Carolina de Ansbach

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Rainha Carolina
Rainha-Consorte da Grã-Bretanha
Margravina de Brandenburg-Ansbach
Consorte da Grã-Bretanha
Período 11 de Junho de 1727 - 20 de Novembro de 1737
Predecessor Jorge da Dinamarca
Sucessor Carlota de Mecklemburgo-Strelitz
Coroação 11 de Outubro de 1727
Cônjuge Jorge II da Grã-Bretanha
Descendência
Frederico, Príncipe de Gales
Ana, Princesa Real
Amélia Sofia da Grã-Bretanha
Carolina da Grã-Bretanha
Jorge Guilherme da Grã-Bretanha
Guilherme, Duque de Cumberland
Maria da Grã-Bretanha
Luísa da Grã-Bretanha
Pai João Frederico, margrave de Brandemburgo-Ansbach
Mãe Leonor Edmunda de Saxe-Eisenach
Nascimento 1 de Março de 1683
Ansbach, Alemanha
Morte 20 de novembro de 1737 (54 anos)
Palácio de St. James, Londres, Grã-Bretanha
Enterro Abadia de Westminster, Londres, Inglaterra

A duquesa Carolina de Ansbach (Guilhermina Carlota Carolina; em inglês: Wilhelmina Charlotte Caroline) (1 de Março de 1683 - 20 de Novembro de 1737) foi a rainha consorte de Jorge II da Grã-Bretanha.

O seu pai, o margrave João Frederico de Brandenburg-Ansbach, governava um pequeno estado alemão. Carolina ficou órfã muito cedo e mudou-se para a corte iluminista da sua guardiã, a princesa Sofia Carlota de Hanôver, consorte do rei Frederico I da Prússia. Na corte prussiana, a sua educação, que antes tinha sido muito reduzida, foi expandida e Carolina adoptou os ideais liberalistas da sua guardiã. As duas tornaram-se grandes amigas e os ideais de Sofia Carlota influenciaram Carolina durante toda a sua vida.

Enquanto jovem, Carolina foi uma noiva muito procurada. Depois de rejeitar a comitiva do rei nominal de Espanha, o arquiduque Carlos da Áustria, casou-se com o príncipe Jorge Augusto, que estava em terceiro lugar na linha de sucessão do trono britânico e era herdeiro-aparente do eleitorado de Hanôver. Tiveram oito filhos, sete dos quais chegaram à idade adulta. Carolina mudou-se permanentemente para a Grã-Bretanha em 1714 quando o seu marido se tornou príncipe de Gales. Como princesa de Gales, Carolina juntou-se ao marido na oposição política ao seu sogro, o rei Jorge I. Em 1717, o seu marido foi expulso da corte depois de uma zanga familiar. Carolina associou-se a Robert Walpole, um político da oposição que tinha sido ministro do governo anterior. Walpole voltou a juntar-se ao governo em 1720, altura em que o marido e o sogro de Carolina se reconciliaram em público, seguindo o conselho de Walpole. Nos anos que se seguiram, Walpole subiu na carreira até se tornar líder dos ministros.

Carolina sucedeu como rainha e princesa-eleitora em 1727, quando o seu marido se tornou o rei Jorge II. O seu filho mais velho, Frederico, tornou-se príncipe de Gales, e passou a ser o centro das atenções do partido da oposição, tal como tinha acontecido ao pai antes, o que levou a tensões com os pais. Como princesa e rainha, Carolina ficou conhecida pela sua influência política, que exercia através de Walpole. O seu reinado incluiu quatro regências, durante as estadias do marido em Hanôver, e foi responsável pelo fortalecimento da dinastia hanoveriana na Grã-Bretanha durante um período político de grande instabilidade. A sua morte em 1737 foi muito lamentada, não só pelo público, mas também pelo rei que se recusou a casar novamente.

Índice

Primeiros Anos [editar]

Carolina de Ansbach, cerca de 1730.

Carolina nasceu no dia 1 de Março de 1683, em Ansbach, filha do margrave João Frederico de Brandenburg-Ansbach, e da sua segunda esposa, a duquesa Leonor Edmunda de Saxe-Eisenach.1 O seu pai governava um dos estados mais pequenos da Alemanha e morreu de varíola aos trinta-e-dois anos de idade, quando Carolina tinha três anos de idade. Após a morte do pai, Carolina e o seu único irmão direito, o margrave Guilherme Frederico, deixaram Ansbach e foram viver para Eisenach, a terra natal da mãe.2

Em 1692, a mãe de Carolina foi arrastada para um casamento infeliz com o eleitor da Saxónia e mudou-se para a corte de Dresden com os seus dois filhos. Leonor ficou novamente viúva dois anos depois, depois de o seu marido ter apanhado varíola da sua amante.3 Leonor permaneceu na Saxónia por mais dois anos, até morrer em 1696.4 Carolina e Guilherme, agora órfãos, regressaram a Ansbach para ficar com o seu meio-irmão mais velho, o margrave Jorge Frederico II. Jorge Frederico era ainda muito jovem e estava pouco interessado em cuidar de uma rapariga, por isso, pouco depois, Carolina mudou-se para Lützenburg, nos arredores de Berlim, onde passou a viver com os seus novos guardiões, o príncipe-eleitor Frederico de Brandemburgo e a sua esposa, Sofia Carlota, que tinha sido uma grande amiga de Leonor Edmunda.5

Educação [editar]

Frederico e Sofia Carlota tornaram-se rei e rainha da Prússia em 1701. Sofia Carlota era filha da eleitora-viúva Sofia de Hanôver, e irmã do príncipe-eleitor Jorge de Hanôver. Era conhecida pela sua inteligência e personalidade forte e a sua corte liberal e sem censura atraía muitos intelectuais, incluindo o filósofo Gottfried Leibniz.6 Carolina estava exposta a um ambiente intelectual e vivaz, muito diferente de tudo o que tinha vivido anteriormente. Antes de começar a sua educação ao cuidado de Sofia Carlota, Carolina tinha recebido pouca formação oficial e a sua escrita manteve-se fraca ao longo de toda a sua vida.7 Com a sua mente vivaz, Carolina conseguiu tornar-se uma intelectual com uma inteligência bastante considerável.8 Carolina e Sofia Carlota criaram uma relação muito próxima de mãe e filha;9 uma vez, a rainha declarou que Berlim era "um deserto" sem Carolina, sempre que ela passava algum tempo em Ansbach.10

Casamento [editar]

Carolina com o marido e os sete filhos.

Uma mulher inteligente e atraente, Carolina foi muito procurada para noiva. A eleitora-viúva Sofia chamou-a "a princesa mais elegível da Alemanha".11 Foi considerada para se casar com o arquiduque Carlos da Áustria, que era um candidato ao trono de Espanha e se tornaria mais tarde sacro-imperador romano. Carlos fez-lhe um pedido oficial em 1703, e a união foi encorajada pelo rei Frederico da Prússia. Depois de pensar durante algum tempo, Carolina recusou o pedido em 1704, uma vez que se teria de converter do luteranismo para o catolicismo.12 No início do ano seguinte, a rainha Sofia Carlota morreu durante uma visita a Hanôver, a sua terra-natal. Carolina ficou devastada, tendo escrito a Leibniz: "esta calamidade esmagou-me com dor e doença, e só a esperança de a seguir brevemente me consola".13

Em Junho de 1705, o sobrinho da rainha Sofia, Jorge Augusto, príncipe-eleitor de Hanôver, visitou a corte de Ansbach, supostamente irreconhecível, para inspeccionar Carolina, uma vez que o seu pai, o príncipe-eleitor, não queria que ele contraísse um casamento sem amor, como ele tinha feito.14 Sobrinho de três tios sem filhos, Jorge Augusto estava a ser pressionado para se casar e ter herdeiros, ou então colocaria a sucessão dos Hanôver em risco.15 O príncipe tinha ouvido histórias sobre "a beleza incomparável e atributos intelectuais" de Carolina.16 Jorge gostou imediatamente da sua "personalidade gentil" e o enviado britânico relatou que Jorge Augusto "não queria pensar em mais ninguém depois de a conhecer".17 Por seu lado, Carolina não foi enganada pelo disfarce do príncipe, e achou o seu pretendente atraente.18 Jorge era herdeiro-aparente do eleitorado de Hanôver, governado pelo pai, e estava em terceiro lugar da linha de sucessão ao trono britânico que, na altura, pertencia à sua prima distante, a rainha Ana.19

A 22 de Agosto de 1705, Carolina chegou a Hanôver para o seu casamento com Jorge Augusto. Os dois casaram-se nessa noite, na capela do palácio em Herrenhausen.20 Em Maio do ano seguinte, Carolina achava que estava grávida, e o seu primeiro filho, o príncipe Frederico, nasceu a 20 de Janeiro de 1707.21 Alguns meses depois do nascimento, em Julho, Carolina ficou gravemente doente com varíola, à qual se seguiu uma pneumonia. O seu filho foi afastado dela, mas Jorge Augusto esteve sempre a seu lado, acabando por apanhar a mesma infecção, à qual também sobreviveu.22 Nos sete anos que se seguiram, Carolina teve mais três filhas: Ana, Amélia e Carolina, todas elas nascidas em Hanôver.23

Jorge Augusto e Carolina tiveram um casamento longo e feliz, apesar de Jorge ter continuado a ter amantes, como era costume na época.24 Carolina estava ciente das infidelidades do marido, visto que eram conhecidas e ele também lhe contava quando tinha amantes. As suas duas amantes mais conhecidas foram Henrietta Howard, mais tarde condessa de Suffolk, e, a partir de 1735, Amalie von Wallmoden, condessa de Yarmouth. Henrietta era uma das damas-do-quarto de Carolina e tornou-se senhora das roupas quando o seu marido herdou um pariato em 1731. Reformou-se em 1734.25 Ao contrário da sua sogra e do marido, Carolina era conhecida pela sua fidelidade matrimonial. Nunca se envolveu em cenas embaraçosas nem teve amantes.26 Carolina preferia que as amantes do marido fossem suas damas-de-companhia, uma vez que acreditava que, assim, poderia controlá-las mais facilmente.27

A sucessão da família do marido ao trono britânico ainda não estava completamente assegurada, uma vez que o meio-irmão da rainha Ana, James Stuart, contestava a pretensão hanoveriana, e a rainha Ana e a avó-por-afinidade de Carolina, a eleitora Sofia, tinham-se zangado. Ana recusou mesmo visitas de membros da família real de Hanôver a Grã-Bretanha enquanto fosse viva.28 Carolina escreveu a Leibniz: "Aceito a comparação que estabeleceu, apesar de ser demasiado bajuladora, entre mim e a rainha Isabel como um bom presságio. Como Isabel, os direitos da princesa-eleitora são-lhe negados pela sua irmã invejosa [a rainha Ana], e ela nunca terá a certeza se ficará com o trono inglês até conseguir suceder".29 Em Junho de 1714, a eleitora-viúva Sofia morreu nos braços de Carolina aos oitenta-e-quatro anos de idade, e o sogro de Carolina tornou-se herdeiro-aparente da rainha Ana. Apenas algumas semanas depois, Ana também morreu e o príncipe-eleitor de Hanôver foi proclamado como seu sucessor, tornando-se rei Jorge I da Grã-Bretanha.30

Princesa de Gales [editar]

Carolina por Sir Godfrey Kneller.

Jorge Augusto navegou para Inglaterra em Setembro de 1714, e Carolina e duas das suas filhas seguiram viagem em Outubro.31 A sua viagem para o outro lado do Mar do Norte, de Haia para Margate foi a primeira e única viagem marítima que Carolina alguma vez fez na vida.32 O seu filho mais velho, Frederico, permaneceu em Hanôver ao longo de todo o reinado de Jorge I, onde foi educado por tutores privados.33

Com ascensão de Jorge I em 1714, o marido de Carolina tornou-se automaticamente duque da Cornualha e duque de Rothesay. Pouco depois, foi investido como príncipe de Gales, um título que também passou para a sua esposa. Carolina foi a primeira mulher a receber o título ao mesmo tempo que o marido.34 Foi a primeira princesa de Gales em mais de duzentos anos, tendo sido a última a princesa Catarina de Aragão. Como o rei Jorge I tinha repudiado a sua esposa Sofia Doroteia de Celle em 1694, antes de se tornar rei, não havia rainha-consorte, e Carolina tornou-se a mulher mais importante do reino.35 Jorge Augusto e Carolina esforçaram-se para se adaptar ao seu novo país, aprendendo a língua, a política, os costumes e o povo britânico.36 Desenvolveram-se duas cortes separadas que contrastavam fortemente uma com a outra. O velho rei tinha cortesãos e ministros alemães, enquanto que a corte de Gales atraía nobres ingleses que se tinham desentendido com o rei e era consideravelmente mais popular junto do povo britânico. A oposição política ao rei, começou a concentrar-se gradualmente junto de Jorge Augusto e de Carolina.37

Dois anos depois da sua chegada a Inglaterra, Carolina deu à luz um bebé morto, uma tragédia que a sua amiga, a condessa de Bückeburg culpou na incompetência dos médicos ingleses,38 mas no ano seguinte, teve mais um filho, o príncipe Jorge Guilherme. No baptizado do bebé, que se realizou em Novembro de 1717, o seu marido desentendeu-se com o pai por causa da escolha dos padrinhos, o que levou o rei a colocar o casal em prisão domiciliária no Palácio de St. James antes de os banir da corte.39 Inicialmente, Carolina teve permissão para ficar com os filhos, mas recusou-se a fazê-lo por acreditar que o seu lugar era ao lado do marido.40 O casal mudou-se para Leicester House e os filhos ficaram ao cuidado do rei.41 Carolina adoeceu de preocupação e desmaiou durante uma visita secreta aos seus filhos, realizada sem a permissão do rei.42 Em Janeiro, o rei tinha cedido e permitiu que Carolina visitasse os filhos sem restrições. Em Fevereiro, o príncipe Jorge Guilherme adoeceu e o rei permitiu que tanto Jorge Augusto como Carolina o visitassem no Palácio de Kensington sem restrições. Quando a criança morreu, foi realizada uma autópsia para provar que a sua causa de morte tinha sido uma doença (um pólipo no coração) e não a separação da mãe.43 Em 1718, outra tragédia abalou a família quando Carolina teve um aborto espontâneo em Richmond Lodge, a sua casa de campo.44 Nos anos que se seguiram, Carolina teve mais três filhos: Guilherme, Maria e Luísa.45

Leicester House tornou-se um local de encontro frequente dos opositores políticos do rei e do governo. Foi nesta altura que Carolina estabeleceu amizade com o político Sir Robert Walpole, um antigo ministro do governo liberal que liderava uma facção descontente do partido. Em Abril de 1720, a facção de Walpole reconciliou-se com o restante partido liberal, que governava o país, e, juntamente com Carolina, Walpole conseguiu fazer com que o rei e o príncipe de Gales se reconciliassem pelo bem da unidade pública.46 Carolina queria recuperar as suas três filhas mais velhas, que continuavam sob o cuidado do rei, e achou que a reconciliação iria ajudar ao seu regresso, mas as negociações não deram em nada. Jorge Augusto acabou por achar que Walpole o tinha convencido a reconciliar-se com o pai como parte de um esquema para ganhar poder. O príncipe estava isolado politicamente quando os liberais de Walpole se juntaram ao governo,47 e Leicester House passou a receber figuras literárias e intelectuais, tais como John Arbuthnot e Jonathan Swift, em vez de políticos.48 Arbuthnot contou a Swift que Carolina tinha gostado do seu livro, "As Viagens de Gulliver", principalmente a história de um príncipe-herdeiro que usava um tacão alto e um baixo num país onde o rei e o seu partido usavam tacões baixos e a oposição usava tacões altos: uma referência pouco disfarçada às tendências políticas do príncipe de Gales.49

A inteligência de Carolina ultrapassava de longe a do marido, e a princesa lia avidamente. Carolina criou uma biblioteca extensa no Palácio de St. James. Enquanto jovem, Carolina trocou correspondência com Gottfried Leibniz, o colosso intelectual que era cortesão e factótum da Casa de Hanôver. Mais tarde, Carolina disponibilizou a correspondência Leibniz-Clarke, sem dúvida a discussão filosofa sobre física mais importante do século XVIII. Ajudou a popularizar a prática da variolização (uma forma prematura de imunização), que tinha sido testemunhada por Lady Mary Wortley Montagu e Charles Maitland em Constantinopla. Por ordem de Carolina, seis prisioneiros condenados tiveram a oportunidade de escolher testar a variolização e ser executados: todos sobreviveram, assim como seis crianças órfãs que foram submetidas ao mesmo teste. Convencida da sua importância médica, Carolina também ordenou que os seus filhos Amélia, Carolina e Frederico fossem vacinados contra a varíola da mesma forma.50 Elogiando o seu apoio pela vacinação contra a varíola, Voltaire escreveu sobre ela: "Tenho de dizer que apesar dos seus títulos e coroas, esta princesa, nasceu para encorajar as artes e o bem-estar da humanidade; mesmo no trono, é um filosofa benevolente; e nunca perdeu uma oportunidade para aprender ou manifestar a sua generosidade".51

Rainha e Regente [editar]

Carolina por Jacopo Amigoni.

Carolina tornou-se rainha-consorte da Grã-Bretanha após a morte do seu sogro em 1727, sendo coroada ao lado do marido na Abadia de Westminster a 11 de Outubro do mesmo ano.52 Foi a primeira rainha-consorte a ser coroada desde a princesa Ana da Dinamarca em 1603.53 Apesar de Jorge II considerar Walpole um "velhaco e patife" por causa dos termos da reconciliação com o seu pai, mas Carolina aconselhou-o a mantê-lo como ministro principal.54 Walpole comandava uma maioria substancial do parlamento e Jorge II teve pouca escolha entre aceitá-lo ou arriscar instabilidade entre os ministros.55 Walpole conseguiu obter um pagamento de £100,000 por ano da lista civil para Carolina que também recebeu Somerset House e Richmond Lodge.56 O cortesão Lord Hervey chamava Walpole "o ministro da rainha", reconhecendo a sua relação próxima. Nos dez anos que se seguiram, Carolina teve uma grande influência. Persuadiu o rei a adoptar políticas aconselhadas por Walpole, e convenceu Walpole a não realizar acções inflamatórias. Carolina tinha absorvido as opiniões liberais da sua mentora, a rainha Sofia Carlota da Prússia, e apoiou o pedido de clemência dos Jacobitas (apoiantes da pretensão Stuart ao trono britânico), a liberdade de impressa e a liberdade de expressão no parlamento.57

Nos anos que se seguiram, Carolina e o marido travaram uma batalha constante contra o seu filho mais velho, Frederico, príncipe de Gales, que tinha sido deixado na Alemanha quando eles foram para Inglaterra. Juntou-se à família em 1728, quando era já um adulto, tinha amantes e dívidas e gostava de jogo e partidas. Opunha-se às crenças políticas do pai e queixava-se da sua falta de influência no governo.58 O Decreto de Regência de 1728, nomeou Carolina e não Frederico, regente quando o marido esteve em Hanôver durante cinco meses a partir de Maio de 1729. Durante a sua regência, aconteceu um incidente diplomático com Portugal, devido ao ataque a um navio britânico em Tânger, e as negociações para o Tratado de Sevilha entre Espanha e a Grã-Bretanha ficaram concluídas.59 Uma investigação levada a cabo no sistema penal fez com que se descobrissem abusos graves, incluindo tratamento cruel e conspiração na fuga de condenados abastados. Carolina pressionou Walpole para que fosse posta em marcha uma reforma, mas não teve grande sucesso.60 Em 1733, Walpole apresentou um projecto de lei pouco popular no parlamento, que a rainha apoiava, mas a oposição era tão forte que teve de ser abandonado.61

Enquanto esteve na Grã-Bretanha, Carolina viveu apenas no sudoeste de Inglaterra, em Londres ou nos arredores.62 Como rainha, continuou a rodear-se de artistas, escritores e intelectuais. Coleccionou jóias, principalmente camafeus e entalhes, adquiriu quadros e miniaturas importantes e gostava de artes visuais. Encomendou trabalhos como bustos de terracota dos reis e rainhas de Inglaterra a Michael Rysbrack,63 e supervisionou um desenho mais naturalista nos jardins reais, concebido por William Kent e Charles Bridgeman.64 Em 1728, descobriu uma colecção de rascunhos de Leonardo da Vinci e Hans Holbein que estavam escondidos dentro de uma gaveta desde o reinado de Guilherme III.65

A filha mais velha de Carolina, Ana, casou-se com o príncipe Guilherme IV de Orange em 1734, e mudou-se com o marido para os Países Baixos. Carolina escreveu à filha, contando-lhe sobre a tristeza "indescritível" que tinha sentido com a separação.66 Ana não demorou a sentir saudades de casa e visitou Inglaterra quando o seu marido foi para o campo de batalha. Eventualmente, o seu pai e o marido obrigaram-na a regressar à Holanda.67

Últimos Anos [editar]

A rainha Carolina por Charles Jervas.

Em meados de 1735, o príncipe de Gales ficou ainda mais consternado quando Carolina, e não ele, foi novamente nomeada regente quando o rei se voltou a ausentar do país para visitar Hanôver.68 O rei e a rainha tinham também arranjado o casamento dele com a princesa Augusta de Saxe-Gota em 1736. Pouco depois do casamento, Jorge foi a Hanôver e Carolina voltou a assumir o seu papel de "Protectora do Reino". Como regente, Carolina considerou a prorrogação do capitão John Porteous, que tinha sido condenado por assassinato em Edimburgo. Antes de poder agir, uma multidão invadiu a prisão onde o capitão estava detido e matou-o. Carolina ficou abismada.69 A ausência do rei no estrangeiro estava a começar a tornar-se pouco populares e, em finais de 1736, Jorge começou a fazer planos para regressar, mas o seu navio foi atrasado por uma tempestade e começaram a surgir rumores que o rei tinha morrido no mar. Carolina ficou devastada e enojada com a insensibilidade do filho, que organizou um grande jantar enquanto o vento da tempestade soprava.70 Durante a regência da mãe, o príncipe de Gales tentou começar várias zangas com ela, por a considerar um peão útil para irritar o rei. Jorge acabou por regressar em Janeiro de 1737.71

Frederico pediu um aumento do seu rendimento ao parlamento, algo que o seu pai lhe tinha negado constantemente, mas não teve sucesso, e a discórdia publica por causa do dinheiro fez com que a relação entre pai e filho piorasse ainda mais. Seguindo o conselho de Walpole, o rendimento de Frederico foi aumentado, numa tentativa de mitigar mais conflitos, mas o aumento foi menor do que aquele que o príncipe de Gales tinha pedido.72 Em Junho de 1737, Frederico informou os pais de que a sua esposa estava grávida e que o parto deveria acontecer em Outubro. Na verdade, a data que tinha sido avançada para o parto de Augusta era mais cedo e, em Julho, aconteceu um episódio peculiar, quando o príncipe de Gales, ao saber que a esposa tinha entrado em trabalho de parto, levou-a do Palácio de Hampton Court a meio da noite para garantir que o rei e a rainha não estariam presentes na altura do nascimento.73 Jorge e Carolina ficaram horrorizados. Tradicionalmente, os nascimentos reais eram testemunhados por membros da família e cortesãos antigos para garantir que o bebé não era substituído, e Augusta tinha sido forçada pelo marido a andar numa carruagem instável durante hora e meia, no fim do tempo de gestação, e com dores. A rainha dirigiu-se rapidamente para o Palácio de St. James, para onde Frederico tinha levado a esposa, com um grupo de pessoas que incluía duas das suas filhas e Lord Hervey.74 Carolina ficou aliviada quando descobriu que Augusta tinha dado à luz um "uma ratazana pobre, feia e pequena" em vez de "um bebé grande, gordo e saudável", uma vez que esse facto fazia com que uma substituição fosse pouco provável.75 As circunstâncias do nascimento aumentaram ainda mais o afastamento entre mãe e filho.76 Segundo Lord Hervey, Carolina comentou uma vez depois de ver Frederico: "Veja, lá vai ele! Aquele miserável! Aquele vilão! Quem me dera que o chão se abrisse neste momento e engolisse aquele monstro para o buraco mais profundo do inferno!"77

Nos seus últimos anos de vida, Carolina sofreu de gota nos pés,78 mas o problema que mais a incomodava era uma hérnia umbilical da qual sofria desde o nascimento da sua última filha em 1724.79 A 9 de Novembro de 1737, Carolina sentiu uma dor intensa, depois de organizar uma recepção formal e foi enviada para a cama. O seu ventre tinha-se rompido. Nos dias que se seguiram, a rainha foi tratada com sangrias, purificada e operada sem anestesia, mas o seu estado de saúde não melhorou.80 O rei recusou-se a dar permissão a Frederico para ver a mãe,81 uma decisão com a qual a rainha concordou. Enviaria depois uma mensagem de perdão a Frederico através de Walpole.82 Pediu ao marido que se voltasse a casar depois da sua morte, algo que o rei rejeitou, dizendo que apenas teria amantes, ao que Carolina respondeu: "Ah, mon Dieu, cela n'empêche pas" (Meu Deus, isso não o previne).83 A 17 de Novembro, os seus intestinos presos rebentaram.84 85 Morreu a 20 de Novembro de 1737, no Palácio de St. James.86

Carolina foi enterrada na Abadia de Westminster a 17 de Dezembro. Frederico não foi convidado para o funeral. George Frideric Handel compôs um hino para a ocasião intitulado "The Ways of Zion Do Mourn / Funeral Anthem for Queen Caroline" [É Verdade Que os Caminhos do Sião Fazem Luto / Hino Fúnebre para a Rainha Carolina]. O rei escolheu um par de caixões iguais, nos quais se podiam remover os lados, para que, quando ele morresse (vinte-e-três anos depois), pudesse ser enterrado junto dela.87

Legado [editar]

A morte de Carolina foi muito sentida. Os protestantes elogiaram o seu exemplo moral, e até os Jacobitas reconheceram a sua compaixão e a sua intervenção pela misericórdia que mostrou pelos seus compatriotas.88 Durante a sua vida, a sua recusa em converter-se ao catolicismo quando recebeu a proposta de casamento do arquiduque Carlos, foi utilizada para a retratar como uma forte apoiante do Protestantismo. Por exemplo, John Gay escreveu sobre Carolina em "A Letter to A Lady" [Uma Carta Para uma Senhora] (1714):

The pomp of titles easy faith might shake,
She scorn'd an empire for religion's sake:
For this, on earth, the British crown is giv'n,
And an immortal crown decreed in heav'n.89

Tanto o público como a corte consideravam que Carolina tinha grande influência junto do marido.90 Um poema satírico da época dizia:91

You may strut, dapper George, but 'twill all be in vain,
We all know 'tis Queen Caroline, not you, that reign –
You govern no more than Don Philip of Spain.
Then if you would have us fall down and adore you,
Lock up your fat spouse, as your dad did before you.92

As memórias do século XVIII, principalmente as de John, Lord Hervey, alimentaram a percepção de que Carolina e Walpole governavam o rei. Peter Quennell escreveu que Hervey era "o cronista que registou esta coligação notável", e que a rainha Carolina era a "heroína" de Hervey.93 Recorrendo a estas fontes, os biógrafos dos séculos XIX e XX deram todo o crédito a Carolina por ter fortalecido a posição da Casa de Hanôver na Grã-Bretanha, contra a oposição Jacobita. R. L. Arkell escreveu "pela sua sagacidade e genialidade, [Carolina] assegurou o enraizamento da dinastia em Inglaterra", e W.H. Wilkins disse que a sua "personalidade graciosa e digna, os seus ideais sublimes e vida pura, ajudaram muito a contrapor a pouca popularidade do marido e do sogro, e a redimir os primeiros tempos da Era Georgiana da sua completa grosseria."94 Apesar de os historiadores modernos tenderem a acreditar que Hervey, Wilkins e Arkell sobrestimaram a sua importância, não deixa de ser provável que Carolina de Ansbach tenha sido uma das consortes mais influentes da história da Grã-Bretanha.95

Filhos [editar]

Carolina ficou grávida nove vezes (entre 1707 e 1724) e deu luz a oito crianças vivas, das quais apenas o príncipe Jorge Guilherme morreu na infância. As outras sete atingiram a fase adulta.

Nome Nascimento Morte Observações
Frederico, Príncipe de Gales 1 de Fevereiro de 1707 31 de Março de 1751 Casou-se com Augusta de Saxe-Ghota (1736) e foi o pai de Jorge III.
Ana, Princesa Real e Princesa de Orange 2 de Novembro de 1709 12 de Janeiro de 1759 Casou-se com Guilherme IV de Orange-Nassau (1734).
Princesa Amélia Sofia 10 de Julho de 1711 31 de Outubro de 1786 Nunca se casou nem teve filhos
Princesa Carolina Isabel 21 de Junho de 1713 28 de Dezembro de 1757 Nunca se casou nem teve filhos
Príncipe Jorge Guilherme de Gales 13 de Novembro de 1717 17 de Fevereiro de 1718 Morreu na infância.
Príncipe Guilherme Augusto, Duque de Cumberland 26 de Abril de 1721 31 de Outubro de 1765 Nunca se casou nem teve filhos. Conhecido por ter esmagado a revolta Jacobita.
Princesa Maria, Landgravine de Hesse 5 de Março de 1723 14 de Janeiro de 1772 Casou-se com Frederico II, Landgrave de Hesse-Cassel (1740).
Luísa, Rainha da Dinamarca e da Noruega 18 de Dezembro de 1724 19 de Dezembro de 1751 Casou-se com Frederico V da Dinamarca (1743).

Genealogia [editar]

Os antepassados de Carolina de Ansbach em três gerações
Carolina de Ansbach Pai:
João Frederico, margrave de Brandemburgo-Ansbach
Avô paterno:
Alberto II de Brandenburg-Ansbach
Bisavô paterno:
Joaquim Ernesto de Brandenburg-Ansbach
Bisavó paterna:
Sofia de Solms-Laubach
Avó paterna:
Sofia Margarida de Oettingen-Oettingen
Bisavô paterno:
Joaquim Ernesto de Oettingen-Oettingen
Bisavó paterna:
Ana Sibila de Solms-Sonnenwalde
Mãe:
Leonor Edmunda de Saxe-Eisenach
Avô materno:
João Jorge I de Saxe-Eisenach
Bisavô materno:
Guilherme de Saxe-Weimar
Bisavó materna:
Leonor Doroteia de Anhalt-Dessau
Avó materna:
Joaneta de Sayn-Wittgenstein
Bisavô materno:
Ernesto de Sayn-Wittgenstein-Sayn
Bisavó materna:
Luísa Juliana de Erbach-Erbach

Títulos [editar]

  • 1683-1705: Sua Serena Alteza Margravina Caroline de Brandemburgo-Ansbach
  • 1705-1714: Sua Alteza Real A Eleitora Princesa de Hanôver, Duquesa de Cambridge
  • 1714: Sua Alteza Real A Duquesa da Cornualha e Cambridge
  • 1714-1727: Sua Alteza Real A Princesa de Gales
  • 1727-1737: Sua Majestade Rainha Carolina da Grã-Bretanha e Irlanda.

Notas e referências

  1. Weir, pp. 277–278
  2. Arkell, p. 5
  3. Arkell, p. 6; Van der Kiste, p. 12
  4. Arkell, p. 6; Hichens, p. 19
  5. Arkell, pp. 6–7
  6. Hichens, p. 19
  7. Van der Kiste, p. 13
  8. Hichens, p. 19
  9. Hanham, p. 279
  10. Van der Kiste, p. 13
  11. Arkell, p. 18
  12. Arkell, pp. 9–13
  13. Van der Kiste, p. 14
  14. Arkell, p. 18; Fryer et al., p. 33; Hichens, p. 19; Van der Kiste, p. 15
  15. Hanham, p. 281
  16. Barão Philipp Adam von Eltz, enviado de Hanôver, citado em Quennell, p. 19
  17. Arkell, p. 19; Van der Kiste, p. 15
  18. Fryer et al., p. 33
  19. Fryer et al., p. 33
  20. Van der Kiste, p. 17
  21. Van der Kiste, pp. 18–19
  22. Arkell, pp. 38–39; Van der Kiste, p. 21
  23. Fryer et al., p. 34
  24. Hichens, p. 21
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  85. As circunstâncias da morte de Carolina levaram Alexander Pope, opositor da corte e de Walpole, a escrever o epigrama: "Here lies, wrapt up in forty thousand towels; the only proof that Caroline had bowels." [Aqui está, embrulhada em quarenta-mil toalhas, a única prova de que Carolina tinha entranhas." (Warton, p. 308)
  86. Weir, pp. 277–278
  87. Van der Kiste, p. 164
  88. Van der Kiste, p. 165
  89. A pompa dos títulos pode abalar uma fé fraca / Ela desdenhou um império pelo bem da religião / Por isto, na terra, a coroa britânica é dada / E terá uma coroa imortal no Paraíso
  90. Arkell, p. 149; Van der Kiste, p. 102
  91. Arkell, p. 149; Quennell, pp. 165–166
  92. Podes pavonear-te, Jorge janota, mas tal será em vão / Todos sabemos que é a rainha Carolina, e não tu, quem reina / Não governas mais que o Dom Filipe de Espanha / Por isso se queres que nos verguemos e te adoremos / Prende a tua esposa gorda, como o teu pai fez antes de ti.
  93. Quennell, pp. 168–170
  94. Citados em Van der Kiste, p. 165
  95. Taylor

Bibliografia [editar]

  • Arkell, R. L. (1939). Caroline of Ansbach. Londres: Oxford University Press.
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