Homoerotismo

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Homoerotismo refere-se à atração erótica entre indivíduos do mesmo sexo, tanto entre homens como entre mulheres,[1] especialmente quando representada ou manifestada nas artes visuais e na literatura e estudada em campo acadêmico. A terminologia em língua inglesa tem consagrado termos como gay studies, lesbian studies e queer theory, que pretendem estudar as correlações entre a homossexualidade e produções artísticas da pintura, literatura e afins, estendendo o seu campo de análise a outras formas de expressão artística como a sociologia, a história, a antropologia, a psicologia, a medicina, o direito, a filosofia, etc.[2] Outros termos, como "homocultura" e "homoerotismo", também foram criados e são usados em campos acadêmicos.[3] Em questão artístico-estética, temos a frase de Thomas Mann no ensaio "Über die Ehe" ("Do Casamento") de 1925, onde ele afirma que o homorotismo é estético, enquanto a heterossexualidade é prosaica.[4]

São Sebastião, por Carlo Saraceni (c1610-15). A imagem de Sebastião espetado por flechas tem sido descrita como homoerótica.[5]

Na Literatura[editar | editar código-fonte]

Na literatura, destaca-se Oscar Wilde, condenado à prisão com trabalhos forçados acusado de sodomia depois de seu relacionamento com o Lord Alfred Douglas (com cerca de 20 anos), e que em seu tribunal disse viver "o amor que não ousa dizer o nome"; perguntado no tribunal que amor era este, respondeu:

"O amor que não ousa dizer seu nome é o grande afeto de um homem mais velho por um jovem como aconteceu entre David e Jônatas, e aquele de que Platão fez a base de toda a sua filosofia, é aquele amor que se encontra nos sonetos de Michelangelo e de Shakespeare. É aquela profunda afeição que é tão pura quanto perfeita. Ele inspira e perpassa grandes obras de arte, como as de Shakespeare e Michelangelo [...] Neste nosso século é mal-compreendido, tão mal-compreendido que é descrito como o amor que não ousa dizer seu nome, e, por causa disso, estou aqui onde estou. Ele é belo, é refinado, é a mais nobre forma de afeto. Nele, nada há de anti-natural. É intelectual e sempre existiu entre um homem mais velho e um rapaz, quando o mais velho tem o intelecto e o mais jovem tem toda a alegria, esperança e charme da vida diante de si. Assim deveria ser, mas o mundo não compreende. O mundo zomba dele e algumas vezes põe por ele alguém no pelourinho."[6]
Henri Toulouse-Lautrec (1864-1901): As Duas Amantes, c.1894-5.

Os acadêmicos também têm estudado obras mais antigas; como a dos poetas latinos Catulo, Tibulo, e Propércio, que escreviam versos sobre as experiências pessoais homossexuais que tinham,[7] e as canções da poetiza Safo da Grécia antiga, muitas vezes endereçadas à outras mulheres.[8] Na literatura brasileira, destaca-se a obra Bom Crioulo (1895), de Adolfo Caminha, considerado "primeiro romance homossexual na história da literatura ocidental",[6] como também escritos homoeróticos de Raul Pompéia, Álvares de Azevedo, Olavo Bilac, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, João Silvério Trevisan, Lygia Fagundes Telles, etc.[6] No poema "Rapto", Drummond denomina a homossexualidade "outra forma de amar no acerbo amor".[6] Machado de Assis—mostrando inovação e audácia no cenário literário de seu tempo—escreveu contos como "D. Benedita" de Papéis Avulsos e "Pílades e Orestes", em que existe uma temática lésbica e gay, respectivamente.[9] [10] Além disso, alguns consideram que o Bentinho do romance Dom Casmurro (1899) era apaixonado por seu amigo Escobar, e não (ou também por) Capitu.[11] [12] Na literatura portuguesa, temos os nomes de Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa, Antônio Botto (que morou e faleceu no Rio de Janeiro) e Al Berto; Pessoa, por exemplo, sob o heterônimo de Álvaro de Campos, escrevia: "Eu, que tenho o piscar de olhos do moço do frete" ("Poema em linha reta").[6] Em outras literaturas, destacam-se os sonetos de Shakespeare, Walt Whitman, Christopher Marlowe, Virginia Woolf, Arthur Rimbaud, Marcel Proust, André Gide, Michel Foucault, Roland Barthes e outros.[6]

Nas Artes Visuais[editar | editar código-fonte]

Nas artes visuais, destacam-se a arte da Grécia antiga, onde vemos uma preferição pelo corpo masculino nu,[13] os renascentistas Leonardo da Vinci e Michelangelo,[6] [14] e artistas do Maneirismo e Barroco dos séculos 16 e 17, como Agnolo Bronzino, Carlo Saraceni e Caravaggio, cujas obras foram severamente criticadas pela Igreja Católica,[15] além do século XIX pintores como Thomas Eakins, Eugène Jansson, Henry Scott Tuke, Aubrey Beardsley e Magnus Enckell terem retomado histórias homoeróticas da mitologia grega como a de Narciso, Jacinto, Ganímedes e outros.[13] Na modernidade, artistas como Paul Cadmus e Gilbert & George, além de fotógrafos como Wilhelm von Gloeden, David Hockney, Will McBride, Robert Mapplethorpe, Pierre et Gilles, Bernard Faucon e Anthony Goicolea, também contribuíram muito para a arte homoerótica.[carece de fontes?]

Referências

  1. YOUNGER, John Grimes. Sex in the ancient world from A to Z (Routledge, 2005), pp.80. ISBN 0415242525
  2. Carlos Ceia. "Estudos sobre homossexualidade". E-Dicionário de Termos Literários. Acessado em 3 de dezembro, 2010.
  3. Ver Latuf Isaias Mucci. "Homocultura. E-Dicionário de Termos Literários. Acesso: 3 de dezembro, 2010.
  4. KONTJE, Todd Curtis. A companion to German realism, 1848-1900 (Camden House, 2002), p.327. ISBN 1-57113-322-4, ISBN 978-1-57113-322-9
  5. glbtg: an encyclopaedia of gay, lesbian, bisexual, transgender and queer culture. Acessado em 3 de dezembro, 2010.
  6. a b c d e f g Latuf Isaias Mucci. "Homoerotismo". E-Dicionário de Termos Literários. Acesso: 4 de dezembro, 2010.
  7. YOUNGER, John Grimes. Sex in the ancient world from A to Z (Routledge, 2005), p.38.
  8. Judith Hallett, "Sappho and Her Social Context: Sense and Sensuality," pp. 126f.
  9. Rick Santos e Wilton García, A escrita de Adé: perspectivas teóricas dos estudos gays e lésbic@s no Brasil, Xama, 2002, p.37. ISBN 85-85833-98-X
  10. Denilson Lopes, O homem que amava rapazes e outros ensaios, Aeroplano Editora, 2002, p.129. ISBN 85-86579-32-7
  11. FREITAS, Luiz Alberto Pinheiro de. Freud e Machado de Assis: uma interseção entre psicanálise e literatura. Mauad Editora Ltda, 2001, p.27. ISBN 85-7478-056-1
  12. CARVALHO, Luiz Fernando. O Processo de Capitu. Casa da Palavra, 2008, p.136. ISBN 85-7734-102-X
  13. a b Inc Icon Group International. Classicals: Webster's Quotations, Facts and Phrases, 2008, p.195. ISBN 0-546-69476-4
  14. Burn, L. (1992), Mitos gregos, p.75–76, Madrid: Ediciones Akal. ISBN 84-460-0117-9.
  15. John Berger, Caravaggio,Strudio International, p.1983, Volume 196 Number 998. Acessado em 3 de dezembro, 2010.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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