Gentrificação

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Soho no centro do West End de Londres.

Chama-se gentrificação, uma tradução literal do inglês "gentrification", que não consta nos dicionários de português, o fenômeno que afeta uma região ou bairro pela alteração das dinâmicas da composição do local, tal como novos pontos comerciais ou construção de novos edifícios, valorizando a região e afetando a população de baixa renda local. Tal valorização é seguida de um aumento de custos de bens e serviços, dificultando a permanência de antigos moradores de renda insuficiente para sua manutenção no local cuja realidade foi alterada.[1] [2] .

O termo gentrification - deriva de "gentry", que que por sua vez deriva do Francês arcaico "genterise" que significa "de origem gentil, nobre" -, entende-se também a reestruturação de espaços urbanos residenciais e de comércio independentes com novos empreendimentos prediais e de grande comércio, ou seja, causando a substituição de pequenas lojas e antigas residências. Nos últimos dez anos, este fenômeno tem por exemplo a mudança radical da natureza das lojas de Queen St. West em Toronto ou o enobrecimento de vários bairros antes populares de San Francisco.

Esses processos são criticados por alguns estudiosos do urbanismo e de planejamento urbano devido ao seu caráter excludente e privatizador[carece de fontes?]. Outros estudiosos, como o sociólogo Richard Sennett da Universidade Harvard [3] , consideram demagógico o caráter das críticas, argumentando que problemas urbanos não se resolvem com benevolência para com as camadas mais pobres da população e, na sua opinião, só se resolvem com alternativas que reativem e recuperem a economia do local degradado.

A expressão da língua inglesa gentrification foi usada pela primeira vez pela socióloga britânica Ruth Glass, em 1964, ao analisar as transformações imobiliárias em determinados distritos londrinos. Entretanto, é no ensaio The new urban frontiers: gentrification and the revanchist city, do geógrafo britânico Neil Smith, que o processo é analisado em profundidade e consolidado como fenômeno social presente nas cidades contemporâneas. Smith identificou os vários processos de gentrificação em curso nas décadas de 1980 e 1990 e tentou sistematizá-los, especialmente os ocorridos em Nova Iorque (com destaque para a gentrificação ocorrida nos bairros de Harlem, naquela cidade e do Soho, em Londres).

Esse processo nos bairros populares e/ou degradados pode tornar-se um problema social de sérias consequências quando a oferta de moradia a preços módicos é inexistente. "Mesmo que os moradores desalojados não fiquem sem teto, a conversão de hotéis dilapidados em apartamentos significa que haverá menos opções de habitação para os mais pobres e, se isso ocorrer em grande escala, criará uma grande pressão nas já assoberbadas organizações de auxílio voluntário, de caridade e provedores de assistencia social".[4]

Associados aos políticos, ao grande capital e aos promotores culturais, os planejadores urbanos, agora planejadores-empreendedores, tornaram-se peças-chave dessa dinâmica. Esse modelo de mão única, que passa invariavelmente pela gentrificação de áreas urbanas "degradadas" para torná-las novamente atraentes ao grande capital através de mega-equipamentos culturais, tem dupla origem, americana (Nova-York) e européia (a Paris do Beaubourg), atingindo seu ápice de popularidade e marketing em Barcelona, e difundindo-se pela Europa nas experiências de Bilbao, Lisboa e Berlim.[5]
Otília Arantes, in A Cidade do Pensamento Único: Desmanchando Consensos

No Mundo[editar | editar código-fonte]

Este fenômeno é mundial, e é encontrado principalmente em países desenvolvidos ou em desenvolvimento onde renda média e a população são crescentes e os bairros nobres começam a "invadir" seus vizinhos menos nobres, empurrando para mais distante as periferias. Existem diversos exemplos em países como Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Espanha, entre outros.

No Brasil[editar | editar código-fonte]

Pelourinho, centro histórico de Salvador, que passou por um processo de gentrificação.
Praça da Sé, o marco zero de São Paulo. A região central da cidade passou por uma revitalização.

Embora o processo de urbanização brasileiro apresente diferenças significativas em relação ao mundo anglo-saxão - onde já existe uma tradição de estudos sobre gentrificação - no Brasil também ocorrem, sobretudo nas grandes cidades, casos de mudanças de perfil de renda, decorrentes de retirada e substituição de população local, ligadas a operações urbanas de "renovação", "requalificação", "revitalização" e assemelhados. Esses casos têm sido tratados pelos estudiosos como processos de gentrificação.

Entre os vários estudos, destacam-se aqueles relacionados ao bairro do Pelourinho,[6] em Salvador. A Operação Pelourinho, como ficou conhecido o projeto de recuperação de um dos mais expressivos conjuntos arquitetônicos do período colonial brasileiro, poderia ser considerada uma das primeiras operações de gentrification no Brasil. No centro histórico da cidade de Salvador, o Pelourinho sofreu uma reforma "relâmpago" quando em 1992 foi aberta pelo governo do Estado uma licitação para que empresas privadas realizassem a reforma com um prazo de 150 dias para a conclusão das obras (Fernandes et al., 1995, p. 47). Feita em curto espaço de tempo, a reforma foi muito criticada em vários pontos, especialmente por ter sido executada praticamente à revelia das instâncias municipais e federais de preservação.[7]

Em 1993 chegou a vez do Recife. Foi "revitalizado" naquela cidade o Bairro do Recife Antigo que fora, em 1910, reconstruído segundo o modelo da Paris de Haussmann. Foi assinado um acordo com a Fundação Roberto Marinho e a empresa Akzo do Brasil (Tintas Ypiranga) para pintar as fachadas do Bairro do Recife Antigo. O Projeto Cores da Cidade, que também se realizou no Rio de Janeiro.,[8] foi um dos primeiros resultados práticos da "revitalização" do Bairro, efetuada no sistema de parcerias: a Akzo doava as tintas, os proprietários arcavam com a mão-de-obra, a prefeitura supervisionava as reformas e dava incentivos fiscais aos proprietários, e a Fundação Roberto Marinho (FRM) assegurava a divulgação das reformas em rede nacional de televisão.[9]

A crítica de alguns movimentos sociais acusando processos de gentrificação orquestrados, segundo alguns, tem um "viés partidário ligado a interesses de partidos de esquerda e de extrema-esquerda". O monsenhor Júlio Lancellotti, responsável pelo Vicariato Episcopal do Povo de Rua (Pastoral do Povo de Rua) da Arquidiocese de São Paulo,[10] sendo tradicionalmente apoiado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) [11] , tem apresentado críticas contra aquilo que considera ser "políticas urbanas excludentes e perversas". Segundo a opinião da revista Veja, conhecida por representar os interesses da classe média e dos grandes capitalistas, o principal interesse do monsenhor Lancellotti, vigário episcopal do povo de rua na Arquidiocese de São Paulo, "seria manter um público cativo para fazer manobras políticas e demagogia" [11] .

Na realidade, os processos de gentrificação estão agora cada vez mais colocando em risco a coesão social e a inclusão de distritos históricos, levando mesmo, em alguns casos, a uma transformação social brutal e a despejos forçados.[12]


Recentemente , o bairro de Madureira , no Rio de Janeiro , sofreu um processo de gentrificação. Após um longo período de relativo abandono , foi construído o terceiro maior parque da Cidade com um ideal totalmente sustentável e fazendo com que a população de baixa renda tenha dificuldade de se manter na região, ou prefira vender suas casas pelo preço elevado em que se encontram e comprar em outros lugares mais baratos.

Muitos políticos, empresários, e até alguns acadêmicos, sem nenhuma preocupação com a população mais pobre e com as consequências sociais de sua expropriação, consideram a gentrificação como sendo uma política puramente positiva. Vêem nela o remédio ideal para a solução humana, ecológica e fiscal de regiões urbanas decadentes.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. by Lesley Williams Reid and Robert M. Adelman, Georgia State University (April 2003). The Double-edged Sword of Gentrification in Atlanta. American Sociological Association.
  2. Benjamin Grant (June 17, 2003). PBS Documentaries with a point of view: What is Gentrification?. Public Broadcasting Service.
  3. ANTUNES, Camila. A Solução é Derrubar. A prefeitura de São Paulo vai demolir a parte mais degradada do centro da cidade e oferecer os terrenos à iniciativa privada. Urbanismo, Revista Veja, Edição 1938, 11 de janeiro de 2006.
  4. SLATER, Tom. The downside of upscale. Los Angeles: Los Angeles Times, July 30, 2006
  5. ARANTES, Otília, VAINER. Carlos Vainer e MARICAT, Ermínia. A Cidade do Pensamento Único: Desmanchando Consenso. Petrópolis: Editora Vozes, 3a edicao, 2002, ISBN 85-326-2384-0
  6. NOBRE, Eduardo; Intervenções urbanas em Salvador: turismo e "gentrificação" no processo de renovação urbana do Pelourinho, artigo publicado nos anais do X Encontro Nacional da Anpur, 2003
  7. FERNANDES, Ana et al. (1995), Operação pelourinho: o que há de novo, além das cores?, in FERNANDES, Ana et al. (1995), Estratégias de intervenção em áreas históricas: revalorização de áreas urbanas centrais . Mestrado em Desenvolvimento Urbano. Universidade Federal de Pernambuco, Recife.
  8. Iniciado no Rio de Janeiro, o Projeto Cores da Cidade desenvolveu o Projeto Corredor Cultural, que recuperou parte das fachadas da rua Sete de Setembro, entre 1993 e 1994 (FINGUERUT, Sílvia. (1995), Cores da cidade: os casos do Rio de Janeiro e Recife, in FINGUERUT, Sílvia. (1995), Estratégias de intervenção em áreas históricas: revalorização de áreas urbanas centrais. Mestrado em Desenvolvimento Urbano. Universidade Federal de Pernambuco, Recife, p. 53)
  9. LEITE, Rogerio Proença. CONTRA-USOS E ESPAÇO PÚBLICO: notas sobre a construção social dos lugares na Manguetown. Revista Brasileira de Ciências Sociais (Rev. bras. Ci. Soc. vol.17 no.49 São Paulo June 2002)
  10. Arquidiocese de São Paulo, Vicariato Episcopal do Povo de Rua, Coordenador Mons. Júlio Renato Lancellotti
  11. a b ANTUNES, Camila. O pecado da demagogia, in A Solução é Derrubar. A prefeitura de São Paulo vai demolir a parte mais degradada do centro da cidade e oferecer os terrenos à iniciativa privada. Urbanismo, Revista Veja, Edição 1938, 11 de janeiro de 2006.
  12. From gentrification to forced eviction – how should economic competitiveness be reconciled with social sustainability in historical districts? Social and Humam Sciences, Social Transformations, Themes, UNESCO

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  • AGÊNCIA de Desenvolvimento Econômico do Estado de Pernambuco – AD/Diper. (1992), Plano de revitalização - Bairro do Recife . Planejamento Urbano e Economia, vol. 1, Recife.
  • ARANTES, Otília, VAINER. Carlos Vainer e MARICAT, Ermínia. A Cidade do Pensamento Único: Desmanchando Consenso. Petrópolis: Editora Vozes, 3a edicão, 2002, ISBN 85-326-2384-0
  • BIDOU-ZACHARIASEN, Catherine. De Volta a Cidade - Dos Processos de Gentrificação às Políticas de Revitalização dos Centros Urbanos, São Paulo: Ed. Annablume, 1ª edição 2006, ISBN 978-85-7419-622-0
  • GULICK, John. (1998), The disappearence of public space: an ecological marxist and lefebvrianapproach, in L. Andrew & J. M. Smith (orgs.), The production of public space , Nova York,Rowman & Littlefield Publishers.
  • KARA-JOSÉ, Beatriz. Políticas culturais e negócios urbanos. A instrumentalização da cultura na revitalização do centro de São Paulo. São Paulo, Annablume Editora, 1ª edição, 2007 ISBN 8574196732
  • KUNSCH, G. . A quem se destinam as intervenções urbanas. Jornal O Independente, Florianópolis e São Paulo, p. 4 - 5, 01 nov. 2005.
  • LEITE, Rogerio Proença. (1998), Mercado de relíquias: 'gentrification' e tombamento no bairro do Recife Antigo. VII Encontro de Antropólogos do Norte-Nordeste – Abanne, Recife.
  • RANCIÈRE, Jacques. (1996), O desentendimento. São Paulo, Editora 34.
  • SMITH, Neil; The New Urban Frontier; Gentrification and the Revanchist City; Nova Iorque: Routledge, 1996
  • ZUKIN, Sharon (2000) Paisagens urbanas pós-modernas: mapeando cultura e poder in ARANTES, Antônio (org.); O Espaço da diferença; São Paulo: Papirus Editora, pp 81–102
  • ZUKIN, Sharon. (1995), The cultures of cities. Cambridge, Massachussetts, Blackweell.
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