Varíola

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Varíola
Criança com Varíola (Bangladesh, 1973)
Classificação e recursos externos
CID-10 B03
CID-9 050
DiseasesDB 12219
MedlinePlus 001356
eMedicine emerg/885
Star of life caution.svg Aviso médico

A varíola foi uma doença infecto-contagiosa.[1] É causada por um Orthopoxvirus, um dos maiores vírus que infectam os seres humanos, com cerca de 300 nanômetros de diâmetro, o que é suficientemente grande para ser visto como um ponto ao microscópio óptico (o único outro vírus que causa doença também visível desta forma é o vírus do molusco contagioso). O vírus tem envelope (membrana lípidica própria). O seu genoma é dos mais complexos existentes. O vírus fabrica as suas proteínas e replica-se numa área localizada do citoplasma da célula hóspede, sendo um dos poucos vírus com essa capacidade de se localizar em corpos de inclusão de Guarnieri, ou fábricas. O seu genoma é de quase 100 000 pares de bases, um dos maiores genomas virais. O DNA é bicatenar (hélice dupla) linear e com as extremidades fundidas. Ao contrário dos outros vírus, ele contém dentro de si suficiente quantidade das enzimas necessárias à produção de ácidos nucleicos, e ao seu ciclo de vida, e utiliza apenas a maquinaria de síntese proteica da célula. Daí que é dos poucos vírus de DNA citoplasmáticos. É considerada extinta desde 11 de setembro de 1978, ano em que ocorreu o último caso que vitimou uma médica num laboratório inglês por erro (Janet Parker); o último caso registado fora dos laboratórios foi registado em 1977, na Somália, tendo Ali Maow Maalin (um jovem de 23 anos, residente na cidade de Merca )o último homem a contrair varíola fora dos laboratórios, mas se recuperou. Foi a primeira doença erradicada pelo homem, graças à intensa campanha de vacinação em todo o mundo, a sua erradicação foi anunciada em 1980 pela Organização Mundial da Saúde.[2]

O vírus entra na célula por ligação a receptor membranar específico e fusão do seu envelope com a membrana celular. Cada célula infectada é destruída com produção de 10000 novos vírions.

O sistema imunitário responde ao vírus com uma reacção TH1 (citotóxica) destruindo as células infectadas antes que o vírus se replique. O vírus espalha-se de ligações que induz entre células vizinhas e portanto não é completamente acessível à neutralização com anticorpos. Produz proteínas que lhe dão resistência à resposta imunitária por interferão e complemento.

História[editar | editar código-fonte]

Desde sempre a varíola foi a causa de epidemias mortíferas. Terá surgido na Índia, sendo descrita na Ásia e na África desde antes da era cristã[3] , tendo sido a responsável mais provável da epidemia misteriosa catastrófica ocorrida em Atenas que, segundo Tucídides, matou um terço da população, no ano de 430 a.C., dando início ao declínio dessa civilização democrática. A doença era anteriormente desconhecida (Hipócrates não descreve nada parecido), e desapareceu novamente a seguir. A epidemia terá surgido de novo nos séculos II e III, matando grande proporção da população totalmente não imune do Império Romano, como mais tarde faria na América. Segundo alguns autores conceituados (o historiador William McNeil entre outros) teria sido a queda da população de Roma e do seu império devido às doenças antes desconhecidas, como varíola, sarampo e varicela, que diminuíram a população do império ao ponto de leis serem decretadas determinando a hereditariedade das profissões, postos oficiais e redução à servidão dos agricultores antes livres, dando origem ao feudalismo. Nesta situação de debilidade, os povos germanos e outros teriam encontrado a oportunidade de se estabelecer nas terras quase vazias devido à epidemia no império, de início com a aquiescência dos oficiais romanos, desesperados com a queda dos rendimentos fiscais. Só depois desta época teria sido a varíola frequente na Europa, e naturalmente atingindo as crianças não imunes, ao contrário das epidemias raras, que matam os adultos. A infecção das crianças, com morte das susceptíveis mas imunidade para as sobreviventes, causa menos danos para uma civilização que a de adultos já ensinados, donde se explicam os graves problemas criados em Roma pela morte de adultos que não tinham encontrado a doença nas suas infâncias.

Na China o panorama terá sido semelhante, e também aí caiu pela mesma altura o Império Han. Julga-se que estas doenças terão sido importadas simultaneamente nessa altura da Índia (onde é adorada desde tempos imemoriais a Deusa da Varíola, Sitala) para as duas grandes civilizações dos extremos da Eurásia, e não será talvez coincidência que foi precisamente nos século I e século II que as rotas comerciais para a Índia e a rota da seda para a China foram estabelecidas pela primeira vez, ligando as três regiões com grande débito de mercadorias e comerciantes.

Cerco de Tenochtitlán, futura Cidade do México e capital Azteca por Hernán Cortés.

A varíola foi uma das principais responsáveis pela destruição das populações nativas da América após a sua importação da Europa com Colombo. No Brasil foi primeiramente referenciada em 1563 na Ilha de Itaparica[3] causando grande número de casos e óbitos, principalmente entre os indígenas. Juntamente com o Sarampo, Varicela e outras doenças, ela matou mais de 90% da população nativa do continente, derrotando e destruindo as civilizações Asteca e Inca. Acredita-se que a varíola tenha sido introduzida propositadamente na população nativa pelo exército de Hernán Cortés[3] e Francisco Pizarro para derrotar as civilizações nativas da América Latina. No caso do Império Inca, a disseminação da varíola tinha se espalhado com extrema rapidez, ocasionando a morte do Inca (imperador) e dos seus sucessores imediatos, antes mesmo dos espanhóis chegarem aos Andes. A morte do inca e seus sucessores levou o Império à guerra civil, permitindo aos espanhóis conquistá-lo em seguida.

Na Inglaterra do século XVIII a varíola era responsável por cerca de 10% dos falecimentos, e mais de um terço em crianças.

No início do século XVIII, práticas de inocular crianças com vírus vivo da varíola prevalentes na China e Médio Oriente foram importadas para a Europa, inicialmente mais para Inglaterra. Julga-se que foi a mulher do famoso Embaixador do Reino Unido que roubou os relevos do Partenon para o British Museum, Mary Montagu, que trouxe a nova técnica praticada no Império Otomano para o seu país. Para convencer os seus concidadãos, a própria família real inglesa foi inoculada publicamente. Recolhia-se pus de pústulas e com algodão introduzia-se numa pequena ferida. A mortalidade era de apenas 1%, já que o sistema imunitário tinha contacto mais cedo com o vírus e a sua resposta era mais vigorosa, muito melhor que o risco de apanhar varíola por contágio pulmonar, com mortalidade de quase 40%.

Edward Jenner descobriu o vírus vaccinia.

Edward Jenner em 1796 reparou que as mulheres que retiravam o leite das vacas não apanhavam varíola e descobriu que a sua imunidade devia-se à infecção não perigosa com cowpox (vaccinia ou varíola das vacas, da palavra em Latim para esse animal, vacca). Ele propagou a prática de usar para inoculação antes o vírus vaccinia descobrindo a vacina contra a varíola, a primeira vacina criada. Esse método de imunização ainda se denomina hoje vacina devido ao vírus vaccinia.

Classificada como uma das doenças mais devastadoras da história da humanidade, a varíola foi considerada erradicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1980.[4] A última epidemia na Europa foi na Iugoslávia em 1972, e o último caso conhecido ocorreu num homem do Sudão em 1977 (excepto um acidente de laboratório em 1978). Foi possível eliminar a varíola porque só os seres humanos lhe são hospedeiros, só há um serotipo (logo a imunização protege contra 100% dos casos), e a vaccinia é eficaz e como vírus vivo que invade ainda que debilmente células, provoca resposta imunitária vigorosa. Além disso a vacina é barata e estável. No entanto, a doença voltou às manchetes de jornal, em virtude da suposição de que ela possa ser utilizada como arma biológica. Em consequência desses temores todo o pessoal militar dos EUA foi vacinado, assim como o então presidente George W. Bush.

Epidemiologia[editar | editar código-fonte]

A varíola matou quase 500 milhões de pessoas só no século XX.

O último caso registrado de varíola ocorreu na Somália em 1977 e o vírus hoje é guardado em dois centros governamentais bem vigiados, o Laboratório de Controle de Doenças (CDC) de Atlanta, EUA e pelo Instituto Vector em Koltsovo, na Rússia. A OMS pede que as amostras sejam destruídas, mas há resistência de alguns cientistas contra esta decisão. Este sucesso de erradicação só foi naturalmente possível porque o único hospedeiro do vírus era o ser humano, pois o vírus é incapaz de infectar quaisquer outras células.

Progressão e sintomas[editar | editar código-fonte]

Uma criança infectada com varíola.

Há dois tipos de varíola, a varíola maior (ou apenas varíola) e a varíola menor ou alastrim, com os mesmos sintomas mas muito mais moderados.

O período de incubação é de cerca de doze dias. Os sintomas iniciais são semelhantes aos da gripe, com febre, mal-estar, mas depois surgem dores musculares , gástricas e vômitos violentos. Após infecção do tracto respiratório, o vírus multiplica-se nas células e espalha-se primeiro para os órgãos linfáticos e depois via sanguínea para a pele, onde surgem as pústulas típicas, primeiro na boca, depois nos membros e de seguida generalizadas.

Diagnóstico e tratamento[editar | editar código-fonte]

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O diagnóstico se faz por análise pelo microscópio electrónico de líquido das pústulas. Os vírus são característicos e facilmente visíveis. A varíola não tem cura. A única medida eficaz é a vacinação.

A vacina é baseada na administração de vírus vivo vaccinia (o nome vacina vem do nome deste vírus já que foi a primeira vacina), aparentado da varíola e que causa a doença varíola bovina no gado e em humanos que tenham contato com as feridas do animal.[5] Último caso de Varíola foi em 1977 na Somália.

Vítimas famosas[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. Mundo Educação. Varíola. Página visitada em 23 de fevereiro de 2012.
  2. Brasil Escola. Varíola. Página visitada em 23 de fevereiro de 2012.
  3. a b c Hermann G. Schatzmayr. (Nov./Dec. 2001). "A varíola, uma antiga inimiga". Cadernos de Saúde Pública 17 (6).
  4. UFMG. Reflexões sobre os 30 anos de erradicação da varíola mobilizam pesquisadores. Página visitada em 23 de fevereiro de 2012.
  5. Andréa Hespanha (2 de junho de 2005). UFMG e Fiocruz recebem financiamento para estudar varíola bovina.