Beda

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São Beda, o Venerável
Beda (1902)
Monge e Doutor da Igreja
Nascimento c. 672 em próximo de Sunderland
Morte 26 de maio de 735 (62 anos) em Jarrow, Nortúmbria
Veneração por Igreja Católica
Igreja Ortodoxa Oriental
Igreja Anglicana
Igreja Luterana
Canonização Em 1899 foi considerado um Doutor da Igreja, Roma por Papa Leão XIII
Principal templo Catedral de Durham
Festa litúrgica 25 de Maio
27 de Maio (Calendário geral romano, 1899–1969)
Padroeiro Escritores ingleses; Jarrow
Gloriole.svg Portal dos Santos

Beda (inglês antigo Bæda, inglês Bede), também conhecido como São Beda ou Beda, o Venerável, nascido cerca de 672 e falecido a 26 de maio de 735, foi um monge anglo-saxão do mosteiro de Jarrow, no antigo Reino da Nortúmbria. Tornou-se famoso pela sua Historia ecclesiastica gentis Anglorum (História Eclesiástica do Povo Inglês), que lhe valeu o título de "Pai da História Inglesa", embora tenha escrito sobre muitos outros temas. Logo após a morte tornou-se conhecido como Venerável. A sua importância para a doutrina católica foi reconhecida em 1899, quando foi declarado Doutor da Igreja.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Quase tudo o que se sabe sobre a vida de Beda está contido no ultimo capítulo de sua obra Historia ecclesiastica gentis Anglorum, que narra a história da igreja na Inglaterra. Sua data de nascimento é calculada por uma passagem em que diz ele ter completado a escrita quando tinha 59 anos, e sabendo-se que isso se deu em torno do ano 731, terá nascido entre 672–673.[1] [2] [3] Contudo, a interpretação da passagem é controversa.[4] Ainda segundo o próprio Beda, nasceu "nas terras do seu mosteiro",[5] referindo-se aos mosteiros gêmeos de Wearmouth e Jarrow.[6] Uma tradição diz que ele nascera em Monkton, a duas milhas do mosteiro de Jarrow.[7] Ele não mencionou sua origem, mas é provável que sua família fosse rica e talvez nobre.[8] [9]

Com sete anos foi mandado para o mosteiro de Wearmouth para ser educado por Benedict Biscop e Ceolfrith, mas não é claro se já havia intenção de torná-lo monge.[10] Era comum no seu tempo que filhos de famílias nobres fossem educados fora de casa. Ceolfrith fundou em 682 o mosteiro de Jarrow, para onde Beda provavelmente foi no mesmo ano. É possível que tenha ajudado na construção da igreja do mosteiro.[11] Um menino que acompanhava Ceolfrith citado em uma Vida de Ceolfrith escrita no ano de 710 quase certamente é Beda. O texto diz que o mosteiro em 686 havia sido flagelado com uma praga, morrendo vários monges, e narra a dificuldade de Ceolfrith e desse dito menino para restaurar o culto. Beda devia ter então uns 14 anos.[12] [13] [14]

Com cerca de 17 anos veio a conhecer Adomnan, que estava visitando os mosteiros de Wearmouth e Jarrow, e dele pode ter partido um estímulo sobre o jovem para estudar a Controvérsia da Páscoa.[15] Em torno de 692 foi ordenado diácono pelo Bispo de Hexham, John of Beverley. A idade canônica para o diaconato era 25 anos, e a ordenação precoce pode indicar que suas habilidades foram consideradas exepcionais.[11] Em torno de 702 foi ordenado padre.[9]

Nesta altura estava escrevendo as obras De Arte Metrica e De Schematibus et Tropis, para uso didático. Foi o início de uma longa carreira literária, deixando um legado de mais de 60 livros, a maioria dos quais sobreviveu até nossos dias, mas nem todos podem ser datados com segurança.[9] Também foi professor,[16] apreciava música, e a tradição diz que ele era excelente cantor e recitador de poesia.[17] Em duas passagens de suas obras citou literalmente possuir esposa, as únicas em que falou na primeira pessoa do singular, mas isso pode ser uma figura de retórica.[18] [19]

Em 708 alguns monges da Abadia de Hexham acusaram-no de heresia por causa de um de seus escritos, De Temporibus. O motivo foi ele ter calculado por si mesmo a idade do mundo em vez de aceitar a doutrina ortodoxa da igreja, apontando a data do nascimento de Cristo para o ano 3952 depois da criação do mundo, enquanto a igreja afirmava que Cristo nascera mais de 5 mil anos depois da criação.[20] Defendeu-se em uma carta para o bispo Wilfrid.[21]

Em 733 viajou para York para visitar Ecgbert, o bispo local. Tentou voltar para lá no ano seguinte, mas uma doença o impediu.[22] Fez outras viagens a vários pontos das ilhas britânicas, pelo que se deduz de sua correspondência, mas ele nada diz sobre quais lugares nem quando os visitou.[23] Beda disse ter visitado Roma, mas isso hoje é considerado improvável.[24] [25]

Seu discípulo Cuthbert[desambiguação necessária] escreveu uma carta para um certo Cuthwin, descrevendo os últimos dias do religioso. De acordo com o documento, antes da Páscoa de 735 Beda caíra doente com vários ataques de asfixia, mas quase sem dor. O mal se prolongou e no dia 25 de maio ficou mais grave, mas isso não o impediu de trabalhar, ditando textos para seu secretário até o dia seguinte. Às 3 horas pediu que lhe trouxessem certa caixa, de onde tirou alguns presentes para seus companheiros: um pouco de pimenta, guardanapos e incenso.[26] Logo depois, faleceu, sendo enterrado em Jarrow.[9] Cuthbert também refere um poema de cinco linhas em vernáculo que Beda teria composto em seu leito de morte, mas a autenticidade do texto, o mais divulgado da literatura em inglês antigo, não é inteiramente certa.[27] [28] Seus restos mortais foram transferidos para a Catedral de Durham possivelmente no século XII; sua tumba lá foi saqueada em 1541, mas o conteúdo provavelmente foi reenterrado em uma capela da mesma catedral.[9]

Obra[editar | editar código-fonte]

Retrato de Beda na Crônica de Nuremberg (1493).
Fólio do manuscrito Beda Petersburgiensis contendo a Historia ecclesiastica gentis Anglorum
Tumba de Beda

Beda escreveu sobre ciência, música, gramática, história, exegese, hagiografia e teologia, além de ter sido um grande correspondente. Conhecia as literaturas patrística e clássica, conhecia um pouco de grego e hebreu, e seu latim é em geral claro. Seus comentários sobre as Escrituras empregam o método alegórico e seus escritos históricos incluem relatos sobre milagres, o que deixa a crítica moderna incerta sobre como analisar essa parte de sua obra.[29] Mas já existe a compreensão de que a visão histórica colorida pelo sobrenatural como a dele era parte da concepção de mundo predominante na época.[30] Sua produção neste campo é importante e muito estudada, e a ela deve a maior parte de sua fama atual, sendo considerado o primeiro historiador da Europa cristã. Porém, quando vivo suas outras obras também foram consideradas referência em suas áreas.[31] [32] [33] [34]

Sua peça mais conhecida é Historia ecclesiastica gentis Anglorum (História Eclesiástica do Povo Inglês), completada em 731 ou pouco depois.[35] [34] Foi auxiliado na escrita por Albino, monge da abadia agostiniana de Cantuária. No prefácio, dedica a obra a Ceolwulf, rei da Nortúmbria.[36]

O primeiro dos cinco volumes inicia com uma descrição geográfica da Inglaterra, passando depois para a parte histórica, narrando-a a partir do ano de 55 a.C., quando Júlio César invadiu as ilhas.[37] Depois de um resumo sobre o cristianismo primitivo na Britânia romana, incluindo a história do protomártir Santo Albano, ele passa para o relato da missão de Agostinho de Cantuária à Inglaterra em 597, que introduziu o cristianismo entre os anglo-saxões.[9] O segundo volume inicia com a morte de Gregório, o Grande em 604, segue descrevendo os progressos do cristianismo em Kent e a tentativa de introdução da fé na Nortúmbria, que terminou em martírios. O avanço continuou mais tarde, como ele descreve no terceiro volume,[38] cujo clímax é o relato sobre o Concílio de Whitby, um evento importante na história britânica.[39] No quarto volume é narrada a consagração de Teodoro como Arcebispo de Cantuária e os esforços de Wilfrid para levar o cristianismo ao Reino de Sussex. O quinto volume termina no tempo do próprio Beda, e inclui um relato sobre o trabalho missionário na Frísia e outro sobre a Controvérsia da Páscoa.[40]

A Historia ecclesiastica foi copiada muitas vezes na Idade Média e sobrevivem 160 manuscritos completos e mais de 100 fragmentários, procedentes de vários pontos da Europa. Apareceu impresso pela primeira vez em 1474.[41] [42] O livro tem sido estudado extensamente, havendo várias edições modernas.[34]

Veneração[editar | editar código-fonte]

Em seu tempo Beda era famoso por seus comentários, homilias e exegeses bíblicas, bem como por outros tratados teológicos, e foi por seus méritos neste campo que acabou sendo declarado Doutor da Igreja.[43] [44]

Sua veneração só iniciou na Inglaterra depois de ter se estabelecido no continente ainda no século VIII, pelos esforços de São Bonifácio e São Alcuíno. Quando passou a ser venerado nas ilhas, às vezes sua data de morte era comemorada um dia depois para não coincidir com a festa de Agostinho de Cantuária.[45] No século IX já era conhecido como "Venerável", embora ainda apenas como um título honorífico.[46] [47] Seu culto ganhou terreno no século X, durante o reavivamento do monasticismo na Inglaterra. Wulfstan, Bispo de Worcester, era um grande devoto de Beda, dedicando-lhe uma igreja em 1062.[48] Foi citado por Dante no Paraíso da Divina Comédia ao lado de Isidoro de Sevilha e Ricardo de São Vítor.

Seu corpo foi roubado do túmulo original em Jarrow e levado para a Catedral de Durham em torno de 1020, sendo depositado na mesma tumba de São Cuthbert de Lindisfarne. Mais tarde foi removido para um relicário em uma capela da catedral, onde permaneceu até o saque durante a Reforma inglesa. Os ossos, porém, logo voltaram a ser enterrados no mesmo local. Em 1831 os ossos foram transferidos para outra tumba na mesma catedral, onde ainda estão. A Catedral de York, a Abadia de Glastonbury e a Abadia de Fulda dizem possuir relíquias suas.[49] A importância de sua contribuição foi reconhecida em 1899, recebendo o título de Doutor da Igreja Católica e sua festa, fixada em 27 de maio, sendo incluída no calendário geral romano. Em 1935 foi declarado santo.[9] É festejado pela Igreja Anglicana em 25 de maio.[41]

Referências

  1. Brooks 2006, p. 5
  2. Ray 2001, p. 57-59
  3. Colgrave 1969, p. XIX
  4. Whiting 1969, p. 4
  5. Beda 731, p. 329
  6. Farmer 1978, p. 19-20
  7. Ray 2001, p. XX
  8. Blair 1990, p. 4
  9. a b c d e f g Campbell 2008, p. 673–735
  10. Blair 1990, p. 241
  11. a b Colgrave 1969, p. XX
  12. Farmer 1978, p. 20
  13. Blair 1990, p. 178
  14. Plummer 1896, p. XII
  15. Blair 1990, p. 181
  16. Ray 2001, p. 57
  17. Blair 1990, p. 5
  18. Higham 2006, p. 8-9
  19. Ward 1990, p. 57
  20. Hurst 2002, p. 38
  21. Blair 1990, p. 267
  22. Blair 1990, p. 305
  23. Higham 2006, p. 15
  24. Colgrave 1969, p. 566
  25. Plummer 1896, p. 3
  26. Colgrave 1969, p. 580-587
  27. Scragg 1999, p. 59
  28. Colgrave 1969, p. 580-581
  29. Holder 1994, p. XVII-XX
  30. McClure 1994, p. XVIII-XIX
  31. McClure 1994, p. XVIII-XIX
  32. McClure 1994, p. XVIII-XIX
  33. The Jarrow Lecture (em inglês). Página visitada em 12-10-2012.
  34. a b c Goffart 1988, p. 236
  35. Farmer 1978, p. 21
  36. Beda 731, p. 41
  37. Farmer 1978, p. 22
  38. Farmer 1978, p. 31-32
  39. Abels 1983, p. 1-2
  40. Farmer 1978, p. 32
  41. a b Wright 2008, p. 4-5
  42. Higham 2006, p. 21
  43. Brown 1987, p. 42
  44. Ward 2001, p. 57-64
  45. Ward 1990, p. 136-138
  46. Wright 2008, p. 3
  47. Higham 2006, p. 9-10
  48. Ward 1990, p. 139
  49. Higham 2006, p. 24

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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  • Ray, Roger. From British to English Christianity: Deconstructing Bede's Interpretation of the Conversion. [S.l.: s.n.], 2001.
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  • Brown, George Hardint. Bede, the Venerable. [S.l.: s.n.], 1987.
  • Ward, Benedicta. Bede the Theologian. [S.l.: s.n.], 2001.


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