Matthias Sindelar

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Matthias Sindelar
Sindelar-aut.jpg
Em foto posada com a camisa da Áustria
Informações pessoais
Nome completo Matěj Šindelář
Data de nasc. 10 de fevereiro de 1903
Local de nasc. Kozlau, Flag of Austria-Hungary (1869-1918).svg Áustria-Hungria
Falecido em 23 de janeiro de 1939 (35 anos)
Local da morte Viena, Flag of the German Reich (1935–1945).svg Alemanha
Altura 1,75 m
Apelido Der Papierene ("Homem de Papel").
Informações profissionais
Posição Meia-atacante
Clubes de juventude
1918-1924 Áustria Hertha Viena
Clubes profissionais
Anos Clubes Jogos e gol(o)s
1924-1926
1926-1939
Áustria Wiener Amateur
Áustria Flag of the German Reich (1935–1945).svg Austria Viena
Seleção nacional
1926-1938 Flag of Austria.svg Áustria 43 (27)

Matthias Sindelar (Kozlau, 10 de fevereiro de 1903Viena, 23 de janeiro de 1939) foi um futebolista austríaco.

Sindelar era tcheco, sendo seu verdadeiro nome de batismo Matěj Šindelář. Nascido na Morávia, então parte do Império Austro-Húngaro, sua família mudou-se para Viena quando ele possuía dois anos de idade.

Tornar-se-ia o maior esportista austríaco do século XX; seu desempenho como um centroavante goleador que também voltava para buscar jogo e puxar os marcadores para fora da área, tabelando com os meias, lhe deixou como um dos mais revolucionários jogadores europeus no início do século passado.[1]

Início e consagração na Áustria[editar | editar código-fonte]

Nas ruas da cidade começou a jogar futebol. Iniciou a carreira nos juvenis do Hertha Viena em 1918, onde permaneceria até 1924, quando tornou-se jogador da equipe principal já no Wiener Amateur, o clube que daria origem ao Austria Viena.

Conquistaria duas Copas Mitropa (torneio precursor da Liga dos Campeões da UEFA), em 1933 e em 1936, tendo também conquistado um campeonato austríaco, o de 1926. Sua elasticidade e leveza (1,75 m e 63 kg)[2] renderam-lhe o apelido de Der Papierene, o "Homem de Papel".[3]

Seleção austríaca[editar | editar código-fonte]

Em 1926 também jogou pela primeira vez pela Seleção da Áustria, justamente contra a terra onde nasceu, a Tchecoslováquia - país surgido após a Primeira Guerra Mundial - marcando na vitória por 2 a 1. Faria quatro gols nas três primeiras partidas pelo selecionado, pelo qual marcaria outras 23 vezes em outros 40 jogos.

Sindelar tornou-se o líder da grande equipe austríaca dos anos 30 treinada por Hugo Meisl, apelidada de Wunderteam ("Time Maravilha"), que, até 1933, disputaria 16 jogos, vencendo 12, empatando 2 e perdendo 2, tendo o melhor desempenho de todas as seleções europeias no período.[4] Adversários como Escócia, Alemanha (duas vezes), Suíça e Hungria foram batidos por mais de cinco gols.[3]

A primeira dessas derrotas daquela Áustria seria célebre:[1] foi para a Inglaterra, em um duro 3 a 4 em Stamford Bridge. Sindelar marcou o segundo gol austríaco, e os germânicos saíram sob os aplausos da torcida adversária.[1] Até aquele revés, Sindelar marcara 27 dos 52 gols nas treze partidas anteriores (doze vitórias e um empate).[1] No interím, a Áustria ganhou em 1932 a Copa Dr. Gerö (torneio precursor da Eurocopa).[1]

Copa do Mundo de 1934[editar | editar código-fonte]

Não era o único de sangue tchecoslovaco na equipe nacional que disputou a Copa do Mundo de 1934; de mesma origem havia os atacantes Josef Bican (que mais tarde defenderia a Tchecoslováquia), Matthias Kaburek e Karl Zischek, os defensores Anton Janda, Karl Sesta e Franz Cisar e os meias Josef Smistik e Johann Urbanek.

A estreia do mundial foi o jogo mais aguardado das oitavas-de-final (a Copa de 1934 começou diretamente nos mata-matas), por ser contra a França.[5] Sindelar, já célebre internacionalmente, foi bastante marcado pelo centromédio adversário Georges Verriest, ordenanado pelo técnico francês para impedir que a estrela armasse jogadas.[5] A tática funcionou a maior parte do tempo,[5] embora Sindelar tenha marcado um gol, o primeiro da Áustria em Copas. O jogo foi o primeiro do torneio a se encaminhar para uma prorrogação, após empate de 1 a 1 no tempo normal. Aí, aproveitando-se do cansaço dos franceses, os austríacos conseguiram vencer por 3 a 2.[5]

O jogo seguinte foi contra a Hungria, um clássico pelo fato de os dois países terem governado o Império Austro-Húngaro. Talvez pela rivalidade, os dois times jogaram com extrema violência na partida, resultando na única expulsão do torneio, a do húngaro Imre Markos, embora outros jogadores das duas equipes, segundo relatos, também merecessem sair.[6] Mesmo com a vitória por 2 a 1, Sindelar, constrangido, pediu desculpas aos magiares no dia seguinte.[6]

Classificada para as semifinais, a Áustria foi sorteada para enfrentar a anfitriã Itália. Os dois países eram considerados os que tinham mais chances de conquistar o título, e por isso a outra semifinal - entre Alemanha e Tchecoslováquia - acabou rotulada pela imprensa como um mero "atalho para a grande decisão".[7] Os italianos estavam instigados: haviam perdido para os austríacos em Turim por 4 a 2 quatro meses antes da Copa - isto porque Sindelar não participara. Na ocasião a derrota humilhante estimulara os anfitriões a se prepararem como nunca para a Copa.[8]

No jogo, os austríacos se deram mal: a forte chuva ocorrida na véspera e no dia da partida prejudicou o rápido toque de bola da equipe.[9] O time perdeu muito também com a truculenta marcação de Luis Monti sobre Sindelar,[9] cuja única oportunidade de gol na partida ocorreu aos 33 mintuos do segundo tempo, quando chutou para fora após ficar de frente para o goleiro Gianpiero Combi.[9] Naquela altura, o jogo já estava 1 a 0 para a Itália, um gol de Enrique Guaita que originou bastantes reclamações dos austríacos, que alegaram uma possível falta no lance.[9] O resultado se manteria ao apito final.

A disputa pela terceira colocação se constituiu então em um duelo germânico contra a Alemanha, um adversário que o Wunderteam arrasara três anos antes por 5 a 0 em Viena e 6 a 0 em Berlim.[10] Porém, os vizinhos contavam com uma equipe jovem e mais motivada, enquanto os decepcionados austríacos tinham ainda Sindelar lesionado do jogo contra a Itália.[10] Os alemães desmotivaram ainda mais os adversários ao conseguirem um gol-relâmpago aos 25 segundos de jogo, e terminaram vencendo por 3 a 2, mesmo com a torcida presente torcendo pela Áustria por um fator esdrúxulo: os dois países entraram em campo com seus uniformes tradicionais, ambos de camisas brancas e calças pretas, negando-se os dois a trocar. Os torcedores dos favoritos austríacos, confundidos, comemoram por engano o primeiro gol alemão. Com isso, finalmente o árbitro ordenou um sorteio para quem um dos adversários vestisse outra camisa,[11] que seria a azul do time da cidade, o Napoli, roupas estas que ficaram com os austríacos.[12]

Após a Copa[editar | editar código-fonte]

Sindelar, que já tinha mais de 30 anos no mundial da Itália, continuou a jogar pela Áustria, ajudando a equipe a obter a classificação para a Copa do Mundo de 1938. No início do ano, entretanto, a Alemanha Nazista anexaria o país, no Anschluß. Quatro remanescentes do Wunderteam de 1934 - Josef Stroh, Franz Wagner, Willibald Schmaus e Rudolf Raftl - foram "aproveitados" para o torneio pela também classificada Seleção Alemã, além dos também austríacos Wilhelm Hahnemann, Hans Pesser e Stefan Skoumal. Convites não faltaram para Sindelar, mas este os recusou, alegando idade elevada ou lesões, não chegando a defender a "Grande Alemanha".[13] Também não concordava com o estilo pragmático alemão.[14]

Anteriormente ao mundial, em abril, realizou-se um amistoso comemorativo entre Alemanha e Áustria em Viena, no que seria a despedida da Seleção Austríaca. O resultado estaria combinado para ser um empate, e por 70 minutos os austríacos aparentemente deixaram o inferior time alemão controlar o jogo. Nos 20 últimos minutos, entretanto, Sindelar marcou um gol, comemorando-o intensamente em frente a oficiais nazistas que assistiam ao jogo nas tribunas. Os austríacos venceriam por 2 a 0, com Sesta anotando o segundo gol.

Morte[editar | editar código-fonte]

Placa-homenagem do Austria Viena à Sindelar, na casa em que ele faleceu

No início de 1939, ano em que estouraria a Segunda Guerra Mundial, Sindelar seria encontrado morto com a namorada, Camilla Castagnola, no apartamento de ambos em Viena. O veredicto oficial concluiu que a morte de ambos fora acidental: ambos teriam se asfixado por monóxido de carbono - algo comum na época [14] - enquanto dormiam. Muitos, todavia, interpretaram o ocorrido como suicídio pela melancolia causada pelas circunstâncias em que a Áustria fora anexada.[3]

Entretanto, a morte repentina do astro também gerou rumores de que ele teria sido assassinado pelos nazistas, o que ganhou força pela falta de testemunhas [14] e, principalmente, após posterior divulgação de que Sindelar estava sendo investigado pela Gestapo, onde em sua ficha constava-se a classificação de "pró-judeu", e "social-democrata",[14] dois crimes.[14] De fato, muitos dos dirigentes e jogadores do Austria Viena na época eram judeus,[15] e o clube acabaria passando por problemas até para manter o nome, que poderia simbolizar um nacionalismo austríaco contra a anexação.[15]

O "Mozart do Futebol" foi enterrado no Cemitério Central de Viena, mesmo cemitério onde estão os túmulos de Beethoven, Brahms, Schubert, Johann Strauss e Johann Strauss Jr., dentre outros. Entre 15.000 e 20.000 pessoas acompanharam seu funeral,[3] ao qual foi dado honras de Estado.[14][15] Apesar da comoção, a despedida não teve atmosfera de protestos, o que para alguns corroboraria as teses de que Sindelar realmente suicidou-se ou morreu acidentalmente.[14]

Túmulo de Sindelar no Cemitério Central de Viena

Referências

  1. a b c d e GOBBET, Cassiano Ricardo (agosto de 2007). O primeiro a encantar. Trivela n. 18. Trivela Comunicações, pp. 14-15
  2. MARTOLIO, Edgardo - Conheça a história do jogador Matthias Sindelar, um dos motivos pelos quais Adolf Hitler invadiu e anexou a Áustria em 1938, página editada em fevereiro de 2014 e disponível em 20 de abril de 2017.
  3. a b c d GOBBET, Cassiano Ricardo (abril de 2006). Fora de campo, Hitler acabou com o "Wunderteam". Copa'06 n. 3. Pool Editora, p. 39
  4. GEHRINGER, Max (outubro de 2005). O Wunderteam. Placar: A Saga da Jules Rimet, fascículo 2 - 1934 Itália. Editora Abril, p 32
  5. a b c d GEHRINGER, Max (outubro de 2005). Batalha épica. Placar: A Saga da Jules Rimet, fascículo 2 - 1934 Itália. Editora Abril, p. 26
  6. a b GEHRINGER, Max (outubro de 2005). Show de pancadaria. Placar: A Saga da Jules Rimet, fascículo 2 - 1934 Itália. Editora Abril, p. 34
  7. GEHRINGER, Max (outubro de 2005). Semifinais. Placar: A Saga da Jules Rimet, fascículo 2 - 1934 Itália. Editora Abril, p. 36
  8. GEHRINGER, Max (outubro de 2005). Ela nave va. Placar: A Saga da Jules Rimet, fascículo 2 - 1934 Itália. Editora Abril, p. 26
  9. a b c d GEHRINGER, Max (outubro de 2005). Chuva e decepção. Placar: A Saga da Jules Rimet, fascículo 2 - 1934 Itália. Editora Abril, p. 36
  10. a b GEHRINGER, Max (outubro de 2005). O fim da maravilha. Placar: A Saga da Jules Rimet, fascículo 2 - 1934 Itália. Editora Abril, p. 37
  11. 10 histórias de 11 camisas (abril de 2006). Copa'06 n. 3. Pool Editora, p. 5
  12. GEHRINGER, Max (outubro de 2005). Pouco público'. Placar: A Saga da Jules Rimet, fascículo 2 - 1934 Itália. Editora Abril, p. 37
  13. GEHRINGER, Max (novembro de 2005). Um time anexado. Placar: A Saga da Jules Rimet, fascículo 3 - 1938 França. Editora Abril, p. 30
  14. a b c d e f g MARANHÃO, Rafael (setembro de 2008). O homem de papel. Placar n. 1322. Editora Abril, p. 92
  15. a b c HOFMAN, Gustavo (junho de 2008). Uma cidade que joga por música. Trivela n. 28. Trivela Comunicações, pp. 52-55