Exame de consciência

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Inácio de Loyola: "O Exame de consciência é o exercício mais importante da vida espiritual"

Exame de consciência é uma revisão de pensamentos, palavras e ações, com a finalidade de verificar a sua conformidade com a lei moral. É um inventário das próprias fraquezas, no intuito de superá-las. Entre os cristãos, essa é geralmente uma revisão privada. Na Igreja Católica fiéis que desejarem receber o sacramento da confissão são encorajados a examinar sua consciência usando os dez mandamentos como um guia. Uma doutrina similar é ensinada pela Igreja Luterana, onde os penitentes que desejarem receber a Santa Absolvição também são convidados a utilizar os dez mandamentos como um guia. O processo é muito similar à prática islâmica de Muhasaba, ou auto-reflexão.

Santo Inácio de Loyola incluiu o exame de consciência em seus Exercícios espirituais e nos exercícios, ele apresenta duas formas diferentes de exames, específico e geral. Desde então, o método de Santo Inácio tornou-se conhecido sob vários nomes na literatura espiritual, e é chamado às vezes “Exame de Conscientização”[1]

Em geral, há uma distinção entre o "Exame Particular", que visa mudar uma característica particular ou defeito no próprio comportamento, o “Exame Diário”, que é uma oração de revisão de um dia e, finalmente, o “Exame Geral de Consciência”. Este último método é chamado exame de "consciência" porque é uma revisão de suas ações a partir de um ponto de vista moral, refletindo sobre a própria responsabilidade e olhando para os pecados e as fraquezas em preparação para o arrependimento, em contraste com o exame "diário" que não se concentra sobre a moralidade, mesmo que pecados venham a surgir durante a revisão do dia.[2] [3]

Filosofia[editar | editar código-fonte]

Alguns dos antigos filósofos—os Estóicos em particular—estudaram para serem irrepreensíveis em seu próprio conceito, e para isso eles fizeram uso freqüente de auto-inspeção. Eles professavam a doutrina de que a felicidade e a dignidade do homem consistem no cumprimento das leis da razão, ou da consciência; com isso, exames de consciência foram uma prática regular nas escolas dos estóicos e dos seus seguidores, como Quintus Sextius e Séneca.[4]

Cristianismo[editar | editar código-fonte]

O Exame de consciência foi ordenado por São Paulo de Tarso a ser realizado pelos fiéis todas as vezes que forem receber a Eucaristia: “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice; pois quem come e bebe, come e bebe juízo para si, se não distinguir o corpo”.[5] E, como os primeiros cristãos recebiam a Comunhão com muita freqüência, o exame de consciência tornou-se um exercício comum de sua vida espiritual. Em muitos casos, isso se tornou uma prática diária da vida dos primeiros membros do clero e os que viviam uma vida monástica, tais como o eremita Santo Antão do Deserto, que dizia examinar sua consciência todas as noites, enquanto São Basílio de Cesareia, Santo Agostinho de Hipona e São Bernardo de Claraval, e fundadores de Ordens religiosas em geral, fizeram do exame de consciência um exercício regular diário de seus seguidores. Membros leigos de congregações foram encorajados a assumir a prática, bem como uma medida salutar por seus padres e bispos, como meio de promover a sua formação religiosa.[6]

São Bernardo ensinou: "Como um investigador em busca da integridade de sua própria conduta, submeta sua vida a um exame diário. Considere cuidadosamente o progresso que você fez ou o que você regrediu. Esforce-se para conhecer a si mesmo. Coloque todos os seus defeitos diante de seus olhos. Fique cara a cara com você mesmo, como se você fosse outra pessoa, e depois reflita seus erros."

No catolicismo, isso deve ser mantido distinto do Sacramento da Reconciliação, um exame de consciência apenas mostra as falhas, mas não as perdoa, pois segundo a fé católica, só a intercessão de Deus através de um sacerdote pode perdoar pecados.[7] No entanto, os católicos acreditam que um exame completo de consciência é um passo eficaz e necessário para fazer uma plena reconciliação.

Quanto ao exame diário de consciência, dois tipos devem ser distinguidos, o geral e o particular. O primeiro visa a correção de todos os tipos de falhas, e o último visa a prevenção de algumas falhas ou a aquisição de alguma virtude particular.

"A excelência desta prática e sua fecundidade para a virtude cristã, são claramente estabelecidos pelos ensinamentos dos grandes mestres da vida espiritual." (Papa São Pio X)[8]

Autocrítica[editar | editar código-fonte]

Entre os intelectuais seculares, principalmente os marxistas, o termo autocrítica, derivado do francês: autocritique, é amplamente usado. E era muito popular na França após a Guerra da Argélia. Edgar Morin e Jawaharlal Nehru ficaram bastante conhecidos pelo estudo desse tema.[9]

Exemplo de roteiro para o exame de consciência[editar | editar código-fonte]

Eis o que vem a ser um exame de consciência na prática. O texto a seguir, de origem católica, é substancialmente o mesmo aprovado em 1903 pelos Senhores Bispos do Sul do Brasil[10] .

Primeiro mandamento [religião]. Se tem negado, duvidado ou falado contra alguns dos artigos de nossa fé; — se se tem descuidado de aprender a doutrina cristã, ou se se tem deixado esquecer dela; — se tem lido livros proibidos, romances obscenos, escritos ou jornais contrários à fé ou aos bons costumes, e se os conserva ou tem emprestado a outros; — se tem escarnecido ou zombado da religião, ou de seus ministros; — se tem desconfiado da misericórdia de Deus, ou se se tem queixado de sua providência nas enfermidade, na pobreza etc.: — se tem presumido salvar-se sem penitência, se a quer demorar até a morte; — se peca com a esperança de perdão e diz: Depois me confessarei; — se tem deixado de fazer por muito tempo os atos de fé, esperança e caridade; — se por preguiça tem deixado de ouvir Missa, rezar ou adorar a Deus; — se tem consultado feiticeiros, adivinhos, espíritas etc. etc.; — se traz consigo orações supersticiosas, crendo com elas saber coisas futuras, tomar-se invulnerável, curar doenças e enfermidades; — se crê em sonhos, agouros etc.

Segundo mandamento [santos nomes]. Se jurou falso, ou por coisas insignificantes; — se blasfemou de Deus, da Santíssima Virgem e dos santos; — se falou deles sem respeito ou disse coisas indignas: — se rogou pragas contra si mesmo, ou contra o próximo etc.

Terceiro mandamento [domingos e dias santos]. Se deixou de ouvir Missa inteira nos domingos e festas, ou se a ouviu adormecido ou voluntariamente distraído, portando-se com irreverência, conversando, rindo, escarnecendo, olhando lascivamente, ou fazendo acenos ou sinais escandalosos; — se nesses dias trabalhou, ou fez trabalhar sem causa justa etc.

Quarto mandamento [pais e superiores]. Se foi desobediente a seus pais, superiores ou mestres; — se lhes tem ódio; — se lhes tem faltado ao respeito, ou lhes respondido mal, ou dito palavras injuriosas; — se não tem assistido ou socorrido a seus pais em suas necessidades; — se se tem envergonhado deles etc.

Quinto mandamento [vida e saúde]. Se tem ódio ao próximo; — se tem desejado vingar-se; — se tem desejado a morte ou mal grave a si ou a alguém; — se tem dito ao próximo palavras injuriosas; — se matou ou feriu ou espancou alguém, ou se mandou, aconselhou ou concorreu para que tais coisas se fizessem; — se se entristeceu com o bem do próximo; — se tem dado escândalo com seus maus exemplos ou palavras; — se teve desejo ou tentou suicidar-se etc.

Sexto e nono mandamentos [castidade]. Se se tem demorado voluntariamente em pensamentos desonestos; — se tem olhada ou se tem ido a algum lugar para ver coisas indecentes; — se teve más conversas, ou as ouviu com prazer; — se tem cantado cantigas lascivas ou lido livros ou escritos obscenos; — se teve desejos de coisas más ou impuras; — se convidou alguém para o mal; — se praticou consigo ou com outrem alguma ação impura; — se cometeu pecados mais graves; — se está em perigo de pecar por não fugir e evitar as ocasiões etc.

Sétimo e décimo mandamentos [propriedade alheia]. Se desejou furtar; — se furtou, quanto e quantas vezes; — se achou coisa alheia e, sabendo quem era o dono. não restituiu ou não fez diligência para saber; — se aceitou ou comprou coisas que sabia serem furtadas; — se em compras, vendas ou contratos foi injusto, empanando no peso, medida, qualidade; — se, podendo, não tem restituído o que deve e o que não é seu; — se tem causado dano ao próximo de qualquer modo etc.

Oitavo mandamento [verdade e bom nome]. Se fez algum juízo ou suspeita temerária; se levantou calúnia ou falsos testemunhos; — se mentiu com prejuízo do próximo, ou em coisa grave; — se manifestou ou publicou algema falta ou defeito oculto do próximo; — se murmurou do próximo; — se semeou discórdias, mexericos ou enredos, ou tem dado prejuízo a outrem por sua má língua;— se não reparou o mal que fez com calúnias, detrações etc.

Referências

  1. “Daily Examination of Consciousness” (3 de setembro de 2011)
  2. Finding Our Way Together with St. Ignatius (3 de setembro de 2011)
  3. The Spiritual Exercises of St. Ignatius(3 de setembro de 2011)
  4. Mundo dos Filósofos - O Estoicismo (3 de setembro de 2011)
  5. 1 Coríntios 11:28-29
  6. Catholic Encyclopedia "Examination of Conscience"
  7. Confissão (sacramento)
  8. Haerent Animo - Exortação apostólica dada pelo Papa São Pio X em 04 de agosto de 1908.
  9. Le Sueur, James D.; Uncivil War: Intellectuals and Identity Politics During the Decolonization, University of Pennsylvania press, 2001
  10. Segundo Catecismo da Doutrina Cristã. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. 107ª edição, páginas 119 a 122.

Ver também[editar | editar código-fonte]