Ecologia social (teoria filosófica)

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Ecologia social é um conceito filosófico, social e político que relaciona questões ecológicas e sociais.[1][2] Associado ao filósofo anarquista Murray Bookchin, a teoria surgiu em meados da década de 1960, época de ascensão do movimento ambientalista no mundo e dos direitos civis nos Estados Unidos, e desempenhou um papel muito mais visível com o crescente movimento contra a energia nuclear no final da década de 1970.[3] Apresenta como ideia principal que os problemas ecológicos do mundo estão arraigados e profundamente assentados em problemas sociais, particularmente no domínio dos sistemas políticos e sociais hierarquizados, e busca resolvê-los através do modelo de uma sociedade adaptada ao desenvolvimento humano e à biosfera.[4] É uma teoria da ecologia política radical baseada no comunalismo, que se opõe ao atual sistema capitalista de produção e consumo, visando o estabelecimento de uma sociedade moral, descentralizada e unida, guiada pela razão.[5]

Visão geral[editar | editar código-fonte]

A teoria de Bookchin apresenta uma filosofia utópica da evolução humana que combina a natureza da biologia e da sociedade em uma terceira "natureza pensante" para além da bioquímica e da fisiologia, que ele diz ser de natureza mais completa, consciente, ética e racional. A humanidade, de acordo com essa linha de pensamento, é o mais recente desenvolvimento da longa história do desenvolvimento orgânico na Terra. A ecologia social de Bookchin propõe princípios éticos para substituir a propensão da sociedade à hierarquia (do homem sobre mulher, dos mais velhos sobre os mais jovens, do branco sobre negro, do rico sobre pobre) e à dominação pela democracia e liberdade.[6] O filósofo anarquista escreveu sobre os efeitos da urbanização na vida humana no início da década de 1960 durante sua participação nas mobilizações pelos direitos civis nos Estados Unidos e movimentos sociais relacionadas.

Bookchin então começou a buscar a conexão entre questões ecológicas e sociais, culminando com seu livro mais conhecido, The Ecology of Freedom, que havia desenvolvido ao longo de uma década.[7] Seu argumento, de que a dominação humana e a destruição da natureza decorrem da dominação social entre humanos foi uma posição inovadora no crescente campo da ecologia. A vida desenvolve-se a partir da auto-organização e cooperação evolutiva (simbiose). Bookchin escreve sobre sociedades pré-alfabetizadas organizadas em torno de necessidades mútuas, mas acabadas por instituições de hierarquia e dominação, como cidades-estados e economias capitalistas, que ele atribui exclusivamente às sociedades humanas e não às comunidades de animais.[8] Ele propõe que a confederação entre comunidades de seres humanos atravesse a democracia e não a lógica administrativa.[5]

O trabalho de Bookchin, começando com escritos anarquistas sobre o assunto na década de 1960, evoluiu continuamente. No final da década de 1990, ele integrou cada vez mais o princípio do comunalismo, com aspirações mais inclinadas à democracia municipal institucionalizada, o que o distanciava de uma certa evolução do anarquismo. Inspirado pelo anarquismo (principalmente por Kropotkine) e pelo comunismo (pelos escritos de Marx e Engels). A ecologia social busca evitar as armadilhas de uma ecologia neo-malthusiana que apaga as relações sociais e as substitui por "forças naturais", como também de uma ecologia tecnocrática que considera que devemos confiar na tecnologia e dar mais poder aos estados. Segundo Bookchin, essas duas correntes despolitizam a ecologia e mitologizam o passado ou o futuro.[1]

Assim, a ecologia social é articulada através de alguns princípios-chave:

  • A interdependência e o princípio da unidade na diversidade. A ecologia social busca se opor à padronização de seres e pensamentos e quer promover a contribuição da diversidade, da união orgânica de diferentes partes da sociedade. As diferenças devem ser promovidas, trazendo uma diversidade de talentos, pontos de vista e estilos, permitindo evoluir a sociedade e, ao mesmo tempo, torná-la mais estável.
  • A descentralização. Uma sociedade de ecologia social assumiria a forma de uma confederação de municípios descentralizados ligados entre si por laços comerciais e sociais. As fontes de energia renovável dispersas alimentariam essas comunidades em escala humana e forneceriam cada uma de acordo com suas necessidades.
  • A democracia direta. Estruturada em torno do princípio de uma forma de comunalismo chamada municipalismo libertário, a ecologia social advoga o desenvolvimento de assembleias municipais, uma versão modernizada do tipo desenvolvido pelos atenienses na Antiguidade ou implementado durante a Comuna de Paris no século XVIII, para a tomada de decisão política. As decisões relativas à vida da comunidade (cidade) são discutidas e votadas por maioria nessas assembleias. Da mesma forma, no nível superior, representantes com mandatos imperativos e, portanto, revogáveis, são designados para representar seu município em assembleias regionais, nacionais etc. É um sistema horizontal, uma democracia popular não hierárquica, cujas decisões vão de baixo para cima e são tomadas de forma transparente face a face.
  • Uma renovação da cidadania. Na base do sistema de ecologia social estão o cidadão e a comunidade. Cada pessoa deve reaprender a participar das escolhas relacionadas à vida local e, para fazer isso, deve reaprender a decidir em comum. O cidadão deve se responsabilizar novamente e conhecer o mínimo que lhe permita participar ativamente da administração da sociedade, em particular o que tem repercussão direta em sua vida e na de outras pessoas.
  • Uma tecnologia libertadora. A ecologia social não se opõe às tecnologias modernas, mas é a favor de desenvolvê-las para colocá-las a serviço dos seres humanos. A ciência deve recuperar seu significado moral e se desenvolver para os humanos, não para escravizá-lo. Máquinas e ferramentas modernas devem se tornar multifuncionais, duráveis, ecológicas e fáceis de usar e manter. Ao se tornar um mestre da técnica que faz uso, o cidadão poderá se libertar do trabalho árduo e se concentrar no aspecto criativo e positivo das tarefas.
  • Uma visão social do trabalho. O desenvolvimento de máquinas tem, na ecologia social, o objetivo de libertar os seres humanos de grande parte do trabalho manual (trabalho em fábrica) que pode ser feito pelas máquinas, a fim de deixá-los com o trabalho criativo e reduzir o tempo de trabalho. O tempo economizado poderia permitir que o ser humano participasse da vida política de sua comunidade e desfrutasse mais da vida social. Assim, o modelo é articulado em tempos parciais diversificados, combinando o máximo de trabalho possível dentro e fora, intelectual e concreto, etc. As hierarquias no trabalho serão substituídas por supervisores cujo único objetivo é fornecer uma visão global sobre o trabalho de uma empresa.
  • O naturalismo dialético. Essa é uma filosofia dialética desenvolvida para servir como base ética para uma sociedade baseada nos princípios da ecologia social. Para combater a devastação das representações binárias ocidentais, essa filosofia é baseada no pensamento "desenvolvimentista" para entender a complexidade dos seres vivos. Assim, o naturalismo dialético nos convida a não estudar as espécies, isolando-as umas das outras, o que é "um reflexo do viés empreendedor de nossa cultura", mas a pensar em suas interrelações. Seu princípio é que "o que deveria ser" deve servir de base ética para "o que é", com o objetivo de acompanhar a liberdade nos germes da natureza.

O conceito pelo mundo[editar | editar código-fonte]

Encontros internacionais[editar | editar código-fonte]

Em maio de 2016, foram organizadas em Lyon as primeiras "Reuniões Internacionais de Ecologia Social", que reuniram uma centena de ambientalistas radicais, figuras decrescentes e libertários, a maioria deles vindos da França, da Bélgica, da Espanha e da Suíça, além dos Estados Unidos, da Guatemala e do Canadá. No centro dos debates estavam o municipalismo libertário como alternativa ao Estado-nação e a necessidade de repensar o ativismo.[9][10]

Uma segunda edição das reuniões ocorreu em Bilbau em outubro de 2017.[11]

Movimento curdo[editar | editar código-fonte]

As reflexões sobre a ecologia social e o municipalismo libertário de Murray Bookchin também inspiraram o líder histórico do movimento curdo Abdullah Öcalan a criar, a partir de sua prisão turca, o conceito de confederalismo democrático, que visa reunir os povos do Oriente Médio em uma confederação de comunidades democráticas, multiculturais e ecológicas.[12][13] Adotado pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) a partir de 2005, o programa de Öcalan representou uma grande virada ideológica do movimento nacionalista curdo, outrora engajado na luta armada por um estado independente, para ir além das ideias do Marxismo-Leninismo sobre Estado-nação.[14][15]

Além do PKK, o projeto internacionalista de Öcalan foi muito bem recebido também por seu homólogo sírio, o Partido da União Democrática (PYD), que se tornaria a primeira organização no mundo a fundar de fato uma sociedade baseada nos princípios do confederalismo democrático.[16][17][18] Em 6 de janeiro de 2014, os cantões de Rojava, no Curdistão sírio, federaram-se em municípios autônomos, adotando um contrato social que estabelecia uma sociedade descentralizada não hierárquica, baseada em princípios da democracia direta, do feminismo, da ecologia, do pluralismo cultural, da política participativa e do cooperativismo econômico.[14][15][19]


Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b Bookchin, Murray (2006). Social Ecology and Communalism (PDF). [S.l.]: AK Press. ISBN 978-1-904859-49-9 
  2. Bookchin, Murray (2007). «What is Social Ecology?» (PDF). psichenatura.it 
  3. «On Bookchin's Social Ecology and its Contributions to Social Movements». social-ecology.org. 2018 
  4. Light 1998, p. 6.
  5. a b Light 1998, p. 8.
  6. Stokols, Daniel (2018). Social Ecology in the Digital Age: Solving Complex Problems in a Globalized World. [S.l.]: Elsevier Science. p. 33. ISBN 978-0-12-803114-8 
  7. Light, Andrew (1998). Social Ecology After Bookchin. [S.l.]: Guilford Press. ISBN 978-1-57230-379-9 
  8. Light 1998, p. 7.
  9. «Questions pour un autre futur» (em francês). Le Courrier. 25 de julho de 2016 
  10. «Rencontres Internationales de l'Écologie Sociale - 27 28 et 29 mai 2016 Lyon» (em francês). Passerelle éco. 16 de março de 2016 
  11. «IIe RENCONTRES INTERNATIONALES SUR L'ÉCOLOGIE... - la gueule ouverte» (em francês). lagueuleouverte.info. 29 de setembro de 2017 
  12. Bookchin, Debbie (15 de junho de 2018). «How My Father's Ideas Helped the Kurds Create a New Democracy». The New York Review of Books. Consultado em 20 de maio de 2016 
  13. Benjamin Fernandez (Julho de 2016). «Murray Bookchin, écologie ou barbarie» (em francês). Le Monde diplomatique 
  14. a b «A Dream of Secular Utopia in ISIS' Backyard». New York Times. 24 de novembro de 2015. Consultado em 1 de julho de 2020 
  15. a b Shilton, Dor (9 de junho de 2019). «In the Heart of Syria's Darkness, a Democratic, Egalitarian and Feminist Society Emerges». Haaretz. Consultado em 2 de julho de 2020 
  16. Malik, Kenan (27 de outubro de 2019). «Syria's Kurds dreamt of a 'Rojava revolution'. Assad will snuff this out». Guardian. Consultado em 2 de julho de 2020 
  17. «Revolution in Rojava Democratic Autonomy and Women's Liberation in Syrian Kurdistan». Pluto Books. Consultado em 2 de julho de 2020 
  18. Krajeski, Jenna (14 de outubro de 2019). «What the World Loses if Turkey Destroys the Syrian Kurds». The New York Times. Consultado em 2 de julho de 2020 
  19. Baird, Vanessa (22 de junho de 2020). «In the Autonomous Zones». The New International. Consultado em 2 de julho de 2020 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]