Pinacoteca do Estado do Amazonas

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Palacete Provincial de Manaus, sede da Pinacoteca do Estado.

A Pinacoteca do Estado do Amazonas é um museu de arte brasileiro localizado na cidade de Manaus. É uma instituição pública estadual, subordinada à Secretaria da Cultura do Amazonas. Foi oficialmente instituída em 18 de julho de 1965, durante o governo de Artur César Ferreira Reis, fruto de uma iniciativa acalentada desde os anos 50 por um grupo de intelectuais ligados ao Clube da Madrugada, nomedamente Moacir de Andrade. Destacou-se nas décadas seguintes por sua atuação didática, formando toda uma geração de artistas contemporâneos de expressão regional.[1]

A Pinacoteca do Amazonas possui um acervo composto por mais de mil peças de técnicas variadas, abrangendo a produção artística brasileira entre os séculos XIX e XX, com ênfase especial nos artistas amazonenses.[2] Também conserva uma coleção didática de cópias de obras consagradas da arte universal.[3] Promove exposições permanentes e temporárias e organiza eventos culturais diversos. Sua sede atual é o Palacete Provincial, onde se encontram localizadas outras instituições museológicas da Secretaria da Cultura.

História[editar | editar código-fonte]

Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a cidade de Manaus, como as demais capitais da região amazônica, vivia um momento de grande prosperidade, impulsionado pelo ciclo da borracha. Tal conjuntura histórica teria grande impacto no desenvolvimento do ambiente artístico-cultural da cidade (cujo símbolo maior seria a construção do luxuoso Teatro Amazonas, inaugurado em 1896), estimulando a vinda de artistas, fotógrafos e arquitetos de outras partes do Brasil e de outros países, sobretudo da Itália, atraídos pelo aquecido mercado de trabalho. Pintores como Crispim do Amaral, Fernandes Machado, Aurélio de Figueiredo e Antônio Parreiras passariam longas temporadas na cidade, executando um grande número de obras encomendadas por famílias abastadas e pelo poder público. O estímulo ao desenvolvimento artístico se consolidaria, por fim, com a adoção da educação artística em escolas públicas (como o Ginásio Amazonense, onde estudaria Manoel Santiago) e com a fundação da Academia Amazonense de Belas Artes.[4]

Antônio Parreiras - Quarta-feira de cinzas (1904). Acervo da Pinacoteca do Estado
Edifício da Biblioteca Pública Estadual do Amazonas, primeira sede da Pinacoteca do Estado.

A crescente concorrência dos seringais africanos e asiáticos e o fim da Primeira Guerra Mundial, entretanto, ocasionariam o fim do ciclo da borracha, resultando na decadência econômica das regiões produtoras brasileiras e, conseqüentemente, no arrefecimento dos acontecimentos artísticos e culturais da capital amazonense. Somente décadas mais tarde Manaus voltaria a presenciar alguma agitação em seu ambiente cultural, por meio da atuação do Clube da Madrugada. De ideologia anárquico-libertária, o clube havia sido criado pelos pintores Moacir Andrade, Afrânio de Castro, Oscar Ramos e Anísio Mello, e pelos escritores Antístenes Pinto, Alencar e Silva e Jorge Tufic, com o objetivo de promover uma série de ações vanguardistas nos campos das artes visuais e da literatura.[5]

No âmbito das artes visuais, o Clube da Madrugada organizou os Salões Madrugada e as Feiras de Artes Plásticas, além de ter patrocinado exposições individuais e coletivas de artistas amazonenses. É nesse contexto que surge a idéia de criar um espaço museológico permanente para a divulgação e preservação do patrimônio artístico regional. Moacir de Andrade alimentava essa idéia desde o começo dos anos 50 e em diversas ocasiões manifestou tal desejo ao historiador Artur César Ferreira Reis. Em 1964, após o golpe militar, Artur Reis foi indicado pelo general Castelo Branco para assumir o governo amazonense, substituindo Plínio Ramos Coelho. Já no ano seguinte, em 18 de julho de 1965, instituiu, por meio da Lei n.º 233, a Pinacoteca do Estado do Amazonas.[1][5]

A Pinacoteca funcionou a princípio em um salão na ala direita do edifício da Biblioteca Pública do Amazonas, na Rua Barroso. Seu acervo inicial consistia em 90 obras de arte, entre pinturas, desenhos, gravuras e esculturas. Moacir de Andrade foi o primeiro diretor da instituição, sendo sucedido por Álvaro Páscoa, Afrânio de Castro e Helena Gentil. Nos primeiros anos após a fundação, a instituição sediaria as reuniões do Clube da Madrugada e tornaria-se um importante centro regional de formação artística. Na Pinacoteca eram sediados cursos de desenho (Manoel Borges), pintura (Moacir Andrade), história da arte e xilogravura (Álvaro Páscoa).[5] Cabe salientar, sobretudo, a atuação de Álvaro Páscoa como professor da Pinacoteca, responsável por formar toda uma geração de artistas plásticos contemporâneos, tais como Hahnemann Bacelar, Enéas Valle, Zeca Nazaré, Van Pereira, Thyrso Muñoz e Jair Jacqmont, entre outros.[1][6] Este último viria a se tornar diretor da instituição na década de 1990.

Em 1992, a Pinacoteca foi transferida para o edifício do Centro de Artes da Chaminé. O novo espaço, então reformulado seguindo projeto apresentado e aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), permitiu à instituição dobrar sua área expositiva, e, dessa forma, organizar diversas exposições de artistas de expressão regional e nacional. A gestão Jacqmont também deu continuidade aos cursos de formação artística. No ano 2000, foi transferida para o pavimento superior da Vila Ninita, edifício integrante do Complexo Cultural Palácio Rio Negro. O projeto curatorial do novo espaço ficou a cargo do artista plástico Oscar Ramos.[1] Nesse mesmo ano, teve parte do acervo restaurado pelo Atelier de Restauro de Obras de Arte da Secretaria de Cultura. Em 2009, foi novamente transferida, ocupando desde então uma ala do Palacete Provincial.[7][8]

Instalações[editar | editar código-fonte]

Vista Panorâmica do Palacete Provincial.

A Pinacoteca do Estado ocupa, desde 2009, uma ala do Palacete Provincial, o antigo Quartel da Polícia Militar do Amazonas, integrante do conjunto arquitetônico da praça Heliodoro Balbi. Inaugurado ainda inacabado, em 1864, o palacete foi construído para servir de residência ao capitão da Guarda Nacional, Custódio Pires Garcia. Após a morte deste, foi adquirido a pedido do presidente da província do Amazonas, José Bernardo Michiles, que tinha a intenção de tranformá-lo em Paço Municipal. O palácio passou por novas obras, sendo reinaugurado em 1875. Desde então, abrigou diversas repartições públicas e ficou por mais de um século sob administração da Polícia do Amazonas. É tombado pela Comissão Permanente de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico.[9]

Recentemente, o Palacete Provincial foi reformado pelo governo do estado, visando sediar os espaços museológicos administrados pela Secretaria da Cultura. Além da Pinacoteca do Estado, o palacete abriga o Museu de Numismática, o Museu de Arqueologia, o Museu Tiradentes e o Museu da Imagem e do Som, além do Laboratório de Arqueologia Alfredo Mendonça de Souza, a Cela Memória e Arena de Artes Newton Aguiar (espaço destinado à realização de espetáculos ao ar livre), a Sala José Bernardo Michilles e o Salão Coronel Pedro Henrique Cordeiro Jr. (destinados a exposições temporárias), além dos ateliês de restauro e de obras sobre papel e serviços ao público.[9]

Acervo[editar | editar código-fonte]

A Pinacoteca do Estado conserva um acervo de aproximadamente mil obras, entre pinturas, esculturas, desenhos e gravuras, realizadas por aproximadamente 300 artistas, amazonenses, brasileiros e estrangeiros. A coleção oferece um panorama da produção artística brasileira entre os séculos XIX e XX, ilustrado, sobretudo, por obras de artistas regionais.[2]

Aurélio de Figueiredo - O último baile da Ilha Fiscal (1905).
Joaquim Fernandes Machado - O primeiro vôo de Santos Dumont (c. 1906).

O academismo oitocentista e a fase de transição do século XIX para o XX está representado por obras de pintores bastante significativos para a arte brasileira. Merece destaque a tela O último baile da Ilha Fiscal, de Aurélio de Figueiredo, versão preliminar para a obra homônima conservada no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro. Também de Figueiredo é a tela O banho de Ceci, exemplar do romantismo indianista.[10] Constam da coleção algumas das mais famosas pinturas de cunho histórico executadas por Joaquim Fernandes Machado, tais como A Glória coroando Gonçalves Dias e Primeiro vôo de Santos Dumont.[11] De Antônio Parreiras, o museu conserva os óleos Quarta-feira de cinzas e Caçador furtivo, provavelmente adquiridas pelo governo do estado durante a exposição do artista no Palácio Rio Negro, em 1905.[12] Há ainda obras de Eliseu Visconti, Sólon Botelho e Darkir Parreiras, entre outros.[3]

O modernismo está representado por um conjunto de obras de Alfredo Volpi, Cícero Dias, Inimá de Paula, Aldemir Martins e Burle Marx, além do óleo Curupira, do amazonense Manoel Santiago, representativo da pintura de expressão nacionalista dos anos 30. As obras de Oscar Ramos, Álvaro Páscoa, Anísio Mello e Hahnemann Bacelar exemplificam a assimilação do legado da Semana de Arte Moderna na Manaus dos anos 50 e 60. Dentre os representantes da arte naïf, merecem menção o acreano Francisco da Silva e a manauara Rita Loureiro. Destacam-se ainda Anna Letycia Quadros, Dirso José de Oliveira e Roberto De Lamonica.[1][3]

No segmento referente à arte contemporânea, há obras de artistas de expressão nacional (Adhemar Guerra, Acácio Sobral, Antônio Dias, Emmanuel Nassar, Dora Basílio etc.) e regional (Afrânio de Araújo Castro, Eli Bacelar da Silva, Jefferson Rebelo, Sebastião Alves, Cristóvão Coutinho, Oscar Ramos, Claudson Mota de Ouro, Manoel Borges etc.).[1][3]

Por fim, a Pinacoteca do Estado conserva uma coleção didática de cópias de obras consagradas da arte universal. São 70 quadros e 20 esculturas, atualmente expostos na Casa da Cultura da Rua da Instalação, enfocando diversos períodos e autores relevantes da história da arte.[3]

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. a b c d e f «Pinacoteca do Estado». Biblioteca Virtual do Amazonas. Consultado em 4 de agosto de 2010 
  2. a b «Curadoria». Pinacoteca do Estado do Amazonas. Consultado em 4 de agosto de 2010 
  3. a b c d e «A pinacoteca do Amazonas». Biblioteca Virtual do Amazonas. Consultado em 4 de agosto de 2010 
  4. Páscoa, 2007, pp. 1-7.
  5. a b c Páscoa, 2007, pp. 8-9.
  6. Páscoa, 2007, pp. 10.
  7. «Pinacoteca do Estado». Portal Oficial do Governo do Estado do Amazonas. Consultado em 4 de agosto de 2010 
  8. «Museus». ClickCult. Consultado em 4 de agosto de 2010 
  9. a b «Palacete Provincial e Praça Heliodoro Balbi serão entregues hoje à população». Portal Amazônia. Consultado em 4 de agosto de 2010 
  10. Páscoa, 2007, pp. 5.
  11. Páscoa, 2007, pp. 4.
  12. Páscoa, 2007, pp. 6.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Carmo, Mikelane Almeida do & Páscoa, Luciane Viana Barros. "Artes Plásticas em Manaus nos séculos XIX e XX: reflexões sobre o quadro O Último Baile da Ilha Fiscal de Aurélio de Figueiredo." In: Revista Aboré. Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade Federal do Amazonas. Manaus, março de 2007. ISSN: 1980-6930.
  • Páscoa, Luciane Viana Barros. "O panorama das artes plásticas em Manaus." In: Revista Aboré. Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade Federal do Amazonas. Manaus, março de 2007. ISSN: 1980-6930.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]