Transgénero

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Transgeneridade (português brasileiro) ou transgenerismo (português europeu) (termo referente às pessoas transgênero (português brasileiro) ou transgénero (português europeu) ) refere-se à condição onde a expressão de gênero e/ou identidade de gênero de uma pessoa é diferente daquelas atribuídas ao gênero designado no nascimento.[1] Mais recentemente o termo também tem sido utilizado para definir pessoas que estão constantemente em trânsito entre um gênero e outro. O prefixo trans significa "além de", "através de".

Transgênero é um conceito abrangente que engloba grupos diversificados de pessoas que têm em comum a não identificação com comportamentos e/ou papéis esperados do gênero determinado no seu nascimento. Esses grupos não são homogêneos dado que a não identificação com o gênero de nascimento se dá em graus diferenciados e refletem realidades diferentes.

Termos básicos[editar | editar código-fonte]

As pessoas não-transgénero são denominadas de cisgénero.

Em mais detalhe, pessoas cisgênero são aquelas que foram socializadas em certo gênero quando foi percebido que pertenciam a um dos dois sexos opostos humanos após seu nascimento (por isso pode-se excluir deste grupamento as pessoas intersexo), antes da possibilidade do gênero neurológico estar definido (coisa que geralmente não ocorre antes dos 3 anos de idade), e se identificam por completo com este grupo como sendo estritamente o seu, e assim se esforçam para serem percebidas socialmente (pessoas que se identificam com o seu gênero designado no nascimento mas se presentam e portam como o de gênero oposto são conhecidas por crossdressers, que geralmente são consideradas uma subcategoria trans).

O preconceito e a discriminação contra pessoas transgênero são conhecidos como transfobia, quando os mesmos se dão de forma explícita. Quando acometem travestis e mulheres transgênero, são designados transmisoginia. Quando se dão contra pessoas fora do binário de gênero (pessoas de gênero não-binário, pessoas genderqueer/gênero-queer, pessoas não-binárias), nomeiam-se binarismo.

O apagamento transgênero baseado-se na ideia de que o gênero é baseado pura e simplesmente na biologia e/ou nos genitais (geralmente ignorando-se a existência de pessoas intersexo de gêneros binários – homem ou mulher –, ausentes de gênero ou geralmente neutras quanto ao gênero), é denominado cissexismo. Considera-se cissexismo, por exemplo, quando a maioria dos países só permite – quando isso ocorre – uma mudança de sexo legal após cirurgias invasivas (por exemplo, obrigatoriamente removedora de tecido mamário ou testículos), e que certos países exijam que as pessoas sejam castradas, sem filhos e tenham todo seu material genético (por exemplo, bancos de esperma ou óvulos congelados) destruído em ordem a serem autorizadas tal coisa.

A transfobia é um sentimento independente da homofobia, embora estejam relacionados com as mesmas estruturas sociais e ideias sobre o que os tais "homens" e "mulheres" deveriam aspirar a e trabalhar para serem (daí o foco e os grupos de militância por direitos humanos, legais e civis, visibilidade social, e diminuição do status de cidadão de segunda categoria das pessoas que podem sofrer uma destas duas formas de preconceito estar debaixo de um mesmo termo guarda-chuva, apesar de incluírem tipos fundamentalmente diferentes de pessoa tanto por sexualidade quanto por gênero).

Apesar da homofobia e transfobia não representarem o mesmo sentimento com as mesmas causas, pessoas transgênero podem sofrer uma mistura de transfobia e homofobia, quando do preconceito e da discriminação por se relacionarem afetivo-romanticamente ou sexualmente com pessoas do sexo para o qual transicionaram. Por exemplo, quando uma mulher transgênero é bissexual ou lésbica, pode ter sua legitimidade como membro do gênero feminino questionada, coisa que não aconteceria a uma mulher cisgênero. Tal como pessoas cisgênero, pessoas transgênero podem ser de qualquer orientação sexual – heterossexual, homossexual, bissexual, assexual, demissexual (atração sexual secundária, isto é, após o desenvolvimento de laços afetivos, mas raramente ou nunca atração sexual primária, incluindo-se por pessoas que não é de proximidade emocional ou por completos estranhos) hétero, demissexual homo, demissexual bi, pansexual (tipo de bissexualidade em que o gênero não é levado em conta na hora de se sentir atração de qualquer tipo), etc. – e há uma tendência mais forte à bissexualidade que entre pessoas não-transgênero.

Entretanto, como diz-se nos parágrafos supracitados, há uma expectativa pré-julgadora de que todas as pessoas deveriam ser idealmente heterossexuais (heteronormatividade), que uma existência não-heterossexual é inerentemente uma experiência de gênero menos legítima ("gays/lésbicas são menos homem/mulher", uma forma de heterossexismo) e que pessoas transgênero não são pertencentes a seus respectivos gêneros naturalmente (uma forma de cissexismo), pois sim construiriam-se por meio de suas ações que ao invés de tentar quebrar com uma classificação errada de suas existências, tentam desconstruir bases fundamentais da sociedade como os papéis de gênero, e portanto têm suas identidades questionadas por uma parte normal da experiência de gênero de todos, inclusive das pessoas cisgênero.

Classificação em sub-grupos[editar | editar código-fonte]

Exemplos de grupos de pessoas transgênero são as travestis, um grupo diverso que abriga pessoas de várias identidades de gênero diferente (exemplos são identificação feminina, identificação andrógina, e identificação bigênero, que significa identidades separadas de homem e mulher ao mesmo tempo), portanto uma categoria social em sociedades latino-americanas mais pela forma como expressam gênero pelos seus corpos.

Outros exemplos representados apenas pela identidade de gênero (e não pela forma como seus corpos e performance social são construídos) são as mulheres trans (mulheres transgênero ou transsexuais femininas) e os homens trans (homens transgênero ou transsexuais masculinos), que o são independentemente da presença ou não de adoção de papéis de gênero associados ao elemento oposto ao de seu sexo nascimento, ou da exposição de seus corpos a terapias hormonais e/ou cirúrgicas para terem seus corpos reconhecidos como típicos das pessoas de seu gênero. Em conjunto, mulheres e homens trans podem ser conhecidos por transgêneros binários (o uso do termo transsexual pode implicar que eles modificaram ou pelo menos modificariam seus corpos, o que assume coisas além de suas identidades de gênero).

Junto aos homens e mulheres trans, as pessoas que são transgênero por identidade (e não performance/expressão) incluem as pessoas de gênero não-binário (também conhecidas por pessoas não-binárias, gênero queer ou genderqueer, neologismo da língua inglesa). Estas últimas possuem vários subgrupos, que inclui a identificação agênero (ausência de gênero), a identificação fluida (o sentimento de pertencer a um gênero muda de acordo com o tempo ou a situação, como por exemplo o grupo social com o qual se interage), e a identificação pangênero (o sentimento de pertencer a um gênero pode variar com o tempo por todo o espectro, incluindo masculino, feminino, ausente, próximo a neutro – identificação demigênero –, vários tipos e degraus de ambíguo – identificações andrógina, para próximo ao meio-termo exato entre masculino e feminino, ou epiceno, de forma mais abrangente –, e identificação bigênero). Eles são por vezes – possivelmente de forma errônea – referidos como "transgêneros" quando da citação de travestis e transsexuais de forma mais focada. O preconceito e a discriminação contra pessoas não-binárias é conhecida por binarismo.

Pessoas transgênero binárias ou não-binárias igualmente podem ou não experienciar disforia de gênero (mesmo quando sua identidade de gênero é bem próxima àquela designada socialmente em seu nascimento), desejar ou não corrigir uma situação de disforia de gênero com tratamento médico possível pela ciência moderna, ou achar ou não que os tratamentos médicos possíveis satisfazem suas expectativas quanto a construir seus corpos.

O termo transsexual pode trazer confusão e ser evitado, pois além do sentido de "transgênero binário" que ele geralmente carrega na língua portuguesa, pessoas que modificam seus corpos podem ser conhecidas como transsexuais (sejam femininas, masculinos e não-binários), enquanto aquelas que não o fazem seriam cissexuais (femininas cisgênero, femininas transgênero, masculinos cisgêneros, masculinos transgênero e não-binários). Adicionalmente, pessoas, geralmente não-binárias do tipo onde o gênero é neutro ou ausente, que tentam anular as marcas de que um dia foram de algum sexo biológico sem querer se apresentar por outro podem ser conhecidas por assexuadas, mas a prática de anulação genital (ao invés de inversão peniana, ou de outras formas de criação cirúrgica de uma vulva) é proibida pelo artigo da Constituição brasileira que impede o que julga mutilação.

A psicóloga brasileira Jaqueline Gomes de Jesus define a população transgênero, ou simplesmente trans, como aquela "composta eminentemente por mulheres transexuais, homens transexuais e travestis, e por outros grupos, tais como os denominados crossdressers, drag queens/drag kings ou transformistas, queer/andróginos ou transgênero". [2]

História[editar | editar código-fonte]

A gênero designado entendemos como uma série de expectativas de implicações sociais baseadas nas características físicas (principalmente a genitália) com vias a dividir a sociedade humana em dois grandes grupos: homens e mulheres. A isso podemos incluir características de hábitos e comportamentos, que podem ser variáveis em relação a tempo/espaço como por exemplo em termos de roupa, embora seja comum um homem usar calças no dia-a-dia em Portugal e Brasil, tal não acontece em locais como o Vaticano, por outro lado em meados do século XX seria impensável uma mulher usar calças em Portugal, situação que hoje em dia é vista como socialmente aceitável. Também há outras características de comportamento que enquanto alguns a atribuem justificativas biológicas outros atribuem justificativas sociais e apontam suas origens no surgimento da sociedade patriarcal tais como passividade, cooperação, emoção nas mulheres e atividade, competição e razão nos homens.

Estereótipos de género existem de forma binária em áreas tão diversas como a forma de agir, cuidados com a apresentação, emprego, educação, responsabilidades e relacionamentos. Mais recentemente alguns destes estereótipos de género tornaram-se mais esbatidos e menos reforçados que no passado, tendo os governos tomado medidas ativas neste sentido em áreas como o emprego.

A letra "T" da sigla LGBT era originalmente utilizada para identificar os travestis (incluindo crossdressers) e/ou transexuais, posteriormente passou a ser utilizada para identificar uma categoria supostamente mais abrangente de pessoas - os transgéneros. Contudo, muitas pessoas transgénero não se consideram como parte deste movimento, por entender que as questões relacionadas com gênero e identidade fazem parte de um outro espectro não abrangido por grupos que primariamente focam suas ações em questões relativas à orientação sexual.

Pelo facto de, tecnicamente, os termos transsexual, transgénero e travesti refletirem realidades diversas, apesar de por vezes haver a acepção de que transgénero descreve todas as pessoas que não são cisgénero (caso de transsexuais e travestis) algumas pessoas preferem utilizar apenas a expressão trans ou a sigla T* para mais corretamente abranger todas estas pessoas.

Algumas pessoas transexuais não se consideram transgéneros, por não considerarem a si como em trânsito entre gêneros, entendem que sua identidade de gênero sempre foi uma só, e que foram designadas erroneamente. O termo transgênero, entretanto, se refere mais à mudança em como alguém é socializado, percebido e tratado a partir de uma auto-identificação positiva de sua identidade, do que ao gênero "mudar". Ele de fato seria, entretanto, inadequado para pessoas que foram socializadas como sendo do sexo oposto àquele designado no nascimento, quando foi percebido que quando crianças apresentavam transtorno de identidade de gênero infantil por seus tutores sociais e legais.

Pode-se afirmar portanto, e ao contrário do que se pensaria à primeira vista, que apenas algumas pessoas "transsexuais" são englobadas pelo conceito de transgénero. Muitos destes sentem-se enquadradas dentro dos papéis sociais tradicionais para os homens e as mulheres sem nunca terem tido necessidade de transicionar enquanto adolescentes ou adultos. O mesmo se passa com os andróginos e intersexos onde a questão de ser ou não transgénero apenas se aplica se as características que os definem como andrógino ou intersexo são visíveis socialmente.

Praticamente em todas as sociedades a sexualidade (e, por inerência a orientação sexual) tem uma esfera visível em termos sociais, em actos tão variados desde uma troca de carícias em público até um acto formal de casamento, passando então a fazer parte do estereótipo social de género. Assumindo esta definição alargada de "género", as pessoas que atuem publicamente fora do comportamento pré-estabelecido como heterossexual (mesmo que no seu íntimo sejam efectivamente heterossexuais) podem também ser consideradas transgéneras.

Vários países e culturas do mundo têm sua forma específica de designar determinados sub-grupos de pessoas transgénero. Na Índia existem as hijras que foram designadas como homens no nascimento e mais tarde passaram a viver como mulheres, na Tailândia o termo Kathoey é utilizado de forma semelhante a transgénero. Classificações assim também foram um dia muito prevalentes nas Américas, na África, e entre os ilhéus do Pacífico Sul, e os aborígenes australianos e siberianos, então é possível que a construção de apenas 2 gêneros seja na realidade um entendimento novo para as culturas humanas difundido por meio das religiões abraâmicas, e mesmo assim não-absoluto, dada a existência histórica das khanith no Mundo Árabe e das travestis na América Latina.

No Brasil, entre os especialistas e a própria comunidade, não há consenso sobre o termo. As pessoas que não se identificam com um dos gêneros binários normalmente são identificadas com o termo queer,[3] com um suposto "gênero neutro",[4] com a denominação andrógino, ou pelo termo genérico transgênero.[5] Cresce também o uso do termo "não-binário".

A designação de gênero irá corresponder uma série de expectativas e comportamentos esperados e tem como primeira referência a genitália (sexo) no momento do nascimento, ou seja, a parte mais visível em termos sociais, o que tradicionalmente dividiu a sociedade entre homens e mulheres, como primeira classificação das pessoas em sociedade.

Observação gramatical[editar | editar código-fonte]

A palavra transgénero ainda não está dicionarizada na língua portuguesa. Contudo, seu uso torna-se a cada dia mais e mais corrente, dando margem à derivação. Ou seja, além dos substantivos transgénero e transgenerismo, temos ainda os adjetivos, de acordo com o que rege a norma culta da língua ("adjetivo concorda em gênero e número com substantivo").[6] [7] [8] Portanto: homem transgénero / mulher transgénera / grupos transgéneros / comunidades transgéneras. Em Portugal a palavra transgénero começou a ser utilizada pela primeira vez pela rede ex aequo - associação jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes, associação essa que mais tarde foi também a primeira que passou a adoptar o termo transgenerismo para substituição do termo transgenderismo, que soa como uma tradução grosseira e imprecisa do inglês transgenderism.

No português do Brasil, tanto a palavra como suas variantes se escrevem com um acento circunflexo em vez do agudo, quando este aparece. Por exemplo, transgênero.

Termos relacionados[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. National Center for Transgender Equality. Transgender Terminology. Maio de 2009.
  2. J G Jesus. Orientações sobre Identidade de Gênero: Conceitos e Termos. Página visitada em 6 de dezembro de 2012.
  3. A nova geração gay das Universidades dos EUA. Página visitada em 3 de maio de 2014.
  4. Jovem do sexo neutro: "Não sabia se eu era homem ou mulher". Página visitada em 3 de maio de 2014.
  5. J G Jesus. Orientações sobre Identidade de Gênero: Conceitos e Termos. Página visitada em 29 de agosto de 2013.
  6. UOL Educação
  7. www.infoescola.com.br
  8. Ciberdúvidas

Ligações externas[editar | editar código-fonte]