Black metal norueguês

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Porão da loja Helvete

A cena inicial do black metal norueguês foi um cenário musical e uma subcultura da Noruega no início dos anos 1990. É creditado à esse grupo a criação do black metal moderno e a produção de alguns dos mais aclamados e influentes artistas do metal extremo.

A cena atraiu massiva atenção da mídia quando foi revelado que seus membros seriam os responsáveis por dois assassinatos e uma onde de incêndios de igrejas norueguesas. O grupo tinha uma ideologia e um ethos e era como um culto, com os membros principais referindo a si mesmos como "The Black Circle" ou "Black Metal Inner Circle". Consistia primariamente em homens jovens, muitos deles abordados na loja de discos Helvete ("Inferno") em Oslo. Em entrevistas, eles declararam ter visões extremamente anticristãs e misantropas, se apresentando como genuínos satanistas que queriam espalhar o terror, o ódio e o mal. Eles adotaram pseudônimos e apareciam em fotografias usando corpse paint e vestindo armaduras medievais. A cena era exclusiva e criava uma barreira ao redor de si, incorporando apenas quem eles consideravam ser "puros" ou comprometidos. A integridade musical era altamente importante e os artistas queriam que o black metal permanecesse underground e imaculado.

Em agosto de 1993, vários de seus integrantes foram presos e em maio de 1994 foram condenados variadamente por incêndio, assassinato, assalto e posse de explosivos. Muitos não demonstraram remorso por suas ações. A mídia da Noruega cobriu os eventos de perto, mas as reportagens dos fatos eram corriqueiramente sensacionalistas. Como exemplo, um canal de TV norueguês entrevistou uma mulher que se declarou satanista e que havia sacrificado seu filho e mato seu cachorro.[1] A cena inicial do black metal norueguês foi desde então retratada em livros e documentários.

Inovações musicais[editar | editar código-fonte]

Durante a década de 1980, o black metal foi um variado agrupamento de bandas de metal que exibiam letras satânicas, ainda que a "primeira onda" de bandas normalmente usassem o satanismo com única intenção de chocar.[2] Entre 1990–1992, inúmeros artistas noruegueses, que eram fortemente influenciados por essas bandas, começaram a tocar e lançar um novo tipo de black metal. O surto de interesse e popularidade que se seguiu é frequentemente referido como a "segundo onda do black metal". Os grupos noruegueses desenvolveram o estilo de seus antepassados dos anos 1980 como um distinto gênero do heavy metal. Isso foi em parte graças ao novo estilo de tocar guitarra desenvolvido por Snorre 'Blackthorn' Ruch do Stigma Diabolicum/Thorns e por Øystein 'Euronymous' Aarseth do Mayhem, no qual os guitarristas tocavam acordes completos usando todas as cordas da guitarra ao invés de power chords usando apenas duas ou três cordas.[3][4] Gylve 'Fenriz' Nagell do Darkthrone creditou-lhes essa inovação em inúmeras entrevistas. Eles descreveu como sendo "uma derivação do Bathory"[5] e notou que "esses tipos de riffs tornaram-se a nova norma para um monte de bandas nos anos 90".[6]

Visualmente, os temas obscuros da música deles era complementado pelo corpse paint, que veio a ser um meio para os músicos de black metal se distinguirem de outras bandas de metal da época.[7]

O suicídio de Dead[editar | editar código-fonte]

Em 8 de Abril de 1991, o vocalista Dead (Per Yngve Ohlin) da banda Mayhem cometeu suicídio enquanto estava sozinho em uma casa que dividia com a banda.[8][9] Músicos próximos descreveram Dead como esquisito, introvertido e depressivo. Antes de entrar no palco ele gastava um bom tempo preparando seu corpse paint e até cortava seus braços enquanto cantava.[3][10]

Dead foi encontrado pelo guitarrista Euronymous, também do Mayhem. Ele foi encontrado com seus pulsos e pescoço cortados e com um ferimento de espingarda na cabeça. Antes de chamar a polícia, ele entrou em uma loja e comprou uma câmera descartável com a qual fotografou o corpo, após rearranjar alguns itens.[5][8][11] Uma dessas fotografias seria usada como capa do bootleg ao vivo chamado Dawn of the Black Hearts. Necrobutcher recorda-se de como Euronymous contou a ele sobre o suicídio:

Øystein me chamou no dia seguinte... e disse: "Dead fez algo realmente legal! Ele se matou". Eu pensei, "você perdeu o juízo? Como assim fez algo legal?". Ele disse: "Relaxa, eu tirei fotos de tudo". Eu estava em choque e aflito. Ele estava somente pensando em como explorar isto. Então eu disse a ele: "OK. Nunca mais me chame antes de destruir estas fotos".[3]


Euronymous usou o suicídio de Dead para gerar uma imagem "maligna" para o Mayhem e declarar que Dead se matou porque o black metal havia tornado-se muito "modinha" e comercial.[12] Na época, surgiram boatos de que Euronymous teria feito um ensopado com pedações do cérebro de Dead e tinha feito colares com pedaços de seu crânio.[7] Posteriormente a banda negou os boatos, mas confirmaram que era verdade um tempo depois.[7][13] Além disso, Euronymous afirmara que tinha dado estes colares a músicos que ele julgava dignos, o que foi confirmado por inúmeros membros da cena, como Bård 'Faust' Eithun e Metalion.[14][15][16]

O baixista Necrobutcher especulou que pegar as fotografias e forçar os outros a verem era uma maneira de Euronymous lidar com o impacto de ver seu amigo morto.[3][8] Ele alegou que Euronymous "entrou num mundo de fantasia".[8] Necrobutcher também notou que "as pessoas começaram a ficar mais cientes da cena do black metal após Dead de matar... Eu acho que foi o suicídio dele que realmente mudou a cena".[17] O baterista Faust do Emperor acredita que foi o suicídio de Dead "marcou o ponto no qual, sob a direção de Euronymous, o black metal iniciou sua obsessão com toda aquela coisa satânica e obscura."[3] Kjetil Manheim afirma que, após o suicídio, Euronymous "tentou ser tão estremo quanto ele falava".[8] As ações de Euronymous causaram um atrito entre ele e alguns de seus amigos, os quais reprovaram sua atitude correlativas à morte de Dead antes e depois do ocorrido. Necrobutcher terminou sua amizade com Euronymous em tal ponto.[8] Desse modo, o Mayhem tinha ficava apenas com dois membros: Euronymous na guitarra e Hellhammer na bateria. Stian 'Occultus' Johannsen foi recrutado como novo baixista e vocalista. Entretanto, ele permaneceu pouco tempo no grupo: ele saiu da banda após recebeu uma ameaça de morte vinda de Euronymous.[9]

Outros dois membros da cena cometeriam suicídio: Erik 'Grim' Brødreskift (ex- Immortal, Borknagar, Gorgoroth) em 1999 e Espen 'Storm' Andersen (ex- Strid) em 2001.[18][19][20][21]

Helvete e Black Circle[editar | editar código-fonte]

O guitarrista do Mayhem, Euronymous, foi "a figura central envolvida na formação da cena do black metal norueguês",[22] a qual ele "praticamente fundou sozinho".[23] Entre maio/junho de 1991, (norueguês para "inferno").[24] ele abriu uma loja de discos chamada Helvete[25][26] A loja ficava no portão 56 em Schweigaards, Oslo. Os músicos do black metal norueguês frequentemente se reuniam na loja e no porão dela. O grupo se resumia em membros do Mayhem, membros do Emperor, Varg 'Count Grishnackh' Vikernes do Burzum, e Snorre 'Blackthorn' Ruch do Thorns. Euronymous também formou uma gravadora independente chamada Deathlike Silence Productions, que tinha como base a Helvete. Foram lançados por ela álbuns das bandas norueguesas Mayhem e Burzum, e das suecas Merciless e Abruptum. Euronymous, Varg,[5] e o guitarrista do Emperor, Tomas 'Samoth' Haugen,[27] viveram na loja em diversos momentos. O baterista do Emperor, Bård 'Faust' Eithun, também habitou e trabalhou ali.[3][5] As paredes da loja eram pintadas de preto e ornamentadas com armas medievais, pôsteres de bandas, e vinis coloridos, enquanto a janela era realçada com poliestireno de jazigo.[3]

De acordo com Stian 'Occultus' Johannsen, o espaço que Euronymous alugou "era muito grande e o aluguel era bem caro". Essa é a razão pela qual não deu tão certo. Apenas uma pequena parte da construção foi usada como loja propriamente dita.[28] Euronymous fecharia a Helvete no início de 1993 quando ela começou a chamar a atenção da polícia e da mídia. Mesmo assim, durante o tempo em que esteve aberta veio a ser o ponto principal do cenário do black metal norueguês.[29] Daniel Ekeroth escreveu em 2008:

Dentro de poucos meses [da abertura da Helvete], muitos músicos jovens ficaram obcecados com Euronymous e sua ideias, e logo um monte de bandas de death metal norueguesas transformaram-se em bandas de black metal: o Amputation tornou-se Immortal; o Thou Shalt Suffer tornou-se Emperor; e o Darkthrone trocou o seu death metal "sueco" por um black metal primitivo. Mais notoriamente, o guitarrista Varg Vikernes do Old Funeral havia saído do grupo para dar origem à sua própria criação, o Burzum.

Aqueles que eram acolhidos na Helvete foram referidos como parte do "Black Circle" ou "Black Metal Inner Circle". Faust diz que o nome foi inventado por Euronymous.[5] Na época, algumas mídias implicaram que o "Black Circle" era um grupo oculto e organizado. No Lords of Chaos, Faust afirmou que a mídia fez aparentar ser mais organizado do que era:

Era apenas um nome inventado para pessoas que vagavam ao redor da loja […] não havia nada como associados ou cartões de sócio ou encontros oficiais.[30]

Em sua resenha para o Lucifer Rising, Varg Vikernes afirma:

Em primeiro lugar, o famigerado 'Black Circle' era algo que Euronymous criou porque ele queria fazer com que mais pessoas acreditassem que havia algo, mas era sem sentido e de fato nunca existiu. A imprensa, pelo outro lado, acreditou por um tempo que houvesse, mas logo parou de falar quando perceberam que era um boato.[31]

Ideologia[editar | editar código-fonte]

O cena se opunha ao cristianismo e religiões organizadas em geral. Em entrevistas durante o início dos ano 1990, Euronymous e outros membros da cena se apresentaram como adoradores do Diabo[32] misantropos que queriam espalhar o ódio, a tristeza e o mal. Eles atacaram a Igreja de Satã por ser muito "humana".[33] O Satanismo Teísta que eles expuseram era uma inversão do cristianismo.[34] Euronymous era a figura-chave por trás da ideologia.[22][29] Ele professou ser a favor do totalitarismo e contra o individualismo, a compaixão, a paz, a felicidade e a diversão.[35] Quando questionado por quê tais declarações foram feitas para a imprensa, Ihsahn do Emperor disse: "Eu acho que em grande parte era para criar medo entre as pessoas".[36] Ele completou dizendo que a cena "queria ser uma oposição à sociedade" e "tentou concentrar em apenas ser 'mal' do que ter uma filosofia satânica real".[37]

Vikernes afirma que a razão deles de autoproclamarem "malignos" era para provocar. De acordo com o Lords of Chaos, muitos que conheciam Euronymous diziam que "a imagem extremista satânica que ele projetava, de fato, era somente uma projeção que tinha pouca semelhança com a sua verdadeira personalidade".[38] Kjetil Manheim,[9] Vikernes[5] e Blackthorn[39] (os dois últimos foram condenados por assassiná-lo) eram alguns destes. Faust declara que com Euronymous, "havia muito fumaça mas pouco fogo".[3] Mortiis, de qualquer forma, diz que Euronymous "era como um adorador do diabo, você não acreditaria",[40] e Metalion (que conhecia Euronymous desde 1985[41] e considerava-o como seu melhor amigo)[42] falou que o guitarrista norueguês "estava sempre contando o que ele pensava [...] cultuando a morte e sendo extremo".[29]Assim como para os outros membros da cena, Sanna Fridh disse que não havia evidência para sustentar as reivindicações de serem adoradores do diabo,[43] e Leif A. Lier, que liderou a investigação da polícia após a morte de Euronymous, afirma que ele e seus homens não conheceram nenhum satanista.[1] Faust diz que "Para algumas pessoas [o Satanismo] era a algo realmente sério, mas para muitos deles era apenas uma brincadeira".[44]

Em retrospectiva, Metalion escreveu: "No passado, pessoas simplesmente escreviam sobre Satã, mas agora elas interpretavam-no. Acredito que talvez não fosse totalmente satanismo em si, mas definitivamente havia uma influência sobre sua música e estilo de vida. Certamente era mais destrutivo do que o metal já havia sido no passado".[45] Tenebris do Misanthropic Luciferian Order (uma ordem satânica sueca) escreveu que a cena norueguesa "foi muito importante enquanto durou". Naquela época, em 1991, as coisas eram focadas apenas no black metal e no satanismo ideológico (não havia muita prática do satanismo, mas enfim...) [...] Rapidamente cresceu tornando-se uma espécie de exército do black metal [...] que tinha como figura central Euronymous e a sua loja. Por consequência, a coisa toda sumiu com a morte dele em 1993. Tristemente, muitas pessoas envolvidas na época traíram seus ideais e perderam o interesse quando as coisas desmoronaram. É como se tudo não tivesse passado de uma moda passageira.[46]

No tocante ao termo 'black metal', Euronymous dizia que se aplicava para qualquer banda de heavy metal que fosse adepta do satanismo teísta e escrevesse letras satânicas. Essas ideias foram repetidas por outros membros da cena, como Faust.[47] Na época, bandas com um estilo similar ao black metal norueguês, mas sem as letras satânicas, tendiam a usar outros termos para a sua música.[48][49][50]

Incêndios a igrejas[editar | editar código-fonte]

Em 1992, membros da cena do black metal norueguês iniciaram uma onda de incêndios a igrejas cristãs. Até 1996, houve ao menos 50 atos na Noruega; em cada caso solucionado, os responsáveis eram blackmetallers.[1][25][51] Algumas das construções tinham centenas de anos de idade e eram patrimônios históricos importantes. A primeira foi a igreja de madeira de Fantoft da Noruega, a qual foi totalmente queimada em junho de 1992. A polícia acredita que Varg Vikernes do Burzum foi o responsável.[1] A capa do EP Aske ("cinzas") do Burzum é uma fotografia da igreja destruída. Em maio de 1994, ele encontrava-se culpado por queimar a capela Holmenkollen e as igrejas Skjold e Åsane.[5][52] Para coincidir com o lançamento do álbum De Mysteriis Dom Sathanas do Mayhem, Vikernes e Euronymous teriam alegadamente planejado bombardear a catedral Nidaros, a qual aparece na capa do disco em questão.[8] Os músicos Samoth, Faust e Jørn Inge Tunsberg também foram condenados por incêndio a igrejas.[53][54][1]

Aqueles condenados por queimar igrejas não mostraram remorso e descreveram suas ações como retaliações simbólicas contra o cristianismo na Noruega.[55] O baterista Hellhammer do Mayhem disse que foi chamado para ataques em mesquitas e templos Hindu, baseado no fato desses serem mais estrangeiros.[56] Hoje, o assunto sobre a queima de igrejas divide opiniões dentro da comunidade black metal. Muitos, como Infernus e Gaahl do Gorgoroth, elogiaram os incêndios de igrejas, com o último afirmando "deveriam ter havido mais atos do tipo, e haverão mais".[14] Outros, como Necrobutcher e Kjetil Manheim do Mayhem, vieram a situação como uma coisa fútil, sendo que o último declarou que "muitos dos incêndios foram apenas pessoas tentando ganhar aceitação dentro da cena do black metal".[8]

Lista parcial das igrejas que foram atacadas:

A igreja de Fantoft, em Bergen

1992

1993

1994

1995

Assassinato de Magne Andreassen[editar | editar código-fonte]

Em 21 de agosto de 1992, Bård 'Faust' Eithun esfaqueou até a morte um homem gay chamado Magne Andreassen, em uma floresta nos arredores de Lillehammer.[5] Em 1994, ele foi sentenciado a cumprir 14 anos na prisão, mas foi liberado em 2003 após ficar nove anos e quatro meses na cadeia.[62]

Artigo do Bergens Tidende[editar | editar código-fonte]

Em janeiro de 1993, um artigo de um dos maiores jornais impressos da Noruega, o Bergens Tidende (BT), trouxe a cena do black metal para os holofotes da mídia.[63] Dois amigos de Vikernes entrevistaram-o e levaram a entrevista até o jornal, esperando que ela fosse impressa.[63] Na entrevista anônima, 'Count Grishnackh' (Vikernes) declarou que queimou as igrejas e matou um homem em Lillehammer.[63] O jornalista Finn Bjørn Tønder do BT marcou um encontro com 'Count Grishnackh'. Os jornalistas foram convocados para um apartamento e, supostamente, foram avisados que seriam expulsos se a polícia fosse acionada.[63] Assim, Vikernes e seus companheiros disseram aos jornalistas que eles haviam queimado as igrejas, ou que sabiam quem tinham feito isso, e avisaram que os ataques continuariam. Eles afirmaram serem adoradores do Diabo e disseram: "Nossa intenção é espalhar o medo e o mal […] e é por isso que estamos dizendo isso ao Bergens Tidende". Eles contaram aos jornalistas detalhes sobre os incêndios que ainda não haviam sido divulgados para a imprensa e então o BT contou para a polícia antes de publicar a matéria, que confirmou esses detalhes.[63] O artigo foi publicado em 20 de janeiro na página principal do BT. A manchete dizia "Vi tente på kirkene" ("nós queimamos as igrejas") e incluía uma foto de Vikernes, com a maior parte de sua face escondida e segurando longas facas. Entretanto, na hora que o artigo foi imprimido, Vikernes já havia sido preso. A polícia supostamente encontrou-o indo até o endereço que estava escrito num panfleto do Burzum, embora Vikernes acredite que Tønder o entregou.[63][64]

De acordo com Vikernes, a entrevista anônima foi planejada por ele e Euronymous com intento de espalhar o medo, promovendo o black metal e atraindo consumidores para a Helvete.[65] Vikernes afirmou sobre a entrevista: "Eu exagerei bastante e quando o jornalista saiu nós começaram a dar risada, porque ele não tinha percebido que eu estava enganando-o".[66] Ele adicionou que a entrevista não revelou nada que pudesse comprovar seu envolvimento em qualquer crime.[63] Vikernes ainda declarou que, depois de ser preso, "o jornalista modificou a entrevista e publicou uma versão insana dela no dia seguinte, sem nem me deixar lê-la".[64] Alguns dos outros membros da cena também foram presos e interrogados, mas todos foram liberados por falta de evidência.[63]

Euronymous decidiu fechar a Helvete quando começou a atrair a atenção da polícia e da mídia.[67] Vikernes condenou Euronymous por fechar a o loja ao invés de tirar proveito da publicidade: "tomando essa atitude ele tornou inútil todo o meu esforço. Eu passei seis semanas em custódia por causa disso".[68]

A revista norueguesa Rock Furore publicou uma entrevista com Vikernes em fevereiro de 1993, Nela, ele falou sobre o sistema penitenciário: "É muito legal aqui. Não é de todo mal. Nesse país os prisioneiros tem uma cama, banheiro e banho. É completamente ridículo. Eu pedi à polícia para me mandar para um calabouço de verdade, e também encorajei-os a usar violência".[69] Ele foi liberado em março por falta de evidência.[63]

Pouco tempo após este episódio, a polícia de Oslo despachou um grupo de bombeiros para Bergen, onde eles montaram uma sede improvisada no Hotel Norge. De acordo com o Lords of Chaos, citando um relatório da polícia, Vikernes bateu na porta deles e "praticamente forçou-o a ir para a suíte". Ele estava "vestido com uma cota de malha, carregando duas facas grandes em seu cinto, e cercado de dois homens jovens que comportavam-se como se fossem seus guarda-costas ou capangas". Vikernes "afirmou que ele estava farto de ser perseguido pelas autoridades, e que a investigação policial a cerca da cena do black metal tinha que parar". Quando a polícia contou-o que ele não tinha mais nenhum mandato, Vikernes "deu um passo pra trás e levantou seu braço direito como numa saudação romana".[70]

O assassinato de Euronymous[editar | editar código-fonte]

Dead e Euronymous

Em 10 de agosto de 1993, Varg Vikernes e Snorre Ruch viajaram de Bergen até o apartamento de Euronymous em Tøyengata.[9] O encontro resultou em uma discussão e, após um confronto, Varg esfaqueou-o até a morte. O corpo foi encontrado numa escada fora do apartamento.[71] Vikernes foi preso em 19 de agosto de 1993 em Bergen.[67] Ele recebeu em liberdade condicional em maio de 2009.

Após a morte de Euronymous e a prisão de inúmeros integrantes do Black Metal Inner Circle, este movimento se desfez. Ainda assim, as bandas do black metal norueguês continuaram suas carreiras, valendo destaque para o disco De Mysteriis Dom Sathanas do Mayhem, que foi lançado em 1994 contendo gravações tanto de Euronymous quanto de Varg Vikernes.

Confrontos com outros grupos[editar | editar código-fonte]

Havia uma forte rivalidade entre as cenas do black metal norueguês e do death metal sueco. Fenriz e Tchort notaram que os músicos do black metal norueguês tinham "fermentado toda a cena do death metal" e que "death metal era mal visto em Oslo" na época.[72][8] Inúmeras vezes, Euronymous enviou ameaças de morte a alguns dos grupos de death metal mais 'mainstream' na Europa.[8] Alegadamente, um grupo de fãs do black metal norueguês planejaram sequestrar e matar músicos do death metal sueco.[8]

Também havia uma rivalidade entre bandas de black metal da Noruega e da Finlândia. O Impaled Nazarene imprimiu "Não aceitamos vendas para a Noruega" e "Kuolema Norjan kusipäille!" ('Morte aos imbecis da Noruega!') nas primeiras impressões do seu primeiro álbum e fez provocações e comentários ofensivos ​ em fanzines. Nuclear Holocausto, principal integrante do Beherit, usou desta rixa para passar diversos trotes por telefone para Mika Luttinen (do Impaled Nazarene) nos quais ele ligaria na calada da noite e tocava poesias infantis em alta velocidade em gravações de fitas cassete. Na época, Luttinen guardou as mensagens e ameaças feitas por black metallers noruegueses.[73] A banda finlandesa Black Crucifixion criticou o grupo norueguês Darkthrone chamando-os de "modistas", pelo fato do Darkthrone originalmente tocar death metal e então mudar de estilo para black metal.[74]

Outra ameaças ocorreram contra grupos como Paradise Lost e Deicide. No caso do primeiro, o resultado foi a destruição do ônibus durante um tour do grupo a Oslo. No caso da segunda banda, durante um show em Estocolmo, uma bomba explodiu durante a apresentação do Therion, mas descobriu-se que o alvo era o Deicide.

Lista de bandas[editar | editar código-fonte]

Banda Fundação Cidade
Ancient 1992 Eidsvåg, Nesset
Arcturus 1987 Oslo
Burzum 1991 Bergen, Hordaland
Carpathian Forest 1990 Sandnes, Rogaland
Darkthrone 1987 Kolbotn, Oppegård
Dimmu Borgir 1993 Oslo
Emperor 1991 Notodden, Telemark
Enslaved 1991 Haugesund, Rogaland
Fimbulwinter 1992 Oslo
Gorgoroth 1992 Bergen, Hordaland
Hades/Hades Almighty 1992 Bergen, Hordaland
Ildjarn 1992 , Telemark
Immortal 1989 Bergen, Hordaland
Mayhem 1984 Oslo
Satyricon 1991 Oslo
Thorns 1990 Trondheim, Sør-Trøndelag
Ulver 1993 Oslo

Lista de álbuns lançados[editar | editar código-fonte]

Os discos citados em negrito são álbuns completos. O restante são demos e compactos.

Ano/Mês Banda Título
1987-08 Mayhem Deathcrush
1989-12 Stigma Diabolicum Luna De Nocturnus
1990-03 Stigma Diabolicum Lacus De Luna
1990-11 Mayhem Live in Leipzig
1991
1991-?? Mayhem "Freezing Moon" and "Carnage"
1991-05 Burzum Burzum Demo I
1991-06 Thorns Grymyrk
1991-07 Thou Shalt Suffer Open the Mysteries of Your Creation
1991-07 Enthrone Black Wings
1991-07 Arcturus My Angel
1991-08 Darkthrone A Blaze in the Northern Sky
1991-09 Burzum Burzum Demo II
1991-10 Immortal Immortal
1991-10 Thou Shalt Suffer Into the Woods of Belial
1991-12 Enslaved Nema
1992
1992-02 Ildjarn Unknown Truths
1992-03 Burzum Burzum
1992-04 Burzum Det Som Engang Var
1992-06 Satyricon All Evil
1992-06 Enslaved Yggdrasill
1992-06 Darkthrone Under a Funeral Moon
1992-07 Immortal Diabolical Fullmoon Mysticism
1992-07 Emperor Wrath of the Tyrant
1992-08 Burzum Aske
1992-09 Carpathian Forest Bloodlust and Perversion
1992-09 Burzum Hvis Lyset Tar Oss
1992-12 Fimbulwinter Fimbulwinter Demo
1992-?? Thorns Trøndertun
1993
1993-01 Ildjarn Ildjarn Demo
1993-03 Burzum Filosofem
1993-03 Satyricon The Forest Is My Throne
1993-04 Gorgoroth A Sorcery Written in Blood
1993-05 Ildjarn Norse
1993-06 Hades Almighty Alone Walkyng
1993-08 Ancient Eerily Howling Winds
1993-10 Emperor Emperor
1993-10 Enslaved Hordanes Land
1993-11 Immortal Pure Holocaust
1993-11 Ulver Vargnatt
1993-?? Carpathian Forest Journey through the Cold Moors of Svarttjern
1993-?? Dimmu Borgir Inn I Evighetens Mørke

Documentários[editar | editar código-fonte]

  • Det Svarte Alvor (1994)
  • Satan rir Media (Satan Rides the Media) (1998)
  • Norsk Black Metal (2003)
  • Metal: A Headbanger's Journey (2005)
  • Black Metal: A Documentary (2006)
  • Murder Music: A History of Black Metal (2007)
  • Once Upon a Time in Norway (2008)
  • Pure Fucking Mayhem (2008)
  • Black Metal: The Norwegian Legacy (2008)
  • Until The Light Takes Us (2009)[75]
  • Black Metal: The Music of Satan (2010)

Referências

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  5. a b c d e f g h i Aites, Aaron (director, producer); Ewell, Audrey (director, producer) (2009). Until the Light Takes Us (motion picture). Variance Films. 
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  9. a b c d Rydehed, Stefan (director) (2008). Pure Fucking Mayhem (motion picture). Index Verlag. 
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  13. Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas soundsofdeath
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  16. Kristiansen, p. 219.
  17. Unrestrained magazine #15: Necrobutcher interview
  18. MusicMight: Biography of Immortal
  19. Discogs: Erik Brødreskift
  20. Find A Grave: Erik "Grim" Brødreskift (1969-1999)
  21. Ravn: Strid. In: Slayer, No. 20, Blood Fire Death, 2010, p. 78.
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  23. Lords of Chaos, p. 119.
  24. Lords of Chaos, p. 66.
  25. a b «Øystein 'Euronymous' Aarseth». June 1992. Consultado em 10 October 2009. «Well, the original idea was to make a specialist shop for metal in general, but that's a long time ago. Normal metal isn't very popular any more, all the children are listening to 'death' metal now. I'd rather be selling Judas Priest than Napalm Death, but at least now we can be specialized within 'death' metal and make a shop where all the trend people know that they will find all the trend music. This will help us earning money so that we can order more EVIL records to the evil people. But no matter how shitty music we have to sell, we'll make a BLACK METAL look on the shop, we've had a couple of 'actions' in churches lately, and the shop is going to look like a black church in the future. We've also thought about having total darkness inside, so that people would have to carry torches to be able to see the records.» 
  26. Norwegian dictionary entry for "Helvete"
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Baddeley, Gavin (1999). Lucifer Rising: Sin, Devil Worship and Rock and Roll
  • Moynihan, Micheal and Didrik Soderlind (1998). Lords of Chaos: The Bloody Rise of the Satanic Metal Underground