Língua osseta

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Osseto (Иронау)
Pronúncia: Ironau
Falado em: Rússia, Geórgia, Turquia
Região: Ossétia do Norte, Ossétia do Sul
Total de falantes: c. 700.000
Família: Indo-européia
 Indo-iraniana
  Iraniana
   Iraniana oriental
    Iraniana oriental do norte
     Osseto
Escrita: Alfabeto cirílico
Estatuto oficial
Língua oficial de: Ossétia do Norte, Ossétia do Sul
Regulado por: não tem regulamentação oficial
Códigos de língua
ISO 639-1: os
ISO 639-2: oss
ISO 639-3: oss

O osseto ou osseta[1] (Ирон ӕвзаг, Iron ævzhag ou Иронау, Ironau) é uma língua iraniana falada por aproximadamente meio milhão de pessoas, principalmente na Ossétia.

História e classificação[editar | editar código-fonte]

O osseto é a língua falada e literária dos ossetas, um povo que habita a parte central do Cáucaso e constitui a maior parte da população da Ossétia do Norte, que pertence à Federação russa, e da Ossétia do Sul, que em 2008 declarou independência da República da Geórgia.

O osseto pertence ao subgrupo norte do grupo iraniano oriental da família das línguas indo-européias. Assim, possui parentesco com as outras línguas iranianas orientais, como o pachto e o yaghnobi.

Desde a remota Antiguidade (séculos VII-VIII a.C.), as línguas do grupo iraniano se espalharam por um território vasto, que inclui os atuais Irã (Pérsia), Ásia Central, e o sul da Rússia. O osseto é o único sobrevivente do ramo nordeste das línguas iranianas conhecido como cítico. O grupo cítico inclui diversas tribos da região, conhecidas nas fontes antigas como citas, masságetas, sacas, sármatas, alanos e roxolanos. Os corasmos e os sogdianos também eram parentes próximos, em termos lingüísticos.

O osseto, juntamente com o curdo, Tat e o Talyshi, é uma das línguas iranianas que têm uma comunidade grande de falantes no Cáucaso. Evoluiu a partir do alano, o idioma falado pelos alanos, tribos medievais, descendentes dos antigos sármatas; acredita-se que seja o único sobrevivente da língua sármata. A língua mais próxima, geneticamente, é o yaghnobi, falado no atual Tajiquistão, único outro membro ainda existente do ramo iraniano oriental do norte.[2] [3] O osseto forma o plural através do sufixo -ta, uma característica que compartilha com o yaghnobi, o sármata e o sogdiano; isto é interpretado como evidência de uma continuidade dialetal das línguas iranianas nas estepes da Ásia Central. Os nomes das antigas tribos iranianas, derivadas do grego, refletem esta pluralização: por exemplo, sármatas (Σαρομάται, transl. Saromátai) e masságetas (Μασαγέται, Massaguétai).[4]

Evidências do osseto medieval[editar | editar código-fonte]

A amostra mais antiga do osseto escrito é uma inscrição que data de algum ponto entre os séculos X e XII e foi encontrada perto do rio Bolshoi Zelenchuk, em Arkhyz. O texto está escrito no alfabeto grego, com alguns dígrafos especiais:

ΣΑΧΗΡΗ ΦΟΥΡΤ ΧΟΒΣ
ΗΣΤΟΡΗ ΦΟΥΡΤ ΠΑΚΑΘΑΡ
ΠΑΚΑΘΑΡΗ ΦΟΥΡΤ ΑΝΠΑΛΑΝ ΑΝΠΑΛΑΝΗ ΦΟΥΡΤ ΛΑΚ
ΑΝΗ ΤΖΗΡΘΕ

Que pode ser transliterado como:

Saxiri Furt Xovs
Istori Furt Bæqætar
Bæqætari Furt Æmbalan
Æmbalani Furt Lakani čirtī

Uma tradução aproximada seria "K., filho de S., filho de I., filho de B., filho de A.; [este é] seu monumento."[5]

O outro único registro existente do proto-ossético são as duas linhas de frases "alanas" que aparecem na Teogonia de João Tzetzes, um poeta e gramático bizantino:

Τοῖς ἀλανοῖς προσφθέγγομαι κατά τήν τούτων γλῶσσαν
Καλή ημέρα σου αὐθεντα μου αρχόντισσα πόθεν εἶσαι

"Ταπαγχὰς μέσφιλι χσινὰ κορθὶ κάντα" καὶ τ’άλλα
ἂν ὃ ἒχη ἀλάνισσα παπὰν φίλον ἀκούσαις ταῦτα
οὐκ αἰσχύνεσσι αὐθέντρια μου νὰ μου γαμὴ τὸ μουνί σου παπᾶς

"τὸ φάρνετζ κίντζι μέσφιλι καίτζ φουὰ σαοῦγγε"

[6]

No trecho acima, as porções em itálico estão em osseto. Além de uma transliteração direta do texto grego, os estudiosos tentaram fazer uma reconstrução fonológica utilizando-se das pistas que o texto grego oferece; assim, enquanto o "τ" (tau) normalmente teria o valor do "t" latino, neste caso ele corresponde ao "d", que, se acredita, seria a maneira que os antigos ossetas a pronunciavam. A trasliteração acadêmica das frases alanas é: "dæ ban xwærz, mæ sfili, (æ)xsinjæ kurθi kændæ" e "du farnitz, kintzæ mæ sfili, kajci fæ wa sawgin?"; possíveis traduções no osseto moderno seriam "Dć bon xwarz, me’fšini ‘xšinć, kurdigćj dć?" e "(De’) f(s)arm neč(ij), kinźi œfšini xœcc(œ) (ku) fœwwa sawgin". A passagem, traduzida para o português, seria:

Os alanos, saúdo-os em sua língua:
"Bom dia a você, senhora de meu amo, de onde são?"
"Bom dia a você, senhora de meu amo, de onde são?" e outras coisas:
Quando uma mulher alana toma um padre como amante, ouvirás isto:
"Não tem vergonha, minha senhora, que um padre esteja a foder sua cona?" "Não tem vergonha, minha senhora, de ter um caso amoroso com um padre?"

[7] [8]

Teoriza-se que, durante a fase do proto-osseto, o idioma passou por um processo de mudanças fonológicas condicionadas por um Rhythmusgesetz, ou "lei-de-ritmo", através da qual os substantivos foram divididos em duas categorias, os que possuíam acentos tônicos forte e os que possuíam acentos tônicos fracos. Os substantivos que tinham acentos fortes possuíam uma vogal longa "pesada", e eram acentuados na primeira sílaba deste tipo a ocorrer na palavra; já os substantivos de acento tônico fraco eram acentuados em sua sílaba final. Esta é precisamente a situação observada nos primeiros registros do osseto, apresentados acima.[9] O mesmo ocorre no osseto moderno, embora nele o acento tônico seja influenciado pela "abertura" da vogal.[10] O fenômeno também é notado em um glossário iássico datado de 1422.[11]

Dialetos[editar | editar código-fonte]

Existem dois dialetos importantes do osseto: o iron e o digor, sendo o que o primeiro é mais falado. O osseto escrito é imediatamente reconhecido pelo seu uso do æ, uma letra que não é utilizada por nenhum outro idioma que adota o alfabeto cirílico. Um terceiro dialeto do osseto, o iássico, já foi falando na Hungria pelo povo iássico. A imensa maioria dos ossetas fala o dialeto iron, e o idioma literário é baseado nele. O criador do idioma literário osseta é o poeta nacional Kosta Xetagurov (1859-1906).[2]

Gramática[editar | editar código-fonte]

De acordo com o pesquisador osseta Vasily Abaev,

No decorrer dos séculos, a influência e o intercâmbio com as línguas caucasianas, o osseto se tornou similar a elas em alguns aspectos, especialmente em sua fonética e léxico. No entanto, o idioma manteve a sua estrutura gramatical e seu vocabulário básico; seu parentesco com as famílias linguísticas iranianas, apesar de consideráveis diferenças com elas, não pode ser posto em dúvida.[2]

O osseto preserva diversos aspectos arcaicos do antigo iraniano, tais como oito casos e prefixos verbais.[12] Os oito casos não são, no entanto, os casos indo-iranianas originais, que acabaram erodindo devido às mudanças na fonologia. Os casos modernos do osseto, com a exceção do nominativo, derivam todos de um único caso oblíquo que sobreviveu do do antigo iraniano e acabou se fragmentando em sete novos casos pelos falantes de osseto. Isto seria uma reminiscência do tocariano.

Sistema de escrita[editar | editar código-fonte]

Primeira página da primeira edição do jornal Ræstdzinad, em osseto (1923).

Depois da conquista russa, o osseto, que até então não possuía uma forma escrita, passou a ser grafado no alfabeto cirílico; o primeiro livro em osseto em cirílico foi publicado em 1798. Ao mesmo tempo, o alfabeto georgiano era utilizado nalgumas regiões ao sul do Cáucaso: em 1820 uma apostila foi publicada onde o alfabeto georgiano era modificado por três letras especiais; esta escrita esteve em uso no território da Ossétia do Sul de 1937 a 1954.

O alfabeto moderno utilizado pelo osseto, baseado no cirílico, foi criado por um cientista russo de origem finlandesa, Andreas Sjögren, em 1844; ele apresentava letras individuais para cada som (como o alfabeto abecásio moderno). Depois duma breve experimentação com o alfabeto latino após a queda do Império Russo, as autoridades soviéticas retornaram ao cirílico, incluindo dígrafos para substituir a maioria dos diacríticos.

Esta é a versão do alfabeto cirílico utilizada desde 1937:

А Ӕ Б В Г Гъ Д Дж Дз Е Ё Ж З И Й К Къ Л М Н О П Пъ Р С Т Тъ У Ф Х Хъ Ц Цъ Ч Чъ Ш Щ Ъ Ы Ь Э Ю Я
a ӕ б в г гъ д дж дз е ё ж з и й к къ л м н о п пъ р с т тъ у ф х хъ ц цъ ч чъ ш щ ъ ы ь э ю я

Este é o alfabeto latino que foi utilizado entre 1923 e 1937:

A Æ B C Č D E F G H I J K L M N O P Q R S Š T U V X Y Z Ž
a æ b c č d e f g h i j k l m n o p q r s š t u v x y z ž

Os dígrafos que representavam um só fonema também eram utilizados no alfabeto latino (ch, čh, th, dž e outros). O som æ (AFI: /æ/) é extremamente comum no idioma, um aspecto que ele compartilha com o persa.

Uso do idioma[editar | editar código-fonte]

O primeiro livro impresso em osseto foi publicado em 1798. O primeiro jornal, Iron Gazet, foi publicado em 1906, na cidade de Vladikavkaz.

Embora o osseto seja a língua oficial tanto na Ossétia do Norte quanto na do Sul (juntamente com o russo), seu uso oficial limita-se à publicação das novas leis nos jornais publicados no idioma.

Existem, hoje em dia, dois jornais diários em osseto: Ræstdzinad (Рæстдзинад, "Verdade"), na Ossétia do Norte, e Xurzærin (Хурзæрин, "O Arco-Íris"), na Ossétia do Sul. Alguns jornais menores, como jornais distritais, utilizam o osseto para artigos isolados. Existe uma revista mensal, Max dug (Мах дуг, "Nossa era"), dedicada principalmente à ficção e à poesia em osseto.

O osseto é ensinado nas escolas secundárias para todos os alunos. Os falantes nativos do idioma também podem fazer cursos de literatura osseta.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Ambas as formas são registradas para a língua portuguesa pelo dicionário Houaiss.
  2. a b c Abaev, V. I. A Grammatical Sketch of Ossetic translated by Stephen P. Hill and edited by Herbert H. Paper, 1964 [1]
  3. Thordarson, Fridrik. 1989. Ossetic. Compendium Linguarum Iranicarum, ed. by Rudiger Schmitt, 456-79. Wiesbaden: Reichert. [2]
  4. Ronald Kim, "On the Historical Phonology of Ossetic: Origins of the Oblique Case Suffix,"Journal of the American Oriental Society, Jan-Mar2003, Vol. 123 Issue 1, p. 69
  5. op. cit., pp. 55-6. O original traduz apenas as iniciais; presumivelmente, isto seria porque embora as formas não-declinadas possam ser deduzidas, nenhum registro escrito delas já foram encontrados.
  6. Ladislav Zgusta, "The old Ossetic Inscription from the River Zelenčuk" (Veröffentlichungen der Iranischen Kommission = Sitzungsberichte der österreichischen Akademie der Wissenschaften. Philosophisch-historische Klasse 486) Wien:Verlag der Österreichischen Akademie der Wissenschaften, 1987. ISBN 3-7001-0994-6 em Kim, op.cit., 54.
  7. ibid.
  8. [3]
  9. Ronald Kim, "On the Historical Phonology of Ossetic: Origins of the Oblique Case Suffix,"Journal of the American Oriental Society, Jan-Mar2003, Vol. 123 Issue 1, p. 47
  10. op. cit., 51
  11. op. cit., 55
  12. Ossetic language. (2006). In Encyclopædia Britannica. Visitado a 26 de agosto, 2006, Encyclopædia Britannica Premium Service

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Abaev, V.I. A grammatical sketch of Ossetic (em inglês) (versão russa)
  • Abaev, V.I. Ossetian Language and Folklore, USSR Academy of Sciences, Moscow-Leningrad, 1949
  • Arys-Djanaieva, Lora. Parlons Ossète. Paris: L'Harmattan, 2004, ISBN 2-7475-6235-2.
  • Nasidze et al., Genetic Evidence Concerning the Origins of South and North Ossetians. Annals of Human Genetics 68 (6), 588-599(2004)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • "Genetic Evidence Concerning the Origins of South and

North Ossetians", Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology (em inglês)