Notícia falsa

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Disambig grey.svg Nota: Não confundir com Noticiário satírico.
Repórteres com várias formas de "notícias falsas" de uma ilustração de 1894 por Frederick Burr Opper.

Notícias falsas são um tipo de imprensa marrom que consiste na distribuição deliberada de desinformação ou boatos via jornal impresso, televisão, rádio, ou ainda online, como nas mídias sociais. As notícias falsas são escritas e publicadas com a intenção de enganar, a fim de obter ganhos financeiros ou políticos, muitas vezes com manchetes sensacionalistas, exageradas ou evidentemente falsas para chamar a atenção.[1][2] O conteúdo intencionalmente enganoso e falso é diferente da sátira ou paródia. Estas notícias, muitas vezes, empregam manchetes atraentes ou inteiramente fabricadas para aumentar o número de leitores, compartilhamento e taxas de clique na Internet.[1] Neste último caso, é semelhante as manchetes "clickbait", e se baseia em receitas de publicidade geradas a partir desta atividade, independentemente da veracidade das histórias publicadas.[1] As notícias falsas também prejudicam a cobertura profissional da imprensa e torna mais difícil para os jornalistas cobrir notícias significativas.[3]

O fácil acesso online ao lucro de anúncios online, o aumento da polarização política e da popularidade das mídias sociais, principalmente a linha do tempo do Facebook,[4][1] têm implicado na propagação de notícias falsas. A quantidade de sites de notícias falsas anonimamente hospedados e a falta de editores conhecidos também vem crescendo, porque isso torna difícil processar os autores por calúnia.[5] A relevância de notícias falsas aumentou em uma realidade política "pós-verdade". Em resposta, os pesquisadores têm estudado o desenvolvimento de uma "vacina" psicológica para ajudar as pessoas a detectar falsas notícias.[6][7]

Definição[editar | editar código-fonte]

Notícias falsas (Fake news) é um termo novo, ou neologismo,[8] usado para se referir a notícias fabricadas. O termo Fake news originou-se nos meios tradicionais de comunicação, mas já se espalhou para mídia online. Este tipo de notícia, encontrada em meios tradicionais, mídias sociais ou sites de notícias falsas, não tem nenhuma base na realidade, mas é apresentado como sendo factualmente correctas.[9] Michael Radutzky, um produtor do show 60 Minutes da CBS[desambiguação necessária], disse que seu show considera notícias falsas como "histórias que são comprovadamente falsas, têm um enorme tração [apelo popular] na cultura, e são consumidas por milhões de pessoas". Ele não inclui notícias falsas que são "invocadas por políticos contra os meios de comunicação sobre as histórias ou comentários que eles não gostam ".[10] Guy Campanile, também produtor de 60 Minutos, disse: "Estamos falando de histórias que são fabricadas do nada. De forma geral, criadas deliberadamente e que qualquer por qualquer definição sejam mentira."[10] A intenção e o propósito por trás da notícias falsas é importante. Em alguns casos, o que parece ser uma falsa notícia pode ser, na verdade, notícias de sátira, que usa o exagero e introduz elementos não verdadeiros com o objetivo de divertir ou fazer um ponto, em vez de enganar. Propagandas também pode ser falsas notícias.[1]

Claire Wardle do First Draft News, identifica sete tipos de notícias falsas[11]:

  1. Sátira ou paródia ("sem intenção de fazer mal, mas tem potencial para enganar")
  2. Falsa conexão ("quando as manchetes, visuais das legendas não dão suporte a conteúdo")
  3. Conteúdo enganoso ("má utilização da informação para moldar um problema ou de um indivíduo")
  4. Conteúdo falso ("quando o verdadeiro conteúdo é compartilhado com informações falsas contextuais")
  5. Conteúdo de impostor ("quando fontes verdadeiras são forjadas" com conteúdo falso)
  6. Manipulações de conteúdo ("quando informação genuína ou imagens são manipuladas para enganar", como fotos "adulteradas")
  7. Conteúdo fabricados ("conteúdo novo é 100% falso, projetado para enganar e fazer mal")

Em pesquisa realizada pela Kantar em 2017[12], a definição de notícias falsas ("fake news", no termo em inglês popularizado pelo presidente dos EUA, Donald Trump) ainda não era muito clara: 58% dos brasileiros entrevistados achavam se tratar de "uma história deliberadamente fabricada por um meio de comunicação", 43% pensavam que o termo se referia a "história divulgada por alguém que finge ser um meio de comunicação", 39% apontavam que seria "uma história que contém erro de informação" e 27% apostavam que seria uma "história tendenciosa"[13].

História[editar | editar código-fonte]

Notícias falsas não são uma exclusividade do século XXI. Através de toda a história há vários episódios em que rumores falsos foram espalhados tendo grandes consequências.[14] Por exemplo:

  • O político e general romano Marco Antonio [15]cometeu suicídio motivado por notícias falsas. Haviam falsamente dito a Marco Antonio que sua mulher, a Cleopatra também havia cometido suicídio.
  • No século VIII a Doação de Constantino[16] foi uma história forjada, em que supostamente Constantino havia transferido sua autoridade sobre Roma e a parte oeste do Império Romano para o Papa.
  • Poucos anos antes da Revolução Francesa, vários panfletos eram espalhados em Paris com notícias, muitas vezes contraditórias entre si, sobre o estado de falência do governo. Eventualmente, com vazamento de informações do governo, informações reais sobre o estado financeiro do pais foram a público.[17]
  • Benjamin Franklin escreveu notícias falsas sobre Índios assassinos que supostamente trabalhavam para o Rei George III, com o intuito de influenciar a opinião pública a favor da Revolução Americana.[17]
  • Em 1835 o jornal The New York Sun publicou notícias falsas usando o nome de um astrônomo real e um colega inventado sobre a descoberta de vida na lua. O propósito das notícias foi aumentar as vendas do jornal. No mês seguinte o jornal admitiu que os artigos eram apenas boatos.[17]

Entre esses e muitos outros exemplos é possível perceber que esse é um recurso que foi amplamente usado na história, muitas vezes com o propósito de beneficiar alguém ou algum movimento social.[17]

Século XXI[editar | editar código-fonte]

No século XXI, o uso e impacto das notícias falsas se tornou amplo, assim como o uso do termo. Além de ser usado para criar histórias inventadas para enganar os leitores é um recurso usado para aumentar a quantidade de leitores online e assim aumentar os lucros dos sites. O termo também passou a ser usado para sites de notícias de sátira, que não tem o propósito de enganar, mas fazer comédias sobre eventos reais compartilhados na mídia tradicional.[18][19] No Brasil um bom exemplo de site de sátira é o Sensacionalista. Em fevereiro de 2017 o presidente americano Donald Trump deu uma nova evidência as fake news acusando um repórter da CNN de produzir notícias falsas e se recusando a responder sua pregunta em uma conferência de imprensa.[20]

Atualmente notícias falsas ficam populares rapidamente com o auxilio de redes sociais como Facebook e Twitter muitas vezes chegando aos trend topics.[21] Essas notícias quando não patrocinadas por motivos políticos são financiadas pela "industria de cliques" que grandes plataformas de propaganda digital como o Google Ad Sense criaram.[22] Sites podem ganhar dinheiro baseado em cliques nas propagandas, e para aumentar suas taxas de cliques e frequentadores de suas páginas publicações são feitas com manchetes chamativas muitas vezes distorcendo o texto publicado ou com mentiras.[23] Por exemplo, não é incomum sites de fofoca inventarem a morte de alguma celebridade para atrair leitores.[24]

É importante analisar como e porque notícias falsas se espalham facilmente nas redes sociais. Elas são geralmente apelativas emocionalmente, ou reforçam algum ideal politico ajudando a reforçar crenças e por isso são amplamente compartilhadas e comentadas antes mesmo que os usuários chequem as fontes das notícias.[23] Outro efeito realçado nas redes sociais é o de Câmara de eco,[25] em que pessoas se isolam de grupos com ideais diferentes evitando assim o contraponto de ideais que possam vir a revelar a falsidade de algumas notícias.

Empresas como o Google e Facebook vem sendo acusadas[26][27] como umas das responsáveis por facilitar a disseminação das notícias falsas. O Facebook com seus algoritmos de busca e o google com seu engenho de busca são hoje as principais formas de jovens terem acesso a notícias em seu dia a dia.[28] Ambas empresas se comprometeram recentemente a combater esse problema,[29][30] o Google por exemplo bloqueou alguns sites que ele julgou como de notícias falsas de suas redes de anuncios bloqueando assim a fonte de renda dos mesmos, além disso adicionou uma nova função na sua ferramenta de busca de notícias.[31] Apesar disso, há um debate se elas deveriam entrar nessa luta das fake news separando-as das notícias verdadeiras. Como elas controlam o acesso a informação de grande parte da população elas acabam ganhando um poder de censura e de julgar o que é verdade e o que não é.

A academia também já tenta procurar soluções de classificadores baseados em aprendizagem de máquina que possam identificar notícias verdadeiras e falsas. Há várias pesquisas nesse sentido, e na tentativa de fomenta-las em 2017 foi criado fake news challenge, uma competição em busca dos melhores classificadores automáticos de notícias.

Identificação[editar | editar código-fonte]

Diagrama sobre como identificar notícias falsas da IFLA em português

A Federação Internacional das Associações e Instituições de bibliotecária (IFLA) publicou um diagrama com dicas para ajudar as pessoas a identificarem notícias falsas (imagem da versão em português do diagrama a direito).[32]

  1. Considere a fonte da informação: tente entender sua missão e propósito olhando para outras publicações do site.
  2. Leia além do título: Títulos chamam atenção, tente ler a história completa.
  3. Cheque os autores: Verifique se eles realmente existem e são confiáveis.
  4. Procure fontes de apoio: Ache outras fontes que suportem a notícias.
  5. Cheque a data da publicação: Veja se a história ainda é relevante e está atualizada.
  6. Questione se é uma piada: O texto pode ser uma sátira.
  7. Revise seus preconceitos: Seus ideais podem estar afetando seu julgamento.
  8. Consulte especialistas: Procure uma confirmação de pessoas independentes com conhecimento.

Há algumas instituições como "Aos Fatos" e  International Fact-Checking Network (IFCN) que se propõem a checar notícias e julga-las como falsas ou verdadeiras. A IFCN faz uso de uma rede colaborativa e faz um treinamento de seus colaboradores para que possam validar as histórias.[33] O Facebook se comprometeu a ajudar seus usuários a identificar as notícias falsas,[31] e adicionou em certa de 14 países uma seção com dicas sobre como reconhecer notícias falsas.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d e Hunt, Elle (17 de dezembro de 2016). «What is fake news? How to spot it and what you can do to stop it». The Guardian. Consultado em 15 de janeiro de 2017 
  2. Robert Schlesinger (14 de abril de 2017). «Fake News in Reality» (em inglês). U.S. News & World Report. Consultado em 13 de julho de 2017 
  3. Saltzman, Joe (2011). «"Fake News" Reports Undermine Serious Media Coverage». Gale Virtual Reference Library 
  4. Woolf, Nicky (11 de novembro de 2016). «How to solve Facebook's fake news problem: experts pitch their ideas». The Guardian. Consultado em 15 de janeiro de 2017 
  5. Paul Callan (5 de dezembro de 2016). «Sue over fake news? Not so fast». CNN (em inglês). Consultado em 23 de abril de 2017 
  6. van der Linden, Sander; Leiserowitz, Anthony; Rosenthal, Seth; Maibach, Ed (2017). «Inoculating the Public Against Misinformation About Climate Change». Global Challenges: 1600008. doi:10.1002/gch2.201600008 
  7. «Cambridge scientists consider fake news 'vaccine'». BBC News. 2017 
  8. Ember, Interview By Sydney (3 de abril de 2017). «This Is Not Fake News (but Don't Go by the Headline)». The New York Times (em inglês). ISSN 0362-4331 
  9. Allcott, Hunt; Gentzkow, Matthew. «Social Media and Fake News in the 2016 Election» (PDF). Journal of Economic Perspectives. Consultado em 17 de junho de 2007 
  10. a b 60 Minutes Overtime: What's "Fake News"? 60 Minutes Producers Investigate. CBS News. 26 de março de 2017. Consultado em 27 de março de 2017 
  11. Claire Wardle (16 de Fevereiro de 2017). «Fake news. It's complicated». firstdraftnews.com. Consultado em 16 de Junho de 2017 
  12. «Kantar - Trust in News: 'Fake news' reforçam confiança na imprensa». br.kantar.com (em bretão). Consultado em 31 de outubro de 2017 
  13. «'Fake news' alteram hábitos do público, indica pesquisa». Folha de S.Paulo 
  14. País, Ediciones El (1 de maio de 2017). «A verdadeira história das notícias falsas». EL PAÍS 
  15. «Marco Antônio». Wikipédia, a enciclopédia livre. 17 de maio de 2017 
  16. «Doação de Constantino». Wikipédia, a enciclopédia livre. 16 de abril de 2017 
  17. a b c d «The Long and Brutal History of Fake News». POLITICO Magazine 
  18. Peters, Jeremy W. (25 de dezembro de 2016). «Wielding Claims of 'Fake News,' Conservatives Take Aim at Mainstream Media». The New York Times (em inglês). ISSN 0362-4331 
  19. Peters, Jeremy W. (25 de dezembro de 2016). «Wielding Claims of 'Fake News,' Conservatives Take Aim at Mainstream Media». The New York Times (em inglês). ISSN 0362-4331 
  20. Jamieson, Amber. «You are fake news': Trump attacks CNN and BuzzFeed at press conference» 
  21. «Falsa morte de Britney Spears alarma fãs após twitter da Sony ser hackeado». Ego 
  22. «'The underbelly of the internet': How content ad networks fund fake news - Digiday». Digiday (em inglês). 28 de novembro de 2016 
  23. a b «Fake News Expert On How False Stories Spread And Why People Believe Them». NPR.org. Consultado em 17 de junho de 2017 
  24. «EGO - NOTÍCIAS - Relembre famosos que foram alvo de boatos sobre a morte». ego.globo.com. Consultado em 17 de junho de 2017 
  25. Dutton, William H. «Fake news, echo chambers and filter bubbles: Underresearched and overhyped». Salon. Consultado em 17 de junho de 2017 
  26. «Just how partisan is Facebook's fake news? We tested it». PCWorld (em inglês) 
  27. Nicky Woolf (11 de novembro de 2016). «How to solve Facebook's fake news problem: experts pitch their ideas». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077. Consultado em 15 de janeiro de 2017 
  28. «How Millennials Get News». American Press Institute (em inglês). 16 de março de 2015 
  29. Levin, Sam (16 de maio de 2017). «Facebook promised to tackle fake news. But the evidence shows it's not working». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077 
  30. reporter, Alex Hern Technology (25 de abril de 2017). «Google acts against fake news on search engine». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077 
  31. a b «Facebook is trying to teach its users how to spot fake news». Business Insider (em inglês) 
  32. «IFLA -- How To Spot Fake News». www.ifla.org (em inglês). Consultado em 19 de junho de 2017 
  33. «About the International Fact-Checking Network». Poynter (em inglês). 8 de dezembro de 2016 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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