Elomar

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Elomar
Elomar durante reunião no Ministério da Cultura, em 2010.
Nome completo Elomar Figueira Mello
Conhecido(a) por Menestrel das Caatingas[1][2]

Príncipe da Caatinga[3]

Nascimento 21 de dezembro de 1937 (83 anos)
Vitória da Conquista, BA
Nacionalidade brasileiro
Progenitores Mãe: Eurides Gusmão Figueira Mello
Pai: Ernesto Santos Mello
Cônjuge Adalmária de Carvalho Mello (c. 1966)
Filho(a)(s) Rosa Duprado
João Ernesto
João Omar
Ocupação poeta, romancista, violinista, escritor, cantor e compositor
Magnum opus Poemas, sonetos e baladas (1946); Antologia poética (1954); Novos Poemas II (1959), Para viver um grande amor (1962) e Livro de sonetos, ed. aumentada (1967).
Carreira musical
Gênero(s)
Instrumento(s) Vocais, violão
Afiliações
Página oficial
Porteira

Elomar Figueira Mello[nota 1] (Vitória da Conquista, 21 de dezembro de 1937) é um compositor, escritor, violonista e cantor brasileiro. As canções de Elomar já foram regravadas e interpretadas por diversos músicos, tais como Raimundo Fagner, Elba Ramalho, Xangai, Dércio Marques, Marlui Miranda, Jurema Paes e Teca Calazans,[11] além de influenciar compositores como Caetano Veloso.[12]

Sua obra é marcada pela forte presença de variantes dialetais, arcaísmos e neologismos, formando uma linguagem muito característica fundada na oralidade sertaneja. Suas letras abrangem uma ampla gama de temas, na maior parte das vezes vinculado ao imaginário rural do sertanejo nordestino, ainda que com elementos medievais, cristãos e ibéricos.[13] A obra de Elomar vem sendo objeto de amplos estudos linguísticos, antropológicos e musicais.[14]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Elomar nasceu na Fazenda Boa Vista pertencente aos seus avós, Sr. Virgílio Figueira e Sra. Dona Maria Gusmão Figueira, "Maricota".

A formação cristã foi herdada da família. Sua avó "mãe Neném" era católica, enquanto a outra avó "Maricota" era batista. Citações sobre a Virgem Maria e sobre os Santos, assim como passagens do Velho Testamento estão sempre presentes nas letras de sua obra, como na música "Ecos de uma Estrofe de Abacuc". Seus pais eram Ernesto Santos Mello, filho de tradicional família da zona da mata de Itambé (Bahia), e Eurides Gusmão Figueira Mello.[15]

Dos três aos sete anos de idade Elomar viveu na cidade de Vitória da Conquista, passando depois a morar nas fazendas de seus parentes como a Fazenda São Joaquim que tanto lhe inspirou músicas, a as Fazendas Brejo, Coatis e Palmeira. Estudou entre o sertão e a capital e mais tarde, no final da década de 1960, formou-se em Arquitetura pela Universidade Federal da Bahia. Teve também uma passagem rápida pela Escola de Música dessa mesma Universidade. Como arquiteto, Elomar concebeu mais de quatrocentos projetos na área da SUDENE, dentre eles as casas das fazendas Duas Passagens e Gameleira, mais conhecida como Casa dos Carneiros e o segundo templo da Igreja Batista de Vitória da Conquista.[16]

Enquanto estudava na UFBA, em Salvador, foi descoberto pelo produtor musical Roberto Sant'Ana, que relata o encontro assim:

[O] maestro Carlos Lacerda, do piano, me convidou para jantar em um restaurante que tinha ali na Joana Angélica e lá eu conheci Elomar. Eu digo: “O que é isso?!”. Foi a primeira coisa: “O que é isso?!”. Perguntei a Lacerda como era que se classificava aquilo e Lacerda me disse que não tinha classificação. Bom, eu pensei, isso tem que ser registrado. Aí propus à Polygram, que na hora aceitou.

 Entrevista de Roberto Sant'Ana a James Martins

A originalidade da obra de Elomar foi rapidamente notada por Vinicius de Moraes, que sobre seu primeiro disco, Das Barrancas do Rio Gavião, escreveu:

A mim me aprece um disparate que exista mar em seu nome, porque um nada tem a ver com o outro. No dia em que ‘o sertão virar mar’, como na cantiga, minha impressão é que Elomar vai juntar seus bodes, de que tem uma grande criação em sua fazenda ‘Duas Passagens’, entre as serras da Sussuarana e da Prata, em plena caatinga baiana, e os irá tangendo até encontrar novas terras áridas, onde sobrevivam apenas os bichos e as plantas que, como ele, não precisam de umidade para viver, e ali fincar novos marcos e ficar em paz entre suas amigas, as cascavéis e as tarântulas, compondo ao violão suas lindas baladas e mirando sua plantação particular de estrelas que, no ar enxuto e rigoroso, vão se desdobrando à medida que o olhar se acomoda ao céu, até penetrar novas fazendas celestes, além, sempre além, no infinito latifúndio

 Vinícius de Moraes, na contracapa de Das Barrancas do Rio Gavião (1972)

Casado com Adalmária de Carvalho Mello é o pai de Rosa Duprado, João Ernesto e do violonista e maestro João Omar.[17]

O Rio Gavião é retratado constantemente nas canções de Elomar.

Elomar prefere viver a maior parte do seu tempo nas suas fazendas. A Fazenda Gameleira, que ele chama de Casa dos Carneiros, imortalizada na música Cantiga do Amigo, está a 22 Km de Vitória da Conquista, na Fazenda Duas Passagens que se localiza na bacia do Rio Gavião e na Fazenda Lagoa dos Patos, na Chapada Diamantina.[18]

Elomar, assim como Glauber Rocha e Xangai, é descendente direto do Bandeirante e Sertanista João Gonçalves da Costa, fundador em 1783 do Arraial da Conquista, hoje a cidade de Vitória da Conquista.[19]

Orlando Celino, pintor conquistense, o único que Elomar permitiu retratá-lo,[20] recebeu em 2003 a encomenda para pintar um quadro de João Gonçalves da Costa que iria integrar ao monumento de Jacy Flores, em Vitória da Conquista. Não existindo gravura deste personagem histórico Elomar, como descendente, permitiu que as suas feições fossem usadas para a representação deste seu ancestral. Este quadro, denominado Capitão-Mor João Gonçalves da Costa, está hoje na Casa Régis Pacheco, em Vitória da Conquista, um museu político e casa de eventos inaugurado em 05 de abril de 2007.[19]

De 2000 a 2004 viveu na pequena cidade de Lagoa Real, contratado pela Prefeitura local, para formar um coral e criar um projeto de ópera sertaneja.[21]

Estilo próprio[editar | editar código-fonte]

A série de shows 'Cantoria', deu origem a três conhecidos discos, onde Elomar canta ao lado de Xangai, Vital Farias e Geraldo Azevedo

Depois que gravou seu primeiro disco …Das Barrancas do Rio Gavião, passou a investir mais na sua carreira musical, bastante influenciada pela tradição ibérica e árabe que a colonização portuguesa levou ao nordeste brasileiro, mas foi só no final dos anos 1970 e início dos 80 que deu menos ênfase à arquitetura para dedicar-se à peregrinação pelos teatros do país, de palco em palco, tocando e interpretando o seu cancioneiro e trechos do que viriam a ser suas composições de formato erudito, como autos.

De acordo com a professora Jerusa Pires Ferreira, as músicas de Elomar[13]

"Ajuntam céus e terras, crenças e vivências, coisas grandes e pequenas, e se organiza a recriação do grande texto oral, sertanejo, Ibérico e universal. É como se ouvisse um canto de milênios, os gêneros da poesia medieval, do grande relato épico, o mundo misterioso, mais a captação de flagrantes da vida sertaneja".[13]

Boa parte dos textos musicais e obras de Elomar são escritos em linguagem dialetal sertaneza (sic); título de linguagem atribuída por ele. Com seu estilo típico de tocar violão, muitas vezes alterando a afinação do instrumento, Elomar criou fama entre o universo violeiro. Gravou em 1990 o festejado disco "Elomar em Concerto", acompanhado pelo Quarteto Bessler. Avesso à exposição na mídia para divulgação do seu próprio trabalho, prefere a vida reclusa da fazenda, longe das grandes metrópoles, criando bodes como o que inspirou ao cartunista Henfil o personagem Francisco Orellana.[22]

Em suas canções predominam a variante linguística da caatinga, de maneira arcaizante. Contudo, o estilo formal, bem como a língua clássica vernacular também são recorrentes, flutuando entre o erudito e histórico e o registro contemporâneo do idioma. Dessa forma, Elomar trabalho com um dialeto que não é fixo, e sim dinâmico, com renovações e transformações linguísticas constantes. Observa-se com frequência numa mesma composição variantes pronominais “ancê”, “iancê” e “você”.[23] Outro caráter marcante nos textos de Elomar é a poliglossia: “Na própria língua, transita do dialeto sertanejo ao dos pampas, do português culto ao arcaico, medieval, manipulando com facilidade também as línguas estrangeiras”.[23]

Obra[editar | editar código-fonte]

Discografia Selecionada[editar | editar código-fonte]

  • Parcelada Malunga
Elomar, Arthur Moreira Lima, Xangai, Heraldo do Monte, José Gomes
Gravado ao Vivo no Teatro Pixinguinha (SP).
  • Na Quadrada das Águas Perdidas
Elomar, Elena Rodrigues, Dércio Marques, Xangai e Carlos Pita
Gravado no Seminário de Música da UFBA.
  • Fantasia Leiga para um Rio Sêco
Elomar e Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia
Gravado no Auditório do Centro de Convenções da Bahia.
Elomar.
  • Auto da Catingueira
Elomar, Jacques Morelembaum, Marcelo Bernardes, Andrea Daltro, Sônia Penido, Xangai e Dércio Marques
Gravado na Sala de Visitas da Casa dos Carneiros em Gameleira (Vitória da Conquista, BA).
  • Elomar em Concerto
Elomar, Jacques Morelembaum, Quarteto Bessler-Reis, Paulo Sérgio Santos, Marcelo Bernardes, Antônio Augusto e Octeto Coral de Muri Costa
Gravado ao Vivo na Sala Cecília Meireles (RJ).
  • ConSertão
Elomar, Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Heraldo do Monte
Gravado na Sala Cecília Meireles (RJ).
Xangai, Elomar, João Omar, Jacques Morelembaum, Eduardo Morelembaum, Eduardo Pereira.
  • Cantoria 1
Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Xangai
Gravado ao Vivo no Teatro Castro Alves (Salvador, BA).
  • Cantoria 2
Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Xangai
Gravado ao Vivo no Teatro Castro Alves (Salvador, BA).
  • Cantoria 3 Canto e Solo
Elomar
Gravado ao Vivo no Teatro Castro Alves (Salvador, BA).
  • Árias Sertânicas
Elomar e João Omar
Gravado no Estúdio Cacalieri — BA.
  • Cartas Catingueiras
Elomar
Gravado no "Nosso Estúdio" — SP.
  • Concerto Sertanez
Elomar, Turíbio Santos, Xangai e João Omar (part. especial)
Gravado ao vivo no Teatro Castro Alves dias 7, 8, 9 e 10 de janeiro de 1.988 em Salvador, BA.
  • O Menestrel e o SertãoMundo (2016)
Elomar e Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense
Gravado ao vivo no Centro de Artes UFF

Livros[editar | editar código-fonte]

  • Melo, Elomar Figueira (2008), Sertanílias, ISBN 978-85-908262-0-0, Vitória da Conquista, BA: Elomar Figueira Mello . (Originalmente concebido como roteiro de cinema, foi publicado em 2008 na forma de romance).
  • Melo, Elomar Figueira (2016), A Era dos grandes equívocos, ISBN 978-85-908262-1-7, Vitória da Conquista, BA: Casa dos carneiros .

Referências

  1. Rádio USP destaca a obra do cantor e compositor Elomar, Programa “Olhar Brasileiro” mostra as sofisticadas composições do artista baiano
  2. ARRUDA, Lucas Oliveira de Moura. O Cancioneiro de Elomar: uma identidade sonora do sertão e suas performances. 2015. 170 f. Dissertação (Mestrado em Música) - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2015, p.64, nota de rodapé
  3. Recluso e 'anti-imagético', Elomar faz concertos neste fim de semana, O Globo
  4. «Página sobre o 1º disco compacto de Elomar». Consultado em 21 de março de 2012 
  5. «Biografia de Sevy Nascimento». Música de Pernambuco. Consultado em 1 de fevereiro de 2012 [ligação inativa]
  6. Mão Branca, Edigar (2007). «Requerimento» (PDF). Sileg. Câmara dos Deputados do Brasil. Consultado em 1 de fevereiro de 2012. Arquivado do original (PDF) em 3 de março de 2016 
  7. Luiz Antonio Batista da Rocha (2010). «Tributo a Paulo Moura» 🔗 (PDF). Outorga. Consultado em 1 de fevereiro de 2012 
  8. MELLO, Elomar Figueira; CUNHA, João Paulo. Elomar: Cancioneiro. Belo Horizonte: Duo Editorial, 2008. Publicação contendo 1 livro ilustrado, 14 cadernos com partituras de 49 canções, e 1 caderno com letras das canções e notas editoriais.
  9. «Discografia», Porteira Oficial de Elomar, consultado em 16 mar. 2012 .
  10. «Elomar», ISBN 978-85-9082620-0, Biblio1 (ferramenta de pesquisa bibliográfica), consultado em 16 mar. 2012 .
  11. ARRUDA, Lucas Oliveira de Moura. O Cancioneiro de Elomar: uma identidade sonora do sertão e suas performances. Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2015, p.17
  12. «Disco rompe silêncio em torno do legado musical de Elomar». Folha de S.Paulo. Caetano Veloso, que compôs "Beleza Pura" inspirado nos versos da canção "O Violeiro", de Elomar, confessa ter tido vontade de cantar em show a canção que lhe inspirou, mas não foi adiante simplesmente porque não se conformava em não atingir o grave de Elomar na palavra "cantadô". 
  13. a b c Elomar, Enciclopédia, Itaú Cultural
  14. Helder Canal de Oliveira, Um sertão Elomariano: , Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea: n. 54 (2018): Outras alteridades - Alessandra Santana Soares e Barros e Gislene Maria Barral L. F. Silva (Org.)
  15. «Biografia». Porteira Oficial de Elomar 
  16. Guerreiro 2005, p. 17.
  17. «As histórias de Elomar e filho». O Tempo (jornal) 
  18. Guerreiro 2005, p. 30.
  19. a b Magalhaes 2016, p. 162.
  20. Arruda 2015, p. 31.
  21. Guerreiro 2005, p. 12.
  22. Guerreiro 2005, p. 38.
  23. a b Guerreiro 2005, p. 32.

Notas

  1. Seu nome aparece com variações nos primeiros discos, o que contribuiu para difundir dúvidas e confusões sobre a grafia.[4][5][6][7] A forma adotada na publicação de suas obras desde o álbum Na quadrada das águas perdidas, de 1978, fixou-se como Elomar Figueira Mello, que é seu nome civil.[8][9][10]

Fontes[editar | editar código-fonte]

  • GUERREIRO, Simone da Silva. "Tramas do sagrado: a poética de Elomar Figueira Mello." (2007). Universidade Federal da Bahia
  • MAGALHÃES, Luiz Otávio. "SERTÕES CLÁSSICOS E SERTÕES HISTÓRICOS EM ELOMAR FIGUEIRA MELLO". Línguas & Letras, [S.l.], v. 17, n. 36, jul. 2016. ISSN 1981-4755.
  • ARRUDA, Lucas Oliveira de Moura. "O Cancioneiro de Elomar: uma identidade sonora do sertão e suas performances". 2015. 170 f. - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2015.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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