José Maurício Nunes Garcia

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José Maurício Nunes Garcia
Retrato do Padre José Maurício Nunes Garcia.
Informação geral
Nome completo José Maurício Nunes Garcia
Nascimento 22 de setembro de 1767
Origem Rio de Janeiro
País Brasil colônia e independente
Data de morte 18 de abril de 1830 (62 anos)
Gênero(s) Música sacra

O padre José Maurício Nunes Garcia (Rio de Janeiro, 22 de setembro de 176718 de abril de 1830) foi um compositor brasileiro de música sacra que viveu a transição entre o Brasil Colônia e o Brasil Império. É considerado um dos maiores compositores das Américas de seu tempo.[1]

Nunes Garcia era um religioso, mas conhecedor das ideias iluministas, compositor, regente, virtuose do órgão e do cravo, professor renomado, autor de modinhas e, por fim, mestre de capela da da cidade (posto mais importante para um músico no Brasil Colônia).

De origem humilde, sua história está entrelaçada a fatos marcantes da história brasileira. No começo do século XIX, o músico mulato atinge estatura intelectual e herda um legado precioso de compositores, mulatos-livres que alcançaram prestígio com a música, como Francisco Gomes da Rocha, Marcos Coelho Neto, Ignácio Parreiras Neves e José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita[nota 1] No final do século XVII torna-se aluno do poeta e bacharel Silva Alvarenga, um dos fundadores da Sociedade Literária, difusora das ideias do Iluminismo[nota 2] [2] É assim que José Maurício busca o único caminho para o exercício da profissão de músico à época: tornar-se padre.

Vida[editar | editar código-fonte]

José Maurício era filho de Apolinário Nunes Garcia e Victória Maria da Cruz. Ele, da Ilha de Paquetá, filho de escrava. Ela, também filha de uma escrava da Guiné, que veio para o Rio de Janeiro acompanhando seu senhor.[3] Aí se conheceram - ambos "pardos forros" - como se chamavam os filhos livres de escravos -, e casaram-se na Igreja de Santa Rita de Cássia.

Desde cedo revela-se talentoso para a música. Sua trajetória, entretanto, não foi tranquila. O músico nasceu na Rua da Vala, caminho para o Valolongo - mercado de escravos do Rio de Janeiro, mas segundo registrou Araújo Porto Alegre, nascera na freguesia da Ajuda, na ilha do Governador.[3] Aos seis anos perdeu o pai e passou a ser criado pela mãe com a ajuda de uma tia. As duas mulheres, lavadeiras, percebem o interesse do menino para a música e trabalham em dobro para custear as aulas particulares com o professor Salvador José de Almeida Faria, músico mineiro que trazia na bagagem toda a tradição clássica setecentista.[4]

Seu progresso foi tão rápido que aos doze anos já ensinava outros alunos e aos 16 anos compôs sua primeira obra, uma antífona para a Catedral e Sé do Rio de Janeiro: Tota pulcra es Maria (1783). Em 7 de setembro de 1871 ingressou na Irmandade de São Pedro dos Clérigos, compondo para ela três Te Deums.[5] Em 1792, o neto de escravos foi ordenado padre e, em 1798 tornou-se mestre de capela da Catedral do Rio de Janeiro. Na época, a Sé funcionava na atual Igreja da Irmandade do Rosário e São Benedito. Como mestre de capela, José Maurício compunha novas obras e dirigia os músicos e cantores nas cerimônias da Sé, além de atuar ele mesmo como organista, mas ele já compunha para a capela antes mesmo de ser designado para ela, havendo o registro de umas Vésperas de Nossa Senhora, de 1797, a ela dedicadas.[3]

Em 1808, a chegada da Família Real Portuguesa influiu diretamente na vida do compositor. Quando o príncipe regente, Dom João, ao desembarcar, devido a reformas por que passava a Catedral, cumpriu o protocolo religioso na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, onde ouviu encantado um Te Deum de autoria do músico, sendo o primeiro contato entre ambos. A presença da corte transformou a vida da cidade e por extensão de toda a colônia. O Rio passou a ser a sede administrativa, recebendo várias melhorias e uma série de instituições que organizaram o território nacional e alavancaram um rápido progresso em várias frentes, como a Biblioteca Nacional, a Imprensa Régia, o Jardim Botânico, a Academia de Belas Artes e o Museu Nacional e, o mais importante para Nunes Garcia, a Capela Real. Outras audições que Dom João fez de suas composições convenceram-no a nomear José Maurício mestre de capela da Capela Real. A Capela Real funcionava na Igreja do Carmo, que passou a ser também a catedral.[3] O príncipe era um notório amante da música, e teve especial preocupação de dotar a Capela com um corpo de músicos e cantores recrutados entre os melhores da Europa, tornando-a uma das melhores instituições musicais da América de seu tempo. Com essa base sólida estabelecida, a Capela deu condições para José Maurício aprofundar seu trabalho e enriquecer seus conhecimentos, pois além de possibilitar apresentações de alta qualidade, Dom João trouxera também uma grande biblioteca de partituras e tratados musicais, da qual o padre, também nomeado seu arquivista, conheceu obras importantes de notáveis mestres em atividade na Europa, como Mozart e Haydn, aperfeiçoando sua técnica de instrumentação e sua escrita vocal.[6] [3] [1]

O período entre 1808 e 1811 é o mais produtivo de Nunes Garcia, durante o qual ele compõe cerca de setenta obras para várias funções sacras e solenidades. Em 1809, dom João condecora-o com o Hábito da Ordem de Cristo, sinal da grande estima que tinha pelo músico. Não escapou porém do preconceito de alguns membros da corte, que se referiam à sua cor de pele como um "defeito visível".[7] Mas este período dourado durou pouco. Em 1811 chegou à corte Marcos Portugal, o compositor português mais célebre do seu tempo, que tinha suas obras apresentadas por toda a Europa de então. A fama do recém-chegado levou dom João a pôr Marcos Portugal à frente da Capela Real, substituindo Nunes Garcia. O brasileiro continuou, porém, a ser custeado pelo governo e a compor esporadicamente novas obras para a Capela, mas iniciava-se o seu declínio.[3]

Em 1816 dirigiu na Igreja do Carmo um Requiem de sua autoria, em homenagem à rainha portuguesa D. Maria I, morta naquele ano no Rio. Em 1816 chega à corte o compositor austríaco Sigismund Neukomm, que estabeleceu uma grande amizade com o brasileiro. Mais tarde Nunes Garcia dirigiu as estreias brasileiras do Requiem de Mozart (1819) e de A Criação de Haydn (1821).[3]

O empobrecimento da vida cultural após o retorno de D. João VI a Portugal e a crise financeira depois da Independência do Brasil (1822) causaram uma diminuição da atividade de Nunes Garcia, agravada pelas más condições de saúde do compositor. Em 1826 compôs sua última obra, a Missa de Santa Cecília, para a irmandade de mesmo nome. Morreu em 18 de abril de 1830, em difícil situação financeira. Apesar de ser padre, teve seis filhos, dos quais reconheceu um.[3]

Contexto[editar | editar código-fonte]

Retrato do Padre José Maurício Nunes Garcia por seu filho

O padre José Maurício floresceu numa época crítica para a história brasileira. O Rio de Janeiro, pouco antes da chegada da corte portuguesa, culturalmente em nada se distinguia dos demais grandes centros nacionais - Salvador, Recife, Minas Gerais, São Paulo. A presença real no Rio mudou esta situação radicalmente e de improviso, atraindo todas as atenções e passando a ser o centro de irradiação de estéticas novas, nomeadamente o neoclassicismo, com o abandono da tradição barroca que até então continuava a exercer grande influência em todo país. É certo que esta tradição ancestral não feneceu imediatamente, mas, dali em diante, o patrocínio oficial à vertente neoclássica foi o golpe mortal nela infligido, e do Rio irradiou-se uma visão diferente que aos poucos dominaria em todo o território, em particular pela atuação da Missão Francesa e de outros artistas que chegaram da Europa.[7]

José Maurício tinha luzes surpreendentes para alguém de sua origem e condição social. Pobre, mulato, perdendo o pai cedo e sendo educado com grande dificuldade, até hoje não se sabe exatamente como conseguiu adquirir a cultura que seus primeiros biógrafos reiteradamente alegam ter-lhe pertencido. Seu progresso na Igreja foi muito rápido, a ponto de ser dispensado de formalidades e pré-requisitos, onde a ascendência de sangue escravo era um estorvo considerável para uma carreira eclesiástica e mesmo mundana bem sucedida naquela sociedade escravocrata e preconceituosa. Mais tarde foi indicado Pregador Régio da Capela Real, e o bispo seu superior declarou que ele era um dos mais ilustrados sacerdotes de sua diocese.[7]

Antes do período cortesão suas composições se ressentem da escassez de recursos humanos e técnicos do ambiente, a diversas peças suas traem a indisponibilidade de instrumentistas, forçando-o a adotar soluções fora da ortodoxia como acompanhamentos reduzidos ao órgão, ou às madeiras. Durante bom tempo as aulas de teoria e prática musical que ministrava tinham de ser realizadas apenas com a viola de arame, não podendo contar sequer com um cravo ou pianoforte.[7]

Os seis filhos que teve com Severiana Rosa de Castro eram um fato embaraçoso para um padre que subira a uma alta posição, e isso possivelmente contribui para o gradual ostracismo a que foi submetido a partir da chegada ao Rio de Marcos Portugal, celebrado operista português neoclássico que logo caiu nas graças da nobreza. O estilo vocal profusamente ornamentado derivado da ópera napolitana que passou a ser privilegiado na corte, mais sua inapetência para a música profana, foram outras pedras de tropeço para o padre tímido e ingênuo que desenvolvia um estilo direto e de melodismo simples e sincero que ainda tinha raízes plantadas na tradição rococó, e logo sua música caiu de moda. Suas tentativas de adaptação ao gosto vigente foram uma violência que exerceu contra si mesmo e sua música, em busca da aprovação do monarca que admirava, e as composições que escreveu depois da chegada de Marcos Portugal já não possuem o fervor religioso espontâneo e tocante que mostram suas obras anteriores, como a série de motetos a capella das Matinas de Finados, de 1809, intensamente expressivos, embora tenham evidenciado sensíveis avanços técnicos que possibilitaram a criação de obras de grande envergadura como a Missa de Santa Cecília, de 1826.[7]

Seu declínio se acentuou com a partida de Dom João e com o vazio que isso produziu na cena musical carioca. Seu sucessor Dom Pedro I, apesar de amante da música e simpático ao padre, não pôde manter a pensão do compositor, e ele teve de fechar sua escola. Um de seus filhos, escrevendo sobre o pai nesta fase de obscurecimento, fala de sua frustração, de um envelhecimento precoce e de doenças crônicas que perturbaram sua produção e paz de espírito.[7]

A apreciação contemporânea o considera o maior compositor brasileiro de seu tempo, mas critica suas concessões aos modismos que não encontravam eco verdadeiro em sua natureza, e certa contenção excessiva em sua escrita, que nunca mostra rasgos mais audazes ou experimentalismos. Sua produção conhecida chega a cerca de 240 obras, muitas delas redescobertas ou restauradas em meados do século XX por Cleofe Person de Mattos, musicóloga que teve papel fundamental na revalorização da música do período colonial brasileiro. Hoje em dia suas composições voltaram às salas de concertos e recitais em igrejas, já tendo diversas delas gravadas e publicadas.[7]

Obra[editar | editar código-fonte]

Padre José Maurício compôs cerca de 26 Missas, quatro missas de Requiem, Responsórios, Matinas, Vésperas, um Miserere, um Stabat Mater, um Te Deum, Hinos, modinhas e pequenas peças profanas.

Principais obras[editar | editar código-fonte]

  • Música dramática: Le Due gemelle[1] ; Coro para o entremês (1808); O Triunfo da América (1809); Ulisséia (1809).
  • Música orquestral: Sinfonia fúnebre (1790); Sinfonia tempestade.
  • Modinhas: Beijo a mão que me condena; No momento da partida.
  • Música instrumental: Doze divertimentos (1817).
  • Música sacra: Tota pulchra es Maria (1783); Ecce sacerdos (1798); Bendito e louvado seja (1814 e 1815); Christus factus est (1798?); Miserere para Quarta-feira de trevas (1798); Libera me (1799); Missa de Réquiem (1799); Ofício de defuntos (1799); Judas mercator (1809); Matinas da ressurreição (1809?); Missa de Requiem (1809); Missa de Réquiem (1816); Missa de Santa Cecília (1826).

Muitas das obras do Padre José Maurício estão disponíveis no Acervo do Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro,[8] recentemente restaurado e digitalizado num projeto com patrocínio da Petrobrás.

Exemplo: Moteto Domine Jesu (versão midi)

Sua obra Methodo de Pianoforte foi gravada na íntegra, em CD, pela pianista Ruth Serrão, no ano 2008.

Referências

  1. a b c Jornal do Brasil, 13 de agosto de 1930
  2. "Devassa" - Revista da Faculdade de Letras – Línguas e Literaturas, II série, vol. XIV, Porto: Faculdade de Letras, 1997, p. 571-573.
  3. a b c d e f g h Bernardes, Ricardo. "José Maurício Nunes Garcia e a Real Capela de D. João VI no Rio de Janeiro". In: Revista Textos Brasileiros, (12):41-45
  4. "Entre a glória e o esquecimento. In: Revista História Viva. São Paulo: Editora Duetto, 2004, pp. 85-89
  5. Oliveira, Jetro Meira de; Machado, Elton Leandro & Martins, Gabriel Iglesias. "O Te Deum CPM 92 de José Maurício Nunes Garcia: processo de transcrição/edição". In: Anais do XXI Congresso da ANPPOM, 2011, pp. 995-1001
  6. Mariz, Vasco. A música no Rio de Janeiro no tempo de D. João VI. Casa da Palavra, 2008, pp. 32-40
  7. a b c d e f g Mariz, Vasco. História da Música no Brasil. Nova Fronteira, 2005. pp. 51-59
  8. Acervo do Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro

Notas

  1. Desde 1763, a cidade de Salvador deixara de ser sede do Vice-Reino de Portugal - a mudança para o Rio de Janeiro justificava-se por sua proximidade com a região das Minas Gerais, de elevada importância comercial para a Coroa portuguesa
  2. O surgimento da Sociedade Literária viria estimular o sentimento nativista brasileiro. Com a Inconfidência Mineira a Sociedade foi dissolvida e seus membros permaneceram presos por quase três anos.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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