Heliodoro de Paiva

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Heliodoro de Paiva (nasceu em Lisboa, cerca do ano de 1500, e faleceu em Coimbra, 21 de Dezembro de 1552) foi um compositor, filósofo e teólogo português do período Renascentista.

Vida[editar | editar código-fonte]

Heliodoro de Paiva nasceu em Lisboa (ca. 1500), e morreu em Coimbra, a 21 de Dezembro de 1552. Seu pai, Bartolomeu de Paiva, foi governador do rei D. João III. Tornou-se monge agostinho no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

Notável as qualidades que revelou numa ampla variedade de temas: para além de compositor e instrumentista (tocou com destreza vários instrumentos), tinha formação em grego, latim, hebraico e línguas, e foi um bom teólogo e filósofo. Publicou, em 1532, um tratado "Lexicon Graecum, et Hebraicum".

D. Gabriel de Santa Maria diz-nos o seguinte de Heliodoro de Paiva: “Em 21 dias de Dezembro faleceo o sacerdote dom Heliodoro, homem muito pera desejar de ver, ditosos os queo virão, porque na verdade parece que a soo elle fez Deus pera mostra do que hum entendimento humano humilde pode comprehender, porque sem duvida muito pera dar graças a Deus era em hum soo homem achar todas as sciencias em perfeito grao ss. Muito bom theologo, muito bom ebraico, grego, latino, philosopho, musico, muito perfeito universal em toda a musica, em compor muitas, e boas obras que cada dia se podem ver suas ss. missas, magnificas, motetes, muito bom tangedor, e contrapontista, escrivão perfeito e tanto que todas as lingoas escrevia muito perfeitamente como elle melhor vira escriptas, chamavalhe o padre Bispo reformador pedaço de toda a cousa, porque de tudo sabia. Devia ser este religioso muito humilde manso, e perfeito ante Deus, pois em elle pos todas as partes juntas com cada huã das quais se orna e engrandese muito qualquer homem, e assi na verdade o foi muito humilde e perfeito religioso, e bem mostrava serem todas estas abilidades dadas de Deus, e dões do spiritu santo porque nunca de nenhuã dellas uzou com soberba ou uan gloria, mas com muita mansidão e modestia como todos os daquelle tempo tinhão. Era este religioso de Lixboa natural filho de hu nobre fidalgo, amo del Rei dom João 3º criou filhos seus e da Rainha D. Catarina ultima rainha destes regnos chamavasse paiva, capitão da torre de Bethlem, os meninos que criou levou o senhor porque ia na sua mente se estava comprindo o tempo de Portugal se tornar a juntar a donde se tirara por seus altos, e secretos juizos justos e em si mesmo justificados”.[1]

D. Nicolao de Santa Maria diz-nos, igualmente de Heliodoro de Paiva: “Em 20 de Dezembro levou Deos pera si o P. D. Heliodoro de Paiva, collaço del-Rey D. Joaõ III no fim do anno de 1552 foi natural de Lisboa, filho de Bertolameu de Paiva, & de Felipa de Abreu sua mulher, que foi Ama de peito del-Rey D. Joaõ III & lhe deu leite, & o criou até idade de 3 annos & meio, & por esta boa criaçaõ fez El-Rey D. Manoel mercé a Bertolameu de Paiva do officio de seu Guarda-roupa, & de Veador das obras do Reyno, como se pode ver na Chronica del Rey D. Joaõ III na I. Part. Cap. 2 composta por Francisco de Andrada. Por collaço del-Rey se podera prometer grandes acrecentamentos o nosso D. Heliodoro, mas a todos deu de maõ , porque mandadoo seus Pays ao Mosteiro de S. Cruz de Coimbra, pera nelle estudar letras, & virtudes, elle pedio o habito, & se meteo Religioso no mesmo Mosteiro. Dotouo Deos de tam grande engenho, & de tantas partes, que parece o criou pera mostrar o quanto pode aprender, & comprehender o entendimento humano. Soube as lingoas de Hebraico, Grego, & Latim, com toda a perfeição, & as fallava, & escrevia como a lingoa Portugueza, & natural. Foi mui agudo Filosofo, & mui consumado Teologo, & de suas letras se aproveitava muito Lipomano Nuncio neste Reyno pera a sua Catena, leu Theologia alguns annos. Foi tambem grande escrivaõ de todas as letras, illuminava, & pintava excelentemente. Era cantor, & musico mui destro, & contrapontista; compoz muitas Missas, & Magnificas de canto de orgaõ, & motetes mui suaves; tangia orgaõ, & craviorgaõ cõ notavelàr, & graça; tangia viola de arco, & tocava harpa, & cantava a ella com tanta suavidade, que enlevava os ouvintes. E cõ ter tantas partes juntas, era muito humilde, & nunca usou dellas com soberba, ou vangloria, mas com muita modesta, & mansidão. El-Rey D. Joaõ III por elle ser seu collaço, & pella fama de suas letras, & virtudes lhe offereceo alguns Bispados, q elle não quis aceitar. E vindo o mesmo Rey a Coimbra no anno de 1550 & agazalhãdose no Mosteiro de S. Cruz, nunca pode acabar com o P. D. Heliodoro, que quizesse ir pera o Mosteiro de S. Vicente pello ter consigo na Corte, prometendolhe de lhe fazer grandes mercès; & vendo que se cansava de balde, tratou com o P. Prior gèral D. Filipe o obrigasse por obediencia, porem elle se defendeo com tanta humildade, & lagrimas, que El-Rey houve por bem de o naõ molestar, & desgostar. Compoz hum Vocabulario de Grego, & Hebraico, que dedicou a El-Rey D. Joaõ III, & se imprimio no Mosteiro de S. Cruz no anno de 1532”.[2]

Obra[editar | editar código-fonte]

A sua obra chegou-nos através de manuscritos musicais do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, conservados na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra). Ele compôs missas, motetos e Magníficats, e música para tecla. Não assinou algumas das suas obras, o que torna difícil identificá-las. Hoje é possível identificar seis obras de Heliodoro de Paiva. São dele três obras vocais nos manuscritos musicais n.º 9, n.º 12 e n.º 44 (duas delas são Aleluias, a outra é uma Salve Regina), e três peças para tecla no manuscrito musical n.º 242 (Obra a Quatro do 5º Tom; Tento modo de Mi do 3º Tom; Tento do 4º Tom). A sua obra para tecla ou órgão[3] é, aliás, a primeira a surgir no contexto da História da Música em Portugal, seguindo-se os casos de António Carreira, o Velho, de Manuel Rodrigues Coelho, e de Pedro de Araújo.

Referências

  1. Azevedo, Pedro de (1918), “Rol dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho”, Boletim de Segunda Classe, Academia de Ciências de Lisboa, Vol. XI, pp. 114-115.
  2. Santa Maria, Dom Nicolao de (1668), Chronica da Ordem dos Cónegos Regrantes do Patriarcha S. Agostinho, Lisboa, Na Officina de Joam da Costa, P. II, 2, Liv. X, pp. 326-327
  3. Kastner, Macario Santiago e Fernandes, Cremilde Rosado (1969), Antologia de Organistas do Séc. XVI, Portugaliae Musica, vol. XIX, Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 100-104. Kastner, Macario Santiago (1970), Otto Tentos del cinquecento di autori spagnoli e portoghesi per strumenti a tastiera, Milano, Edicioni Suvini Zerboni, pp. 1-6.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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Cruz, António e Pimentel, Carlos F. (1937), Inventário dos Inéditos e Impressos Musicais: Subsídios para um Catálogo, prefácio de M. S. Kastner, Coimbra.

Faria, Francisco (1974), “O estilo concertante em Coimbra”, Separata da revista Bracara Augusta, vol. XXVIII, Fasc. 65-66 (77-78), Braga, Livraria da Cruz.

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Faria, Francisco (1982), “A Música em Coimbra no Século XVI”, A Sociedade e a Cultura em Coimbra no Renascimento, Coimbra, Epartur, pp. 239-256.

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Kastner, Macario Santiago (1950), “Los manuscritos musicales n.º 48 y 242 de la Biblioteca General de la Universidad de Coimbra”, Anuário Musical, Barcelona, CSIC, vol. V, pp. 78-96.

Machado, Diogo Barbosa (1965-1967), Biblioteca Lusitana, 4 volumes, Coimbra, Atlântida Editora.

Mazza, José (1944-1945), Dicionário Biográfico de Músicos Portugueses, ed. e notas de José Augusto Alegria, Ocidente, Lisboa, Tipografia da Editorial Império.

Nery, Rui Vieira (1984), A Música no Ciclo da Bibliotheca Lusitana, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 183-184.

Pinho, Ernesto Gonçalves de (1981), Santa Cruz de Coimbra: Centro de Actividade Musical nos Sécs. XVI e XVII, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.

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Valença, Manuel (1990), A Arte Organística em Portugal: c. 1326-1750, volume I, Braga, Província Portuguesa da Ordem Franciscana, pp. 106-107.

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Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura, vol. 21, "Paiva (D. Heliodoro de)", edição Verbo, Lisboa/São Paulo, 1998


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