaso, quando durante a recuperação de uma maleita infantil se embrenhou na coleção de discos dos pais. Além de Frank Sinatra, Charles Aznavour e Os Beatles[1] , deixa-se fascinar pelos grandes intérpretes do Fado: Amália Rodrigues, Fernando Maurício, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Alfredo Marceneiro e Carlos do Carmo[2] . Como conta o fadista em entrevista ao Diário de Notícias (cf. «Gravei o meu primeiro disco após um telefonema de Amália», in DN, 28 de abril de 2013[3] ):

Cquote1.svg Lembro-me de ouvir os discos de fado. E de o meu pai trautear alguns daqueles fados. Achava muito esquisito e não gostava nada daquela forma de cantar, irritava-me. Mas estive doente nessa altura e fiquei um mês em casa. Só tinha três discos que não eram de fados, o resto era tudo, Marceneiro, Amália, Carlos do Carmo... Havia um disco dos Beatles, um do Frank Sinatra, que tinha o Strangers in the Night e o My Way, e um do Aznavour. Ouvi esses discos compulsivamente, mas depois lá passei aos de fado. Achei mesmo muito esquisito, no início, confesso. Mas depois comecei a perceber que conseguia cantar aquilo. (...) Cquote2.svg

.

A sua primeira interpretação em público fê-la no restaurante Cesária, em Alcântara, por sua própria iniciativa em se dirigir aos músicos e pedir para cantar um fado de Fernando Maurício. A partir daí passou a ir com frequência às coletividades onde se cantava o Fado, podendo assim continuar a cantar[4] .

Com apenas 11 anos Camané participa na Grande Noite do Fado, numa época em que não havia sequer competição em separado para os mais novos. Dois anos depois, na edição de 1979, alcança a vitória e é convidado a gravar um LP produzido por mestre António Chainho[5] .

Na instrução escolar não chegou a completar o nono ano, pelo que o pai, chefe de construção naval, lhe arranjou um emprego a calafetar barcos no Arsenal do Alfeite[6] . Esteve lá durante dois anos, até ser chamado a cumprir o serviço militar obrigatório[7] .

Por essa altura, por intermédio de Carlos Zel e do irmão deste, o guitarrista Alcino Frazão, inicia como profissional o circuito das casas de Fado. Passou pelas principais da capital — Fado Menor, O Faia, Adega Machado, Café Luso, Clube do Fado e Senhor Vinho[8] —, uma rodagem que se revelou uma verdadeira escola, como afirma em entrevista ao Expresso/Vidas (Ana Soromenho/Vítor Rainho), a 18 de maio de 2002:

Cquote1.svg Aprendia-se muito. Estava com pessoas muito mais velhas que eram músicos muito experientes. Foi nessa aprendizagem que me formei e adquiri a minha escola. Fazia o que mais gostava de fazer na vida. Era um ambiente muito engraçado porque, quando acabávamos de trabalhar, ao fim da noite, juntava-se a malta das casas todas e eram momentos íntimos e muito criativos onde se contavam histórias do passado. Muitas vezes ficávamos ali a cantar uns para os outros, até às sete, oito da manhã. Cquote2.svg

Estava ainda na tropa quando gravou o single Ai Que Saudades, para a editora MBP.

1990-2000[editar | editar código-fonte]

Em 1990 Filipe La Féria chama-o para o musical transmitido na RTP Grande noite. Em 1992, quando integra o elenco de Maldita Cocaína, outro espetáculo de La Féria em que Camané participou, surge o convite para gravar o seu primeiro CD para a editora EMI.

Uma Noite de Fados, editado em 1995, é gravado ao vivo, durante quatro noites consecutivas, no Palácio das Alcáçovas, recriando o ambiente de uma verdadeira casa de fados. No fundo procurando reconstituir em disco aquilo que tinha sido o seu percurso artístico desde que se profissionalizou[9] . O álbum é igualmente marcado pelo início de uma profícua colaboração com José Mário Branco, que além de produtor dos seus álbuns seguintes, irá compor-lhe vários fados[10] .

Eleito pela crítica especializada como a voz mais representativa da nova geração do Fado, a qualidade do seu trabalho é reconhecida também pelo grande público[11] , abrindo-lhe a porta das salas de espetáculos. Sérgio Godinho escreve assim sobre o fadista, no livro do musicólogo Rui Vieira Nery, Para Uma História do Fado:

Cquote1.svg Do Camané deve dizer-se que” não há palavras” a não ser as que exigem “silêncio, que ele vai cantar o fado”. E fica-se, de boca aberta e veneranda, em presença do novo príncipe, do plebeu mais ilustre dos nossos sentimentos.

É de facto o nosso príncipe, o novo rei que nunca nos rouba as terras. Pelo contrário, fá-las nossas com sua arte do bem dizer, o nasalado especial que repercute no peito e na garganta, e sobretudo o desarrancar da “alma de dentro” de que ele conhece os mistérios; com gosto e suprema intuição.

Cquote2.svg

A partir da década de 90 Camané vai-se afastando progressivamente das casas de Fado e realiza cada vez mais concertos, quer em Portugal quer no estrangeiro, realizando as suas primeiras atuações em França, Holanda, Itália e Espanha. Em 1998 apresenta-se nos festivais Tombées de La Nuit, em Rennes, e Les Méditerranées à l'Européen, em Paris[12] .

O trabalho discográfico seguinte — Na Linha da Vida, editado em 1998 —, confirma as expectativas que Uma Noite de Fados provocara, e consagra-o em definitivo como um dos intérpretes mais impressionantes.

2000-2010[editar | editar código-fonte]

Camané entra na nova década com Esta Coisa da Alma, editado em 2000, e que foi lançado ao mesmo tempo em Portugal, na Bélgica e na Holanda[13] .

Em 2001 o fadista é sucessivamente distinguido com o Prémio Blitz, da revista Blitz (Melhor Voz Masculina Nacional), o Prémio Bordalo Pinheiro, da Casa da Imprensa (Melhor Intérprete de Música Ligeira) e um Globo de Ouro, da SIC (Melhor Intérprete Individual)[14] .

No final desse ano lança o seu quarto CD, Pelo Dia Dentro, novamente com produção de José Mário Branco, e participação do mesmo trio de músicos do seu anterior álbum: José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola) e Carlos Bica (contrabaixo).

O seu primeiro registo discográfico ao vivo, de título Como Sempre... Como Dantes é editado em 2003 e atinge o galardão de Disco de Ouro, dando o mote para a realização de inúmeros espetáculos no ano de 2004[15] .

Esse ano de 2004 marca também o envolvimento de Camané num projeto associado a um género musical diferente do Fado, ao integrar os Humanos; um projeto que revelou um conjunto de canções inéditas de António Variações. Acompanhando Manuela Azevedo e David Fonseca, além dos músicos Nuno Rafael, João Cardoso e Hélder Gonçalves, o grupo edita os álbuns Humanos e Humanos ao Vivo, este também com edição em DVD[16] .

Chegando a novos públicos, Camané realça que a sua forma de cantar algo diferente vem precisamente da carga emotiva e interpretativa que lhe dá o Fado, mas que não se esgota nesse género. Neste âmbito integra-se também o espetáculo Outras Canções, realizado no Teatro de São Luiz, em 2005, onde Camané interpretou canções de referência da música portuguesa e brasileira[17] .

A Fundação Amália Rodrigues atribuiu-lhe o prémio de Melhor Intérprete Masculino na sua primeira gala, em 2005.

Em 2006, com base nos concertos realizados no Teatro São Luiz, na digressão do espectáculo Como Sempre... Como Dantes, é lançado no mercado o DVD Camané ao Vivo no S. Luiz. Nesse mesmo ano Camané realizou com Carlos do Carmo um grande concerto de encerramento das Festas de Lisboa, com um palco instalado nos jardins da Torre de Belém e que registou uma audiência de 20 mil pessoas.

2007 marca a estreia do fadista no cinema. Da autoria do premiado realizador espanhol Carlos Saura, o filme Fados, junta diversas gerações do Fado e Camané participa na película com a interpretação de dois temas.

Em 2008 apresentou o seu novo disco de originais, Sempre de Mim, com um concerto no Coliseu dos Recreios. Insistindo na divulgação de um repertório centrado no seu lado tradicional, sem deixar de arriscar ao utilizar novas linguagens poéticas e musicais, os novos fados refletem duas vertentes, uma de novidade, com temas inéditos de Alain Oulman, poemas de Luís de Macedo nunca antes musicados, um fado de Sérgio Godinho ou uma letra de Jacinto Lucas Pires num fado tradicional; outra de continuidade, pelas escolhas de poemas de Fernando Pessoa e Pedro Homem de Mello, a irresistível métrica de Manuela de Freitas e as inconfundíveis melodias de José Mário Branco[18] .

É durante a gravação deste disco que é rodado o documentário de Bruno de Almeida, Fado Camané, que viria a estrear somente seis anos depois, inaugurando a secção Heart Beat do DocLisboa de 2014[19] .

2008 é ainda o ano da sua participação no disco solidário contra as doenças mentais UPA – Unidos Para Ajudar, no qual partilha com os Dead Combo uma interpretação de Vendaval, canção conhecida na voz de Tony de Matos[20] .

Em 2009 tem, juntamente com Aldina Duarte, uma participação especial no filme luso-francês A Religiosa Portuguesa, de Eugène Green, onde canta Ser aquele, tema composto sobre um poema de Fernando Pessoa, datado de 1931[21] .

Em 2010 lança o álbum Do Amor e dos Dias. Este álbum acrescenta à sua carreira o comentário a um poema de Alexandre O'Neill, O amor é o amor. O fado mais popular deste álbum é A guerra das rosas, letra de Manuela de Freitas e música de José Mário Branco, inspirado no filme com o mesmo nome.

2010-[editar | editar código-fonte]

Encerrando uma década em que atuou um pouco por todo o mundo, realizando digressões nos EUA, Canadá, América Latina, Europa de Leste e Ásia, Camané atua em 2011 na Brooklyn Academy of Music de Nova Iorque, num concerto elogiado pelo New York Times[22] .

Também em 2011 o fado Já não estar, interpretado por Camané no documentário José e Pilar, novamente com letra de Manuela de Freitas e música de José Mário Branco, é pré-selecionado para o Óscar de Melhor canção original, pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos[23] .

Em 2013 é editada uma coletânea com alguns temas inéditos: o disco duplo Camané - O Melhor | 1995-2013. Entre os inéditos está o poema de Álvaro de Campos Ai Margarida, com música de Mário Laginha, e o poema de António Gedeão Ai Silvina, Silvininha, com música de Alain Oulman, um inédito absoluto do mítico compositor de Amália Rodrigues[24] . O álbum é motivo para o fadista regressar ao Coliseu dos Recreios num concerto onde tem como convidados Carlos do Carmo, Mário Laginha, Aldina Duarte e a polaca Anna Maria Jopek[25] .

O ano de 2013 termina em mais uma experiência fora do Fado, desta vez com Pedro Abrunhosa, que chama Camané para o seu álbum Contramão. Gravam em dueto o tema Para os Braços da Minha Mãe, sobre a emigração portuguesa[26] .

Em 2014 junta-se a Jorge Palma, à soprano Elisabete Matos e aos Xutos & Pontapés para participar no espetáculo Música em degradé - da ópera ao rock, no Pavilhão Atlântico[27] .

Ainda nesse ano reencontra David Fonseca, com quem faz um concerto no Mercado da Ribeira, a convite da Time Out, no contexto do evento A maior casa de fados do mundo[28] .

Em 2015 regressa aos originais com o disco Infinito Presente, com entrada direta para o primeiro lugar no top de vendas.

Discografia[editar | editar código-fonte]

Álbuns ao Vivo[editar | editar código-fonte]

Outros
  • O Fadista da Costa do Sol (EP, Metro Som, 1979)
  • O Fadista da Costa do Sol (EP, Metro Som, 1979)
  • A Alma Jovem do Fado (LP, Estúdio, 1982)
  • Ai Que Saudades/Teu Lindo Nome (Single, MBP, 1989)
  • Ao Vivo Na Zaal 100 (CD, Circo de Cultura Portuguesa Na Holanda, 1997)
  • The Art Of Camané (CD. Hemisphere, 2004)

Videografia[editar | editar código-fonte]

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Camané
Guitarra e Viola Douradas.png Camané venceu a Grande Noite do Fado 1979 da Casa da Imprensa de Lisboa, na categoria de Masculinos
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