A Arte da Guerra
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A Arte da Guerra (chinês: 孫子兵法; pinyin: sūn zĭ bīng fǎ literalmente "Estratégia Militar de Sun Tzu"), é um tratado militar escrito durante o século IV a.C. pelo estrategista conhecido como Sun Tzu. O tratado é composto por treze capítulos, onde em cada capítulo é abordado um aspecto da estratégia de guerra, de modo a compor um panorama de todos os eventos e estratégias que devem ser abordados em um combate racional. Acredita-se que o livro tenha sido usado por diversos estrategistas militares através da história como Napoleão, Adolf Hitler e Mao Tse Tung.
Desde 1772 existem edições européias (quatro traduções russas, uma alemã, cinco em inglês), apesar de serem consideradas insatisfatórias. A primeira edição ocidental tida como uma tradução fidedigna data de 1927.
A Arte da Guerra foi traduzido ao português por Caio Fernando Abreu e Miriam Paglia (1995).
Apesar da antiguidade da obra, nenhuma obra ou tratado é tão compreensível e tão atual quanto A Arte da Guerra.
Com seu caráter sentencioso, Sun Tzu forja a figura de um general cujas qualidades são o segredo, a dissimulação e a surpresa.
Hoje, A Arte da Guerra parece destinado a secundar outra guerra: a das empresas no mundo dos negócios. Assim, o livro migrou das estantes dos estrategistas para as do economista e do administrador[1]
Embora as táticas bélicas tenham mudado desde a época de Sun Tzu, esse tratado teria influenciado, segundo a Enciclopédia Britânica, certos estrategistas modernos como Mao Tsé-Tung, em sua luta contra os japoneses e os chineses nacionalistas.
[editar] Capítulos
A obra é composta por 13 capítulos:
- Planejamento Inicial (始計, pinyin: Shǐjì)
- Guerreando (作戰, pinyin: Zuòzhàn)
- Estratégia ofensiva (謀攻, pinyin: Móugōng)
- Disposições (軍行, pinyin: Jūnxíng)
- Energia (兵勢, pinyin: Bīngshì)
- Fraquezas e forças (虛實, pinyin: Xūshí)
- Manobras (軍爭, pinyin: Jūnzhēng)
- As nove variáveis (九變, pinyin: Jiǔbiàn)
- Movimentações (行軍, pinyin: Xíngjūn)
- Terreno (地形, pinyin: Dìxíng)
- As nove variáveis de terreno (九地, pinyin: Jiǔdì)
- Ataques com o emprego de fogo (火攻, pinyin: Huǒgōng)
- Utilização de agentes secretos (用間, pinyin: Yòngjiàn)
[editar] Entendendo A Arte da Guerra
A Arte da Guerra, obra permeada pelo pensamento político e filosofico do Tao Te King, também se iguala ao grande clássico taoísta na estrutura formal, composta por uma coleção de aforismos em geral atribuídos a um autor obscuro e quase lendário. Alguns taoístas acreditam que o Tao-Te King seja a transmissão de um conhecimento antigo, compilado e elaborado pelo seu "autor", e não que seja uma obra totalmente original. O mesmo pode-se dizer de A Arte da Guerra. Seja lá como for, ambos os clássicos têm em comum a estrutura geral formada por nas centrais que reaparecem ao longo do texto em contextos diferentes.
1. Planejamento Inicial
O primeiro capítulo de A Arte da Guerra é dedicado à importância da estratégia. Como o clássico I Ching afirma: "O líder planeja no início, antes de começar a agir", e "o líder avalia os problemas e os previne." Em termos de operações militares, A Arte da Guerra coloca cinco aspectos que devem ser determinados antes de empreender qualquer ação: Caminho, o clima, o terreno, a liderança militar e a disciplina. Nesse contexto, o Caminho (Tao) se refere à liderança civil, ou, antes, ao relacionamento entre a liderança política e a população. Tanto na linguagem taoísta como na confucionista, um governo justo é descrito como "imbuído pelo Tao", e Sun Tzu também fala do Caminho como aquele que "induz o povo a ter o mesmo objetivo que os líderes". O exame do clima, o problema da estação mais propícia para a ação, também tem relação com o interesse pelo povo, significando tanto a população em geral quanto os militares. O ponto essencial, aqui, é evitar a interrupção das atividades produtivas do povo, as quais dependem das estações, e evadir extremos climáticos que poderiam criar obstáculo ou prejudicar as tropas no campo de batalha. O terreno deve ser avaliado em termos de distância, grau de dificuldade para a locomoção, dimensões e segurança. A utilização de batedores e de guias nativos é importante nesse ponto porque, como diz o I Ching, "Ir à caça sem um guia é perder o dia". Os critérios oferecidos por A Arte da Guerra para avaliar os líderes militares são as virtudes tradicionais, as mesmas que são recomendadas pelo Confucionismo e pelo Taoísmo medieval: a inteligência, a confiabilidade, a humanidade, a coragem e a austeridade. De acordo com o grande budista Chan, Fushan: "Humanidade sem inteligência é como ter um campo, mas não ará-lo. Inteligência sem coragem é como ter uma vegetação florescente, mas não limpá-la das ervas daninhas. Coragem sem humanidade é saber colher, mas não saber semear." As outras duas virtudes, a confiabilidade e a austeridade, são as que possibilitam ao líder obter, respectivamente, a lealdade e a obediência das tropas. O quinto elemento a ser avaliado, a disciplina, refere-se à coerência e à eficiência organizacional. A disciplina está muito ligada à confiabilidade e à austeridade, ambas desejáveis nos líderes militares, visto que ela utiliza os mecanismos correspondentes da recompensa e da punição. Muita ênfase é posta na tarefa de estabelecer um sistema claro e objetivo de prémios e castigos que seja aceito pêlos guerreiros como justo e imparcial. Este foi um dos aspectos mais importantes do Legalismo, uma escola de pensamento que surgiu durante o período dos Estados Belicosos e que acentua mais o valor da organização racional c do estatuto da lei do que o de um governo feudal personalista. Continuando a discussão dessas cinco avaliações, A Arte da Guerra passa a analisar a importância fundamental da simulação: "Uma operação militar envolve simulação. Mesmo sendo competente, mostra-te incompetente. Embora eficiente, aparenta ser ineficiente." É como o Tao-Te King recomenda: "Quem tem grande habilidade mostra-se inapto." O elemento surpresa, tão necessário para a vitória com o máximo de eficiência, depende de conhecer os outros sem ser por eles conhecido, de modo que o segredo e a informação distorcida são considerados artes essenciais. Falando de maneira geral, a luta corpo a corpo é o último recurso do guerreiro habilidoso. Deste, Sun Tzu diz que deve estar preparado e, no entanto, tem de evitar o confronto direto com um adversário destemido. Mestre Sun recomenda que, em vez de dominar o inimigo diretamente, deve-se cansá-lo pela fuga, fomentar a intriga entre seus escalões, manipular seus sentimentos e usar sua ira e seu orgulho contra si próprio. Assim, em síntese, a proposição inicial de A Arte da Guerra introduz os três aspectos principais da arte do guerreiro: o social, o psicológico e o físico.
2. Guerreando
O segundo capítulo de A Arte da Guerra, sobre a batalha, ressalta as consequências domésticas da guerra, mesmo da guerra externa. A ênfase é posta sobre a velocidade e a eficiência, com advertências incisivas para não prolongar as operações, especialmente campo adentro. A importância de se conservar a energia e os recursos materiais recebe atenção particular. Para minimizar o desgaste que a guerra causa na economia e na população, Sun Tzu recomenda a prática de alimentar o inimigo e de usar as forças cativas por meio de um bom tratamento.
3. Estratégia ofensiva
O terceiro capítulo, planejamento do assédio, também acentua a conservação — o objetivo geral é chegar à vitória mantendo intacto o maior número possível de bens, sociais e materiais, e não destruindo todas as pessoas e coisas que estejam no caminho. Neste sentido, Mestre Sun afirma que é melhor vencer sem lutar. Várias recomendações táticas reforçam este princípio de conservação geral. Primeiro, por ser desejável vencer sem lutar, Sun Tzu diz que é melhor vencer os adversários logo no início das operações, frustrando assim seus planos. Se isso não for possível, Sun Tzu recomenda isolar o inimigo e torná-lo indefeso. Aqui também poderia parecer que o tempo é essencial, mas, na verdade, velocidade não significa pressa, e uma preparação completa se faz necessária. Sun Tzu conclui enfatizando que, obtida a vitória, esta deve ser completa e total, para evitar os custos de manutenção de uma força de ocupação. O capítulo prossegue delineando as estratégias para a ação de acordo com o número relativo de protagonistas e de antagonistas, novamente observando que é mais prudente evitar pôr-se em circunstâncias desfavoráveis, se possível. O I Ching diz: "É má fortuna teimar diante de circunstâncias insuperáveis." Além disso, enquanto a formulação da estratégia depende de uma inteligência prévia, é também imperativo adaptar-se às situações reais da batalha. Como afirma o I Ching: "Chegando a um impasse, muda; depois de mudar, podes prosseguir." Em seguida, Mestre Sun relaciona cinco modos de averiguar a possibilidade de vitória, de conformidade com o tema de que guerreiros hábeis lutam só quando têm certeza da vitória. De acordo com Sun, os vitoriosos são aqueles que sabem quando lutar e quando não lutar; os que sabem quando usar muitas ou poucas tropas; aqueles cujos oficiais e soldados formam uma unidade compacta; os que enfrentam os incautos com preparação; e os que são comandados por generais capazes que não são pressionados pelo governo. Este último ponto é muito delicado, visto que põe uma responsabilidade moral e intelectual ainda maior sobre os líderes militares. Enquanto a guerra nunca deve ser deflagrada pêlos militares, como mais adiante se explicará, mas pelo comando do governo civil, Sun Tzu afirma que uma liderança civil ausente que interfere de modo ignorante no comando de campo "afasta a vitória embaraçando os militares". Novamente, a questão parece ser a do conhecimento; a premissa de que a liderança militar no campo não deve estar sujeita à interferência do governo civil baseia-se na idéia de que a chave para a vitória é o conhecimento profundo da situação real. Delineando esses cinco modos para determinar qual dos lados tem possibilidade de prevalecer sobre o outro, Sun Tzu afirma que quando conhecemos a nós mesmos e aos outros nunca estamos em perigo; quando conhecemos a nós mesmos, mas não aos outros, temos cinquenta por cento de possibilidade de vencer, e quando não conhecemos a nós próprios nem aos outros, estamos em perigo em qualquer batalha.
4. Disposições
O quarto capítulo de A Arte da Guerra trata da formação, uma das questões mais importantes da estratégia e do combate. Numa postura caracteristicamente taoísta, Sun Tzu declara que o segredo para a vitória são a adaptabilidade e a inescrutabilidade. Como o comentador Du Mu explica: "A condição interior do informe é inescrutável, enquanto que a daqueles que adotaram uma forma específica é claramente manifesta. O inescrutável vence, o manifesto perde." Neste contexto, a inescrutabilidade não é meramente passiva, não significa apenas afastar-se ou esconder-se dos outros; significa, sim, a percepção do que é invisível aos olhos dos outros e a reação a possibilidades ainda não percebidas por aqueles que só observam o manifesto. Discernindo oportunidades antes que sejam visíveis aos outros e agindo com rapidez, o misterioso guerreiro pode tomar conta da situação antes que as coisas se escoem por entre os dedos. Seguindo esta linha de raciocínio, Sun Tzu volta a pôr ênfase na busca da vitória certa pelo conhecimento do momento de agir e de não agir. Torna-te invencível, diz ele, e enfrenta o adversário no momento em que ele é vulnerável: "Os bons guerreiros tomam posição onde não podem perder e não descuidam das condições que tornam o inimigo propenso à derrota." Revendo essas condições, Sun reelabora alguns dos pontos principais para a avaliação das organizações, tais como a disciplina e a ética versus ambição e corrupção.
5. Energia
O tema do capítulo quinto de A Arte da Guerra é a força, ou o ímpeto, a estrutura dinâmica de um grupo em ação. Aqui, Mestre Sun ressalta as habilidades organizacionais, a coordenação e o uso tanto de métodos de guerra ortodoxos como de guerrilha. Ele enfatiza a mudança e a surpresa, empregando variações intermináveis de táticas e usando as condições psicológicas do adversário para manobrá-lo a posições vulneráveis. A essência do ensinamento de Sun Tzu sobre a força é a unidade e a coerência na organização, utilizando a força do ímpeto antes de contar com as qualidades e habilidades individuais: "Bons guerreiros buscam a eficácia da batalha na força do ímpeto, não em cada pessoa." É esse reconhecimento do poder do grupo para equilibrar disparidades internas e para funcionar como um único corpo de força que distingue A Arte da Guerra do individualismo idiossincrático dos espadachins samurais do Japão feudal posterior, cujas artes marciais estilizadas são tão conhecidas no Ocidente. Esta ênfase é uma das características essenciais que tornou a antiga obra de Sun Tzu tão útil para os guerreiros organizados em corporação da Ásia moderna, entre os quais A Arte da Guerra é amplamente lida e ainda hoje considerada o clássico inigualável de estratégia no conflito.
6. Fraquezas e forças
O capítulo sexto aborda, a questão da "vacuidade e da plenitude", já mencionadas como conceitos taoístas fundamentais geralmente adaptados às artes marciais. A idéia é encher-se de energia ao mesmo tempo que se esvazia o oponente. Como Mestre Sun diz, isto é feito para nos tornarmos invencíveis e para enfrentar os adversários somente quando estes são vulneráveis. Uma das mais simples dessas táticas é muito conhecida não apenas no contexto da guerra, mas também na manipulação social e dos negócios: "Bons guerreiros atraem o inimigo a si; não são eles que atacam o inimigo." Outra função da inescrutabilidade tão intensamente valorizada pelo guerreiro taoísta é a que recomenda conservar a própria energia ao mesmo tempo que se induz os outros a desperdiçar a sua: "O objetivo de formar um exército é chegar à não-forma", diz Mestre Sun; assim, ninguém poderá elaborar uma estratégia contra ti. Ao mesmo tempo, diz ele, induz o adversário a organizar suas próprias formações, leva-o a esparramar-se; testa o oponente para sondar seus recursos e reações, mas permanece desconhecido. Neste caso, o informe e o fluido não são apenas meios de defesa e surpresa, mas meios de preservar o potencial dinâmico, a energia que pode ser facilmente perdida por manter-se numa posição ou formação específica. Mestre Sun compara uma força bem-sucedida à água, que não tem forma constante, mas que, como observa o Tao-Te-King, prevalece sobre tudo a despeito de sua fraqueza aparente. Sun afirma: "Uma força militar não tem formação constante, a água não tem forma constante. A habilidade de alcançar a vitória mudando e adaptando-se de acordo com o inimigo é chamada de genialidade."
7. Manobras
O sétimo capítulo de A Arte da Guerra, sobre a luta armada, trata da organização efetiva no campo e das manobras de combate, e também reintroduz vários dos principais temas de Sun Tzu. Começando com a necessidade de informações e preparação, Sun afirma: "Entra em ação somente depois de fazer a devida avaliação. Aquele que por primeiro avaliar a distância do perto e do longe vencerá — está é a lei da luta armada." O I Ching diz: "Prepara-te, e terás boa fortuna." Novamente expondo sua filosofia tática minimalista/essencialista, característica que lhe é muito própria. Sun Tzu continua: "Suga a energia do exército adversário, arranca o coração dos seus generais." Retomando seus ensinamentos sobre a vacuidade e a plenitude, também afirma: "Evita a energia intensa, ataca a moderada e a fugidia." Para aproveitar ao máximo os benefícios dos princípios da vacuidade e da plenitude, Sun ensina quatro tipos de habilidades essenciais ao guerreiro insondável: domínio da energia, domínio do coração, domínio da força e domínio da adaptação. Os princípios da vacuidade e da plenitude também põem à mostra o mecanismo fundamental dos clássicos princípios yin-yang, sobre os quais os primeiros se baseiam, o mecanismo da reversão de um para o outro nos extremos. Mestre Sun diz: "Não interrompas a marcha de um exército em seu retorno para casa. Um exército cercado deve ter uma saída. Não pressiones um inimigo desesperado." O / Ching diz: "O soberano usa três caçadores, deixando a caça à frente escapar", e "se fores muito inflexível, a ação será mal sucedida, mesmo que estejas certo."
8. As nove variáveis
O capítulo oitavo é dedicado à adaptação, já vista como uma das pedras angulares da arte bélica. Mestre Sun assevera: "Se os generais não souberem adaptar-se de modo vantajoso, mesmo que conheçam a disposição do terreno, não conseguirão tirar proveito dela." O I Ching diz: "Persiste intensamente no que está além de tua profundidade, e tua fidelidade a essa direção trará a desgraça, não o proveito." A adaptabilidade depende naturalmente da prontidão, outro tema que se repete de A Arte da Guerra. Mestre Sun afirma: "O preceito das operações militares é não supor que o inimigo não avance, mas dispor de meios para lidar com ele; não confiar que o adversário não ataque, mas esperar em ter o que não pode ser atacado." O I Ching diz: "Se te sobrecarregares sem ter uma base sólida, serás por fim exaurido, o que te trará dificuldades e má fortuna." Em A Arte da Guerra, a prontidão não significa apenas preparação material; sem um estado mental apropriado, a mera força física não é suficiente para garantir a vitória. Mestre Sun define indiretamente as condições psicológicas do líder vitorioso, enumerando cinco perigos — ter muita disposição para morrer, ter muita ansiedade de viver, encolerizar-se com muita rapidez, ser puritano ou sentimental demais. Mestre Sun afirma que qualquer um desses excessos cria pontos vulneráveis que podem ser facilmente explorados por adversários astutos. O I Ching diz: "Ao aguardar à beira de uma situação, antes que o tempo adequado para entrar em ação chegue, mantém-te alerta e evita ceder ao impulso — assim fazendo, não errarás."
9. Movimentações
O capítulo nono trata de exércitos em manobras estratégicas. Mais uma vez Mestre Sun fala sobre os três aspectos da arte do guerreiro — o físico, o social e o psicológico. Em termos físicos concretos, ele recomenda certos tipos óbvios de terreno que favorecem as probabilidades de vitória: elevações, rio acima, o lado ensolarado dos morros, regiões abundantes de recursos. Com base nas três dimensões, descreve ainda os modos de interpretar os movimentos do inimigo.
Embora Mestre Sun nunca deixe de levar em conta o peso dos números ou do poder material, aqui como em outras partes há uma forte sugestão de que fatores sociais e psicológicos têm condições de superar o tipo de poder que pode ser quantificado fisicamente: "Nas questões militares, não é necessariamente benéfico ter mais: benéfico é evitar agir agressivamente; é suficiente consolidar o teu poder, avaliar os adversários e conquistar o povo; isto é tudo." O I Ching afirma: "Quando tens os meios, mas não estás chegando a lugar nenhum, procura parceiros apropriados, e terás boa fortuna." Do mesmo modo, enfatizando o esforço do grupo dirigido, A Arte da Guerra diz: "O individualista sem estratégia que considera os adversários com leviandade irá inevitavelmente tornar-se um cativo." A solidariedade requer especialmente compreensão mútua e relação estreita entre os líderes e os liderados, adquirida tanto através da educação como do treinamento. O sábio confuciano Meneio disse: "Os que enviam pessoas a operações militares sem educá-las as destroem." Mestre Sun diz: "Dirige-os pelas artes da cultura, unifica-os pelas artes marciais; isto é vitória certa." O IChing diz: "É boa fortuna quando os dirigentes dão suporte a seus dirigidos, ficando atentos a eles e deles extraindo suas potencialidades."
10. Terreno
O capítulo décimo, que analisa a questão do terreno, dá continuidade às idéias de manobras técnicas e à adaptabilidade, delineando tipos de terreno e maneiras adequadas de se acomodar a eles. Requer-se reflexão para transferir os padrões desses tipos de terreno a outros contextos, mas o ponto fundamental está em considerar a relação do protagonista com as configurações do ambiente material, social e psicológico. Mestre Sun adota esse ponto de vista com observações sobre as deficiências organizacionais fatais pelas quais o líder é responsável. Aqui, novamente, a ênfase está posta no moral da unidade: "Considera teus soldados como filhos bem-amados, e eles de boa vontade morrerão contigo." O I Ching diz: "Os que estão acima asseguram seus lares pela bondade para com os que estão abaixo." Apesar disso, ampliando a metáfora, Mestre Sun também adverte contra ser abertamente indulgente, o que traria como consequência tropas semelhantes a crianças mimadas. Este capítulo ressalta também a inteligência, no sentido de conhecimento preparatório. Sua definição inclui de modo particular a percepção clara das capacidades das próprias forças, da vulnerabilidade do adversário e da disposição do terreno: "Quando conheces a ti mesmo e aos outros, a vitória não está ameaçada; quando conheces o céu e a terra, a vitória é inesgotável." O I Ching diz: "Sê cuidadoso no começo, e não terás dificuldades no fim."
11. As nove variáveis de terreno
O décimo primeiro capítulo, intitulado "Nove Regiões", apresenta um tratamento mais detalhado do relevo, especialmente em termos do relacionamento de um grupo com o terreno. Pode-se compreender que essas "nove regiões" se aplicam não só ao mero território físico, mas também ao "território" em seus sentidos social e mais abstraio. As nove regiões relacionadas por Mestre Sun são assim denominadas: região de dissolução, região leve, região de contenda, região de tráfego, região de intersecção, região pesada, região ruim, região sitiada e região de morte (ou mortal). Uma região de dissolução é um estágio de guerra destrutiva para ambos os lados ou guerra civil. A região leve se refere a incursões marginais ao território inimigo. Uma região de contenda é a que pode ser vantajosa para ambos os lados de um conflito. Uma região de tráfego é aquela em que se verifica passagem livre. Região de intersecção é um território que controla artérias de comunicação importantes. Região pesada, em comparação com a leve, refere-se a incursões profundas no território adversário. Região ruim é terreno difícil ou imprestável. Região sitiada é a que tem acesso restrito, própria para emboscada. Região de morte é uma situação em que é necessário lutar imediatamente ou ser destruído. Ao descrever a tática apropriada a cada tipo de região, Mestre Sun inclui uma reflexão sobre os elementos social e psicológico do conflito, na medida em que esses estão inextricavelmente ligados à reação ao ambiente: "Devem-se examinar os seguintes aspectos: adaptação às diferentes regiões, vantagens da contração e da expansão, padrões de sentimentos humanos e condições."
12. Ataques com o emprego de fogo
O décimo segundo capítulo de A Arte da Guerra, sobre o ataque com fogo, inicia com uma breve descrição dos vários tipos de ataque incendiário e inclui observações técnicas e estratégias para o acompanhamento. Talvez porque, num sentido material comum, o fogo seja a forma mais perversa de arte marcial (os explosivos existiam no tempo de Sun Tzu, mas não eram usados militarmente), é neste capítulo que encontramos o mais ardente apelo pela humanidade, fazendo eco à idéia taoísta de que as "armas são instrumentos de desgraça que devem ser usadas somente quando for inevitável". Concluindo abruptamente sua breve reflexão sobre o ataque com fogo, Mestre Sun diz: "Um governo não deve mobilizar um exército motivado pela raiva, os líderes militares não devem provocar a guerra movidos pela cólera. Antes, deves agir se for benéfico; caso contrário, deves desistir. A raiva pode se transformar em alegria, a cólera pode se tornar prazer, mas uma nação destruída não pode ser restaurada para a existência, e os mortos não podem ser devolvidos à vida."
13. Utilização de agentes secretos
O décimo terceiro e último capítulo trata da espionagem, fechando assim o círculo com o capítulo inicial sobre a estratégia, para a qual a inteligência é essencial. Novamente guiando-se pelo minimalismo orientado para a eficiência e pelo conservadorismo, para os quais se voltam as habilidades que ensina, Mestre Sun começa falando da importância dos agentes de inteligência nos termos mais enfáticos: "Uma operação militar de importância é um escoadouro grave da nação, e pode ser mantida por anos de luta pela vitória de um dia. Por isso, desconhecer as condições do inimigo por não querer recompensar a inteligência é algo extremamente desumano."
A seguir, Sun define cinco tipos de espiões, ou agentes secretos. O espião local é contratado dentre a população de uma região em que as operações são planejadas. Um espião infiltrado é contratado entre os oficiais de um regime contrário. Um espião reverso é um agente duplo, contratado dentre espiões inimigos. Um espião morto é o que recebe a missão de levar informações falsas. Um espião vivo é o que vem e vai com informações.
Neste ponto, também existe um forte elemento social e psicológico na compreensão que Sun Tzu tem da complexidade prática da espionagem do ponto de vista da liderança. A Arte da Guerra inicia com a questão da liderança, e também termina com a observação de que o uso eficaz de espiões depende do líder. Mestre Sun diz: "Não se pode utilizar espiões sem sagacidade e conhecimento, não se pode usar espiões sem humanidade e justiça, não se pode sem sutileza conseguir a verdade de espiões", e conclui: "Só um governante hábil ou um general brilhante que pode utilizar os mais inteligentes para a espionagem tem garantia de sucesso."
[editar] Trechos do livro:
- "A invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque. Quem se defende mostra que sua força é inadequada; quem ataca, mostra que ela é abundante."
- "Existem cinco fatores que permitem que se preveja qual dos oponentes sairá vencedor:
- aquele que sabe quando deve ou não lutar;
- aquele que sabe como adotar a arte militar apropriada de acordo com a superioridade ou inferioridade de suas forças frente ao inimigo;
- aquele que sabe como manter seus superiores e subordinados unidos de acordo com suas propostas;
- aquele que está bem preparado e enfrenta um inimigo desprevenido;
- aquele que é um general sábio e capaz, em cujas decisões o soberano não interfere."
- "A água não tem forma constante. Na guerra também não existem condições constantes. Por isso pode-se dizer que é divino aquele que obtém uma vitória alterando as suas táticas em conformidade com a situação do inimigo."
- "Dos cinco elementos, nenhum é predominante; das quatro estações nenhuma dura para sempre; os dias, uns são longos, outros curtos; a Lua enche e míngua."
- "Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perigo de derrota;para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou para a derrota serão iguais;aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio, será derrotado em todas as batalhas"
- "Evitar guerras é muito mais gratificante do que vencer mil batalhas - Sun tzu (孫子)"
[editar] Panorama histórico
A Arte da Guerra foi escrito durante o assim chamado período dos Estados Belicosos da antiga China, que durou do quinto ao terceiro século a.C. Constituiu uma época de prolongada desintegração da dinastia Chou (Zhou), que fora fundada havia mais de quinhentos anos pêlos sábios políticos que escreveram o I Ching. O colapso da antiga ordem foi marcado pela desestabilização das relações entre os Estados e pelo estado de guerra interminável entre os aspirantes à hegemonia em meio aos padrões de aliança e oposição sempre em mudança.
O prefácio a Estratégias dos Estados Belicosos (Zhanguo ce / Chan kuo ts'e), uma coleção clássica de histórias sobre as questões políticas e militares dos Estados feudais desse tempo, nos oferece uma descrição gráfica do período dos Estados Belicosos:
Usurpadores se proclamam senhores e reis, Estados governados por pre¬tendentes e conspiradores reforçam seus exércitos para se tornarem superpotências. Imitavam-se cada vez mais nisso, e sua descendência seguiu-lhes o exemplo. No fim, enfrentaram-se e destruíram-se uns aos outros, conspirando com territórios maiores e anexando territórios menores, passando anos em operações militares violentas, enchendo os campos com morticínio. Pais e filhos não estavam próximos uns dos outros, irmãos não estavam seguros uns com os outros, maridos e mulheres se separavam — ninguém podia responder por sua vida. A virtude desapareceu. Nos anos posteriores, isto se tornou cada vez mais extremado, com sete grandes Estados e cinco pequenos Estados lutando uns contra os outros pelo poder. Em geral, isso acontecia porque os Estados Belicosos eram vergonhosamente gananciosos, lutando insaciavelmente para desenvolver-se.
O grande educador e filósofo humanista Confúcio, que viveu exatamente na véspera da era dos Estados Belicosos, passou a vida trabalhando contra a deterioração dos valores humanos que determinou o mergulho de sua sociedade em séculos de conflito. No clássico Os Analectos, de Confúcio, o surgimento iminente dos Estados Belicosos é previsto numa vinheta simbólica do encontro de Confúcio com um governante a quem tentou advertir: "O duque Ling, do Estado de Wei, perguntou a Confúcio sobre formações militares. Confúcio respondeu: 'Aprendi sobre a disposição de vasos rituais, mas nunca estudei questões militares', e partiu no dia seguinte." Como que representando o desaparecimento do espírito humanitário ("Confúcio partiu no dia seguinte") do pensamento e das considerações dos governantes nos séculos de guerra por vir, esta história é retomada pelo filósofo taoísta Chuang-tzu, que viveu no quarto e terceiro séculos a.C., exatamente em meio ao período dos Estados Belicosos. De acordo com o desdobramento que Chuang-tzu faz do tema, Yen Hui, o mais brilhante discípulo de Confúcio, dirigiu-se ao mestre e perguntou-lhe sobre a possibilidade de ir ao Estado de Wei. Confúcio perguntou-lhe: "O que irás fazer lá?" Yen Hui respondeu: "Ouvi dizer que o governante de Wei, no vigor da mocidade, tem um comportamento arbitrário — explora seu país por capricho e não percebe seus próprios erros. Explora seu povo frivolamente, mesmo até a morte. Massas incontáveis morreram naquele Estado, e o povo não tem para onde voltar-se. Ouvi meu mestre dizer: 'Deixa um Estado ordenado e vai a um Estado em desordem — junto à porta do médico, muitos são os doentes.' Eu gostaria de usar o que aprendi para avaliar a orientação que oferece, de modo que o Estado de Wei possa ser curado."
Confúcio disse: "Estás inclinado a ir, mas apenas receberás punição."
Muito poucas pessoas da época deram ouvidos ao humanismo pa¬cifista de Confúcio e de Mêncio. Alguns dizem que isso ocorreu porque não podiam implementar as políticas propostas pêlos confucianos originais; outros dizem que não podiam implementar as políticas porque não prestavam atenção, porque não queriam ser humanitários e justos de fato.
Por outro lado, os que ouviam o humanismo pacifista de Lao-tzu e Chuang-tzu em geral se escondiam e trabalhavam sobre o problema por ângulos diversos. Lao-tzu e Chuang-tzu mostram que o homem agres¬sivo parece cruel, mas na verdade é um tipo emocional; então, eles as¬sassinam o emocional com real crueldade antes de revelar a natureza espontânea da humanidade livre.
Os antigos mestres taoístas mostram como a crueldade real, a frieza da objetividade plena, sempre inclui a pessoa em sua avaliação incisiva da situação. O Buda histórico, um contemporâneo de Confúcio, ele próprio descendente de um clã de guerreiros num tempo em que esta casta estava consolidando seu domínio político, disse que o conflito cessaria se fôssemos conscientes de nossa própria morte.
Esta é a impiedade de Lao-tzu quando ele diz que o universo é de¬sumano e que o sábio vê o povo como cães de palha usados para sacrifícios rituais. Chuang-tzu também apresenta diversos exemplos dramáticos de impiedade com relação a si mesmo como um exercício em perspectiva destinado a levar à cessação do conflito interno e externo.
Essa "desumanidade" não é utilizada pêlos filósofos originais como uma justificativa para uma agressão possessiva quase cruel, mas como uma meditação sobre a falta de sentido último da cobiça e da possessividade que subjazem à agressão.
Na índia, os aspirantes budistas visitavam locais de cremação e contemplavam os cadáveres em decomposição daqueles cujas famílias não dispunham de recursos para uma cerimónia de cremação. Faziam isso para eliminar a cobiça e a possessividade de dentro de si mesmos. De¬pois, voltavam o pensamento para pessoas e sociedades ideais.
Da mesma maneira, Mestre Sun sugere que os leitores contemplem a devastação provocada pela guerra, desde as fases iniciais de traição e alienação até as formas extremas de ataque incendiário e assédio, vista como uma espécie de canibalismo em massa dos recursos humanos e naturais. Com este mecanismo, ele fornece ao leitor um sentimento mais ampliado para o significado das virtudes individuais e sociais esposadas pêlos pacifistas humanitários.
Deste ponto de vista, é natural que se pense sobre a linha taoísta de A Arte da Guerra não como um elemento cultural casual, mas como uma chave para a compreensão do texto em todos os seus níveis. Pela natureza de sua temática manifesta, A Arte da Guerra exigia a atenção das pessoas que tinham menos possibilidades de compreender os ensinamentos pacifistas dos humanistas clássicos.
Como o I Ching preservou certas ideias filosóficas ao longo de toda espécie de mudança política e social pela sua popularidade como oráculo e como livro de conselhos, assim A Arte da Guerra conservou o âmago da filosofia prática taoísta da destruição pela sua antítese.
Muitas vezes se pensa que o paradoxo é um instrumento padrão da psicologia taoísta, utilizado para transpor barreiras imperceptíveis de consciência. Talvez o paradoxo de A Arte da Guerra esteja na sua oposição à guerra. E como A Arte da Guerra guerreia contra a guerra, assim o faz por seus próprios princípios; ela se infiltra nas linhas inimigas, revela os segredos do inimigo e muda o coração das tropas adversárias.
[editar] A Arte da Guerra e o taoísmo
[editar] Relações com a medicina tradicional chinesa e com as artes marciais
Diz a lenda que um nobre da antiga China certa vez perguntou ao seu médico, membro de uma família de terapeutas, qual dos seus familiares era mais hábil na arte da medicina. O médico, de uma reputação tão difundida que seu nome era sinônimo da própria ciência médica na China, respondeu:
Nenhum outro conto da antiga China capta de maneira tão bela a essência de A Arte da Guerra, o clássico mais importante sobre a ciência da estratégia no conflito. Um crítico da dinastia Ming assim se expressa a respeito dessa historieta do médico:
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«Nada além disso é necessário aos líderes, generais e ministros no governo das nações e na condução dos exércitos.»
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De maneira geral, as pessoas consideram as artes terapêuticas e as artes marciais como dois mundos diferentes, mas na verdade são duas realidades paralelas em vários sentidos: no reconhecimento, como se diz popularmente, de que quanto menos delas se precisar, melhor; no sentido de que ambas exigem uma estratégia no momento de lidar com um evento desarmônico, e no sentido de que, em ambas, o conhecimento do problema é a chave para sua solução.
Como na história dos antigos terapeuta]s, na filosofia de Sun Tzu a eficiência máxima do conhecimento e da estratégia é tornar o conflito totalmente desnecessário:
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«A maior das habilidades é vencer os exércitos inimigos sem lutar.»
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E como a história dos terapeutas, Sun Tzu explica que há muitas variantes de artes marciais:
- O militar de espírito superior faz malograr as maquinações inimigas;
- A segunda melhor coisa a fazer é minar suas alianças;
- Em seguida, atacar suas forças armadas;
- O pior de tudo é sitiar suas cidades.
Observe novamente a semelhança entre o conselho de Sun Tzu e a sabedoria médica:
- Frustrar as maquinações inimigas é manter-se saudável, de modo a resistir à doença;
- Minar suas alianças é evitar o contágio;
- Atacar suas forças armadas é como tomar remédio;
- Sitiar suas cidades é como realizar uma operação cirúrgica.
Como o irmão mais velho da história era desconhecido devido à sua perspicácia e o irmão do meio mal era conhecido por causa de sua vivacidade, Sun Tzu também afirma que nos tempos antigos os que eram considerados guerreiros hábeis venciam quando a vitória ainda era fácil; por isso, as vitórias de guerreiros habilidosos não eram conhecidas por ardis utilizados nem recompensadas por bravura demonstrada.
[editar] Ligações com outros textos clássicos chineses
Esta estratégia ideal pela qual se pode vencer sem lutar, realizar o máximo fazendo o mínimo, comporta a marca característica do Taoís-mo, a antiga tradição de conhecimento que deu, na China, suporte tanto às artes terapêuticas como às artes marciais. O Tao-Te King, ou O Livro do Caminho Perfeito, estende à sociedade a mesma estratégia que Sun Tzu atribui aos guerreiros dos tempos primevos: Planeja o difícil enquanto ainda é fácil, faz o que é grande enquanto ainda é pequeno. As coisas mais difíceis devem ser feitas enquanto ainda são fáceis, as maiores, enquanto ainda são pequenas. Por isso, o sábio nunca faz o que é grande, e é por este motivo que sempre alcança a grandeza. Escrita há mais de dois mil anos, durante um longo período de convulsões sociais, A Arte da Guerra brotou das mesmas condições sociais que deram origem a alguns dos clássicos mais importantes do humanismo chinês, incluindo-se o Tão Te King. Tratando a questão do conflito através de um modo mais racional que emocional, Sun Tzu mostrou que a compreensão do conflito pode levar tanto à sua solução como à decisão de evitá-lo completamente.
Ao longo dos séculos, muitos estudiosos se deram conta da importância do pensamento taoísta em A Arte da Guerra: tanto as obras filosóficas como as políticas do cânon taoísta atestam seu reconhecimento pelo clássico da estratégia. O nível de reconhecimento representado pelos pontos culminantes de A Arte da Guerra — o nível da invencibilidade e o da doutrina do não-conflito — é uma expressão do que o saber taoísta chama de "conhecimento profundo e ação resoluta".
O Livro do Equilíbrio e da Harmonia (Chung-ho chi/Zhongho ji), uma obra taoísta medieval, afirma:
Nos termos de A Arte da Guerra, o guerreiro-mestre é aquele que conhece a psicologia e a mecânica do conflito com tanta precisão que percebe imediatamente qualquer movimento do adversário; é alguém capaz de agir em harmonia perfeita com as situações, ajustando-se aos seus padrões naturais com um mínimo de esforço. O Livro do Equilíbrio e da Harmonia aprofunda a descrição do conhecimento e da prática taoístas em termos familiares à busca do guerreiro: Conhecimento profundo é ter percepção da desordem antes da desordem, do perigo antes do perigo, é ter consciência da destruição antes da destruição, e da calamidade antes da calamidade. Ação resoluta é treinar o corpo sem ficar sobrecarregado pelo corpo, é exercitar a mente sem ser usado por ela, é atuar no mundo sem ser afetado pelo mundo, é realizar as atividades sem ser por elas absorvido.
Pelo conhecimento profundo do princípio, pode-se transformar a desordem em ordem, o perigo em segurança, a destruição em sobrevivência, a calamidade em prosperidade. Pela ação resoluta no Caminho, pode-se levar o corpo ao reino da longevidade, conduzir a mente à esfera do mistério, .proporcionar paz ao mundo e chegar à realização plena das atividades. Como essas passagens sugerem, os guerreiros da Ásia que praticavam as artes do Taoísmo ou do Zen com o intuito de chegar à serenidade profunda não estavam apenas preparando a mente para que esta suportasse a consciência da morte iminente; eles as usavam também quando queriam alcançar a sensibilidade necessária para reagir às situações sem parar para pensar. O Livro do Equilíbrio e da Harmonia diz: Compreensão num estado de serenidade, realização sem esforço, saber sem ver — este é o sentido e a resposta do Tão Transformador. A compreensão num estado de serenidade pode compreender tudo, a realização sem esforço pode realizar tudo, o saber sem ver pode saber tudo. Como em A Arte da Guerra, a amplitude de consciência e de eficiência do adepto taoísta é despercebida, imperceptível aos outros, porque seus momentos críticos ocorrem antes que a inteligência comum possa traçar uma descrição da situação. O Livro do Equilíbrio e da Harmonia reza: Sentir e compreender depois da ação não é algo que mereça ser chamado de compreensão. Realizar depois do esforço não é algo que mereça ser chamado de realização. Saber depois de ver não é algo que mereça ser chamado de saber. Esses três procedimentos estão longe do caminho do sentido e da resposta.
Na verdade, ser capaz de fazer algo antes que exista, sentir algo antes que se torne ativo, ver algo antes que surja são três habilidades que se desenvolvem de maneira interdependente. Então, nada é sentido, mas é compreendido; nada é empreendido sem resposta, a nenhum lugar se vai sem proveito. Um dos objetivos da literatura taoísta é ajudar a desenvolver essa sensibilidade e essa reatividade especiais para dominar as situações da vida. O Livro do Equilíbrio e da Harmonia menciona o "Tao Transformador" com relação aos ensinamentos de análise e de meditação do I Ching, o locus classicus da fórmula da sensibilidade e da reatividade. A exemplo do I Ching e de outras obras da literatura taoísta clássica, A Arte da Guerra tem uma reserva de abstração e um potencial metafórico incalculáveis. E como outras obras da literatura clássica taoísta, a obra revela suas sutilezas de acordo com a mentalidade do leitor e com a maneira pela qual é posta em prática.
A associação das artes marciais com a tradição taoísta remonta ao lendário Imperador Amarelo, terceiro milênio a.C., um dos maiores heróis da cultura chinesa e figura importante da tradição taoísta. Segundo narra o mito, o Imperador Amarelo conquistou tribos selvagens utilizando-se de artes marciais mágicas que lhe teriam sido ensinadas por um taoísta imortal. Diz-se também que compôs o famoso Yin Convergence Classic (Yin-fu chinglYinfu jing), uma obra taoísta muito antiga e que de longa tradição tem recebido interpretações marciais e também espirituais.
Cerca de mil anos mais tarde, os chefes guerreiros que eliminaram os últimos vestígios da antiga sociedade escravagista chinesa e que introduziram conceitos humanistas de governo compuseram os dizeres clássicos do I Ching, outro texto taoísta tradicionalmente utilizado como base tanto para as artes marciais como para as civis. Os princípios básicos do I Ching figuram de modo expressivo na ciência da guerra política de Sun Tzu e são essenciais para o combate individual e para as técnicas de defesa das artes marciais tradicionais que se desenvolveram a partir dos exercícios taoístas.
Depois do "Yin Convergence Classic" e do I Ching, temos o terceiro texto taoísta mais importante, o Tao Te King. Como A Arte da Guerra, o Tao-Te King é produto da era dos Estados Belicosos, os quais assolaram a China na metade do primeiro milênio a.C. Este grande clássico manifesta a atitude predominante com relação à guerra que caracteriza o manual de Sun Tzu: que ela é destrutiva mesmo para os vencedores, com frequência contraproducente, uma alternativa de ação que se justifica somente quando não há escolha: Os que apóiam um líder com o Tão não usam armas para coagir o mundo, pois essas tendem a produzir o efeito contrário — espinhos medram onde exércitos acamparam e anos ruins se seguem a uma grande guerra.
Armas são instrumentos nefastos, não ferramentas dos iluminados. Quando não há outra escolha, é aconselhável manter-se calmo, dominar a avidez, e não comemorar a vitória. Os que celebram a vitória são sanguinários e estes não podem alcançar seu objetivo no mundo. De maneira semelhante, A Arte da Guerra considera a cólera e a cobiça as causas fundamentais da derrota. Segundo Sun Tzu, é o guerreiro moderado, reservado, calino e cauteloso que vence, e não o impetuoso que busca a vingança nem o ambicioso que vai no encalço da fortuna. O Tao-Te King diz:
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«O bom cavaleiro não é belicoso, o bom guerreiro não se enraivece, o que conquista o inimigo não tripudia sobre ele.»
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A tática de agir sem deixar-se levar pelo emocional é parte da estratégia geral da insondabilidade que A Arte da Guerra enfatiza num estilo caracteristicamente taoísta. Sun Tzu afirma:
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«Os hábeis na defesa escondem-se nas profundezas da terra; os hábeis no ataque manobram no mais alto dos céus. Por isso, podem proteger-se e alcançar a vitória total.»
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Esta relevância posta na excelência do insondável permeia o pensamento taoísta desde a esfera política até as áreas do comércio e da perícia profissional. Nesse sentido, está dito:
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«Um bom comerciante esconde seus tesouros e aparenta não ter nada»
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«Um bom profissional não deixa marcas.»
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Esses ditos foram adotados pêlos zen-budistas para representar a sua arte. Os mesmos zen-budistas, que se contavam entre os alunos mais notáveis dos clássicos taoístas e entre os que desenvolveram as artes marciais esotéricas, adotaram a inescrutável visão do caminho do guerreiro tanto no seu sentido literal como no figurado.
[editar] A estratégia militar taoísta e o Livro dos Mestres Huainan
Encontramos escritos sobre aspectos civis e militares da organização política em todo o cânon taoísta. O Livro dos Mestres Huainan (Huainanzi ou Huai-nan-tzu) — um dos grandes clássicos taoístas do começo da dinastia Han, instalada no final dramático do período dos Estados Belicosos — dedica um capítulo inteiro à ciência militar taoísta, que retoma o tema central da prática de A Arte da Guerra: Nas artes marciais, é importante que a estratégia seja insondável, que a forma seja oculta e que os movimentos sejam súbitos, para que se torne impossível qualquer preparação. O que permite que um bom general alcance a vitória é o fato de ter sempre uma sabedoria impenetrável e um modus operandi que não deixa vestígios. Somente o informe não pode ser afetado. Os sábios se escondem na insondabilidade, e por isso seus sentimentos não podem ser observados; eles agem no nível do informe, e assim suas linhas não podem ser cruzadas.
Em A Arte da Guerra, Sun Tzu escreve:
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«Sê extremamente sutil, até a total falta de forma. Sê extremamente misterioso, até a ausência total de som. Assim fazendo, dirigirás o destino do inimigo.»
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Sun Tzu, e também os mestres de Huainan, um grupo de sábios taoístas e confucionistas reunidos por um rei local, reconhecem a existência de um nível de sabedoria em que o conflito não emerge e em que a vitória não é visível ao olhar comum. Porém, ambos os livros foram escritos como testemunho da dificuldade e da raridade dessa experiência. Da mesma forma que a arte da guerra de Sun Tzu, a estratégia dos mestres de Huainan prepara para um conflito real, não apenas como um último recurso, mas como uma operação a ser conduzida sob as condições mais rigorosas, com uma liderança apropriada:
Um general deve ver e saber sozinho, no sentido de que deve ver o que outros não vêem e saber o que outros não sabem. Ao ato de ver o que outros não vêem damos o nome de perspicácia, e denominamos genialidade o ato de saber o que outros não sabem. Génios perspicazes vencem primeiro, significando que se defendem de tal modo que são inexpugnáveis e atacam de forma tal que são irresistíveis.
As condições rigorosas da ação militar taoísta são comparadas com sua prática espiritual. Os manuais de meditação e de exercícios taoístas estão repletos de metáforas alusivas à paz e à guerra.
Um dos princípios mais importantes da prática taoísta, derivado dos ensinamentos do / Ching, e que tem implicações tanto físicas como psicológicas, é o do domínio da "vacuidade e da plenitude".
O domínio da vacuidade e da plenitude, ao qual Sun Tzu dedica todo um capítulo de A Arte da Guerra, é fundamental para o desempenho físico das artes marciais taoístas, como o Boxe Absoluto.
É essencial também no aspecto organizacional, ou sociopolítico, da arte de governar, quer no âmbito civil quer no militar. Ao explicar a compreensão da vacuidade e da plenitude como o Caminho para a vitória, os mestres de Huainan afirmam:
A base política da força militar, ou a base social da força de qualquer organização, é um ensinamento que também tem suas raízes no I Ching. Em A Arte da Guerra, esse ensinamento é considerado da maior importância. Assim, o primeiro item do primeiro capítulo — sobre a estratégia — recomenda a avaliação do Caminho de um grupo adversário — a fibra moral, a coerência da ordem social, a popularidade do governo ou o moral da população. Segundo Sun Tzu, em condições apropriadas, um pequeno grupo pode impor-se a um grande grupo; e entre as condições que possibilitam esta situação estão a justiça, a ordem, a coesão e o moral. Este é outro ponto central do pensamento chinês, também evidenciado pêlos mestres de Huainan no contexto da estratégia militar:
[editar] Comentários de Zhuge Liang, seguidor de Sun Tzu
Este mesmo tema foi ressaltado por outro grande estrategista militar da antiga China, Zhuge Liang, que viveu no século III d.C. Liang seguia os ensinamentos de Sun Tzu e tornou-se lendário por sua genialidade:
É por isso que a tradição afirma:
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«Uma operação militar é como o fogo; se não for detida, extinguir-se-á por si mesma.»
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A posição de Zhuge como génio prático é tão elevada, que seus escritos, seus projetos e os comentários sobre ele fazem parte do cânon taoísta. Como A Arte da Guerra e os clássicos taoístas, a filosofia de guerra preconizada por Zhuge trata o positivo através do negativo, segundo a doutrina taoísta da "não-ação":
Esta constatação está em consonância com a ideia de combate como último recurso, o ideal de vencer sem lutar oferecido por A Arte da Guerra, que, por sua vez, segue o ensinamento do Tao-Te King. Zhuge Liang também cita a clássica advertência extraída deste respeitado texto taoísta:
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«Armas são instrumentos de maus presságios que devem ser usadas somente quando for inevitável.»
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Mas ele também partilha a conciência histórica taoísta de que a era da humanidade original já tinha passado e, como Sun Tzu, estava pessoalmente envolvido numa época de furiosas convulsões civis. É por isso que a obra Zhuge constante do cânon taoísta contém uma visão racional e também ensinamentos práticos para a segurança política e militar, os quais se aproximam muito dos apregoados por Sun Tzu:
Quanto a este ponto, Zhuge adota integralmente a doutrina de Sun Tzu e faz o mesmo com relação à importância que este atribui à liderança e à base popular. No esquema de Sun Tzu, tanto os líderes civis como os militares são os primeiros que devem ser investigados. Zhuge segue Sun Tzu e os mestres de Huainan: para eles, a força da liderança reside nas qualidades pessoais e no apoio popular. Para os taoístas, o poder é moral e também material. Eles acreditam que o poder moral se manifesta como autodomínio e também como influência sobre as outras pessoas. Ao explicar o poderio de uma força de defesa nacional, Zhuge escreve:
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«Isto, por sua vez, depende dos generais investidos de liderança militar. Um general que não seja popular não é de ajuda para a nação, não é um líder do exército.»
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Um general que "não é popular" é alguém que, segundo outra maneira de interpretar o texto, "renega o povo". Sun Tzu ressalta a unidade das vontades como fonte primeira da força, e sua filosofia minimalista da guerra é um desdobramento natural da ideia central do interesse comum; com base nesse princípio, Zhuge Liang novamente cita o Tao-Te King para expressar o ideal do guerreiro sábio devotado ao corpo da sociedade como um todo
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«Armas são instrumentos de maus presságios, que devem ser usadas somente quando for inevitável.»
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Zhuge também segue de perto A Arte da Guerra quando salienta que se deve evitar a ação sem estratégia e também a ação desnecessária:
A velocidade e a coordenação, fundamentais para o sucesso, de acordo com a arte da guerra de Sun Tzu, decorrem não só da preparação estratégica, mas também da coesão psicológica de que o líder depende. Zhuge escreve:
Mencionando o clássico de Sun Tzu e considerando-o manual definitivo para uma estratégia bem-sucedida, Zhuge conclui seu ensaio sobre a organização militar resumindo os pontos principais de A Arte da Guerra como ele os incorporou em sua própria prática, centrando-se naqueles aspectos do treinamento e do estado de espírito dos guerreiros que derivam da tradição taoísta:
Seguindo Sun Tzu, Zhuge põe em evidência as vantagens da surpresa e da velocidade, táticas capazes de reverter condições desvantajosas que de outro modo seriam insuperáveis:
Conforme foi mencionado acima, um dos pontos mais importantes da ênfase da arte da guerra de Sun Tzu é a objetividade, e seu clássico ensina como avaliar situações de uma maneira imparcial. Zhuge segue Sun Tzu também nesse aspecto, evidenciando a vantagem de uma ação cuidadosamente calculada:
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«Os que são hábeis no combate não se encolerizam, os que são hábeis na vitória não se amedrontam. Assim, os sábios vencem antes de lutar enquanto que os ignorantes lutam para vencer.»
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Na sequência, Zhuge cita A Arte da Guerra diretamente, acrescentando as advertências de Sun Tzu sobre as consequências do planejamento medíocre, de ações extravagantes e de pessoal perdulário:
Finalmente Zhuge reporta-se à tradição do Tao-Te King, de A Arte da Guerra e de Os Mestres de Huainan para dar a vitória ao insondável:
Esta ideia de conhecer ao mesmo tempo que se mantém incógnito, repetida constantemente como uma chave para o sucesso, é um dos elos mais fortes entre a meditação taoísta e A Arte da Guerra, pois o segredo para esta arte da "invisibilidade" é precisamente o desapego interior cultivado pêlos taoístas para chegar a uma visão impessoal da realidade objetiva. Alguns ensinamentos filosóficos dos primórdios do Taoísmo são normalmente utilizados em escolas práticas como códigos para exercícios usados no desenvolvimento pessoal.
[editar] O aparente paradoxo de abordar a guerra com serenidade
Compreender o aspecto prático dos ensinamentos filosóficos taoístas permite superar a sensação de paradoxo passível de ser causada por atitudes aparentemente contraditórias. Pode parecer contraditório que Sun Tzu ensine com toda a calma a cruel arte da guerra ao mesmo tempo que condena a guerra. Essa contradição aparece se o fato for visto fora do contexto da compreensão total da mentalidade humana conforme é concebida pelo ensinamento taoísta.
A análise simultânea de pontos de vista muito diferentes é uma eficiente técnica taoísta, cuja compreensão pode resolver a contradição e o paradoxo. O modelo do paradoxo de A Arte da Guerra pode ser visto no Tao-Te King, em que tanto a crueldade quanto a bondade são parte do Caminho do sábio.
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«Céu e terra não são bondosos — para eles, todos os seres são como cães de palha; o sábio não é bondoso — para ele, os homens são como cães de palha»
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(filósofo do Tao-Te King.)
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Nos anos cinqüenta, logo após o armistício na Coréia, um sinólogo ocidental, horrorizado, escreveu que essa passagem havia "desatrelado um monstro", mas, para um taoísta, ela não representa desumanidade; antes, é um exercício de objetividade, semelhante aos exercícios budistas para a impessoalidade.
Em termos modernos, este tipo de afirmação não é diferente da asserção de um psicólogo ou de um sociólogo que declara que as atitudes, pensamentos e expectativas de nações inteiras não se constituíram meramente por uma multidão de decisões racionais e independentes, mas em grande parte se formaram sob a influência de fatores ambientais que estão além do controle da pessoa e até mesmo da comunidade.
Como o clássico de Sun Tzu atesta, o lugar de uma observação dessas na arte da guerra não é fomentar uma atitude empedernida ou sangüinária, mas compreender o poder da psicologia de massas. Compreender como as pessoas podem ser manipuladas pelas emoções, por exemplo, é algo tão útil para os que querem evitar isto quanto para aqueles que desejam praticá-lo.
Considerada deste ponto de vista, A Arte da Guerra é um chamado às armas na mesma proporção em que um estudo sobre o condicionamento é uma recomendação para a escravatura. Ao analisar, de modo tão completo, os fatores políticos, psicológicos e materiais envolvidos no conflito, o objetivo expresso de Sun Tzu não foi o de encorajar à guerra, mas o de minimizá-la e aboli-la.
Uma visão impessoal da humanidade como alguém que não é senhor do próprio destino pode ser necessária para liberar um guerreiro do emaranhado emocional que poderia precipitar opiniões irracionais do conflito, mas, no esquema taoísta das coisas, essa visão não é mantida para justificar um comportamento destrutivo. O reverso dessa afirmação também pode ser encontrado no Tao-Te King, prefigurando os ensinamentos de Sun Tzu em A Arte da Guerra:
No seu clássico, Mestre Sun compara a ação militar a um "fogo que se extinguira por si mesmo se não for detido", e se sua estratégia da vitória sem luta nem sempre era viável, a da hipereficiência podia pelo menos minimizar a violência e a destruição insensatas. Em termos taoístas, muitas vezes o sucesso é alcançado pela não-ação, e a estratégia de A Arte da Guerra consiste tanto em saber o que não fazer e quando não fazer, como também em saber o que fazer e quando fazer.
A arte da não-ação — que inclui a discrição, o fato de não ser conhecido e a intangibilidade no cerne das artes marciais esotéricas da Ásia — pertence ao ramo do Taoísmo conhecido como a ciência da essência. As artes da ação — que incluem as técnicas externas tanto das artes culturais como das marciais — pertencem ao ramo do Taoísmo conhecido como a ciência da vida. A ciência da essência tem que ver com o estado mental; a ciência da vida se relaciona com a energia. Como um texto taoísta clássico, é no equilíbrio dessas duas artes que se pode compreender mais plenamente A Arte da Guerra.
[editar] A história do Rei Macaco apreciada a partir da abordagem de Sun Tzu
Em época mais recente, a assertiva taoísta definitiva sobre esta questão está imortalizada na obra Jornada ao Oeste (Hsi-yu chilXiyou jí), um dos Quatro Livros Extraordinários da dinastia Ming (1368-1644). Baseando-se em fontes taoístas mais antigas, do tempo da guerra da China sob a pressão das invasões mongóis, este romance notável é uma representação clássica do resultado do que em termos taoístas seria chamado de estudo da ciência da vida sem a ciência da essência, do desenvolvimento material sem o correspondente desenvolvimento psicológico ou, nos termos de Sun Tzu, de ter força sem ter inteligência.
O personagem principal desse romance é um macaco mágico que funda uma civilização simiesca e se torna seu líder delimitando um território para os macacos. Posteriormente, o rei-macaco derrota um "demónio que confunde o mundo", roubando-lhe a espada. Voltando à sua terra com a espada do demônio, o rei-macaco inicia a prática da esgrima. Ele chega ao ponto de ensinar seus súditos macacos a fabricar armas de brinquedo e insígnias reais para brincar de guerra.
Infelizmente, embora governante de uma nação, o rei-macaco ainda não governa a si mesmo. Num raciocínio retrospectivo eminentemente lógico, ele chega à conclusão de que se as nações vizinhas percebessem o jogo dos macacos, poderiam supor que eles estivessem se preparando para a guerra. Nesse caso, poderiam iniciar uma ação preemptiva contra os macacos, que então teriam de enfrentar uma guerra real munidos apenas de armas de brinquedo. Assim, o rei-macaco dá início à corrida armamentista, ordenando o armazenamento, por preempção, de armas verdadeiras.
Se parece desconcertante ler uma descrição do século XIII sobre a política do século XX, não menos o é ler um livro tão antigo como a Bíblia, ela também apresentando descrições de táticas utilizadas ainda hoje por praticantes da guerrilha e por políticos e executivos influentes. Seguindo a postura de não-ilusão do Tao-Te King e de A Arte da Guerra, a história do rei-macaco também prefigura um movimento importante no pensamento científico moderno que se segue ao clímax do divórcio ocidental entre religião e ciência há muitos séculos.
O rei-macaco da história exerceu o poder sem sabedoria, rompendo a ordem natural e quase sempre criando confusão até ser preso nos limites da matéria. Aí ele perdeu a excitação do entusiasmo impulsivo, até ser solto para ir em busca da ciência da essência, sob a condição estrita de que seu conhecimento e poder fossem controlados pela compaixão, a expressão da sabedoria e da unidade do ser.
A derrocada do macaco finalmente acontece quando encontra Buda, a quem os imortais dos céus taoístas convocam para lidar com a besta intratável. Os imortais haviam tentado "cozinhar" o macaco no "caldeirão dos oito trigramas", isto é, fazê-lo passar por um treinamento em alquimia espiritual baseado no I Ching, mas ele saltou do caldeirão ainda despreparado. Buda vence o orgulho do macaco demonstrando a lei insuperável da relatividade universal e o aprisiona na "montanha dos cinco elementos", o mundo da matéria e da energia, onde ele padece as consequências por seus gracejos arrogantes.
Depois de quinhentos anos, finalmente Guanyin (Kuan Yin), o santo budista trans-histórico tradicionalmente honrado como a personificação da compaixão universal, apresenta-se na prisão do agora arrependido macaco e recita estes notáveis versos: Infelizmente, o macaco mágico não cuidou da coisa pública Quando, antigamente, de modo insensato, ele se jactava de suas extravagâncias.
Com um coração mal-intencionado, provocou desordem Na reunião dos imortais; Com irritação profunda, foi em busca do seu ego. No céu da felicidade. Em meio a milhares de combatentes, Ninguém podia enfrentá-lo; No mais alto dos céus, Ele tinha uma presença assustadora. Mas visto que foi barrado ao encontrar nosso Buda, Quando irá ele alcançar seus objetivos e novamente mostrar suas realizações?
Então, ambos põem-se a rezar, e com o santo o macaco suplica pela sua libertação. O santo lhe garante a libertação sob a condição de que se devote à busca da iluminação superior, não só para si mesmo mas para toda a sociedade. Finalmente, antes que o macaco dê o primeiro passo na longa estrada, o santo, como precaução, ajusta um aro ao redor da cabeça do macaco, um aro que pode apertar e causar-lhe uma dor imensa sempre que proferir uma certa invocação pedindo compaixão em resposta a qualquer novo desvio de comportamento.
Centenas de gerações consideram A Arte da Guerra o clássico insuperável em termos de estratégia; muito provavelmente, porém, sua maior magia esteja na auréola de compaixão que Mestre Sun adapta na cabeça de todo guerreiro que tente usar este livro. E como a história mostra, a invocação mágica que aperta essa aureola é entoada sempre que o guerreiro se esquece dela.
[editar] Ver também
- A Arte da Guerra - Os documentos perdidos
- Sun Tzu II
Referências
[editar] Ligações externas
- The Art of War, por Sun Tzu. A Arte da Guerra, uma tradução ao inglês. Sítio acessado em 1 de novembro de 2005.
- Evento para compreender e aplicar Sun Tzu
- Sun Zi, A arte da guerra - Tradução chinesa e inglesa
- The Taoism Information Page. 'A Página de Informações sobre o Taoísmo'. Sítio em inglês e chinês. Acessado em 1 de novembro de 2005.
- Compreender e aplicar Sun Tzu. O pensamente estratégico chinês: uma sabedoria em ação. Pierre Fayard, Bookman, Porto Alegre, 2006. Um livro basico para entender e aplicar Sun Tzu.


