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Exclusão social

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A exclusão social é entendida como o processo pelo qual indivíduos ou grupos são impedidos de participar plenamente da vida em sociedade, em suas dimensões econômica, política, cultural[1]. Trata-se de um conceito multidimensional, que envolve desde a privação material até a negação de direitos, oportunidades e recursos fundamentais para a inclusão social[2]. Embora frequentemente associada à pobreza, a exclusão social é mais ampla, podendo decorrer de discriminação, estigmatização ou barreiras institucionais.

O termo ganhou destaque na Europa, especialmente na França, a partir do final do século XX, e foi incorporado pela Comissão Europeia, que a define como “uma situação em que uma pessoa é impedida de contribuir para e de se beneficiar do progresso econômico e social”[3][4]. Desde então, passou a ser utilizado em diversas áreas do conhecimento, como sociologia, psicologia, educação, saúde, ciência política e economia[5][6].

Descaso quanto a indigentes nas ruas de São Paulo (exclusão social).

O conceito foi inicialmente usado para descrever processos de desintegração social, isto é, a fragmentação dos laços entre indivíduo, sociedade e Estado. Essa interpretação tem origem na sociologia francesa, em especial nos trabalhos de Émile Durkheim, sobre a coesão social, e de Robert Castel, que relaciona a exclusão à perda dos vínculos de trabalho e solidariedade[7][8].

O termo exclusão social ganhou notoriedade a partir de René Lenoir, que, em 1974, o empregou para designar grupos “excluídos” dos sistemas de proteção social na França[9]. Desde então, o conceito passou a ser frequentemente utilizado em contraposição ao de inclusão social, relacionado às políticas e práticas voltadas à ampliação do acesso a direitos, oportunidades e à participação cidadã[4].

O sociólogo Jock Young (2002) descreve a passagem de uma sociedade inclusiva para uma sociedade excludente. A primeira corresponde ao período do pós-guerra, marcado pela empregabilidade, pela incorporação gradual da classe trabalhadora, pela maior participação das mulheres na vida pública e pelos avanços nos direitos civis. Nesse contexto, trabalho e família eram os pilares da integração social, e mesmo os indivíduos considerados “desviantes” eram vistos como passíveis de reabilitação[10].

A partir dos anos 1980, entretanto, esse modelo entrou em declínio: o avanço da economia de mercado, a redução dos empregos estáveis e a expansão do trabalho precário criaram uma subclasse de desempregados estruturais. Essa transição resultou em uma sociedade excludente, caracterizada pela precariedade, pelo aumento da desigualdade e pela criminalização do “outro”[11].

No Brasil, o termo começou a ganhar espaço nos anos 1990, em estudos acadêmicos e políticas públicas voltadas à redução da pobreza e da desigualdade.

Abordagens teóricas

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A exclusão social é interpretada por diferentes perspectivas teóricas. Autores vinculados à teoria da justiça social (como Amartya Sen e John Rawls) relacionam a exclusão à desigualdade de capacidades e oportunidades[12]. Já perspectivas sociológicas críticas, como a de Pierre Bourdieu, destacam as dimensões simbólicas e culturais da exclusão, enquanto abordagens marxistas enfatizam sua relação com a estrutura de classes e com o capitalismo contemporâneo[13].

Na ciência política e nas ciências sociais brasileiras, autores como Marta Arretche, Nadya Guimarães e Vera Telles discutem a exclusão social em diálogo com essas tradições teóricas. Suas pesquisas abordam desde a desigualdade de acesso a direitos e políticas públicas até os efeitos da precarização do trabalho e da marginalização urbana[14][15][16].

A exclusão pode ocorrer em diferentes dimensões:[17]

  • Econômica: desemprego, pobreza, trabalho informal, falta de acesso a bens e serviços.
  • Educacional: ausência de escolaridade ou ensino de baixa qualidade.
  • Cultural e identitária: discriminação por etnia, religião, gênero, orientação sexual ou origem social.
  • Etária: marginalização de crianças, jovens ou idosos.
  • Física e estética: exclusão de pessoas com deficiência, obesos, negros ou outros grupos estigmatizados.
  • Digital: falta de acesso a tecnologias e internet[18].

A exclusão social também pode ser entendida como um processo que emerge nos níveis individual ou coletivo a partir de quatro dimensões correlacionadas[19]: acesso insuficiente a direitos sociais, privação material, participação social limitada, falta de integração normativa.

Esse processo resulta da combinação de diferentes fatores: pessoais (idade, gênero, raça), macroestruturais (mudanças demográficas, econômicas e no mercado de trabalho, inovações tecnológicas, transformações nas normas sociais), institucionais (legislação e políticas públicas), comportamentais (ações de empresas, organizações administrativas e cidadãos comuns).

No Brasil

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Entre 1980 e 2000, a exclusão social persistiu no Brasil, marcada pelo aumento da violência e do desemprego, como mostra o Atlas da Exclusão Social e pesquisas do IPEA. A edição de 2014 apontou avanços em gasto social, expansão econômica e redução da extrema pobreza, mas também revelou desigualdades persistentes, sobretudo no Nordeste, onde 77,2% dos municípios não conseguiram melhorar o índice de renda domiciliar[20].

A partir da redemocratização, no entanto, políticas de inclusão social buscaram mitigar esse quadro. Entre 1985 e 2015, houve um processo de incorporação de grupos historicamente marginalizados (outsiders) à titularidade de direitos sociais, como saúde, educação e previdência[21].

Contudo os avanços conviveram com limitações estruturais, como o sistema tributário regressivo e desigualdades regionais persistentes. Com a crise econômica de 2014 e, posteriormente, com a pandemia de COVID-19, a exclusão social voltou a crescer, afetando especialmente trabalhadores informais, mulheres, negros e populações periféricas.

O Commons possui uma categoria com imagens e outros ficheiros sobre Exclusão social

Ver também

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  1. «Social Exclusion: Concept, Application, And Scrutiny - GSDRC» (em inglês). 28 de junho de 2006. Consultado em 8 de outubro de 2025 
  2. «Middle East Youth Initiative: Publications: Social Exclusion: Comparative Analysis of Europe and Middle East Youth». www.shababinclusion.org. Consultado em 8 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 6 de março de 2008 
  3. «social exclusion - Migration and Home Affairs - European Commission». home-affairs.ec.europa.eu (em inglês). Consultado em 8 de outubro de 2025 
  4. a b «Social Exclusion and Social Solidarity: Three Paradigms - GSDRC» (em inglês). 29 de setembro de 2009. Consultado em 8 de outubro de 2025 
  5. «(PDF) Social exclusion: A concept in need of definition?». ResearchGate (em inglês). Consultado em 8 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 5 de setembro de 2025 
  6. O'Donnell, Patrick; O'Donovan, Diarmuid; Elmusharaf, Khalifa (2 de fevereiro de 2018). «Measuring social exclusion in healthcare settings: a scoping review». International Journal for Equity in Health (1). 15 páginas. ISSN 1475-9276. PMC 5796599Acessível livremente. PMID 29391016. doi:10.1186/s12939-018-0732-1. Consultado em 8 de outubro de 2025 
  7. Durkheim, Émile (2013). De la division du travail social. [S.l.]: Presses Universitaires de France. Consultado em 8 de outubro de 2025 
  8. Nahoum-Grappe, Véronique (1 de dezembro de 1997). «Robert Castel, Les Métamorphoses de la question sociale. Une chronique du salariat, Paris, Fayard, 1995, 490 p.». Sociétés & Représentations (2): 412–418. ISSN 1262-2966. doi:10.3917/sr.005.0412. Consultado em 8 de outubro de 2025 
  9. P., P.; Lenoir, René; Lenoir, Rene (janeiro de 1975). «Les exclus: un Français sur dix». Population (French Edition) (1). 180 páginas. ISSN 0032-4663. doi:10.2307/1531114. Consultado em 8 de outubro de 2025 
  10. Young, Jack (21 de outubro de 2002). A Sociedade Excludente: Exclusao Social, Criminalidade E Diferenca Na Modernidade Recente. [S.l.]: Revan 
  11. Preussler, Gustavo de Souza; Cordazzo, Karine (março de 2018). «A sociedade excludente: exclusão social, criminalidade e diferença na modernidade recente Jock Young.». Revista Direito e Práxis (1): 563–576. ISSN 2179-8966. doi:10.1590/2179-8966/2018/28924. Consultado em 8 de outubro de 2025 
  12. «A Theory of Justice — Harvard University Press». Harvard University Press (em inglês). Consultado em 8 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 11 de agosto de 2025 
  13. Bourdieu, Pierre (1998). La misère du monde. Col: Points. Paris: Éd. du Seuil 
  14. Telles, Vera da Silva (1999). Direitos sociais: afinal do que se trata?. [S.l.]: Editora UFMG. Consultado em 8 de outubro de 2025 
  15. Marta Arretche (ed.). Trajetórias da desigualdade: como o Brasil mudou nos últimos 50 anos. 1. ed. São Paulo, Editora da Unesp, 2015. 489 páginas.
  16. «Establishing a secure connection ...». www.scielo.br. Consultado em 8 de outubro de 2025 
  17. «Social exclusion and reintegration». ar2003.emcdda.europa.eu. Consultado em 8 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 29 de outubro de 2014 
  18. «Establishing a secure connection ...». www.scielo.br. Consultado em 8 de outubro de 2025 
  19. «Explaining Social Exclusion - SCP English». www.scp.nl (em inglês). Consultado em 8 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 25 de maio de 2019 
  20. «Detalhes para: Atlas da Exclusão Social no Brasil › Inovateca MDS catálogo». biblioteca.mds.gov.br. Consultado em 8 de outubro de 2025 
  21. «Establishing a secure connection ...». www.scielo.br. Consultado em 8 de outubro de 2025 

Bibliografia

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  • TAP, Pierre, A Sociedade Pigmalião – Integração Social e Realização da Pessoa, Instituto Piaget, Lisboa;
  • COSTA, Alfredo Bruto da, Exclusões sociais, Gradiva Publicações, Ltd.