Mozart Camargo Guarnieri

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Camargo Guarnieri
Nome completo Mozart Camargo Guarnieri
Nascimento 1 de fevereiro de 1907
Tietê Flag of Tietê.svg,  São Paulo
Morte 13 de janeiro de 1993 (85 anos)
Cidade de São Paulo Bandeira da cidade de São Paulo.svg,  São Paulo
Nacionalidade  brasileiro(a)
Etnia Itália Ítalo-brasileiro Brasil
Ocupação Compositor erudito, maestro, músico, pianista, arranjador, poeta, letrista e regente
Escola/tradição Música clássica
Principais críticos Academia de Artes

Mozart Camargo Guarnieri, ou simplesmente Camargo Guarnieri, como preferia ser chamado em respeito ao compositor Wolfgang Amadeus Mozart, (Tietê, 1 de fevereiro de 1907São Paulo, 13 de janeiro de 1993) foi um compositor e regente brasileiro.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Os anos de formação (até 1935)[editar | editar código-fonte]

Camargo Guarnieri nasceu na cidade do Tietê, São Paulo, em 1 de fevereiro de 1907.[1] Seu pai era um imigrante italiano e sua mãe vinha de uma tradicional família paulista. O pai, Miguel Guarnieri, era barbeiro e músico, e tocava flauta. A mãe, Gécia Camargo, tocava piano. O pequeno Guarnieri aprendeu música em casa.[2]

Teve aulas de piano a partir dos dez anos de idade com Virgínio Dias. Para este professor dedicou sua primeira composição, a valsa Sonho de artista (1918). A obra foi desdenhada pelo professor, mas seu pai julgou que a obra era fruto de promissor talento, pagando sua publicação em 1920.

Em 1923, Miguel Guarnieri decidiu mudar-se com a família para São Paulo a fim de proporcionar melhores condições de estudo da música ao filho. Sendo uma família de poucos recursos financeiros, Guarnieri trabalhou junto com o pai na barbearia e trabalhou como pianista. Até 1925 manteve vários empregos, tocando em cinemas, lojas de partitura e casas de baile da cidade. Estudou piano com Ernani Braga.

Em 1925 seu pai obteve melhor emprego, o que permitiu a Guarnieri reduzir sua carga de trabalho e dedicar-se mais ao estudo da música. Passou a ter aulas de piano com Antônio de Sá Pereira, e, alguns anos depois, começou também a estudar harmonia, contraponto, orquestração e composição com o maestro Lamberto Baldi, recém chegado da Itália.[2] Baldi tinha vindo para São Paulo como regente de uma companhia de ópera italiana, mas acabou transferindo sua residência para a cidade. Além de trabalhar como professor, Baldi foi regente da Sociedade Sinfônica de São Paulo e diretor musical da Sociedade Rádio Educadora Paulista. Em 1932 mudou-se para Montevidéu, o que significou para Camargo Guarnieri a interrupção de seus estudos de composição sem que o jovem compositor se julgasse preparado.

Em 1928 foi apresentado a Mário de Andrade, a quem mostrou suas obras recém compostas Canção Sertaneja e Dança Brasileira.[3] O escritor modernista tornou-se seu mestre intelectual. Guarnieri passou a frequentar a casa de Mário de Andrade, com quem discutia estética, ouvia obras musicais e tomava livros emprestados. Tendo cursado até então apenas dois anos do curso primário, o contato com o escritor foi muito importante para a formação intelectual de Guarnieri. O contato entre ambos tornou-se uma grande amizade e também uma parceria artística. Muitas das canções escritas por Camargo Guarnieri foram sobre textos de Mário de Andrade, incluindo a ópera Pedro Malazarte.[4] Exercendo atividade como crítico musical na imprensa, Mário de Andrade foi um dos principais responsáveis pela aceitação e pela divulgação da obra de Camargo Guarnieri.

Em 1931 Camargo Guarnieri teve a estréia de sua primeira composição sinfônica, Curuçá, regida por Villa-Lobos em concerto da Sociedade Sinfônica de São Paulo. Entretanto, a peça jamais foi executada novamente, nem teve sua partitura publicada. Outras experiências de composição sinfônica foram tentadas por Camargo Guarnieri, incluindo transcrições de sua música composta para piano (das quais a Dança Brasileira se tornaria a mais célebre, chegando a ser gravada a versão orquestral por Leonard Bernstein com a Filarmônica de Nova York na década de 1960) e a composição do Concerto n° 1 para piano e orquestra. Esta obra foi estreada em 1935 tendo o compositor como regente e o solo executado por Souza Lima.

Profissionalização (1935-1950)[editar | editar código-fonte]

Em 1935 a prefeitura de São Paulo criou o Departamento de Cultura, cujo primeiro diretor, Mário de Andrade, convidou Guarnieri como regente do Coral Paulistano.[1] Este deveria ser um conjunto de câmera, pois o município também iria manter o Coral Lírico para dedicar-se ao repertório operístico. O Coral Paulistano tinha também como objetivo fomentar o canto em língua nacional, e Camargo Guarnieri compôs para ele diversas obras corais. Foi também no Departamento de Cultura que Guarnieri passou a reger a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, e o trabalho nesta instituição pública foi sua principal atividade profissional ao longo de toda a década de 1940.

Em 1938 o compositor foi selecionado em concurso pela Comissão do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, recebendo uma bolsa de estudos de dois anos, renovável por mais um, para estudar em Paris. Na capital francesa teve aulas de contraponto, harmonia, orquestração e composição com Charles Koechlin, e de regência com François Rühlmann. Além das aulas, realizou concertos, a travou conhecimento com Nádia Boulanger, figura central da chamada escola neo-clássica. A temporada parisiense foi abortada prematuramente por causa de vários fatores, entre eles a instabilidade financeira sofrida pelo compositor quando mudanças políticas no município de São Paulo levaram à perda de uma bolsa complementar, e também a ecolsão da guerra e a iminência da ocupação alemã.

Em retorno a São Paulo, em 1939, Guarnieri manteve-se de forma incerta, terminando por ocupar outras funções no Departamento de Cultura, visto que seu cargo de regente tivesse sido ocupado quando de sua ausência. Mário de Andrade já não estava na direção do Departamento de Cultura, e vivia no Rio de Janeiro. Outros intelectuais passam apoiar e divulgar a música de Guarnieri, especialmente Luiz Heitor. Desde 1934 Camargo mantinha também estreita correspondência com Curt Lange, musicólogo alemão radicado no Uruguai. Este provavelmente tomou contato com sua música por indicação de Lamberto Baldi, que agora trabalhava na capital uruguaia.

Em decorrência das gestões para intercâmbio cultural entre Estados Unidos e Brasil, no âmbito da Política da Boa Vizinhança de Roosevelt, Camargo Guranieri se tornou o principal compositor brasileiro a atrair a atenção do meio musical norte-americano. O compositor Aaron Copland veio ao Brasil como enviado do Departamento de Estado para sondar compositores que receberiam bolsas de estudo nos Estados Unidos.[2] Ele e Camargo Guarnieri tornaram-se amigos pessoais, e o compositor norte-americano tornou-se posteriormente um dos principais divulgadores da música de Guarnieri nos Estados Unidos. Além de Copland, Guarnieri travou contato com o flaustisa e musicólogo Carleton Sprague Smith, que residiu muitos anos no Brasil como uma espécie de representante musical dos Estados Unidos. Outro importante personagem norte-americano com quem Guarnieri travou contato foi o diretor da Divisão de Música da União Panamericana, o compositor Charles Seeger. O contato entre ambos deu-se a partir de Luiz Heitor, que trabalho como secretário da Divisão de Música em Washington, em 1941.

De todas estas gestões, resultou um convite do Departamento de Estado norte-americano para que Guarnieri passasse uma temporada de seis meses nos Estados Unidos como bolsista, viagem que foi realizada entre outubro de 1942 e março de 1943. Na ocasião Guarnieri realizou importantes contatos e promoveu sua música em concertos. Sua obra recebeu apoio entusiasmado de Serge Koussevitzky, regente da Sinfônica de Boston,[5] que cedeu o pódio a Guarnieri para reger sua Abertura Concertante - a primeira obra sinfônica de maior fôlego do compositor brasileiro.

A Abertura Concertante tinha sido composta durante o ano de 1942, e estreada no Brasil.[6] A intenção era suprir uma notável deficiência do catálogo da Camargo Guarnieri: a ausência de composições sinfônicas. Após as experiências frustradas de compor música sinfônica no início da década de 1930, Guarnieri continuava compondo obras para piano e canções. A composição sinfônica foi retomada após a volta de Paris, com o Concerto n° 1 para violino e orquestra, estreado em 1940 no Rio de Janeiro, com a Orquestra Sinfônica Brasileira,[2] sob regência do compositor e tendo Eunice de Conte como solista. Apesar de ganhar prêmio em concurso internacional, que foi recebido por Guarnieri na Filadélfia em 1942, a obra nunca foi executada nos Estados Unidos, e permaneceu inédita até a edição da partitura feita recentemente por Lutero Rodrigues, que também foi responsável pela primeira execução da obra em quase 70 anos.

Outra experiência de composição sinfônica foi a peça Encantamento, escrita sob encomenda de Charles Seeger para o sistema de bandas sinfônicas dos Estados Unidos. A peça chegou a ser editada nos Estados Unidos em versão para clarinete e piano. Mas a composição original foi para orquestra sinfônica, sendo uma peça curta em movimento único.

Ou seja, quando recebeu o convite para ir aos Estados Unidos, Guarnieri não tinha nenhuma obra sinfônica de peso em seu catálogo. O que significaria a perda de grande oportunidade, visto que a música sinfônica estava em franca ebulição nos Estados Unidos, conjugando a presença dos mais notáveis regentes europeus que haviam fugido da guerra e do nazi-fascismo, juntamente com o surgimento das transmissões sinfônicas por rádio e da gravação de música sinfônica em LP. Preocupado em atender esta demanda foi que Guarnieri compôs a Abertura Concertante, agora sim uma peça de maior fôlego, com cerca de 12 minutos de duração, apesar de ser ainda em movimento único. A peça foi dedicada a Aaron Copland, que manifestou opinião favorável a ela em carta a Guarnieri, elogiando especialmente o aspecto a respeito do qual Guarnieri sentia maior insegurança: a orquestração.

Durante a temporada nos Estados Unidos, Guarnieri comenta em carta a Mário de Andrade que já estava trabalhando em sua Sinfonia n° 1, obra que veio a concluir apenas em 1945. Quando da conclusão desta peça, Guarnieri articulou uma turnê para estreá-la. Realizou concertos regendo sua obra em São Paulo, no Rio de Janeiro e, com a colaboração de Curt Lange, organizou também uma turnê de concertos em Montevidéu, Buenos Aires e Santiago. A capacidade de compor uma obra sinfônica de fôlego e, mais do que isso, estreá-la quase que simultaneamente em cinco importantes capitais sul-americanas serviu como testemunho da consagração definitiva de Camargo Guarnieri, e de seu estabelecimento como compositor amplamente reconhecido.

Em 1950, Camargo Guarnieri envolveu-se em uma ampla polêmica na imprensa, após publicar a Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil,[7] na qual condena a técnica dodecafônica de composição. A carta faz referências veladas a Hans-Joachim Koellreutter, líder do grupo Música Viva. Por causa das posturas assumidas na carta, e do linguajar virulento utilizado, Camargo Guarnieri acabou sendo visto como um reacionário, posição que certamente não reflete o seu papel na música brasileira.

Uma referência na cultura brasileira: década de 1950 em diante[editar | editar código-fonte]

Após a publicação da polêmica Carta Aberta, Guarnieri já se torna uma referência cultural importante. O documento marca a passagem de Guarnieri da fase de Compositor jovem, que se afirma junto com o modernismo, para nome de referência na cultura musical brasileira, ao lado de Villa-Lobos e Francisco Mignone.

Testemunha deste novo papel é a organização do livro 150 anos de música no Brasil (1800-1950) escrito por Luiz Heitor, e publicado pela Editora José Olímpio. O livro se tornou a principal referência de História da Música no Brasil, e dedicou um capítulo exclusivo a Guarnieri.

A década de 1950 também marca o início do que vai ficar conhecido como Escola Paulista - com Camargo Guarnieri tornando-se um dos principais professores de composição no país. Entre seus alunos destacaram-se os nomes de Osvaldo Lacerda, Lina Pires de Campos, Marlos Nobre, Almeida Prado, Villani-Côrtes, Nilson Lombardi, Maria José Carrasqueira.

Entre janeiro de 1956 e janeiro de 1961 o compositor exerceu o cargo de Assessor Artístico-Musical do Ministério da Educação, durante a gestão de Clóvis Salgado, no governo de Juscelino Kubitschek.

Sua reputação internacional continuou crescente, sendo sempre executado nos Estados Unidos. Foi também muitas vezes convidado a participar de juris internacionais em concursos.

Em 1975 assumiu a direção da recém-criada Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo, OSUSP, cargo que exerceu até o fim da vida.

Foi condecorado pela Presidência da República Portuguesa com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique (Junho de 1992).

Obra[editar | editar código-fonte]

Na Cultura[editar | editar código-fonte]

A obra musical de Camargo Guarnieri é formada por mais de 700 obras e é provavelmente o segundo compositor brasileiro mais executado no mundo, superado apenas por Villa-Lobos. Pouco antes de sua morte recebeu o prêmio "Gabriela Mistral", sob o título de "maior compositor das Américas".

O acervo pessoal de Camargo Guarnieri (correspondência pessoal, partituras, discos, recorte de jornal, etc.) está depositado no arquivo do IEB-USP, e consiste no principal arquivo para pesquisa sobre o compositor.

Referências

  1. a b Revista de teatro, Edições 397-408. Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, 1974. pp. 14.
  2. a b c d Camargo Guarnieri (em português) R7. Algo Sobre. Página visitada em 13 de janeiro de 2013.
  3. Neves, José Maria. Música contemporânea brasileira. Ricordi Brasileira, 1981. pp. 66.
  4. Pereira, Maria Elisa. Lundu do escritor difícil: canto nacional e fala brasileira na obra de Mário de Andrade. UNESP, 2006. pp. 88. ISBN 8571397287
  5. The New Yorker, Volume 69, Edições 24-27. New Yorker Magazine, Incorporated, 1993. pp. 15.
  6. Basso, Alberto. Bus - Fox. UTET, 1985. pp. 78. ISBN 8802039313
  7. Verhaalen, Marion. Camargo Guarnieri: expressões de uma vida. EdUSP, 2001. pp. 45. ISBN 853140634X

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BUSCACIO, Cesar. Americanismo e Nacionalismo Musicais na Correspondência de Curt Lange e Camargo Guarnieri 1934-1956. Ouro Preto: Editora UFOP, 2011.
  • Arnaldo Daraya, Arnaldo. Música e ideologia no Brasil (em português). 2 ed. São Paulo: Novas Metas, 1985. 79 pp. Página visitada em 13 de janeiro de 2013.
  • EGG, André. Fazer-se compositor: Camargo Guarnieri 1923-1945. Tese de doutorado, FFLCH-USP, 2010. (disponível aqui)
  • RODRIGUES, Lutero. As características da linguagem musical de Camargo Guarnieri em suas sinfonias. Dissertação de mestrado, IA-UNESP, 2001.
  • Silva, Flávio. Camargo Guarnieri: O Tempo e a Música (em português). Rio de Janeiro/São Paulo: Ministério da Cultura/FUNARTE, 2001. 671 pp. Página visitada em 13 de janeiro de 2013.
  • Tacuchian, Fátima. Panamericanismo, propaganda e música erudita: Estados Unidos e Brasil (1939-1948) (em português). São Paulo: FFLCH-USP, 1998. Página visitada em 13 de janeiro de 2013.
  • TONI, Flávia. "Mon cher elève: Charles Hoechlin, professor de Camargo Guarnieri." in Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n° 45, setembro de 2007, p. 107-122.
  • Verhaalen, Marion. Camargo Guarnieri: expressões de uma vida (em português). São Paulo: EdUSP, 2001. 498 pp. ISBN 853140634X Página visitada em 13 de janeiro de 2013.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]