Federação Espírita Portuguesa

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A Federação Espírita Portuguesa (FEP) é a entidade representativa do movimento espírita em Portugal junto ao Conselho Espírita Internacional (CEI).

História[editar | editar código-fonte]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

A génese do movimento espírita no país remonta a reuniões familiares de experimentação e a livros e revistas adquiridos por portugueses com contatos com a França desde a segunda metade do século XIX.

As primeiras edições dos primeiros livros da Codificação Espírita de Allan Kardec vieram a público em Portugal em 1882, como parte da "Biblioteca Ilustrada de Estudos Psichológicos", lançada pela Tipografia Modesto & C., na Calçada do Tijolo nº 39, em Lisboa.1

No ano de 1896 já existiam associações nas cidades de Lisboa, Porto, Coimbra e Braga, e nas regiões do Alentejo e do Algarve. O primeiro periódico a circular no país foi a "Revista Espírita do Porto", editada naquela cidade entre 1896 e 1910, ano da Implantação da República Portuguesa.

Esse período é marcado ainda pelo impacto, junto à opinião pública do país, das mensagens psicografadas pelo médium português Fernando de Lacerda, que haviam dado lugar à publicação dos três primeiros volumes de "Do País da Luz".

No início de 1910 um grupo de jovens constitui-se em Lisboa para o estudo e discussão de temas ligados ao Espiritismo, ao Ocultismo e ao Hipnotismo. Desejoso de repetir as experiências com as chamadas "mesas falantes", os jovens reuniram-se em torno de uma pequena mesa "pé-de-galo" mas, ao fim de oito meses de tentativas infrutíferas, quando a mesma começou a movimentar-se, um dos componentes do grupo adoeceu, e o grupo passou a reunir-se em um banco de jardim, no Campo de Ourique.

A 1 de janeiro de 1911, o grupo que se denominava "Universala Scienca Instituto" (em esperanto) passou a ter sede própria e, denunciados à polícia política, foi investigado pelas autoridades. Esclarecido que não se tratava de um grupo de conspiradores políticos, mas apenas de "espiritismo", o incidente valeu-lhes publicidade nos periódicos da capital à época, e o grupo contou com a adesãop de outros jovens, vindo a abrir uma filial, na cidade do Porto.

Devido à intensa agitação política e social vivida naquele momento crítico da Proclamação da República Portuguesa, e à diversidade de interesses entre os participantes, em fins desse mesmo ano tanto o grupo de Lisboa, quanto o do Porto, haviam encerrado as suas actividades.

Alguns de seus elementos, porém, fundaram o Instituto Internacional de Psicologia, que iniciou as suas actividades (1912) na conhecida rua Áurea, na Baixa de Lisboa. A entidade possuía seções para o estudo do Espiritismo, para o de Ocultismo e para o Hipno-Magnetismo. O dinamismo do grupo, que tinha como órgão de divulgação a revista "Novos Horizontes", contagiou muitas pessoas, não apenas em Portugal continental, mas também nas suas então colónias.

Desse modo, o país fez-se representar no II Congresso Espírita Internacional de Genebra (1913) com delegações da Aliança Neo-Espiritualista Portuguesa, do Instituto Internacional de Psicologia, e do Centro Espírita "Amor e Caridade", da ilha de São Vicente, em Cabo Verde.

A eclosão da Primeira Guerra Mundial levou à dissolução do Instituto Internacional de Psicologia, com a suspensão da circulação de sua revista. O dinamismo do grupo, que tinha, a par do espiritismo, uma secção de Ocultismo e outra de Hipno-Magnetismo, havia contagiado muita gente, por todo o país, ilhas adjacentes e Colónias. As publicações espíritas vicejavam, e fora feito o necessário contraponto aos ideais materialistas, bem como aos dogmas religiosos que já não satisfaziam os que necessitavam de uma fé raciocinada.

Em termos de periódicos, entre os pioneiros destaca-se ainda "O Espírita", que se intitulava como o "órgão mensal de estudos psíquicos e propaganda doutrinária, propriedade do Grupo Espírita Luz e Caridade, do Barreiro", editado em 1920 (impresso em Leiria), que tinha como por diretor António Xavier Gorina e por editor J. M. Quintela Paixão.

O I Congreso Espírita Português[editar | editar código-fonte]

Ateneu Comercial de Lisboa.

A União Espírita Algarvia foi uma das primeiras entidades formadas em torno da doutrina espírita em Portugal, tendo sido a responsável pela organização, no Algarve, dos dois primeiros congressos espíritas no país, ainda a nível regional.

Dada a boa receptividade a esses eventos e conforme mobilização em que teve papel expressivo o periódico algarvio "Ecos do Além", foi organizado na capital do país o I Congresso Espírita Português, que teve lugar no Ateneu Comercial de Lisboa, nos dias 15, 16, 17 e 18 de Maio de 1925.2 A afluência de público e a qualidade das comunicações apresentadas foram elevadas, o que se repercutiu, de modo geral, na imprensa daquela cidade. Entre os nomes então presentes, destacavam-se:

O evento foi referido à época como:

"O I Congresso Espírita Português, realizado em Lisboa nos dias 15, 16, 17 e 18 de Maio de 1925, foi, sem lisonja, uma admirável congregação de esforços, donde resultou um brilhantismo invulgar, a que toda a imprensa diária da capital prestou justas homenagens, pela elevação científica e moral que presidiu à discussão das teses apresentadas."3

A fundação da Federação Espírita Portuguesa[editar | editar código-fonte]

Cerca de um ano mais tarde, a 26 de maio de 19264 constituiu-se a Federação Espírita Portuguesa, com a condução do processo legal a cargo de António Joaquim Freire. Os seus propósitos estatutários eram os de promover a divulgação da Doutrina Espírita, a união dos espíritas portugueses, e o combate aos charlatães oportunistas que já então usavam indevidamente o qualificativo de "espírita" para iludirem os incautos e que faziam da mediunidade paga, e de outros expedientes, o seu modo de vida. A instituição foi inaugurada em sessão solene a 31 de julho de 1926, sendo António Freire o responsável pela nomeação do seu primeiro presidente, o Dr. Afonso Acácio Martins Velho.

A entidade organizava cursos de ciências psíquicas, conferências e saraus, e editava a "Revista de Espiritismo" ("Revista de Metapsicologia" ?), seu órgão oficial, fundada ainda em 1926.5 Editava ainda o jornal "O Mensageiro Espírita". Implantou um laboratório de estudos metapsíquicos e uma biblioteca aberta ao público, com uma sala de leitura e empréstimo domiciliar de obras. Aos sócios admitidos era cobrada uma quota mensal, e a sua organização era constituída por uma Direcção, um Conselho Fiscal, uma Junta Consultiva, um Conselho Superior Deliberativo e uma Assembleia Geral.

A busca de uma sede[editar | editar código-fonte]

A sede da Federação, inicialmente à travessa André Valente nº 7 em Lisboa, foi transferida para a rua da Assunção nº 58, na mesma cidade. Sendo insuficientes estas instalações, em 1 de janeiro de 1931 foi transferida para a Costa do Castelo nº 68/1º andar, em Lisboa. Entretanto, um grupo de espíritas contraíra um empréstimo sem juros (8 de agosto de 1928) para a aquisição de um terreno para a construção de uma sede própria, abrindo-se uma subscrição para angariação de fundos para esse fim. Neste processo destacou-se Firmino de Assunção Teixeira (que viria a ser nomeado pela FEP como "sócio-benemérito") que doou à FEP um edifício na rua da Palma nºs 251-263.

Posteriormente, a FEP instalou-se ainda a rua de S. Bento, na mesma cidade.6

Crises internas[editar | editar código-fonte]

Ao longo de sua existência, a instituição não ficou imune a momentos de crise em termos de gestão. Os períodos mais difíceis foram dois. O primeiro decorreu, na década de 1940 do afastamento de António Freire, por discordância com as decisões de alguns do elementos que compunham a Direção, alguns anos mais tarde. Posteriormente a esse desligamento, Freire publicou uma carta aberta na revista "Além: mensário de espiritismo, filosofia e ética", da SPIP, onde fala acerca da sua expulsão (ocorrida após o seu desligamento) e da do Dr. António Eduardo Lobo Vilela do quadro de sócios da FEP. Nela referia a ação dos elementos daquela Direção, o inexplicável atraso nos pagamentos do legado de Firmino Teixeira às associações espíritas, e a ausência de devida prestação de contas daquela Federação aos seus associados.7 Mais tarde, após ter retornado ao movimento, em 1950, o mesmo Freire subscreveu, com outros elementos responsáveis pela fundação da Federação, um abaixo-assinado, pedindo uma Assembleia-Geral para eleição de novos Corpos Sociais, o que veio a acontecer. Entretanto, ainda insatisfeito com o movimento federativo português, veio a afastar-se. Em 25 de maio de 1953 o periódico lisboeta "O Século", informava aos leitores:

"Aos Espíritas Portugueses: António Joaquim Freire, médico, declara que retirou a sua colaboração e solidariedade à Federação Espírita Portuguesa de que é sócio fundador e honorário, como protesto contra a nova orientação que se verifica na sua REVISTA DE METAPSICOLOGIA - Segue Reconhecimento."8

O Estado Novo Português[editar | editar código-fonte]

Durante o período do Estado Novo Português, António Oliveira Salazar, entre outras medidas, suspendeu a personalidade jurídica da FEP e determinou o confisco do património das entidades espíritas no país9 , como por exemplo, o edifício-sede da própria FEP na rua da Palma nºs 251-263 e o da Sociedade Portuense de Investigações Psíquicas (SPIP), na rua Álvares Cabral nºs 22-26, no Porto.10

Desse modo, na manhã de 7 de dezembro de 1953, a polícia invadiu a sede da FEP, confiscando-lhe todos os bens e propriedades, que foram entregues à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que, por sua vez, os entregou à Casa Pia, perdendo-se a valiosa biblioteca, com um acervo, à época, estimado em mais de 12.000 volumes.

Interditado o direito de reunião e de associação no país, dois periódicos congregam os espíritas portugueses: a revista "Estudos Psíquicos" (sob a direção de Isidoro Duarte Santos, então tenente da Marinha Portuguesa) e a "Fraternidade" (sob a direção de Eduardo Matos, lançada em 1964 e que ainda subsiste).

O pós-25 de Abril[editar | editar código-fonte]

Com a Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974), que vem restaurar as liberdades cívicas e a democracia no país, o movimento espírita - mesmo perdidas as suas antigas lideranças - volta a reagrupar-se, reorganizando-se associativamente. Tem papel fundamental nesse momento a reorganização da FEP e as revistas "Estudos Psíquicos" e "Fraternidade".

Um requerimento de duas páginas, datado de 16 de dezembro de 1974, solicita ao Estado Português a restituição do vasto património da FEP alienado pela Ditadura Salazista, mas que entretanto nunca foi respondido.

Em apoio ao renascer do movimento espírita português, chegam em visitas de divulgação nomes prestigiados do movimento no Brasil, como por exemplo Divaldo Pereira Franco, Irineu Gasparetto, Ariston Santana Teles, Newton Boechat, Henrique Rodrigues, Jorge Rizzini e outros.

No início da década de 1980, é lançado o "Jornal Espírita", em Viseu. Ao mesmo tempo, o Centro Espírita Perdão e Caridade, de Lisboa, começa a editar as obras de Allan Kardec no país.

Os "Encontros Nacionais de Jovens Espíritas", iniciam-se em 1985 nos subúrbios do Porto, com periodicidade semestral.

A "Revista de Espiritismo" obtém a tipografia perdida durante o Salazarismo.

Em 8, 9 e 10 de Novembro de 1994 ocorre, promovido pela FEP, o II Congresso Nacional de Espiritismo, um grande êxito dentro e fora do movimento espírita.

Em 30 de abril de 1995 a FEP inaugura a sua nova sede própria, maior do que anterior.

Em 1996, a FEP fundou a Livresp - Livraria Espírita, Lda..

A FEP, conjuntamente com o Conselho Espírita Internacional (CEI), organizou e promoveu o II Congresso Espírita Mundial, que se realizou de 30 de setembro a 3 de outubro de 1998, nas instalações da Feira Internacional de Lisboa, com a comparência de mais de 3000 pessoas. Nele se destacaram as presenças de personalidades do movimento espírita internacional, como por exemplo Divaldo Pereira Franco, José Raul Teixeira e Jorge Andrea dos Santos.

De 28 a 30 de outubro de 2000, também por iniciativa da FEP, teve lugar o III Congresso Nacional de Espiritismo, na cidade de Viseu.

Notas

  1. VELEDA, Maria. "Os precursores". Fraternidade, nº 179, ano XVI, Maio de 1978. p. 129-133.
  2. Cronologia Espírita: 1914-1945 Tempos de Comoções in Grupo de Estudos Avançados Espíritas. Visitado em 4 Jun 2011.
  3. "O Espírita", 1926, p. 199.
  4. AATT Federação Espírita Portuguesa
  5. Em suas páginas contribuíram nomes como Oliver Lodge, Arthur Conan Doyle, Ernesto Bozzano, André Ripert, Henri Azam, Andry-Burgeois, Quintín López Gómez, Jacinto Benavente e Ernest Walter Oaten.
  6. Op cit.
  7. Dr António Joaquim Freire in União Espírita da Região de Lisboa. Consultado em 5 Jun 2011.
  8. Dr António Joaquim Freire in União Espírita da Região de Lisboa. Consultado em 5 Jun 2011.
  9. Despacho de 18 de novembro de 1953.
  10. A SPIP tinha como órgão oficial o periódico "Além: mensário de espiritismo, filosofia e ética", publicada desde 1930, tendo por director Manuel Francisco Cavaco, e por editor Cruz Ferreira.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]