Curdistão

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Disambig grey.svg Nota: Para outros significados, veja Curdistão (desambiguação).
Corduene
Kurdistan
Curdistão
Flag of Kurdistan.svg
Coat of Arms of Kurdistan.svg
Bandeira do Curdistão Iraquiano Brasão do Curdistão Iraquiano
Hino nacional: Ey Reqîb
Gentílico: Curdo

Localização de Curdistão

Zonas de maioria curda (em bege)
Cidade mais populosa Erbil (1.500.000 hab.)
Língua oficial Curdo
Governo Diversos
Área  
 - Total 500.000 km² 
População  
 - Estimativa de 2014 28 milhões hab. 
Moeda Diversas
Fuso horário EET (UTC+2)

O Curdistão (em curdo: كوردستان [kurdɪˈstan] ( ouvir); antigo nome: Corduene)[1] , também denominado Grande Curdistão, é uma região geocultural majoritariamente populada pelos curdos. Com cerca de 500.000 km² está, em sua maior parte, ocupado pela Turquia, e o restante dividido entre Irã, Síria e Iraque.

Seu nome, de origem persa, significa "Terra dos Curdos"[2] e foi cunhado em 1150 pelo sultão seljúcida Sanjar para designar a parte do Irão ocidental povoada pelos curdos[3] [4] .

Atualmente, os curdos são cerca de 26 milhões de pessoas, na sua maioria muçulmanos sunitas, que se organizam em clãs e, em sua maior parte, falam a língua curda. Eles constituem a mais numerosa nação sem Estado no mundo. Suas maiores cidades são Erbil e Kirkuk (no Iraque) , Erzurum e Diyarbakır (na Turquia), Kermanshah e Sanandaj (no Irã) e Al-Qamishli (na Síria).

Geografia[editar | editar código-fonte]

As terras do Curdistão possuem relevo acidentado, com o máximo nas montanhas da Alta Mesopotâmia, onde está o Monte Ararate (Büyük Agri) com 5165 metros de altitude, na fronteira Turquia/Armênia, suavizando até os planaltos do norte iraquiano. Há também a cadeia de montanhas Antitauro, na Síria/Turquia.

O seu maior lago é o lago Van, no lado turco, com 3.755 km². O Alto Tigre e o Alto Eufrates passam pelo país.

História[editar | editar código-fonte]

Antiguidade[editar | editar código-fonte]

A história do Curdistão começa em cerca de 6.000 a.C., na região da antiga Mesopotâmia, onde foram encontrados seus primeiros registros arqueológicos[5] . Sempre habitando as regiões montanhosas e acostumados ao frio intenso que acompanha a altitude, os curdos da Antiguidade se dividiam em clãs com nomes como gutis, kurti e mushku e viviam em cidades-estado.

Com o passar dos séculos, outros povos indo-europeus, como os Medos - cujo império, há 2,6 mil anos, englobava boa parte do que hoje é o Curdistão - os cíntios, partos, mitanis, cassitas, hititas e guttis, entre outros, se fixaram na região. Os curdos são, portanto, o produto da miscigenação de todos os povos invasores ou migrantes para sua região.

Em 612 a.C., os curdos conquistaram a cidade de Nínive, na antiga Assíria, mas em 550 a.C. foram por conquistados pelos persas[6] . A região montanhosa a sul e sudeste do lago Van entre a Pérsia e a Mesopotâmia, estava sob domínio curdo antes da época do historiador da Grécia Antiga Xenofonte (430 a.C.), e era conhecida como o país dos Carduchi, Cardyene ou Corduene. Xenofonte se referiu aos curdos no Anabasis como "Kardukhi... um povo bárbaro e defensor de sua residência na montanha" que atacou os exércitos gregos em 400 a.C. Um reino curdo chamado Corduena, situado a leste de Tigranocerta (a leste e a sul da atual Diyarbakır, na Turquia) tornou-se uma província do Império Romano em 66 a.C. e permaneceu sob controle romano por quatro séculos até 384. O historiador romano Plínio considerou os Cordueni (habitantes de Corduene) como descendentes dos Carduchi. Ele afirmou, "vizinhos a Adiabena estão os povos anteriormente chamados Carduchi e agora Cordueni, acima de quem navega o rio Tigre..."

Outros pequenos reinos curdos foram kavosidas e existiram durante o período sassânida (224 d.C. - 651).

Idade Média e Moderna[editar | editar código-fonte]

No século VII, os árabes tomaram os castelos e fortificações dos curdos. As cidades de Sharazor e Aradbaz foram conquistadas no ano de 643.

Em 846, um dos líderes dos curdos em Mosul se revoltou contra o califa Al Mo'tasam que enviou o notável comandante Aitack para combatê-lo. Nesta guerra, Aitack saiu-se vitorioso e levou muitos dos curdos à morte. Em 903, durante o período de Almoqtadar, os curdos novamente se rebelaram. Finalmente os árabes conquistaram as regiões curdas e converteram a maioria dos curdos ao Islã.

Na segunda metade do século X, a região curda foi dividida em quatro grandes principados. No norte ficavam os Xadádidas (951-1174) em partes da atual Armênia e Arran (Azerbaijão); os Rawadidas (955-1221) ficava em Tabriz e Maragheh; No leste estavam os Hasanwayhidas (959-1015) e os Annazidas (990-1117) em Kermanshah, Dinawar e Khanaqin; no oeste estavam os Marwanidas (990-1096) de Diyarbakır. Depois destes, os Ayyubidas (1171-1250) da Síria e a dinastia Ardalan (do século XIV até 1867) estabeleceram-se onde nos dias atuais estão Khanaqin, Kirkuk e Sanandaj.

Nos séculos seguintes, suas terras são ocupadas por mongóis, turcos, safávidas e, no século XIII, por otomanos[7] . Apesar de nunca terem constituído um estado independente, os curdos desfrutaram de relativa autonomia até 1639. Neste ano, o Curdistão é repartido entre os impérios Persa e Otomano, pelo Tratado de Zuhab.

Século XX[editar | editar código-fonte]

A partir daí, sucessivos arranjos foram realizados em território curdo de acordo com as disputas políticas entre os dois impérios. Após a Primeira Guerra Mundial, com o desmembramento do Império Otomano, o Tratado de Sèvres delimita as fronteiras para um Curdistão autônomo, mas é rejeitado. Em 1923, com o Tratado de Lausanne, parte do Curdistão é integrada ao Iraque e à Síria e a outra permanece ocupada pela Turquia e no Irã.

Em 1924, com o novo regime turco, a língua, a cultura e as instituições curdas são suprimidas, tendo em vista o seu aniquilamento como cultura e etnia diferenciada. Em 1927, curdos da região do Monte Ararate proclamaram uma república independente, durante uma onda de revolta entre os curdos no sudeste da Turquia. O exército turco, posteriormente, esmagou a República de Ararate, em setembro de 1930[8] .

Durante a Segunda Guerra, os curdos sob domínio do Irã empreendem uma luta armada pela sua independência, e chegam a criar a efêmera República de Mahabad, em 1946, estado reconhecido pela União Soviética, mas logo revertido ao domínio iraniano. Desde então, movimentos separatistas curdos são constantemente reprimidos com violência nos quatro países que ocupam o território do Curdistão.

Os curdos no Iraque, liderados por Mustafa Barzani, estiveram em luta contra os sucessivos regimes iraquianos de 1960 a 1975. Em março de 1970, o Iraque anunciou um acordo de paz contemplando a autonomia curda, que seria implementado em quatro anos. No entanto, ao mesmo tempo, o regime iraquiano iniciou um programa de arabização nas regiões ricas em petróleo de Kirkuk e Khanaqin. Mesmo após o acordo, as guerras entre o Curdistão e o Iraque tiraram boa parte da soberania que os curdos gozavam anteriormente.

O cenário mudou radicalmente a partir de 1971, quando começaram a entrar em vigor as primeiras medidas de uma campanha anticurda, oficializada em 1986 sob o nome de Operação Anfal, no governo de Saddam Hussein, e que só terminou em 1989. O objetivo era eliminar as aspirações de criar uma nação independente ou mesmo de se organizar como uma etnia de cultura e linguagem próprias. As formas de repressão começavam com a expulsão dos curdos que viviam próximos às fronteiras iraquianas com as da Turquia e do Irã. A prisão com base em acusações de atividades oposicionistas complementava o processo. Os curdos sofreram todo tipo de violência no período: de alvos de armas químicas a destruição de cidades e vilas. Em novembro de 1987, cerca de 600 curdos presos foram mortos pelos iraquianos com o tálio, um metal pesado utilizado em veneno para ratos. Em junho de 1989, mais 2 mil curdos foram envenenados da mesma maneira em Mardim e, em janeiro de 1990, outros 400 morreram na cidade de Diyarbakir.

Entre 15 e 19 de março de 1988, durante a campanha Anfal e em meio à guerra entre Irã e Iraque, os curdos sofreram um dos piores ataques a sua etnia. Em represália às forças iranianas, que haviam fornecido suporte militar aos rebeldes curdos, o Iraque lançou um ataque de armas químicas à cidade curda de Halabja, na época com cerca de 80 mil habitantes. Liderado por Ali Hassan Al-Majid, mais conhecido como Ali Químico, integrante do governo de Saddam Hussein, o ataque usou o gás sarin, que ataca o sistema nervoso, e o gás mostarda, que abre feridas quando em contato com a pele. Não há registros precisos sobre as mortes, estimadas em 10 mil.

A repressão aos curdos não foi restrita apenas ao Iraque. Até 1991, eles estavam proibidos de falar o curdo na Turquia. Ali, atualmente, programas de rádio ou TV no idioma são vetados, assim como o aprendizado da língua nas escolas. No Irã e na Síria, o quadro é similar. Na Síria, muitos não conseguem tirar passaporte, votar, registrar seus filhos com nomes curdos, comprar terras ou se casar com sírios.

Conflitos armados[editar | editar código-fonte]

A partir de meados do século XX, ocorrem rebeliões curdas na Turquia e no Iraque. O projeto de um Estado curdo tem opositores dos governos da região, que reprimem com violência os separatistas.

Sob o comando de Öcalan, o PKK iniciou em 1984 a luta armada contra o governo turco que não reconhece a existência da etnia curda e proíbe seu idioma. O PKK matou 30 turcos em 25 anos. Os guerrilheiros contam com o apoio do governo sírio e mantêm bases no Irão e no Iraque. A intensificação das ações do PKK quase provocou uma guerra entre Turquia e Síria, no final de 1998. Para evitar o conflito, os sírios retiram o apoio aos rebeldes e expulsaram Öcalan, que fugiu para a Federação Russa e tentou obter asilo político na Itália, sem êxito. Em fevereiro de 1999, Öcalan foi preso no Quênia, onde se refugiara na embaixada da Grécia.

Julgado na Turquia, Öcalan jurou fidelidade ao Estado turco e anunciou o fim da guerrilha do PKK, mas foi condenado à morte em junho. A sentença foi ratificada pela Suprema Corte de Apelações, em novembro. Há pressões contrárias à aplicação da sentença e a União Europeia (UE) deixou claro que a execução de Öcalan pesará na inclusão ou não da Turquia no bloco, cujos integrantes não adotam a pena capital.

A direção do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) anuncia, em fevereiro de 2000, o fim da luta armada contra o governo da Turquia, em apoio às posições de seu principal líder, Abdullah Öcalan, condenado à morte pela justiça turca. Mas forças turcas continuam atacando bases do PKK no vizinho Iraque. Cerca de 40 mil pessoas já morreram no Curdistão turco devido ao conflito.

O conflito entre o governo turco e a guerrilha curda estende-se com frequência ao Curdistão iraquiano. Após a Guerra do Golfo (1991) foi criada uma zona de segurança no norte do Iraque para proteger os curdos que se rebelaram contra Saddam Hussein. Forças turcas têm invadido a região com o pretexto de destruir as bases do PKK lá instaladas. A última onda de incursões ocorreu em fevereiro e março de 2000, apesar da decisão do PKK de depor as armas.

Curdistão Sírio[editar | editar código-fonte]

O PKK com o YPG (Unidades de Defesa do Povo - ou popular), atualmente está conseguindo vitórias sobre exércitos do Estado Islâmico, principalmente em Kobani (também chamada de Rojava - oeste em curdo), no Curdistão Sírio. Outras sete cidades também fazem parte de Rojava, localizada na fronteira entre Síria e Turquia. Um dos maiores destaques é a brigada de mulheres do YPG, a YPJ (Unidade de Defesa das Mulheres), que conta com cerca de sete mil guerrilheiras. A cada dia, novas combatentes se graduam e ingressam nas unidades do exército guerrilheiro, organizam com outras mulheres comitês de defesa e têm sido essenciais na defesa de Kobani contra a tentativa de invasão do Estado Islâmico. [9]

O Confederalismo Democrático vêm sendo aplicado nessa região pelo YPG. O professor de Antropologia (London School of Economics) David Graeber passou 10 dias em Cizire – um dos acampamentos em Rojava, zona ocupada pelo curdos ao norte da Síria. Junto com estudantes, ativistas e acadêmicos, ele teve a oportunidade de observar a democracia confederalista curda. Em uma entrevista à Pinar Öğünç’s, entre muitas outras perguntas, qual foi a coisa mais impressionante que testemunhou em Rojava nos termos práticos desta autonomia democrática, ele respondeu:

"Existem tantas coisas impressionantes. Acho que nunca ouvi falar de nenhum outro lado do mundo onde tenha existido uma situação de dualidade de poder, onde as mesmas forças políticas criaram ambos os lados. Existe a “auto-administração democrática”, onde existem todas as formas e armadilhas de um Estado – Parlamento, ministros, e por aí –, mas criada para ser cuidadosamente separada dos meios do poder coercivo. Depois há o TEV-DEM (o Movimento da Sociedade Democrática), raiz das instituições, dirigido via democracia direta. No final – e isto é fulcral – as forças de segurança respondem perante as estruturas que seguem uma abordagem de baixo para cima, e não de cima para baixo. Um dos primeiros locais que visitamos foi a academia de polícia (Asayis). Todos tiveram que frequentar cursos de resolução de conflitos não violenta e de teoria feminista antes de serem autorizados a pegar numa arma. Os co-diretores explicaram-nos que o seu objetivo final é dar seis semanas de treino policial a toda a gente no país, para que em última análise se possa eliminar a polícia."[10]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. N. Maxoudian, Early Armenia as an Empire: The Career of Tigranes III, 95–55 BC, Journal of The Royal Central Asian Society, Vol. 39, Issue 2, April 1952 , pp. 156–163.
  2. Kurdistan, Encyclopaedia Britannica
  3. Kurdish Globe (visitado 1-3-2010).
  4. Who are the kurds? - Institut Kurde
  5. Arqueólogos mostram evolução de sociedades mesopotâmicas Exame. Pesquisa em 18/06/16
  6. Info Escola Acesso em 12/04/16
  7. Guia do Estudante Acesso em 12/04/16
  8. Kemal Kirişci,Gareth M. Winrow, The Kurdish Question and Turkey: An Example of a Trans-state Ethnic Conflict, Routledge, 1997, ISBN 9780714647463, p. 101.
  9. «Kobane, Rojava e a luta das mulheres curdas». Jornal A Nova Democracia. Consultado em 2016-02-23. 
  10. «As mulheres que expulsaram o Estado Islâmico de Kobani». Pragmatismo Político. Consultado em 2016-02-23. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Commons
O Commons possui imagens e outras mídias sobre Curdistão
Wikinotícias
O Wikinotícias tem uma ou mais notícias relacionadas com este artigo: Curdistão