Varíola
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| Varíola | ||
| Classificação e recursos externos | ||
| Uma criança de Bangladesh infectada com varíola em 1973. | ||
| CID-10 | B03. | |
| CID-9 | 050 | |
| DiseasesDB | 12219 | |
| MedlinePlus | 001356 | |
| eMedicine | emerg/885 | |
| MeSH | D012899 | |
A varíola é uma doença infecto-contagiosa. É causada por um Orthopoxvirus, um dos maiores vírus que infectam seres humanos, com cerca de 300 nanometros de diâmetro, o que é suficientemente grande para ser visto como um ponto ao microscópio óptico (o único vírus que causa doença também visível desta forma é o vírus do molusco contagioso). O vírus tem envelope (membrana lípidica própria). O seu genoma é de DNA e é dos mais complexos existentes. O vírus fabrica as suas proteínas e replica-se numa área localizada do citoplasma da célula hóspede, sendo um dos poucos vírus com essa capacidade de se localizar em corpos de inclusão de Guarnieri, ou fábricas. O seu genoma é de quase 100 000 pares de bases, um dos maiores genomas virais. O DNA é bicatenar (hélice dupla) linear e com as extremidades fundidas. Ao contrário dos outros vírus, ele contém dentro de si suficiente quantidade das enzimas necessárias à produção de ácidos nucleicos, e ao seu ciclo de vida, e utiliza apenas a maquinaria de síntese proteica da célula. Daí que é dos poucos vírus de DNA citoplasmáticos.
O vírus entra na célula por ligação a receptor membranar especifico e fusão do seu envelope com a membrana celular. Cada célula infectada é destruída com produção de 10000 novos vírions.
O sistema imunitário responde ao vírus com uma reacção TH1 (citotóxica) destruindo as células infectadas antes que o vírus se replique. O vírus espalha-se de ligações que induz entre células vizinhas e portanto não é completamente acessível à neutralização com anticorpos. Produz proteínas que lhe dão resistência à resposta imunitária por interferão e complemento.
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[editar] História
A varíola sempre foi a causa de epidemias mortíferas. Ela teria surgido na Índia, sendo descrita na Ásia e na África desde antes da era cristã[1]. Foi ela a responsável mais provável da epidemia misteriosa catastrófica que em Atenas matou um terço da população segundo Tucídides, no ano de 430 a.C., século de Péricles, o que iniciou o declínio dessa civilização democrática. A doença era anteriormente desconhecida (Hipócrates não descreve nada parecido), e desapareceu novamente a seguir. A epidemia terá surgido de novo nos séculos II e III, matando grande proporção da população totalmente não imune do Império romano, como mais tarde faria na América, e sendo a factor principal do declínio dessa civilização. Segundo alguns autores conceituados (o historiador William McNeil entre outros) terá sido a queda da população de Roma e do seu império devido às doenças antes desconhecidas varíola, sarampo e varicela que diminuiu a população do império ao ponto de leis serem decretadas da hereditariedade das profissões, postos oficiais e redução à servidão dos agricultores antes livres, dando origem ao feudalismo. Nesta situação de debilidade, os povos germanos e outros terão encontrado a oportunidade de se estabelecer nas terras quase vazias devido à epidemia no império, de início com a aquiescência dos oficiais romanos, desesperados com a queda dos rendimentos fiscais. Só depois desta época terá sido a varíola frequente na Europa, e naturalmente atingindo as crianças não imunes, ao contrário das epidemias raras, que matam os adultos. A infecção das crianças, com morte das susceptíveis mas imunidade para as sobreviventes, causa menos danos para uma civilização que a de adultos já ensinados, donde se explicam os graves problemas criados em Roma pela morte de adultos que não tinham encontrado a doença nas suas infâncias.
Na China o panorama terá sido semelhante, e também aí caiu pela mesma altura o Império Han. Julga-se que estas doenças terão sido importadas simultaneamente nessa altura da Índia (onde é adorada desde tempos imemoriais a Deusa da Varíola, Sitala) para as duas grandes civilizações dos extremos da Eurásia, e não será talvez coincidência que foi precisamente nos século I e século II que as rotas comerciais para a Índia e a rota da seda para a China foram estabelecidas pela primeira vez, ligando as três regiões com grande débito de mercadorias e comerciantes.
A varíola foi uma das principais responsáveis pela destruição das populações nativas da América após a sua importação da Europa com Colombo. No Brasil foi primeiramente referenciada em 1563 na Ilha de Itaparica[1] causando grande número de casos e óbitos, principalmente entre os indígenas. Juntamente com o Sarampo, Varicela e outras doenças, ela matou mais de 90% da população nativa do continente, derrotando e destruindo as civilizações Asteca e Inca. Acredita-se que a varíola tenha sido introduzida propositadamente na população nativa pelo exército de Hernán Cortés[1] e Francisco Pizarro para derrotar as civilizações nativas da América Latina. No caso do Império Inca, a disseminação da varíola tinha se espalhado com extrema rapidez, ocasionando a morte do Inca (imperador) e dos seus sucessores imediatos, antes mesmo dos espanhóis chegarem aos Andes. A morte do inca e seus sucessores levou o Império à guerra civil, permitindo aos espanhóis conquistá-lo em seguida.
Na Inglaterra do século XVIII ela era responsável por cerca de 10% dos falecimentos, e mais de um terço em crianças.
No início do século XVIII, práticas de inocular crianças com vírus vivo da varíola prevalentes na China e Médio Oriente foram importadas para a Europa, inicialmente mais para Inglaterra. Julga-se que foi a mulher do famoso Embaixador do Reino Unido que roubou os relevos do Partenon para o British Museum, a senhora Mary Montagu, que trouxe a nova técnica praticada no Império Otomano para o seu país. Para convencer os seus concidadãos, a própria família real inglesa foi inoculada publicamente. Recolhia-se pus de pústulas e com algodão introduzia-se numa pequena ferida. A mortalidade era de apenas 1%, já que o sistema imunitário tinha contacto mais cedo com o vírus e a sua resposta era mais vigorosa, muito melhor que o risco de apanhar varíola por contágio pulmonar, com mortalidade de quase 40%.
Edward Jenner em 1796 reparou que as mulheres que retiravam o leite às vacas não apanhavam varíola e descobriu que a sua imunidade devia-se à infecção não perigosa com cowpox (vaccinia ou varíola das vacas, da palavra em Latim para esse animal, vacca). Ele propagou a prática de usar para inoculação antes o vírus vaccinia descobrindo a vacina contra a varíola, a primeira vacina criada. Esse método de imunização ainda se denomina hoje vacina devido ao vírus vaccinia.
Classificada como uma das enfermidades mais devastadoras da história da humanidade, a varíola foi considerada erradicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1980. A última epidemia na Europa foi na Iugoslávia em 1972, e o último caso conhecido ocorreu num homem do Sudão em 1977 (excepto um acidente de laboratório em 1978). Foi possível eliminar a varíola porque só os seres humanos lhe são hospedeiros, só há um serotipo (logo a imunização protege contra 100% dos casos), e a vaccinia é eficaz e como vírus vivo que invade ainda que debilmente células, provoca resposta imunitária vigorosa. Além disso a vacina é barata e estável.
No entanto, a doença voltou às manchetes de jornal, em virtude da suposição de que ela possa ser utilizada como arma biológica. Em consequência desses temores todo o pessoal militar dos EUA foi vacinado, assim como o então presidente George W. Bush.
[editar] Epidemiologia
A varíola matou quase 500 milhões de pessoas só no século XX. O último caso registado de varíola ocorreu na Somália em 1977 e o seu vírus hoje só é guardado em dois laboratórios governamentais bem vigiados, nos EUA e na Sibéria, Rússia. Este sucesso de erradicação só foi naturalmente possível porque o único hospedeiro do vírus era o ser humano, pois o vírus é incapaz de infectar quaisquer outras células.
[editar] Progressão e sintomas
Há dois tipos de varíola, a varíola maior (ou apenas varíola) e a varíola menor ou alastrim, com os mesmos sintomas mas muito mais moderados.
O período de incubação é de cerca de doze dias. Os sintomas iniciais são semelhantes aos da gripe, com febre, mal-estar, mas depois surgem dores musculares , gástricas e vômitos violentos. Após infecção do tracto respiratório, o vírus multiplica-se nas células e espalha-se primeiro para os órgãos linfáticos e depois via sanguínea para a pele, onde surgem as pústulas típicas, primeiro na boca, depois nos membros e de seguida generalizadas.
[editar] Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico se faz por análise pelo microscópio electrónico de líquido das pústulas. Os vírus são característicos e facilmente visíveis.
A varíola não tem cura. A única medida eficaz é a vacinação.
Foi erradicada por um programa de vacinação promovido pela OMS na década de 1970. A vacina é baseada na administração de vírus vivo vaccinia (o nome vacina vem do nome deste vírus já que foi a primeira vacina), aparentado da varíola e que causa a doença varíola bovina no gado e em humanos que mantenham tenham contato com as feridas do animal.[2]
[editar] Vítimas famosas
- Ramsés V, Faraó do Antigo Egipto.
- Shunzhi, Imperador da China
- Maria II de Inglaterra
- Luís XV de França
- Pedro II da Rússia
- Isabel I de Inglaterra em 1562 e Abraham Lincoln em 1863 foram infectados mas sobreviveram.
- Ludwig van Beethoven
- Josef Stalin
- Hugo I, rei dos francos de 987 a 996
- Ana de Cleves, rainha da Inglaterra
- Carl Gustav Jakob Jacobi, famoso matemático
- José, Príncipe do Brasil, irmão mais velho de João VI de Portugal
Referências
- ↑ 1,0 1,1 1,2 Hermann G. Schatzmayr (Nov./Dec. 2001). "A varíola, uma antiga inimiga". Cadernos de Saúde Pública 17 (6).
- ↑ Andréa Hespanha (2 de junho de 2005). UFMG e Fiocruz recebem financiamento para estudar varíola bovina.