Cânone de Lutero

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O Cânone de Lutero é o cânone bíblico atribuído a Martinho Lutero e que tem sido muito influente entre os cristãos protestantes desde a Reforma Protestante no século XVI. Apesar de as confissões luteranas especificamente não definirem um cânone, ele é amplamente considerado como cânone válido para a Igreja Luterana. Ele difere do Cânone católico romano do Concílio de Trento (1546) por rejeitar os livros deuterocanônicos e questiona os sete livros do Novo Testamento conhecidos como "Antilegomena de Lutero",[1] quatro dos quais ainda aparecem no final da Bíblia de Lutero em alemão ainda hoje.[2][3]

Livros deuterocanônicos[editar | editar código-fonte]

Lutero não incluiu os livros deuterocanônicos em seu Antigo Testamento e os chamou de "Apocrypha" ("apócrifos"), ou seja, "livros que não são considerados como parte das Sagradas Escrituras, mas que são úteis e bons para a leitura".[4] Ele também defendeu, sem sucesso, que o Livro de Ester fosse considerado apócrifo argumentado que sem as adições deuterocanônicas em Ester, o texto bíblico não menciona Deus nenhuma vez.

Hebreus, Tiago, Judas e o Apocalipse[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Antilegomena

Lutero tentou remover Hebreus, Tiago, Judas e o Apocalipse do cânone bíblico, mas não conseguiu. Porém, estes livros ainda hoje aparecem no final da Bíblia de Lutero alemã até hoje.[5] Aparentemente a razão é que estes livros atestariam contra doutrinas protestantes como a "sola gratia" e a "sola fide". O argumento de que a sua oposição se baseava apenas no fato de eles terem tido sua canonicidade questionada ao longo dos séculos, não há motivos para Lutero não ter incluído na lista II Pedro, a epístola mais questionada na antiguidade.[1] Reforçando essa visão, o prefácio que o próprio Lutero afixou a estes quatro livros deixa clara sua posição de que "sua opinião negativa sobre eles se dava mais por conta de reservas teológicas do que por qualquer consideração histórica sobre o cânone".[1]

Em seu livro "Basic Theology", Charles Caldwell Ryrie disputa a alegação de que Lutero teria rejeitado a Epístola de Tiago como sendo canônica.[6] Em seu prefácio ao Novo Testamento, Lutero atribuiu aos diversos livros diferentes graus de valor doutrinário: "O Evangelho de São João e sua primeira epístola, as Epístolas de São Paulo, especialmente as aos Romanos, aos Gálatas, aos Efésios, e a Epístola de São Pedro – estes são livro que revelam a ti Cristo e ensinam o que é necessário e abençoado para que saibas, mesmo se tu não fores jamais ver ou ouvir nenhum outro livro de doutrina. Portanto, a Epístola de São Tiago é uma perfeita epístola diferente quando comparada a eles pois nela não há nada de valor evangélico". Lutero estaria, desta forma, comparando valores doutrinários e não a validade da epístola como parte do cânone.

Porém, a teoria de Ryrie é contestada por outros estudiosos bíblicos, incluindo William Barclay, que escreveu que Lutero afirmou abertamente e até rudemente: "I tenho em alta estima a Epístola de Tiago e considero-a valiosa apesar de ela ter sido rejeitada nos primeiros dias. Ela não apresenta doutrinas humanas e dá muita ênfase à lei de Deus. [...] Eu não defendo que ela tenha autoria apostólica.".[7]

Cânones similares na época[editar | editar código-fonte]

Em seu livro "Cânone do Novo Testamento", Bruce Metzger nota que, em 1596, Jacob Lucius publicou uma bíblia em Hamburgo que os antilegomena de Lutero como "apocrypha". David Wolder, o pastor da igreja de São Pedro em Hamburgo, publicou, no mesmo ano, uma bíblia trilíngue que chamava os quatro livros de "não canônicos". J. Vogt publicou uma bíblia em Goslar, em 1614, similar à de Lucius. Finalmente, Gustavus Adolphus de Estocolmo publicou, em 1618, uma bíblia que os chamava de "Apocr(ifos) do Novo Testamento".[8]

Leigos e clérigos protestantes[editar | editar código-fonte]

Há evidências de que a primeira decisão de omitir os livros disputados inteiramente da bíblia foi tomada pelos leigos protestantes e não pelo clero. Bíblias datadas do período logo após a Reforma tem sido encontradas com índices citando todo o cânone católico, mas sem os livros disputados no corpo do texto, o que levou os estudiosos a concluírem que os responsáveis pela impressão destas bíblias tomaram por si a decisão de omitir estes livros. Porém, bíblias anglicanas e luteranas frequentemente ainda continham estes livros até o século XX, ao passo que as bíblias calvinistas não. Diversas razões foram propostas para a omissão destes livros. Uma delas é a defesa de doutrinas católicas como a do Purgatório e a oração pelos mortos estão em II Macabeus. Outra é que a Confissão de Fé de Westminster, de 1646, durante a Guerra Civil Inglesa, de fato os excluiu do cânone. O próprio Lutero afirmava estar seguindo o ensinamento de Jerônimo sobre a veritas hebraica.

Uso evangélico moderno[editar | editar código-fonte]

Os evangélicos tendem a não aceitar a Septuaginta grega no mesmo nível da inspirada Bíblia hebraica, embora muitos reconheçam que ela era amplamente utilizada pelos judeus falantes do grego do século I. Muitos protestantes modernos seguem quatro "critérios de canonicidade" para justificar os livros que foram incluídos no Antigo e no Novo Tesamento:

  1. Origem apostólica: o livro foi atribuído a um apóstolo ou foi baseado na pregação/doutrina da primeira geração de apóstolos (ou seus companheiros próximos);
  2. Aceitação universal: o livro foi reconhecido pela maioria das comunidades cristãs do mundo antigo (ou seja, até o final do século IV);
  3. Uso litúrgico: o livro era lido publicamente nas primeiras comunidades cristãs reunidas para a Ceia do Senhor (a celebração semanal);
  4. Mensagem consistente: o livro contém uma proposta teológica similar ou complementar a outras obras cristãs aceitas.

Referências

  1. a b c Luther's Antilegomena at bible-researcher.com
  2. «Gedruckte Ausgaben der Lutherbibel von 1545». Arquivado do original em 14 de maio de 2001  note order: …Hebräer, Jakobus, Judas, Offenbarung
  3. «German Bible Versions» 
  4. The Popular and Critical Bible Encyclopædia and Scriptural Dictionary, Fully Defining and Explaining All Religious Terms, Including Biographical, Geographical, Historical, Archæological and Doctrinal Themes, p.521, edited by Samuel Fallows et al, The Howard-Severance company, 1901,1910. - Google Books
  5. «Archived copy». Consultado em 5 de fevereiro de 2016. Arquivado do original em 14 de maio de 2001 
  6. Ryrie, Charles Caldwell. Basic Theology. [S.l.: s.n.] 
  7. Lutero citado por William Barclay, The Daily Study Bible Series, The Letters of James and Peter, Revised Edition, Westminster John Knox Press, Louisville, KY, 1976, p. 7
  8. Metzger, Bruce. Canon of the New Testament. [S.l.: s.n.]