Perícopa da Adúltera

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Pericope Adulterae.
Por Rembrandt (1644), na National Gallery de Londres.

A Perícope da Adúltera (em latim: Pericope Adulterae) é um episódio bíblico que encontra-se no Evangelho de João (João 7:53 até João 8:1-11).

Trata-se de uma perícope muito conhecida e polêmica a respeito de uma mulher que seria julgada por ter sido surpreendida em ato de adultério. Embora não seja dissonante do restante do texto, a maioria dos acadêmicos [1][2] concorda que a passagem não faz parte do texto original do evangelho de João.[3]

Alguns exegetas identificam a mulher adúltera como Maria Madalena, porém não há nenhuma base histórica ou evangélica para confirmar esta identificação.

A passagem[editar | editar código-fonte]

Segundo a Tradução Brasileira da Bíblia, o texto da Perícopa é:

Cada um foi para sua casa; mas Jesus foi para o monte das Oliveiras. De madrugada voltou ao templo, e todo o povo ia ter com ele; e Jesus, sentando-se, o ensinava. Os escribas e os fariseus trouxeram uma mulher apanhada em adultério, puseram-na no meio de todos e disseram a Jesus: 'Mestre, esta mulher tem sido apanhada em flagrante adultério. Moisés nos ordenou na Lei que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes?' Isto diziam, experimentando-o, para ter de que o acusar. Jesus, porém, abaixando-se, começou a escrever no chão com o dedo. Como eles insistissem na pergunta, levantou-se e disse-lhes: 'Aquele que dentre vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire uma pedra'. Tornando a abaixar-se, continuou a escrever no chão. Mas ouvindo esta resposta, foram saindo um a um, começando pelos mais velhos, ficando só Jesus e a mulher no lugar em que estava. Então levantando-se Jesus, perguntou-lhe: 'Mulher, onde estão eles? ninguém te condenou?' Respondeu ela: 'Ninguém, Senhor.' Disse Jesus: 'Nem eu tampouco te condeno; vai, e não peques mais'.

Os mestres da Lei (escribas) e os fariseus levaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério. Pela Lei de Moisés, extraída da Torá, ela deveria ser apedrejada até a morte.

De fato, a Torá previa que o ato de adultério fosse punido com a morte por apedrejamento (Levítico 20:10 e Deuteronômio 22:22 e seguintes), mas na prática isso já não era mais costume naqueles tempos. Além disso, a pena capital só podia ser aplicada pelos governantes romanos. Nenhum judeu tinha autoridade para condenar alguém a morte, muito menos executar a pena.

Pericope Adulterae.
Por Nicolas Poussin (1653), no Louvre, em Paris.

Os escribas e os fariseus queriam colocar Jesus em uma armadilha. Se Jesus fosse pela condenação, seria acusado de cruel, além de estar contra a soberania romana; se fosse pela absolvição, estaria contrariando a Lei Judaica. De uma ou de outra forma os mestres da Lei e os fariseus teriam motivos para acusá-lo.

Jesus, com a resposta "Quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra'", fez com que os acusadores ficassem sem argumentos para uma acusação formal e sem moral perante a multidão que assistia a cena.

A autenticidade do texto[editar | editar código-fonte]

Esta perícope não é unanimidade entre todos os especialista quanto a pertencer a João. Alguns afirmam ter sido incluído posteriormente, ato conhecido por interpolação, não fazendo parte dos escritos originais de João. Entretanto, alguns afirmam ser de autoria de João, e apresentam alguns argumentos e documentos para comprovar este fato.

A perícope não consta dos manuscritos mais antigos de João: os códices P66 e o P75 do século III. Também não está presente no Codex Sinaiticus e e no Codex Vaticanus, do século IV.

O primeiro manuscrito em que a perícope aparece é o Codex Bezae do século V. Bruce Metzger argumentou que "Nenhum padre grego antes de Eutímio Zigabeno (século XII) comentou sobre a Perícopa da Adúltera e Eutímio declarou que as cópias mais acuradas dos Evangelhos não a continham".[4]. Mas esta afirmação é algo incorreta, uma vez que Dídimo, o Cego, a discute (ainda que não na versão de João) e Jerônimo, entre outros, faz menção a ela.

São Jerónimo em seu trabalho de tradução da Bíblia para o latim a incluiu por tê-la encontrado na maioria dos manuscritos de que dispunha para o exercício da tradução. Por esse motivo, a Vulgata passou a incluir a passagem. Em função disso, a Pericope Adulterae tornou-se universal.

Atualmente, esta passagem do evangelho de João é aceito por todas as igrejas cristãs como inspirada, e portanto, parte do evangelho de João. Entretanto, algumas bíblias frisam que este texto é uma interpolação, e o apresentam entre colchetes.

Referências

  1. «NETBible: John 7». Bible.org. Consultado em 17 de outubro de 2009  See note 139 on that page.
  2. Keith, Chris (2008). «Recent and Previous Research on the Pericope Adulterae (John 7.53—8.11)». Currents in Biblical Research. 6 (3): 377–404. doi:10.1177/1476993X07084793 
  3. 'Pericope adulterae', in FL Cross (ed.), The Oxford Dictionary of the Christian Church, (New York: Oxford University Press, 2005).
  4. Metzger, Bruce (1971). Daniel B. Wallace, ed. A Textual Commentary on the Greek New Testament (em inglês). Stuttgart: [s.n.] pp. 219–221. Consultado em 4 de setembro de 2011 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Perícopa da Adúltera